

O caso Schereber, artigos sobre tcnica e outros trabalhos















VOLUME XII
(1911-1913)























Dr. Sigmund Freud



       
       NOTAS PSICANALTICAS SOBRE UM RELATO AUTOBIOGRFICO DE UM CASO DE PARANIA (DEMENTIA PARANOIDES) (1911)
         
         
         NOTA DO EDITOR INGLS
         
         
         PSYCHOANALYTISCHE BEMERKUNGEN BER EINEN AUTOBIOGRAPHISCH BESCHRIEBENEN FALL VONPARANOIA (DEMENTIA PARANOIDES)
         
         (a) EDIES ALEMS:
         1911 Jb. psychoan. psychopath. Forsch., 3 (1), 9-68.
         1913 S. K. S. N., 3, 198-266. (1921, 2 ed.)
         1924 G. S.., 8, 355-431.
         1932 Vier Krankengeschichten, 377-460.
         1943 G. W., 8, 240-316.
         1912 'Nachtrag zu dem autobiographisch beschriebenen Fall von Paranoia (Dementia paranoides)', Jb. psychoan. psychopath. Forsch., 3, (2), 588-90.
         1913 S. K. S. N., 3, 267-70. (1921, 2 ed.)
         1924 G. S., 8, 432-5.
         1932 Vier Krankengeschichten, 460-3.
         1943 G. W., 8, 317-20.
         
         (b) TRADUO INGLESA:
         'Psycho-Analytic Notes upon an Autobiographical Account of a Case of Paranoia (Dementia paranoides)' 1925 C. P., 3, 387-466. - '"Ps-escrito" ao Caso de 
Parania', ibid., 467-70. (Trad. de Alix e James Strachey.)
         
         A presente traduo inglesa constitui reedio da publicada em 1925, algumas correes e notas adicionais.
         
         As Memrias de Schreber foram publicadas em 1903; mas, embora houvessem sido amplamente debatidas em crculos psiquitricos, s parecem ter atrado a ateno 
de Freud no vero de 1910. Sabe-se que falou sobre elas e sobre todo o tema da parania durante sua viagem  Siclia, com Ferenczi, em setembro desse ano. No retorno 
a Viena, comeou a escrever o artigo, cujo trmino foi anunciado a Abraham e Ferenczi em cartas datadas de 16 de dezembro. No parece ter sido publicado at o vero 
de 1911. O 'Ps-escrito' foi lido perante o Terceiro Congresso Psicanaltico Internacional (realizado em Weimar), em 22 de setembro de 1911, e publicado no incio 
do ano seguinte.
         Freud atacara o problema da parania numa fase muito prematura de suas pesquisas em psicopatologia. Em 24 de janeiro de 1895, alguns meses antes da publicao 
dos Estudos sobre a Histeria, enviou a Fliess longo memorando sobre o assunto (Freud, 1950a, Rascunho H). Este inclua uma breve histria clnica e um exame terico 
que visava a estabelecer dois pontos principais: que a parania  uma neurose de defesa e que seu mecanismo principal  a projeo. Quase um ano depois (em 1 de 
janeiro de 1896), enviou a Fliess outra nota, muito mais breve, sobre parania, parte de um relato geral sobre as 'neuroses de defesa' (ibid., Rascunho K), que pouco 
depois ampliou em seu segundo trabalho publicado com aquele ttulo (1896b). Nessa publicao, a Seo II inclua outra histria clnica, mais extensa, intitulada 
'Anlise de um Caso de Parania Crnica', caso para o qual Freud (em nota de rodap acrescentada quase 20 anos depois) preferiu o diagnstico corrigido de 'dementia 
paranoides'. Com referncia  teoria, esse trabalho de 1896 pouco acrescentava s suas sugestes anteriores; mas, numa carta a Fliess no muito posterior (9 de dezembro 
de 1899, Freud, 1950a, Carta 125), h um pargrafo um tanto crtico, que prenuncia consideraes posteriores de Freud, inclusive a sugesto de que a parania acarreta 
o retorno a um auto-erotismo primitivo. Este pargrafo  transcrito na ntegra na Nota do Editor Ingls ao artigo sobre 'A Disposio  Neurose Obsessiva', com relao 
ao problema da 'escolha da neurose'. (Ver a partir de [1].).
         Entre a data desta ltima passagem e a publicao da histria clnica de Schreber, mais de dez anos se passaram quase sem haver meno  parania nos escritos 
publicados de Freud. Informam-nos Ernest Jones (1955, 281), contudo, que em 21 de novembro de 1906 ele apresentou um caso de parania feminina perante a Sociedade 
Psicanaltica de Viena. Nessa data, aparentemente ainda no havia chegado ao que deveria ser sua generalizao principal sobre o assunto, a saber, a vinculao existente 
entre parania e homossexualismo passivo reprimido. No obstante, pouco mais de um ano mais tarde, apresentava esta hiptese em cartas a Jung (27 de janeiro de 1908) 
e Ferenczi (11 de fevereiro de 1908), dela pedindo e recebendo confirmao. Mais de trs anos se passaram antes que as memrias de Schreber lhe oferecessem a oportunidade 
de publicar sua teoria pela primeira vez e de apoi-la em um relato detalhado de sua anlise dos processos inconscientes em ao na parania.
         H vrias referncias a essa enfermidade nos escritos posteriores de Freud. As mais importantes foram seu artigo sobre 'Um Caso de Parania que Contraria 
a Teoria Psicanaltica da Doena' (1915f), e a Seo B de 'Alguns Mecanismos Neurticos no Cime, na Parania e no Homossexualismo' (1922b). Alm disso, 'Uma Neurose 
Demonolgica do Sculo XVII' (1923d) inclui um exame do caso Schreber, embora a neurose, que  o tema do trabalho, em parte alguma seja descrita por Freud como parania. 
Em nenhum desses escritos posteriores h qualquer modificao essencial dos pontos de vista sobre parania expressos no presente trabalho.
         A importncia da anlise de Schreber, contudo, de maneira alguma se restringe  luz que lana sobre o problema da parania. A terceira parte, especialmente, 
foi, sob muitos aspectos, assim como o breve artigo simultaneamente publicado sobre os dois princpios do funcionamento mental (1911b), ver em [1], precursora dos 
artigos metapsicolgicos a que Freud se dedicou, trs ou quatro anos mais tarde. Expuseram-se vrios temas que posteriormente deveriam ser examinados mais detalhadamente. 
Assim, as observaes sobre narcisismo (Ver a partir de [1].) antecederam o artigo dedicado a este tema (1914c), a descrio do decurso de alguns anos (1915d), e 
o exame dos instintos (ver em [2]) preparava terreno para um estudo mais elaborado em 'os Instintos e suas Vicissitudes' (1915c). J o pargrafo sobre projeo (ver 
em [3]), apesar de promissor, no encontraria nenhuma seqncia. Cada um dos dois tpicos examinados na ltima parte do trabalho, contudo - as diversas causas do 
desencadeamento da neurose (inclusive o conceito de 'frustrao') e o papel desempenhado por 'pontos de fixao' sucessivos - deveria ser tratado antes que decorresse 
muito tempo, em artigos separados (1912c e 1913f). Finalmente, no ps-escrito, encontramos a primeira rpida excurso de Freud pelo campo da mitologia e a primeira 
meno aos totens, que estavam comeando a ocupar seus pensamentos e deveriam fornecer o ttulo para uma de suas obras principais (1912-13).
         Como Freud nos diz (Ver em [1].), sua histria clnica faz uso apenas de um nico fato (a idade de Schreber  poca em que caiu enfermo) que no se achava 
contido nas Memrias. Possumos hoje, graas a um trabalho escrito pelo Dr. Franz Baumeyer (1956), certa quantidade de informaes adicionais. O Dr. Baumeyer esteve 
por alguns anos (1946-9) encarregado de um hospital situado perto de Dresden, onde encontrou alguns dos registros clnicos originais das sucessivas doenas de Schreber. 
Resumiu estes registros e citou muitos deles na ntegra. Alm disso, coligiu grande nmero de fatos relacionados  histria familiar e aos antecedentes de Schreber. 
Toda vez que esse material for importante para o trabalho de Freud, ser mencionado nas notas de rodap. Neste momento,  necessrio apenas relatar a seqncia  
histria narrada nas Memrias. Aps sua alta, em fins de 1902, Schreber parece terlevado uma existncia exteriormente normal por alguns anos. Ento, em novembro 
de 1907, a esposa teve uma crise de paralisia (embora vivesse at 1912), o que parece ter precipitado novo desencadeamento de sua enfermidade. Foi novamente internado 
- agora num asilo situado no distrito de Dsen em Leipzig - duas semanas mais tarde. Ali permaneceu, em estado extremamente perturbado e muito intratvel, at sua 
morte, aps deteriorao fsica gradativa, na primavera de 1911 - pouco tempo apenas antes da publicao do trabalho de Freud. O seguinte quadro cronolgico, baseado 
em dados derivados, parte das Memrias e parte do material de Baumeyer, pode tornar os pormenores do estudo de Freud mais fceis de desemaranhar.
         
         1842   25 de julho. Daniel Paul Schreber nasce em Leipzig.
         1861   Novembro. Morre-lhe o pai, com 53 anos de idade.
         1877   O irmo mais velho (3 anos mais) morre com 38 anos.
         1878   Casamento.
         Primeira Doena
         1884   Outono. Apresenta-se como candidato ao Reichstag.
         1884   Outubro. Passa algumas semanas no Asilo de Sonnenstein.
         8 de dezembro. Clnica Psiquitrica de Leipzig.
         1885   1 de junho. Alta.
         1886   1 de janeiro. Toma posse no Landgericht de Leipzig.
         Segunda Doena
         1893   Junho.  informado da nomeao prxima para o Tribunal de Apelao.
         1 de outubro. Toma posse como juiz presidente.
         21 de novembro.  internado novamente na Clnica de Leipzig.
         1894
         14 de junho.  transferido para o Asilo de Lindenhof.
         
         29 de junho.  transferido para o Asilo de Sonnenstein.
         1900-1902   Escreve as Memrias e impetra ao judicial para ter alta.
         1902   14 de julho. Deciso judicial de alta.
         1903   Publicao das Memrias.
         Terceira Doena
         1907   Maio. Morre-lhe a me, com 92 anos de idade.
         14 de novembro. A esposa tem uma crise de paralisia. 
         Cai enfermo imediatamente aps.
         27 de novembro.  admitido no Asilo, em Leipzig-Dsen.
         1911   14 de abril. Morte.
         1912   Maio. Morre a esposa, com 54 anos de idade.
         Uma nota sobre os trs hospitais psiquitricos a que se faz meno, de vrias maneiras, no texto, tambm pode ser til.
         (1) Clnica Psiquitrica (departamento de pacientes internados) da Universidade de Leipzig. Diretor: Professor Flechsig.
         (2) Schloss Sonnenstein. Asilo Pblico Saxnico em Pirna sobre o Elba, dez milhas acima de Dresden. Diretor: Dr. G. Weber.
         (3) Asilo Particular Lindenhof. Perto de Coswig, onze milhas a noroeste de Dresden. Diretor: Dr. Pierson.
         Uma traduo inglesa das Denkwrdigkeiten, de autoria da Dra. Ida Macalpine e do Dr. Richard A. Hunter, foi publicada em 1955 (Londres, William Dawson). 
Por diversas razes, algumas das quais sero evidentes a quem quer que compare sua verso com a presente traduo inglesa, no foi possvel fazer uso dela para as 
muitas citaes do livro de Schreber que ocorrem na histria clnica. H dificuldades especficas em traduzir as produes dos esquizofrnicos, nas quais as palavras, 
como o prprio Freud apontou em seu artigo sobre 'O Inconsciente' (Ver a partir de [1], 1974), desempenham papel to predominante. Aqui o tradutor se defronta com 
os mesmos problemas que to amide encontra em sonhos, lapsos de lngua e chistes. Em todos esses casos, o mtodo adotado na Standard Edition  o mtodo prosaico 
de, onde necessrio, fornecer as palavras originais alems em notas de rodap e procurar, mediante comentrios explicativos, oferecer ao leitor [ingls] oportunidade 
para formar opinio prpria sobre o material. Ao mesmo tempo, seria enganoso desprezar inteiramente as formas exteriores e, atravs de uma traduo puramente literal, 
apresentar um retrato inculto do estilo de Schreber. Uma das caractersticas notveis do original  o contraste que perpetuamente oferece entre as frases complicadas 
e elaboradas do alemo oficial acadmico do sculo XIX e as extravagncias outr dos eventos psicticos que descrevem. Informaes adicionais interessantes sobre 
o pai de Schreber podem ser encontradas em Niederland, W. G. (1959a) e (1959b).
         Por todo o trabalho, os nmeros entre colchetes sem serem precedidos por 'p.' constituem referncias s pginas da edio alem original das memrias de 
Schreber - Denkwrdikeiten eines Nervendranken, Leipzig, Oswald Mutze. Nmeros entre colchetes precedidos por 'p.' so, como sempre acontece na Standard Edition, 
referncias a pginas do presente volume.
         
         INTRODUO
         
         A investigao analtica da parania apresenta dificuldades para mdicos que, como eu, no esto ligados a instituies pblicas. No podemos aceitar pacientes 
que sofram desta enfermidade, ou, de qualquer modo, mant-los por longo tempo, visto no podermos oferecer tratamento a menos que haja alguma perspectiva de sucesso 
teraputico. Somente em circunstncias excepcionais, portanto,  que consigo obter algo mais que uma viso superficial da estrutura da parania - quando, por exemplo, 
o diagnstico (que nem sempre  questo simples)  incerto o bastante para justificar uma tentativa de influenciar o paciente, ou quando, apesar de um diagnstico 
seguro, submeto-me aos rogos de parentes do paciente e encarrego-me de trat-lo por algum tempo. Independente disto, naturalmente, vejo muitos casos de parania 
e de demncia precoce e aprendo sobre eles tanto quanto outros psiquiatras o fazem a respeito de seus casos; mas em geral isso no  suficiente para levar a quaisquer 
concluses analticas.
         A investigao psicanaltica da parania seria completamente impossvel se os prprios pacientes no possussem a peculiaridade de revelar (de forma distorcida, 
 verdade) exatamente aquelas coisas que outros neurticos mantm escondidas como um segredo. Visto que os paranicos no podem ser compelidos a superar suas resistncias 
internas e desde que, de qualquer modo, s dizem o que resolvem dizer, decorre disso ser a parania um distrbio em que um relatrio escrito ou uma histria clnica 
impressa podem tomar o lugar de um conhecimento pessoal do paciente. Por esta razo, penso ser legtimo basear interpretaes analticas na histria clnica de um 
paciente que sofria de parania (ou, precisamente, de dementia paranoides) e a quem nunca vi, mas que escreveu sua prpria histria clnica e publicou-a.
         Refiro-me ao doutor em Direito Daniel Paul Schreber, anteriormente Senatsprsident em Dresden, cujo livro. Denkwrdigkeiten eines Nervenkranken [Memrias 
de um Doente dos Nervos], foi publicado em 1903, e, se estou corretamente informado, despertou considervel interesse entre os psiquiatras.  possvel que o Dr. 
Schreber viva ainda hoje e que se tenha distanciado de tal forma do sistema delirante que apresentou em 1903 que possa sentir-se magoado por estas notas a respeito 
do seu livro. Contudo, na medida em que ele ainda se identifique com sua personalidade anterior, posso apoiar-me nos argumentos com que ele prprio - 'homem de dotes 
mentais superiores e contemplado com agudeza fora do comum, tanto de intelecto quanto de observao' - contraditou os esforos levados a efeito visando a coibi-lo 
de publicar suas memrias: "No tive problemas', escreve ele, "em fechar os olhos s dificuldades que pareciam jazer no caminho da publicao, e, em particular, 
 preocupao de render devida considerao s suscetibilidades de algumas pessoas ainda vivas. Por outro lado, sou de opinio que poderia ser vantajoso tanto para 
a cincia quanto para o reconhecimento de verdades religiosas se, durante meu tempo de vida, autoridades qualificadas pudessem encarregar-se de examinar meu corpo 
e realizar pesquisas sobre minhas experincias pessoais. Todos os sentimentos de carter pessoal devem submeter-se a esta ponderao. Declara ele, em outra passagem, 
que decidira se ater  sua inteno de publicar o livro, mesmo que, em conseqncia, seu mdico, o Geheimrat Dr. Flechsig, de Leipzig, movesse uma ao contra ele. 
Atribui ao Dr. Flechsig, porm, as mesmas consideraes que lhe atribuo agora. 'Confio', diz ele, 'que mesmo no caso do Geheimrat Prof. Dr. Flechsig, quaisquer suscetibilidades 
pessoais sero sobrepujadas por um interesse cientfico no contexto geral de minhas memrias.' (446.) 
         Embora todas as passagens das Denkwrkdigkeiten nas quais minhas interpretaes se baseiam sejam citadas literalmente nas pginas seguintes, solicitaria 
a meus leitores tornarem-se familiarizados com o livro, lendo-o pelo menos uma vez, de antemo.
         
         I - HISTRIA CLNICA
         
         'Duas vezes sofri de distrbios nervosos', escreve o Dr. Schreber, 'e ambas resultaram de excessiva tenso mental. Isso se deveu, na primeira ocasio,  
minha apresentao como candidato  eleio para o Reichstag, enquanto era Landgerichtsdirektor em Cheminitz, e, na segunda, ao fardo muito pesado de trabalho que 
me caiu sobre os ombros quando assumi meus novos deveres como Senatsprsident no Oberlandesgericht em Dresden.'(34.)
         A primeira doena do Dr. Schreber comeou no outono de 1884; em fins de 1885 achava-se completamente restabelecido. Durante este perodo, passou seis meses 
na clnica de Flechsig, que, em relatrio formal redigido posteriormente, descreveu o distrbio como sendo uma crise de grave hipocondria [379]. O Dr. Schreber assegura-nos 
que a molstia seguiu seu curso 'sem a ocorrncia de quaisquer incidentes que tocassem as raias do sobrenatural.' (35.)
         Nem a prpria descrio do paciente, nem os relatrios mdicos impressos no final de seu livro dizem-nos o suficiente sobre sua histria anterior ou seus 
pormenores pessoais. Nem mesmo tenho condies de fornecer a idade do paciente  poca de sua enfermidade, embora a elevada posio judiciria que havia atingido 
antes da segunda doena estabelea uma espcie de limite inferior. Sabemos que o Dr. Schreber j estava casado h muito tempo, antes da poca de sua 'hipocondria'. 
'A gratido de minha esposa', escreve ele, 'foi talvez ainda mais sincera, pois reverenciava o Professor Flechsig como o homem que lhe havia restitudo o marido; 
da ter ela, durante anos, mantido o retrato dele sobre a escrivaninha.' E, no mesmo lugar: 'Aps me restabelecer da primeira doena, passei oito anos com minha 
esposa - anos, em geral, de grande felicidade, ricos de honrarias exteriores e nublados apenas, de vez em quando, pela contnua frustrao da esperana de sermos 
abenoados com filhos.'
         Em junho em 1893, ele foi informado de sua provvel indicao para Senatsprsident, e assumiu o cargo a 1 de outubro do mesmo ano. Entre estas duas datas 
tivera alguns sonhos, embora s mais tarde viesse a lhes atribuir qualquer importncia. Sonhou duas ou trs vezes que o antigo distrbio nervoso retornara e isto 
o tornou to infeliz no sonho, quanto a descoberta de ser apenas um sonho f-lo feliz ao despertar. Alm disso, certa vez, nas primeiras horas de manh, enquanto 
se achava entre o sono e a viglia, ocorreu-lhe a idia de que, 'afinal de contas, deve ser realmente muito bom ser mulher e submeter-se ao ato da cpula'. (36.) 
Tratava-se de idia que teria rejeitado com a maior indignao, se estivesse plenamente consciente.
         A segunda enfermidade manifestou-se em fins de outubro de 1893, com um torturante acesso de insnia, forando-o a retornar  clnica Flechsig, onde, porm, 
sua condio piorou rapidamente. O curso ulterior da molstia  descrito em Relatrio redigido subseqentemente [em 1899] pelo diretor do Asilo Sonnenstein: 'No 
incio de seu internamento ali, expressava mais idias hipocondracas, queixava-se de ter um amolecimento do crebro, de que morreria cedo etc. Mas idias de perseguio 
j surgiam no quadro clnico, baseadas em iluses sensrias que, contudo, s pareciam aparecer esporadicamente, no incio, enquanto, ao mesmo tempo, um alto grau 
de hiperestesia era observvel - grande sensibilidade  luz e ao barulho. Mais tarde, as iluses visuais e auditivas tornaram-se muito mais freqentes e, junto com 
distrbios cenestsicos, dominavam a totalidade de seu sentimento e pensamento. Acreditava estar morto e em decomposio, que sofria de peste; asseverava que seu 
corpo estava sendo manejado da maneira mais revoltante, e, como ele prprio declara at hoje, passou pelos piores horrores que algum possa imaginar, e tudo em nome 
de um intuito sagrado. O paciente estava to preocupado com estas experincias patolgicas, que era inacessvel a qualquer outra impresso e sentava-se perfeitamente 
rgido e imvel durante horas (estupor alucinatrio). Por outro lado, elas o torturavam a tal ponto, que ele ansiava pela morte. Fez repetidas tentativas de afogar-se 
durante o banho e pediu que lhe fosse dado o "cianureto que lhe estava destinado". Suas idias delirantes assumiram gradativamente carter mstico e religioso; achava-se 
em comunicao direta com Deus, era joguete de demnios, via "aparies miraculosas", ouvia "msica sagrada", e, no final, chegou mesmo a acreditar que estava vivendo 
em outro mundo.' (380.)
         Pode-se acrescentar que havia certas pessoas por quem pensava estar sendo perseguido e prejudicado, e a quem dirigia vituprios. A mais proeminente delas 
era seu mdico anterior, Flechsig, a quem chamava de 'assassino da alma'; e costumava gritar repetidas vezes: 'Pequeno Flechsig!', dando ntida nfase  primeira 
palavra (383.). Foi removido para Leipzig e, aps breve intervalo passado noutra instituio, foi trazido em junho de 1894 para o Asilo Sonnenstein, perto de Pirna, 
onde permaneceu at que o distrbio assumiu o aspecto final. No decorrer dos anos seguintes, o quadro clnico alterou-se de maneira que pode ser mais bem descrita 
pelas palavras do Dr. Weber, diretor do asilo. 
         'No preciso me aprofundar nos pormenores do curso da doena. Devo, contudo, chamar a ateno para a maneira pela qual,  medida que o tempo passava, a 
psicose inicial comparativamente aguda, que havia envolvido diretamente toda a vida mental do paciente e merecia o nome de "insanidade alucinatria", desenvolveu-se 
cada vez mais claramente (quase poder-se-ia dizer cristalizou-se) at o quadro clnico paranico que temos hoje diante de ns.' (385). Aconteceu que, por um lado, 
ele havia desenvolvido uma engenhosa estrutura delirante, na qual temos toda razo de estar interessados, ao passo que, por outro, sua personalidade fora reconstruda 
e agora se mostrava, exceto por alguns distrbios isolados, capaz de satisfazer as exigncias da vida cotidiana.
         O Dr. Weber, em seu Relatrio de 1899, faz as seguintes observaes: 'Assim, parece que, no momento, independentemente de certos sintomas psicomotores bvios, 
que no podem deixar de impressionar como patolgicos mesmo o observador superficial, Herr Senatsprsident Dr. Schreber no apresenta sinais de confuso ou de inibio 
psquica, nem sua inteligncia se acha notadamente prejudicada. Sua mente  calma, a memria excelente, tem  disposio estoque considervel de conhecimentos (no 
somente sobre questes jurdicas, mas em muitos outros campos) e  capaz de reproduzi-los numa seqncia vinculada de pensamento. Interessa-se em acompanhar os acontecimentos 
do mundo da poltica, da cincia, da arte etc. e ocupa-se constantemente com tais assuntos... e um observador desinformado sobre sua condio geral dificilmente 
notaria algo de peculiar nesses procedimentos. Apesar disso tudo, entretanto, o paciente acha-se repleto de idias de origem patolgica, que se constituram num 
sistema completo; so mais ou menos fixas e parecem inacessveis  correo por meio de qualquer apreciao e juzo objetivos dos fatos externos.' (385-6.)
         Assim, o estado do paciente experimentava grande mudana e ele agora se considerava capaz de levar existncia independente. Por conseguinte, adotou as medidas 
apropriadas para retomar o controle de seus prprios assuntos e assegurar sua alta do asilo. O Dr. Weber disps-se a impedir a realizao destas intenes e redigiu 
relatrios contrrios a elas. No obstante, em seu Relatrio datado de 1900, sentiu-se obrigado a dar esta descrio apreciativa do carter e conduta do paciente: 
'Visto que, durante os ltimos nove meses, Herr Prsident Schreber fez suas refeies diariamente em minha mesa familiar, tive as mais amplas oportunidades de conversar 
com ele sobre todos os tpicos imaginveis. Qualquer que fosse o assunto em debate (exceto, naturalmente, suas idias delirantes), concernente a acontecimentos no 
campo da administrao e do direito, da poltica, da arte, da literatura e da vida social - em resumo, qualquer que fosse o tpico, o Dr. Schreber mostrava interesse 
vivaz, mente bem informada, boa memria e julgamento slido; ademais, era impossvel no endossar sua concepo tica. Tambm, em conversa mais superficial com as 
senhoras da reunio, era to corts quanto afvel, e, ao aflorar assuntos de maneira mais jocosa, invariavelmente demonstrava tato e decoro. Nem uma s vez, durante 
essas conversas inocentes  mesa de jantar, introduziu ele assuntos que mais apropriadamente seriam levantados numa consulta mdica.' (397-8.) Na verdade, em determinada 
ocasio durante este perodo, quando surgiu uma questo de negcios que envolvia os interesses de toda a sua famlia, tomou parte nela de um modo que demonstrava 
tanto conhecimento tcnico quanto senso comum (401 e 510).
         Nas numerosas solicitaes aos tribunais, atravs das quais o Dr. Schreber esforou-se por recobrar a liberdade, no repudiou de modo algum seus delrios 
ou fez qualquer segredo da inteno de publicar as Denkwrdigkeiten. Pelo contrrio, estendeu-se sobre a importncia de suas idias para o pensamento religioso e 
sua invulnerabilidade aos ataques da cincia moderna; mas, ao mesmo tempo, dava nfase  'absoluta inocuidade' (430) de todas as aes que, como se dava conta, seus 
delrios obrigavam-nos a realizar. Na verdade, tais eram sua perspiccia e a fora convincente de sua lgica, que finalmente, e apesar de ser ele paranico reconhecido, 
seus esforos coroaram-se de sucesso. Em julho de 1902, os direitos civis do Dr. Schreber foram restabelecidos e, no ano seguinte, suas Denkwrdigkeiten eines Nervenkranken 
apareceram, embora censuradas e com muitas partes valiosas omitidas.
         A deciso judicial que devolveu ao Dr. Schreber a liberdade resume a essncia de seu sistema delirante em poucas frases: 'Acreditava que tinha a misso 
de redimir o mundo e restituir-lhe o estado perdido de beatitude. Isso, entretanto, s poderia realizar se primeiro se transformasse de homem em mulher.' (475.)
         Para uma descrio mais pormenorizada de seus delrios, tal como apareceram em sua forma final, podemos recorrer ao Relatrio de 1899 do Dr. Weber: 'O ponto 
culminante do sistema delirante do paciente  a sua crena de ter a misso de redimir o mundo e restituir  humanidade o estado perdido de beatitude. Foi convocado 
a essa tarefa, assim assevera, por inspirao direta de Deus, tal como aprendemos que foram os Profetas; pois os nervos, em condies de grande excitao, assim 
como os seus estiveram por longo tempo, tm exatamente a propriedade de exercer atrao sobre Deus - embora isso signifique tocar em assuntos que a fala humana mal 
 capaz de expressar, se  que o pode, visto jazerem inteiramente fora do raio de ao da experincia humana e, na verdade, terem sido revelados somente a ele. A 
parte mais essencial de sua misso redentora  ela ter de ser procedida por sua transformao em mulher. No se deve supor que ele deseje ser transformado em mulher; 
trata-se antes de um 'dever' baseado na Ordem das Coisas, ao qual no h possibilidade de fugir, por mais que, pessoalmente, preferisse permanecer em sua prpria 
honorvel e masculina posio na vida. Mas nem ele nem o resto da humanidade podem reconquistar a vida do alm, a no ser mediante a transformao em mulher (processo 
que pode ocupar muitos anos ou mesmo dcadas), por meio de milagres divinos. Ele prprio, est convencido,  o nico objeto sobre o qual milagres divinos se realizam, 
sendo assim o ser humano mais notvel que at hoje viveu sobre a Terra. A toda hora e a todo minuto, durante anos, experimentou estes milagres em seu corpo e teve-os 
confirmados pelas vozes que com ele conversaram. Durante os primeiros anos de sua molstia, alguns de seus rgos corporais sofreram danos to terrveis que inevitavelmente 
levariam  morte qualquer outro homem; viveu por longo tempo sem estmago, sem intestinos, quase sem pulmes, com o esfago rasgado, sem bexiga e com as costelas 
despedaadas; costumava s vezes engolir parte de sua prpria laringe com a comida etc. Mas milagres divinos ("raios") sempre restauravam o que havia sido destrudo, 
e portanto, enquanto permanecer homem,  inteiramente imortal. Estes fenmenos alarmantes cessaram h muito tempo e, como alternativa, sua "feminilidade" tornou-se 
proeminente. Trata-se de um processo de desenvolvimento que provavelmente exigir dcadas, seno sculos, para sua concluso, sendo improvvel que algum hoje vivo 
sobreviva para ver seu final. Ele tem a sensao de que um nmero enorme de "nervos femininos" j passou para o seu corpo e, a partir deles, uma nova raa de homens 
originar-se-, atravs de um processo de fecundao direta por Deus. Somente ento, segundo parece, poder morrer de morte natural e, juntamente com o resto da humanidade, 
reconquistar um estado de beatitude. Nesse meio tempo, no apenas o Sol, mas tambm rvores e pssaros, que tm a natureza de 'resduos miraculados (bemiracled) 
de antigas almas humanas, falam-lhe com inflexes humanas, e coisas miraculosas acontecem por toda a parte a seu redor.' (386-8.)
         O interesse sentido pelo psiquiatra militante em formaes delirantes como estas exaure-se, geralmente, uma vez haja determinado o carter dos produtos 
do delrio e feito uma estimativa de sua influncia sobre a conduta geral do paciente; em seu caso, maravilhar-se no  o incio da compreenso. O psicanalista, 
 luz de seu conhecimento das psiconeuroses, aborda o assunto com a suspeita de que mesmo estruturas de pensamento to extraordinrias como estas, e to afastadas 
de nossas modalidades comuns de pensar, derivam, todavia, dos mais gerais e compreensveis impulsos da mente humana; e gostaria de descobrir os motivos de tal transformao, 
bem como a maneira pela qual ela se realizou. Com este objetivo em vista, desejar aprofundar-se mais nos pormenores do delrio e na histria de seu desenvolvimento.
         (a) O diretor da clnica acentua dois pontos como sendo de suma importncia: a assuno, pelo paciente, do papel de Redentor e sua transformao em mulher. 
O delrio de Redentor constitui fantasia que nos  familiar, pela freqncia com que forma o ncleo da parania religiosa. O fator adicional, que faz a redeno 
depender de o homem transformar-se previamente em mulher,  fora do comum e em si prprio desconcertante, visto apresentar divergncia muito ampla do mito histrico 
que a fantasia do paciente se prope reproduzir. Segue-se naturalmente o relatrio mdico a presumir que a fora motivadora desse complexo delirante foi a ambio 
do paciente em desempenhar o papel de Redentor e que sua emasculao merece ser encarada apenas como um meio de alcanar esse fim. Ainda que isto possa parecer verdade, 
a partir do delrio em sua forma final, um estudo das Denkwrdigkeiten compele-nos a assumir ponto de vista muito diferente sobre o assunto. Sabemos que a idia 
de se transformar em mulher (isto , de ser emasculado) constituiu o delrio primrio, que ele no incio encarava esse ato como grave injria e perseguio, e que 
o mesmo s se relacionou com o papel de Redentor de maneira secundria. No pode haver dvida, alm disso, de que ele originalmente acreditava que a transformao 
deveria ser efetuada com a finalidade de abusos sexuais e no para servir a altos desgnios. Pode-se formular a situao, dizendo-se que um delrio sexual de perseguio 
foi posteriormente transformado, na mente do paciente, em delrio religioso de grandeza. O papel de perseguidor foi primeiramente atribudo ao Professor Flechsig, 
mdico sob cujos cuidados estava; mais tarde, o lugar foi assumido pelo Prprio Deus.
         Citarei na ntegra as passagens pertinentes das Denkwrdigkeiten: 'Desse modo, uma conspirao contra mim foi levada ao ponto culminante (por volta de maro 
ou abril de 1894). Seu objetivo era conseguir que, uma vez minha doena nervosa houvesse sido reconhecida como incurvel ou assim admitida, eu fosse entregue a certa 
pessoa, de maneira especfica: minha alma deveria ser-lhe entregue, mas meu corpo - devido a uma m compreenso do que acima descrevi como o propsito subjacente 
 Ordem das Coisas - deveria ser transformado num corpo feminino e como tal entregue  pessoa em apreo com vistas e abusos sexuais, ento simplesmente seria "deixado 
de lado" - o que indubitavelmente significa ser entregue  corrupo.' (56.)
         'Alm disso, era perfeitamente natural que, do ponto de vista humano (nico pelo qual, quela poca, eu era ainda principalmente dirigido), encarasse o 
Professor Flechsig ou sua alma como meu nico verdadeiro inimigo - em data posterior, houve tambm a alma de von W., a respeito da qual terei mais a dizer dentro 
em pouco - e que eu considerasse Deus Todo-Poderoso como aliado natural. Simplesmente imaginei que Ele se achava em grande dificuldade com referncia ao Professor 
Flechsig e, por conseguinte, senti-me obrigado a apoi-lo por todos os meios concebveis, at o extremo de sacrificar-me a mim mesmo. S muito mais tarde foi que 
me ocorreu a idia de que o prprio Deus havia desempenhado o papel de cmplice, seno de instigador, na conspirao em que minha alma deveria ser assassinada e 
meu corpo usado como o de uma rameira. De fato, posso dizer que esta idia em parte s se tornou claramente consciente para mim enquanto escrevia o presente trabalho.' 
(59.)
         'Toda tentativa de assassinar minha alma, de emascular-me para fins contrrios a Ordem das Coisas (isto , para satisfao dos apetites sexuais de um indivduo) 
ou, mais tarde, de destruir meu entendimento - toda tentativa como essa redundou em nada. Desse combate aparentemente desigual entre um dbil homem e o Prprio Deus, 
emergi como vencedor - embora com muito amargo sofrimento e privao - porque a Ordem das Coisas est do meu lado.' (61.)
         Em nota de rodap ligada s palavras 'contrrios  Ordem das Coisas', na passagem anterior, o autor prenuncia a transformao subseqente de seu delrio 
de emasculao e de sua relao com Deus: 'Demonstrarei mais tarde que a emasculao para propsito inteiramente diferente - um propsito em harmonia com a Ordem 
das Coisas - acha-se dentro dos limites da possibilidade, e, na verdade, que muito provavelmente pode proporcionar a soluo do conflito.'
         Estas afirmaes so de importncia decisiva para determinar a opinio que devemos formar quanto ao delrio da emasculao, dando-nos assim uma compreenso 
geral do caso. Pode-se acrescentar que as 'vozes' que o paciente ouvia nunca tratavam de sua transformao em mulher como algo que no fosse uma ignomnia sexual, 
o que lhes fornecia desculpa para dele escarnecer. 'Raios de Deus no raramente julgaram-se no direito de zombar de mim, chamando-me de "Miss Schreber", em aluso 
 emasculao que, segundo se afirmava, achava-me a ponto de sofrer.' (127.) Ou ento diziam: 'Ento isso declara ter sido um Senatsprsident, essa pessoa que se 
deixa ser f.... a!' Ou, ainda: 'No se sente envergonhado, na frente de sua mulher?' (177.)
         Que a fantasia de emasculao era de natureza primria e originalmente independente do motif do Redentor, torna-se ainda mais provvel quando relembramos 
a 'idia' que, como mencionei em pgina anterior [Ver em [1].], ocorreu-lhe enquanto se achava semi-adormecido, no sentido de que deve ser bom ser uma mulher e submeter-se 
ao ato da cpula. (36.) Esta fantasia apareceu durante o perodo de incubao de sua molstia, e antes que tivesse comeado a sentir os efeitos do excesso de trabalho 
em Dresden.
         O prprio Schreber indica o ms de novembro de 1895 como a poca em que se estabeleceu a vinculao entre a fantasia de emasculao e a idia do Redentor, 
preparando-se assim o caminho para ele reconciliar-se com a primeira. 'Agora, contudo', escreve, 'dei-me claramente conta de que a Ordem das Coisas exigia imperativamente 
a minha emasculao, gostasse ou no disso pessoalmente, e que nenhum caminho razovel se abre para mim exceto reconciliar-me com o pensamento de ser transformado 
em mulher. A outra conseqncia de minha emasculao, naturalmente, s poderia ser a minha fecundao por raios divinos, a fim de que uma nova raa de homens pudesse 
ser criada.' (177.)
         A idia de ser transformado em mulher foi a caracterstica saliente e o germe mais primitivo de seu sistema delirante. Mostrou tambm ser a nica parte 
deste que persistiu aps a cura e a nica que pde permanecer em sua conduta na vida real, aps haver-se restabelecido. 'A nica coisa que poderia parecer disparatada 
aos olhos de outras pessoas  o fato, j aflorado no relatrio do perito, de que sou s vezes encontrado parado em frente do espelho ou em outro lugar, com a parte 
superior de meu corpo desnuda e usando adornos femininos variados, tais como fitas, colares falsos e similares. Isto s ocorre, posso acrescentar, quando estou sozinho, 
e nunca, pelo menos na medida em que posso evit-lo, na presena de outras pessoas.' (429.) O Herr Senatsprsident confessa esta frivolidade numa data (julho de 
1901) em que j se achava em posio de expressar de modo muito capaz o carter completo de seu restabelecimento no campo da vida prtica: 'H muito tempo me venho 
dando conta de que as pessoas que vejo a meu redor no so "homens apressadamente improvisados", mas pessoas reais, e que devo, portanto, conduzir-me em relao 
a eles como um homem razovel est acostumado a conduzir-se em relao a seus semelhantes.' (409.) Em contraste com a maneira pela qual colocou em ao sua fantasia 
de emasculao, o paciente nunca tomou quaisquer medidas no sentido de induzir as pessoas a reconhecerem sua misso de Redentor, fora a publicao de suas Denkwrdigkeiten.
         
         (b) A atitude de nosso paciente para com Deus  to singular e cheia de contradies internas, que exige mais que um pouco de f persistir na crena de 
que, no obstante, existe 'mtodo' em sua 'loucura'. Com auxlio do que o Dr. Schreber nos conta nas Denkwrdigkeiten, temos agora de esforar-nos por chegar a uma 
viso mais exata de seu sistema teolgico-psicolgico, e devemos expor suas opinies sobre os nervos, o estado de beatitude, a hierarquia divina e os atributos de 
Deus, em seu nexo delirante (manifesto). Em todos os pontos de sua teoria, ficaremos impressionados pela espantosa mistura do banal e do brilhante, do que foi tomado 
emprestado e do que  original.
         A alma humana est contida nos nervos do corpo. Estes devem ser entendidos como estruturas de extraordinria finura, comparveis ao fio mais delgado. Alguns 
desses nervos so apropriados apenas para a recepo de percepes sensrias, enquanto que outros (os nervos do entendimento) executam todas as funes da mente; 
com respeito a isso,  de notar que cada nervo do entendimento isolado representa a individualidade mental inteira de uma pessoa, e que a presena de um nmero maior 
ou menor de nervos do entendimento no tem influncia, exceto sobre a durao de tempo durante o qual a mente pode reter suas impresses. 
         Enquanto que os homens se compem de corpos e nervos, Deus , por Sua prpria natureza, somente nervos. Os nervos de Deus, porm, no esto presente em 
nmero limitado, como no caso dos corpos humanos, mas so infinitos ou eternos. Possuem todas as propriedades dos nervos humanos, em grau enormemente intensificado. 
Em sua capacidade criativa - isto , no poder de se transformarem em todo objeto imaginvel no mundo criado - so conhecidos como raios. Existe ntima relao entre 
Deus, o cu estrelado e o Sol.
         Quando a obra da criao terminou, Deus retirou-se para muito longe (10-11 e 252) e abandonou o mundo s suas prprias leis. Limitou Suas atividades a chamar 
a Si as almas dos mortos. Somente em ocasies excepcionais  que entraria em relao com pessoas especficas, altamente dotadas, ou interviria, por meio de um milagre, 
nos destinos do mundo. Deus no tem nenhuma comunicao regular com as almas humanas, de acordo com a Ordem das Coisas, at depois da morte. Quando um homem morre, 
suas partes espirituais (isto , seus nervos) sofrem um processo de purificao antes de finalmente se reunirem com o Prprio Deus como 'ante-salas do Cu'. Assim, 
ocorre que tudo se move numa ronda eterna, que est na base da Ordem das Coisas. Ao criar qualquer coisa, Deus se separa de uma parte de Si Prprio, ou d a uma 
parte de Seus nervos forma diferente. A perda aparente que assim experimenta  compensada quando, aps centenas e milhares de anos, os nervos dos mortos, que ingressaram 
no estado de beatitude, mais uma vez se Lhe acrescem, como 'ante-salas do Cu' (18 e 19 n.).
         As almas que passaram por este processo de purificao comeam a gozar de um estado de beatitude. Nesse meio tempo, perderam um pouco de sua conscincia 
individual e se fundiram com outras almas em unidades mais elevadas. Almas importantes, aquelas de homens como Goethe, Bismarck etc., podem ter de manter seu senso 
de identidade por centenas de anos mais, antes que tambm elas possam se transformar em complexos anmicos superiores, tais como 'raios de Jav', no caso do antigo 
povo judeu, ou 'raios de Zoroastro', no caso da antiga Prsia. No decurso de sua purificao, 'as almas aprendem a lngua que  falada pelo prprio Deus, a chamada 
"lngua bsica", um alemo vigoroso, ainda que um tanto antiquado, que se caracteriza especialmente pela grande riqueza em eufemismos' (13.)
         O Prprio Deus no  uma entidade simples. 'Acima das "ante-salas do Cu" pairava o Prprio Deus, que, em contraposio a estes "domnios anteriores de 
Deus", era tambm descrito como os ''domnios posteriores de Deus''. Os domnios posteriores de Deus eram, e ainda so, divididos estranhamente em duas partes, de 
modo que um Deus inferior (Arim) se diferenciava de um Deus superior (Ormuzd).' (19.) Com referncia ao significado desta distino, Schreber s nos pode informar 
que o Deus inferior era mais especialmente ligado aos povos de uma raa escura (ou semitas) e o Deus superior aos de uma raa loura (os arianos); e nem seria razovel, 
em assuntos to elevados, esperar mais do conhecimento humano. No obstante, diz-nos tambm que 'apesar do fato de, sob certos aspectos, o Deus Todo-Poderoso formar 
uma unidade, o Deus inferior e o superior devem ser considerados como Seres separados, cada um dos quais possui seu prprio egosmo e instinto particular de autopreservao, 
mesmo em relao ao outro, e cada um dos quais se est, portanto, constantemente esforando por arremessar-se na frente do outro' (140 n.). Ademais, os dois Seres 
divinos comportavam-se de maneira inteiramente diferente em relao ao infeliz Schreber, durante o estdio agudo da doena.
         Em dias anteriores  sua doena, o Senatsprsident Schreber tivera dvida sobre assuntos religiosos (29 e 64); nunca fora capaz de persuadir-se a ter uma 
firme crena na existncia de um Deus pessoal. Na verdade, ele aduz este fato sobre sua vida anterior como argumento em favor da completa realidade de seus delrios. 
Mas quem quer que leia a descrio que se segue dos traos caracterolgicos do Deus de Schreber ter de admitir que a transformao efetuada pelo distrbio paranico 
no foi fundamental, e que no Redentor de hoje muito permanece daquele que ontem duvidava.
          que existe uma falha na Ordem das Coisas, em conseqncia da qual a existncia do Prprio Deus parece ser colocada em perigo. Devido a circunstncias 
sem maior explicao, os nervos dos homens vivos, especialmente quando em estado de intensa excitao, podem exercer sobre os nervos de Deus atrao to poderosa 
que ele no se pode libertar deles novamente, e assim Sua prpria existncia pode ser ameaada. (11.) Esta ocorrncia excepcionalmente rara realizou-se no caso de 
Schreber e envolveu-o nos maiores sofrimentos. O instinto de autopreservao foi despertado em Deus (30) e ento tornou-se evidente que Ele se achava muito afastado 
da perfeio que lhe  atribuda pelas religies. Por todo o livro de Schreber ressoa a amarga queixa de que Deus, estando acostumado apenas  comunicao com os 
mortos, no compreende os homens vivos.
         'Com relao a isso, contudo, prevalece um mal-entendido fundamental, que desde ento atravessou minha vida inteira como um fio escarlate. Baseia-se precisamente 
no fato de que, de acordo com a Ordem das Coisas, Deus realmente no sabia nada sobre os homens vivos e no precisava conhecer; em consonncia com a Ordem das Coisas, 
Ele precisava apenas manter comunicao com cadveres.' (55.) - 'Esse estado de coisas... estou convencido, deve mais uma vez ser vinculado ao fato de que Deus era, 
se assim posso exprimi-lo, inteiramente incapaz de lidar com homens vivos, e s estava acostumado a comunicar-se com cadveres, ou, no mximo, com homens adormecidos 
(isto , em seus sonhos).' (141.) - 'Eu prprio senti-me inclinado a exclamar: "Incredibile scriptu!" Todavia, tudo  literalmente verdico, por difcil que possa 
ser para outras pessoas apreender a idia da completa incapacidade de Deus em julgar corretamente os homens vivos, e por mais tempo que eu prprio tenha levado para 
acostumar-me a esta idia, aps minhas inumerveis observaes sobre o assunto.' (246.)
         Entretanto, como resultado da m compreenso que Deus tem dos homens vivos, foi-Lhe possvel tornar-se o instigador da conspirao contra Schreber, tom-lo 
por idiota e submet-lo a essas severas provaes (264). Para evitar ser considerado um idiota, ele se submeteu a um sistema extremamente fatigante de 'pensamento 
forado', pois 'cada vez que minhas atividades intelectuais cessavam, Deus chegava  concluso de que minhas faculdades mentais achavam-se extintas e que a destruio 
de meu entendimento (a idiotia), pela qual Ele esperava, havia-se realmente estabelecido, e que uma retirada se tornara agora possvel'. (206.) 
         
         O comportamento de Deus na questo da premncia de evacuar (ou 'c...r') leva-o a um grau especialmente alto de indignao. A passagem  to caracterstica 
que a citarei na ntegra; mas, para esclarec-la, devo primeiro explicar que tanto os milagres quanto as vozes procedem de Deus, isto , dos raios divinos.
         'Embora se torne necessrio que eu aflore um tema desagradvel, tenho de dedicar mais algumas palavras  pergunta que acabei de citar ("Por que voc no 
c... a?"), devido ao carter tpico de todo o assunto. A necessidade de evacuao, como tudo o mais que tem a ver com o meu corpo,  evocada por milagre.  ocasionada 
pelo fato de minhas fezes serem foradas para a frente (e, s vezes, para trs novamente) em meus intestinos; e se, devido a j ter havido uma evacuao, no se 
apresenta material suficiente, ento pequenos resduos que ainda possa haver do contedo de meus intestinos se espalham sobre meu orifcio anal. A ocorrncia  um 
milagre realizado pelo Deus superior, e repete-se diversas dzias de vezes pelo menos, a cada dia. Associa-se a uma idia que  inteiramente incompreensvel para 
os seres humanos e s pode ser explicada pela ignorncia completa de Deus quanto ao homem vivo como um organismo. De acordo com esta idia, "c... r" , em certo 
sentido, o ato final, o que equivale a dizer que, uma vez que a premncia de c...r tenha sido causada por milagre, o objetivo de destruir o entendimento  alcanado 
e uma retirada final dos raios torna-se possvel. Para chegar ao fundo desta idia, temos de supor, segundo me parece, que h um equvoco em relao ao significado 
simblico do ato da evacuao, uma noo, na verdade, de que qualquer um que tenha mantido uma relao como a que mantenho com os raios divinos tem, at certo ponto, 
direito de c...r sobre o mundo inteiro.' 
         'Mas o que agora se segue revela toda a perfdia da poltica que foi seguida com relao a minha pessoa. Quase toda vez que a necessidade de evacuao me 
aparecia por milagre, outra pessoa nas imediaes era enviada (por ter seus nervos estimulados com esse intuito) para o banheiro, a fim de impedir-me de evacuar. 
Trata-se de fenmeno que observei durante anos e em ocasies to incontveis - milhares delas - e com tal regularidade que exclui qualquer possibilidade de ser atribuvel 
ao acaso. E, ento, surge a pergunta: "Por que voc no c...a?",  qual  dada a vivaz rplica de que sou "to estpido ou coisa assim". A pena quase se esquiva 
de registrar tamanho absurdo, que Deus, cego por Sua ignorncia da natureza humana, possa positivamente chegar ao extremos de supor que exista um homem estpido 
demais para fazer o que todo animal faz - estpido demais para poder c...r. Quando, levado por tal impulso, eu realmente consigo evacuar - e, geralmente, visto quase 
sempre encontrar o banheiro ocupado, uso um balde para esse fim - o processo  sempre acompanhado pelo aparecimento de uma sensao extremamente intensa de voluptuosidade 
espiritual, pois o alvio da presso causada pela presena das fezes nos intestinos produz intenso bem-estar nos nervos da voluptuosidade; e o mesmo tambm acontece 
com a urina. Por esta razo, ainda at o dia de hoje, enquanto estou evacuando ou urinando, todos os raios acham-se sempre, sem exceo, unidos; por esta mesma razo, 
sempre que me dedico a estas funes naturais,  invariavelmente feita uma tentativa, embora v, de inverter por milagre o impulso de defecar ou urinar.' (225-7.)
         Ademais, este extraordinrio Deus de Schreber  incapaz de aprender qualquer coisa pela experincia: 'Devido a uma ou outra qualidade inerentes  sua natureza, 
parece impossvel a Deus inferir quaisquer lies para o futuro da experincia assim obtida.' (186.) Ele pode, portanto, continuar a repetir as mesmas atormentadoras 
provaes, milagres e vozes, sem alterao, ano aps ano, at que, inevitavelmente, se torna motivo de riso para a vtima de Duas perseguies.
         'A conseqncia  que, agora que os milagres em grande parte perderam o poder que antigamente possuam de produzir efeitos aterrorizantes, Deus me parece 
principalmente, em quase tudo o que me acontece, ridculo ou pueril. Com referncia  minha prpria conduta, sou amide obrigado, em autodefesa, a desempenhar o 
papel de escarnecedor de Deus, e mesmo, ocasionalmente, de zombrar Dele em voz alta.' (333.)
         A esta atitude crtica e rebelde para com Deus, contudo, ope-se na mente de Schreber uma enrgica contracorrente, expressa em muitos lugares: 'Mas aqui 
novamente devo mui enfaticamente declarar que isto  apenas um episdio que, espero, terminar o mais tardar com meu falecimento, e que o direito de escarnecer de 
Deus pertence, em conseqncia, a mim somente e no a outros homens. Para estes, Ele permanece sendo o criador todo-poderoso do Cu e da Terra, a causa primeira 
de todas as coisas, e a salvao de seu futuro, a quem - embora algumas das idias religiosas convencionais possam exigir reviso - so devidas adorao e a mais 
profunda reverncia.' (333-4.)
         Fazem-se, portanto, repetidas tentativas de encontrar justificao para a conduta de Deus em relao ao paciente. Nestas tentativas, que apresentam tanta 
engenhosidade quanto qualquer outra teodicia, a explicao baseia-se ora na natureza geral das almas, ora na necessidade de autopreservao divina, e na influncia 
desencaminhadora da alma de Flechsig. (60-1 e 160.) Em geral, porm, a enfermidade  encarada como uma luta entre Schreber, o homem e Deus, luta na qual a vitria 
fica com o homem, fraco que seja, porque a Ordem das Coisas acha-se do seu lado. (61.)
         O relatrio mdico poderia facilmente levar-nos a supor que Schreber apresentava a forma corriqueira de fantasia de Redentor, na qual o paciente acredita 
ser o filho de Deus, destinado a salvar o mundo de sua desgraa ou da destruio que o ameaa, e assim por diante.  por esta razo que tive o cuidado de apresentar 
com pormenores as peculiaridades da relao de Schreber com Deus. A importncia desta relao para o resto da humanidade s raramente  mencionada nas Denkwrdigkeiten, 
e apenas na ltima fase de sua formao delirante. Consiste essencialmente no fato de que ningum que morra pode ingressar no estado de beatitude enquanto a maior 
parte dos raios de Deus for absorvida por sua pessoa (de Schreber), devido a seus poderes de atrao. (32.)  somente num estdio muito tardio, tambm, que sua identificao 
com Jesus Cristo aparece claramente. (338 e 431.)
         Nenhuma tentativa de explicar o caso de Schreber ter possibilidade de ser correta, se no levar em considerao essas peculiaridades de sua concepo de 
Deus, essa mistura de reverncia e rebeldia em sua atitude para com Ele.
         Voltar-me-ei agora para outro assunto, estreitamente vinculado a Deus, ou seja, o estado de beatitude. Este  tambm mencionado por Schreber como 'a vida 
do alm',  qual a alma humana  elevada aps a morte, pelo processo da purificao. Ele o descreve como um estado de fruio ininterrupta, ligado  contemplao 
de Deus. Isso no  muito original mas, por outro lado,  surpreendente saber que Schreber faz distino entre um estado de beatitude masculino e outro feminino.
         'O estado masculino de beatitude era superior ao feminino, que parece ter consistido principalmente numa sensao ininterrupta de voluptuosidade.' (18.) 
Em outras passagens, esta coincidncia entre o estado de beatitude e a voluptuosidade  expressa em linguagem mais simples e sem referncia  distino de sexo; 
ademais, o elemento do estado de beatitude que consiste na contemplao de Deus no  mais comentado. Assim, por exemplo: 'A natureza dos nervos de Deus  tal que 
o estado de beatitude (...) se faz acompanhar por uma sensao muito intensa de voluptuosidade, ainda que no consista exclusivamente nela.' (51.) E ainda: 'A voluptuosidade 
pode ser encarada como um fragmento do estado de beatitude, dado antecipadamente, por assim dizer, aos homens e s outras criaturas vivas.' (281.) Assim, o estado 
de beatitude celestial deve ser compreendido como sendo, em sua essncia, uma continuao intensificada do prazer sensual sobre a Terra!
         Esta viso do estado de beatitude achava-se longe de ser, no delrio de Schreber, um elemento originado nos primeiros estdios de sua doena e posteriormente 
eliminado, como incompatvel com o resto. Na Exposio de seu Caso, redigida pelo paciente para o Tribunal de Apelao em julho de 1901, ele enfatiza como uma de 
suas maiores descobertas o fato de 'que a voluptuosidade se acha em estreito relacionamento (at ento no perceptvel ao resto da humanidade) com o estado de beatitude 
frudo pelos espritos que j no mais se acham aqui'. [442.] 
         Descobriremos, na verdade, que este "relacionamento estreito'  a rocha sobre a qual o paciente funda suas esperanas de uma reconciliao final com Deus 
e de que seus sofrimentos recebam um fim. Os raios de Deus abandonam sua hostilidade assim que se certificam de que, sendo absorvidos pelo corpo dele, experimentaro 
voluptuosidade espiritual (133); o prprio Deus exige poder encontrar voluptuosidade nele (283) e ameaa-o com a retirada de Seus raios, se se esquecer de cultivar 
a voluptuosidade e no puder oferecer a Deus o que Este exige. (320.)
         Essa surpreendente sexualizao do estado de beatitude celestial sugere a possibilidade de que o conceito que Schreber tem do estado de beatitude derive 
de uma condensao dos principais significados da palavra alem 'selig', a saber, 'falecido' e 'sensualmente feliz'. Mas esse exemplo de sexualizao fornecer-nos- 
tambm ocasio de examinar a atitude geral do paciente para com o lado ertico da vida e para com assuntos de indulgncia sexual, pois ns, psicanalistas, at o 
presente apoiamos a opinio de que as razes de todo distrbio nervoso e mental devem se encontrar principalmente na vida sexual do paciente - alguns de ns baseados 
simplesmente em fundamentos empricos, outros, influenciados, alm disso, por consideraes tericas.
         As amostras dos delrios de Schreber j fornecidas capacitam-nos, sem mais, a pr de lado a suspeita de que exatamente esse distrbio paranide pudesse 
vir a ser o 'caso negativo' h tanto tempo procurado: um caso em que a sexualidade desempenhe apenas papel muito pouco importante. O prprio Schreber fala repetidas 
vezes como se partilhasse de nosso preconceito. Fala constantemente, e no mesmo alento, de 'distrbio nervoso' e lapsos erticos, como se as duas coisas fossem inseparveis.
         
         Antes de sua enfermidade, o Senatsprsident Schreber fora homem de moral estrita: 'Poucas pessoas', declara ele, e no vejo razo para duvidar de sua assertiva, 
'podem ter sido criadas segundo os estritos princpios morais em que fui, e poucas pessoas, durante toda a sua vida, podem ter exercido (especialmente em assuntos 
sexuais) uma autocoibio que se conformasse to estritamente a esses princpios, como posso dizer de mim mesmo que exerci.' (281.) Aps o severo combate espiritual, 
do qual os fenmenos de sua molstia foram os sinais exteriores, sua atitude para com o lado ertico da vida se alterou. Chegara a perceber que o cultivo da voluptuosidade 
lhe incumbia como um dever e que somente pelo cumprimento desse dever  que poderia terminar o grave conflito que irrompera dentro dele - ou, como pensava, a seu 
respeito. A voluptuosidade, assim as vozes lhe asseguravam, havia-se tornado 'temente a Deus', e s lhe restava lamentar que no se pudesse dedicar a seu cultivo 
durante todo o dia. (285.)
         Foi esse, ento, o resultado das modificaes produzidas em Schreber por sua doena, tal como as encontramos expressas nas duas caractersticas principais 
de seu sistema delirante. Antes dela, inclinara-se ao ascetismo sexual e fora um descrente com referncia a Deus, enquanto que, aps a mesma, se tornou crente em 
Deus e devoto da voluptuosidade. Entretanto, assim como sua f em Deus reconquistada era de tipo peculiar, assim tambm a fruio sexual que havia alcanado para 
si prprio era de carter muito raro. No era a liberdade sexual de um homem, mas os sentimentos sexuais de uma mulher. Ele assumiu uma atitude feminina para com 
Deus; sentiu que era a esposa de Deus.
         
         Nenhuma outra parte de seus delrios  tratada pelo paciente to exaustivamente, quase poder-se-ia dizer insistentemente, como sua alegada transformao 
em mulher. Os nervos por ele absorvidos, assim diz, assumiram em seu corpo o carter de nervos femininos de voluptuosidade e lhe deram um molde mais ou menos feminil, 
e, mais particularmente,  sua pele, a suavidade peculiar ao sexo feminino. (87.) Se aperta levemente com os dedos qualquer parte do corpo, pode sentir esses nervos, 
sob a superfcie da pele, como um tecido de textura fibrosa ou semelhante a fios; eles se acham especialmente presentes na regio do trax, onde, numa mulher, ficariam 
os seios. 'Aplicando presso a este tecido, sou capaz de evocar uma sensao de voluptuosidade, tal como as mulheres experimentam, e especialmente se penso em algo 
feminino ao mesmo tempo.' (277.) Sabe com certeza que o tecido originalmente nada mais era que nervos de Deus, que dificilmente poderiam ter perdido o carter de 
nervos simplesmente por terem passado para seu corpo. (279.) Por meio do que chama de 'atrair' (isto , pela invocao de imagens visuais),  capaz de dar tanto 
a si quanto aos raios a impresso de que seu corpo se acha aparelhado com seios e rgos genitais femininos: 'Tornou-se tanto um hbito para mim atrair ndegas femininas 
para meu corpo - honi soit qui mal y pense - que o fao quase involuntariamente, a cada vez que me abaixo.' (233.)  'ousado o bastante para asseverar que quem quer 
que tenha oportunidade de me ver diante do espelho com a parte superior de meu corpo desnuda - especialmente se a iluso  auxiliada por estar eu usando algum atavio 
feminino - receberia uma impresso inequvoca de um busto feminino'. (280.) Solicita exame mdico, a fim de estabelecer o fato de que todo o seu corpo possui nervos 
de voluptuosidade dispersos sobre ele, da cabea aos ps, situao, que, em sua opinio, s pode ser encontrada no corpo feminino, enquanto no indivduo do sexo 
masculino, segundo melhor de seu conhecimento, os nervos da voluptuosidade existem apenas nos rgos sexuais e em sua vizinhana imediata. (274.) A voluptuosidade 
espiritual que se desenvolveu devido a essa acumulao de nervos em seu corpo  to intensa que exige apenas ligeiro esforo de sua imaginao (especialmente quando 
se acha deitado na cama) para proporcionar-lhe uma sensao de bem-estar sexual que permite um prenncio mais ou menos claro do prazer sexual desfrutado por uma 
mulher durante a cpula. (269.)
         Se recordamos agora o sonho que o paciente teve durante o perodo de incubao de sua enfermidade, antes de mudar-se para Dresden [ver em [1]], tornar-se- 
claro, acima de qualquer dvida, que seu delrio de ser transformado em mulher nada mais era que a realizao do contedo desse sonho. Naquela poca, rebelou-se 
contra o sonho com mscula indignao, e, da mesma maneira, comeou a lutar contra a sua realizao na enfermidade e encarou sua transformao em mulher como uma 
catstrofe porque era ameaado com intenes hostis. Mas chegou a ocasio (foi em novembro de 1895) em que comeou a reconciliar-se com a transformao e a coloc-la 
em harmonia com os propsitos mais altos de Deus: 'Desde ento, e com plena conscincia do que fiz, inscrevi em minha bandeira o cultivo da feminilidade.' (177-8.)
         Chegou ento  firme convico de que era o Prprio Deus que, para Sua satisfao, exigia dele a feminilidade:
         'Mal, contudo, acho-me a ss com Deus (se assim posso express-lo), torna-se uma necessidade para mim empregar todo artifcio imaginvel e convocar a totalidade 
de minhas faculdades mentais, e especialmente minha imaginao, a fim de fazer com que os raios divinos passam ter a impresso, to continuamente quanto possvel 
(ou, visto isto achar-se alm do poder mortal, pelo menos em certas ocasies do dia), de que sou uma mulher a deleitar-se com sensaes voluptuosas.' (281.)
         'Por outro lado, Deus exige um estado constante de prazer, tal como estaria de acordo com as condies de existncia impostas s almas pela Ordem das Coisas; 
e  meu dever fornecer-lhe isso... sob a forma da maior gerao possvel de voluptuosidade espiritual. E se, nesse processo, um pouco de prazer sensual cabe a mim, 
sinto-me justificado em aceit-lo como diminuta compensao pela excessiva quantidade de sofrimento e privao que foi minha por tantos anos passados...' (283.)
         '...Penso que posso mesmo arriscar-me a apresentar a opinio, baseada em impresses que recebi, de que Deus nunca tomaria quaisquer medidas no sentido de 
efetuar uma retirada - cujo primeiro resultado , invariavelmente, alterar minha condio fsica acentuadamente para pior -, mas quieta e permanentemente render-se-ia 
a meus poderes de atrao, se me fosse possvel estar sempre desempenhando o papel de uma mulher e jazer em meus prprios abraos amorosos, estar sempre modelando 
minha aparncia em formas femininas, estar sempre contemplando retratos de mulheres, e assim por diante.' (284-5.)
         
         No sistema de Schreber, os dois elementos principais de seus delrios (sua transformao em mulher e sua relao favorecida com Deus) acham-se vinculados 
na adoo de uma atitude feminina para com Deus. Ser parte inevitvel de nossa tarefa demonstrar que existe uma relao gentica essencial entre esses dois elementos. 
De outra maneira, nossas tentativas de elucidar os delrios de Schreber conduzir-nos-iam  posio absurda descrita no famoso smile de Kant na Crtica da Razo 
Pura: seramos como um homem a segurar uma peneira debaixo de um bode, enquanto algum o ordenha.
         
         
         
         II - TENTATIVAS DE INTERPRETAO
         
         Existem dois ngulos a partir dos quais poderamos tentar chegar a uma compreenso dessa histria de um caso de parania e nela expor os conhecidos complexos 
e foras motivadoras da vida mental. Poderamos partir das prprias declaraes delirantes do paciente ou das causas ativadoras de sua molstia.
         O primeiro mtodo deve parecer tentador, desde o brilhante exemplo fornecido por Jung [1907] em sua interpretao de um caso de demncia precoce que era 
muito mais grave que este e exibia sintomas muito mais afastados do normal. O alto nvel e inteligncia de nosso paciente atual, tambm, e sua comunicatividade parecem 
ter probabilidades de facilitar a realizao de nossa tarefa dentro dessa orientao. Ele prprio, no raro, oferece-nos a chave, pelo acrscimo de uma glosa, citao 
ou exemplo de alguma proposio delirante, de modo aparentemente acidental, ou mesmo por negar expressamente algum paralelo a ela, que tenha surgido em sua prpria 
mente. Pois, quando isso acontece, temos apenas de seguir nossa tcnica psicanaltica habitual - despir a frase de sua forma negativa, tomar o exemplo como sendo 
a coisa real, ou a citao ou glosa como a fonte original, e encontramo-nos de posse do que estamos procurando, a saber, uma traduo da maneira paranica de expresso 
para a normal.
         Talvez valha a pena fornecer uma ilustrao mais pormenorizada desse procedimento. Schreber se queixa do aborrecimento criado pelos chamados 'pssaros miraculados' 
ou 'pssaros falantes', aos quais atribui certo nmero de qualidades extraordinrias. (208-14.)  crena sua que eles sejam formados de antigas 'ante-salas do Cu', 
isto , almas humanas que ingressaram em estado de beatitude, e que foram impregnados com veneno de ptomana e aulados contra ele. Foram condicionados a repetir 
'frases sem sentido, que aprenderam de cor' e que 'se lhes ofereceram como jantar'. Cada vez que descarregavam a carga de veneno ptomanico sobre ele - isto , cada 
vez que 'desfiavam as frases que lhe foram oferecidas como jantar, por assim dizer' - eram, at certo ponto, incorporados em sua alma, com as palavras 'Diacho de 
sujeito!' ou 'O diabo o leve!', que constituem as nicas que ainda so capazes de empregar para expressar um sentimento genuno. Eles no podem entender o significado 
das palavras que dizem, mas so, por natureza, suscetveis  similaridade de sons, embora a semelhana no precise necessariamente ser completa. Assim, -lhes indiferente 
dizer:
         'Santiago' ou 'Karthago',
         'Chinesentum' ou 'Jesum Christum',
         'Abendrot' ou 'Atemnot',
         'Ariman' ou 'Ackermann' etc. (210.)
         Quando lemos esta descrio, no podemos evitar a idia de que ela deve realmente se referir a moas. Criticamente amide comparam-nas a gansos, pouco galantemente 
acusam-nas de terem 'miolos de passarinho' e declara-se que nada podem dizer alm de frases aprendidas de cor e que revelam sua falta de instruo ao confundirem 
palavras estrangeiras que soam de modo semelhante. A frase 'diacho de sujeito!', nica coisa sobre a qual so srias, constituiria, no caso, uma aluso ao triunfo 
do jovem que conseguiu impression-la. E, com efeito, algumas pginas adiante deparamo-nos com uma passagem em que Schreber confirma esta interpretao: 'Para fins 
de distino, de brincadeira dei nomes de moas a grande nmero das almas-pssaros restantes, visto que, por sua curiosidade, inclinao voluptuosa etc., elas, unnime 
e mui prontamente, sugerem uma comparao com menininhas. Alguns desse nomes de moas foram, desde ento, adotados pelos raios de Deus e mantidos como designao 
das almas-pssaros em apreo.' (214.) Essa fcil interpretao dos 'pssaros miraculados' fornece-nos uma sugesto que pode auxiliar-nos no sentido de compreender 
as enigmticas 'ante-salas do Cu'.
         Dou-me perfeitamente conta de que um psicanalista necessita de certa quantidade de tato e reserva sempre que, no decurso de seu trabalho, vai alm dos casos 
tpicos de interpretao, e de que seus ouvintes ou leitores s o seguiro na medida em que a familiaridade deles com a tcnica analtica lhes permita. Tem ele toda 
razo, portanto, de guardar-se contra o risco de que uma exagerada exibio de perspiccia de sua parte possa se fazer acompanhar de uma diminuio na certeza e 
fidedignidade dos seus resultados. Assim,  apenas natural que determinado analista tenda demasiadamente para a cautela e outro excessivamente para a ousadia. No 
ser possvel definir os limites precisos da interpretao justificvel at que se tenham realizado muitos experimentos e que o assunto se tenha tornado mais conhecido. 
Trabalhando no caso de Schreber, uma poltica de restrio me foi forada pela circunstncia de que a oposio a que ele publicasse as Denkwrdigkeiten foi eficaz, 
a ponto de afastar do nosso conhecimento considervel parte do material - a parte tambm que, com toda probabilidade, teria lanado a luz mais importante sobre o 
caso. Assim, por exemplo, o terceiro captulo do livro inicia com esse anncio promissor: 'Passarei agora a descrever certos acontecimentos ocorridos com outros 
membros de minha famlia e que podem, concebivelmente, se achar vinculados ao assassinato de alma que postulei; pois h, de qualquer modo, algo mais ou menos problemtico 
a respeito de todos eles, algo no facilmente explicvel segundo as linhas da experincia humana comum. (33.) Mas a frase posterior, que  tambm a ltima do captulo, 
 a seguinte: 'O restante deste captulo foi retirado de impresso por ser imprprio para publicao.' Desse modo, terei de dar-me por satisfeito se conseguir pelo 
menos, com algum grau de certeza, remontar o ncleo da estrutura delirante a motivos humanos familiares.
         Com este objetivo em vista, mencionarei agora outro pequeno fragmento da histria clnica ao qual no se deu peso suficiente nos relatrios, embora o prprio 
paciente tenha feito tudo o que pde para coloc-lo em primeiro plano. Refiro-me s relaes de Schreber com seu primeiro mdico, o Geheimrat Prof. Flechsig, de 
Leipzig.
         
         Conforme j sabemos, o caso de Schreber assumiu a princpio a forma de delrios de perseguio e s comeou a perd-la quando chegou ao ponto decisivo de 
sua molstia (a ocasio de sua 'reconciliao'). Dessa poca em diante, as perseguies tornaram-se cada vez menos intolerveis e o propsito ignominioso que a princpio 
fundamentava sua ameaada emasculao comeou a ser suplantado por um propsito em consonncia com a Ordem das Coisas. Mas o primeiro autor de todos esses atos de 
perseguio foi Flechsig e permaneceu sendo seu instigador durante todo o curso da doena. 
         Sobre a natureza real da perversidade de Flechsig e seus motivos o paciente fala com a vagueza e a obscuridade caractersticas, que podem ser encaradas 
como sinais de um trabalho particularmente intenso de formao delirante, se  que  legtimo julgar a parania segundo o modelo de um fenmeno mental muito mais 
conhecido - o sonho. Flechsig, segundo o paciente, cometeu ou tentou cometer 'assassinato de alma' contra ele - ato que, pensava, era comparvel aos esforos feitos 
pelo Diabo ou por demnios para tomar posse de uma alma, e que pode ter tido seu prottipo em acontecimentos ocorridos entre membros das famlias Flechsig e Schreber 
h muito falecidos. Alegrar-nos-amos em saber mais sobre o significado desse 'assassinato de alma', mas nesse ponto nossas fontes mais uma vez recaem num silncio 
tendencioso: 'Quanto ao que constitui a verdadeira essncia do assassinato de alma, e  sua tcnica, se assim posso descrev-la, nada mais posso dizer alm do que 
j foi indicado. Existe apenas isto, talvez, a ser acrescentado....) (A passagem que se segue  imprpria para publicao.)' (28.) Em resultado dessa omisso, deixam-nos 
s escuras sobre a questo do que significa 'assassinato de alma'. Referir-nos-emos mais tarde [ver em [1]]  nica aluso ao assunto que escapou  censura.
         Seja como for, logo houve outra manifestao dos delrios de Schreber, que afetou suas relaes com Deus sem alterar as relaes com Flechsig. At ento, 
havia considerado Flechsig (ou melhor, a alma dele) seu nico inimigo verdadeiro e encarado Deus Todo-Poderoso como aliado; mas, agora no podia evitar o pensamento 
de que o Prprio Deus havia desempenhado o papel de cmplice, seno de instigador, na trama contra ele. (59.) Flechsig, contudo, permanecia sendo o primeiro sedutor, 
a cuja influncia Deus se havia rendido. (60.) Ele conseguira abrir caminho at o Cu, com toda a sua alma ou parte dela, e tornar-se 'lder dos raios', sem morrer 
ou passar por qualquer purificao preliminar. (56.) A alma de Flechsig continuou a representar esse papel mesmo aps o paciente ser removido da clnica de Leipzig 
para o asilo do Dr. Pierson. A influncia do novo ambiente foi demonstrada pelo fato de a alma de Flechsig reunir-se  alma do assistente-chefe, a quem o paciente 
reconheceu como uma pessoa que anteriormente morara no mesmo bloco de apartamentos que ele prprio. Esta foi descrita como sendo a alma de von W. A alma de Flechsig 
introduziu ento o sistema de 'diviso de almas', que assumiu grandes propores. Em determinada poca, chegou a haver de 40 a 60 subdivises da alma de Flechsig; 
duas de suas divises maiores eram conhecidas como o 'Flechsig superior' e o 'Flechsig mdio'. A alma de von W. (o assistente-chefe) comportava-se exatamente da 
mesma maneira. (111.) Era, s vezes, muito divertido observar a maneira pela qual essas duas almas, apesar de sua aliana, levavam adiante uma rixa mtua, com o 
orgulho aristocrtico de uma oposto  vaidade professoral da outra. (113.) No decorrer de suas primeiras semanas em Sonnestein (para onde foi finalmente removido 
no vero de 1894), a alma de seu novo mdico, Dr. Weber, entrou em jogo; e pouco aps ocorreu, no desenvolvimento de seus delrios, a reviravolta que viemos a conhecer 
com sua 'reconciliao'.
         
         Durante essa estada posterior em Sonnestein, quando Deus comeara a apreci-lo melhor, fez-se uma incurso sobre as almas, que se haviam multiplicado a 
ponto de se tornarem um aborrecimento. Em resultado, a alma de Flechsig sobreviveu sob apenas uma ou duas formas e a de von W. sob uma nica, que em breve desapareceu 
completamente. As divises da alma de Flechsig, que lentamente perderam tanto a inteligncia quanto o poder, passaram ento a ser descritas como o 'Flechsig posterior' 
e o 'Partido "Oh, bem!"'. Que a alma de Flechsig conservou sua importncia at o fim  demonstrado por Schreber no prembulo 'Carta Aberta ao Herr Geheimrat Prof. 
Dr. Flechsig'. 
         Nesse notvel documento, Schreber expressa sua firme convico de que o mdico que o influenciou teve as mesmas vises e recebeu as mesmas revelaes sobre 
coisas sobrenaturais que ele prprio. Protesta, j na primeira pgina, que o autor das Denkwrdigkeiten no tem a mais remota inteno de atacar a honra do mdico, 
e o mesmo argumento  sria e enfaticamente repetido nas apresentaes que o paciente faz de sua posio. (343, 445.)  evidente que se est esforando por distinguir 
a 'alma Flechsig' do homem vivo de mesmo nome, o Flechsig de seus delrios, do Flechsig real.
         O estudo de vrios casos de delrios de perseguio levou-me, bem como a outros pesquisadores,  opinio de que a relao entre o paciente e o seu perseguidor 
pode ser reduzida a frmula simples. Parece que a pessoa a quem o delrio atribui tanto poder e influncia, a cujas mos todos os fios da conspirao convergem, 
, se claramente nomeada, idntica a algum que desempenhou papel igualmente importante na vida emocional do paciente antes de sua enfermidade, ou facilmente reconhecvel 
como substituto dela. A intensidade da emoo  projetada sob a forma de poder externo, enquanto sua qualidade  transformada no oposto. A pessoa agora odiada e 
temida, por ser um perseguidor, foi, noutra poca, amada e honrada. O principal propsito da perseguio asseverada pelo delrio do paciente  justificar a modificao 
em sua atitude emocional.
         
         Mantendo esse ponto de vista em mente, examinemos agora as relaes que haviam anteriormente existido entre Schreber e seu mdico e perseguidor, Flechsig. 
J soubemos [ver em [1]] que, nos anos de 1884 e 1885, Schreber sofrera uma primeira crise de distrbio nervoso, que seguiu seu curso 'sem a ocorrncia de quaisquer 
indigentes que tocassem as raias do sobrenatural'. (35.) Enquanto se achava nesse estado, que foi descrito como 'hipocondria' e no parece ter ultrapassado os limites 
de uma neurose, Flechsig atuou como seu mdico. Nessa ocasio, Schreber passou seis meses na Clnica da Universidade, em Leipzig. Sabemos que, aps o restabelecimento, 
ele manteve sentimentos cordiais em relao ao mdico. 'O principal foi que, aps perodo bastante longo de convalescena, que passei viajando, fiquei finalmente 
curado; e, portanto, era impossvel que, quela poca, sentisse algo a no ser a mais viva gratido para com o Professor Flechsig. Expressei de forma acentuada esse 
sentimento no s em visita pessoal que subseqentemente lhe fiz quanto no que considerei serem honorrios apropriados.' (35-6.)  verdade que o encmio de Schreber 
nas Denkwrdigkeiten sobre esse primeiro tratamento de Flechsig no  inteiramente sem reservas; mas estas podem ser facilmente entendidas, se considerarmos que 
sua atitude, nesse meio tempo, fora alterada. A passagem imediatamente seguinte  que acabou de ser citada d testemunho da cordialidade original de seus sentimentos 
para com o mdico que o havia tratado com tanto sucesso: 'A gratido de minha esposa foi talvez ainda mais sincera, pois reverenciava o Professor Flechsig como o 
homem que lhe havia restitudo o marido; da ter ela, durante anos, mantido o retrato dele sobre a escrivaninha.' (36.)
         Visto no podermos conseguir nenhuma compreenso interna (insight) das causas da primeira doena (cujo conhecimento  sem dvida indispensvel para elucidar 
apropriadamente a segunda enfermidade, mais grave), temos agora de mergulhar ao acaso numa concatenao desconhecida de circunstncias. Durante o perodo de incubao 
de sua doena, como sabemos (isto , entre junho de 1893, quando foi nomeado para novo posto, e o outubro seguinte, quando assumiu seus encargos), ele sonhou repetidamente 
que seu antigo distrbio nervoso havia retornado. Alm disso, certa vez, quando se achava semi-adormecido, teve a impresso de que, afinal de contas, deveria ser 
bom ser mulher e submeter-se ao ato da cpula. Os sonhos e a fantasia so comunicados por Schreber em sucesso imediata; e, se tambm reunirmos o tema geral de ambos, 
poderemos inferir que, ao mesmo tempo em que rememorava a doena, uma recordao de seu mdico foi-lhe despertada na mente, e que a atitude feminina que assumiu 
na fantasia foi, desde o incio, dirigida para o mdico. Ou pode ser que o fato de o sonho de sua enfermidade haver retornado simplesmente expressasse algum anseio 
tal como 'Quisera poder ver Flechsig novamente!' A ignorncia do contedo mental da primeira doena barra nosso caminho nessa direo. Talvez ela houvesse deixado 
no paciente um sentimento de dependncia afetuosa do mdico, o qual havia agora, por alguma razo desconhecida, aumentado at chegar ao grau de intensidade de um 
desejo ertico. Essa fantasia feminina, que se havia conservado impessoal, defrontou-se imediatamente com um repdio indignado - um verdadeiro 'protesto masculino', 
para utilizar a expresso de Adler, mas num sentido diferente do seu. Na aguda psicose que irrompeu logo aps, porm, a fantasia feminina venceu todas as dificuldades; 
e s  preciso ligeira correo da impreciso paranica caracterstica do modo de expresso de Schreber, para permitir-nos adivinhar o fato de que o paciente temia 
um abuso sexual das mos do prprio mdico. A causa ativadora de sua doena, ento, foi uma manifestao de libido homossexual; o objeto desta libido foi provavelmente, 
desde o incio, o mdico, Flechsig, e suas lutas contra o impulso libidinal produziram o conflito que deu origem aos sintomas.
         Farei uma pausa aqui, por um momento, para enfrentar uma tempestade de protestos e objees. Quem quer que esteja familiarizado com o estado atual da psiquiatria 
deve estar preparado para enfrentar problemas.
         No constitui um ato de irresponsvel leviandade, uma indiscrio e uma calnia acusar um homem de posio tica to elevada quanto o ex-Senatsprsident 
Schreber, de homossexualismo? - No. O prprio paciente informou o mundo em geral de sua fantasia de ser transformado em mulher, e permitiu que todas as consideraes 
pessoais fossem superadas por interesses de natureza mais alta. Desse modo, ele prprio concedeu-nos o direito de ocupar-nos com sua fantasia, e, ao traduzi-la para 
a terminologia tcnica da medicina, no efetuamos a menor adio a seu contedo.
         'Sim, mas ele no estava em seu pleno juzo quando o fez. O delrio de estar sendo transformado em mulher era uma idia patolgica.' No esquecemos isso. 
Na verdade, nosso nico interesse  o significado e a origem dessa idia patolgica. Apelaremos para a distino que ele prprio traa entre o homem Flechsig e a 
'alma Flechsig'. No lhe estamos fazendo censuras de espcie alguma, quer por ter tido impulsos homossexuais quer por ter-se esforado por suprimi-los. Os psiquiatras 
deveriam, pelo menos, tirar uma lio desse paciente, ao v-lo tentando, apesar de seus delrios, no confundir o mundo do inconsciente com o da realidade.
         'Mas em parte alguma acha-se expressamente afirmado que a transformao em mulher que ele tanto temia devesse realizar-se em benefcio de Flechsig.' Isso 
 verdade e no  difcil compreender que, ao preparar suas memrias para publicao, visto estar ansioso por no insultar o 'homem Flechsig', ele evitasse acusao 
to grosseira. Mas a moderao de sua linguagem, devido a essas consideraes, no chega ao ponto de poder esconder o verdadeiro significado da acusao. Na verdade, 
pode-se sustentar que, afinal de contas, ela se acha visivelmente expressa numa passagem como a seguinte: 'Desse modo, uma conspirao contra mim foi levada ao ponto 
culminante (por volta de maro ou abril de 1894). Seu objetivo era conseguir que, uma vez minha doena nervosa houvesse sido reconhecida como incurvel ou assim 
admitida, eu fosse entregue a certa pessoa de maneira que minha alma lhe fosse entregue, mas meu corpo... fosse transformado num corpo feminino e como tal entregue 
 pessoa em apreo, com vistas a abusos sexuais... (56.)  desnecessrio observar que no  sequer nomeado algum outro indivduo que pudesse ser colocado no lugar 
de Flechsig. Perto do fim da estada de Schreber na clnica de Leipzig, veio-lhe  mente o temor de que ele 'deveria ser jogado aos assistentes' para fins de abusos 
sexuais. (98.) Quaisquer dvidas remanescentes sobre a natureza do papel originalmente atribudo ao mdico dissipam-se quando, nos estgios posteriores de seu delrio, 
vemos Schreber admitir abertamente sua atitude feminina para com Deus. A outra acusao contra Flechsig ecoa excessivamente alto por todo o livro, Flechsig, diz, 
tentou cometer assassinato de alma contra ele. Como j sabemos [Ver a partir de [1].], o prprio paciente no foi claro quanto  natureza real desse crime, mas a 
mesma estava ligada a questes de discrio que impediram sua publicao (como percebemos pelo terceiro captulo suprimido). A partir deste ponto, um nico fio conduz-nos 
 frente. Schreber ilustra a natureza do assassinato de alma referindo-se s lendas corporificadas no Fausto de Goethe, no Manfred de Byron, no Freichtz de Weber 
etc. (22), e um desses casos  citado em outra passagem, mais adiante. Ao examinar a diviso de Deus em duas pessoas, Schreber identifica seu 'Deus inferior' e 'Deus 
superior' com Arim e Ormuzd, respectivamente (19); e, pouco depois, ocorre uma nota de rodap casual: 'Alm disso, o nome de Arim tambm aparece em vinculao 
com um assassinato de alma no Manfred de Byron, por exemplo.' (20.) Na pea mencionada, dificilmente existe algo comparvel  barganha da alma de Fausto, e procurei 
em vo a expresso 'assassinato de alma'. Mas a essncia e o segredo de toda a obra residem numa relao incestuosa entre irmo e irm. E aqui nosso fio se rompe 
abruptamente. 
         Em estdio posterior deste trabalho, pretendo retornar ao exame de algumas outras objees; entrementes, porm, considerar-me-ei justificado em manter a 
opinio de que a base da molstia de Schreber foi a irrupo de um impulso homossexual. Esta hiptese se harmoniza com importante pormenor da histria clnica, que 
do contrrio permanece inexplicvel. O paciente teve novo 'colapso nervoso', que exerceu efeito decisivo sobre o curso de sua doena, na ocasio em que sua esposa 
estava tirando umas pequenas frias por causa da prpria sade. At ento, ela havia passado diversas horas com ele todo dia e feito as refeies de meio-dia com 
ele. Entretanto, quando retornou aps uma ausncia de quatro dias, encontrou-o muito tristemente alterado, tanto, na verdade, que ele prprio no mais queria v-la. 
'O que determinou particularmente meu colapso mental foi uma noite especfica, durante a qual tive um nmero extraordinrio de emisses - positivamente meia-dzia, 
todas naquela noite.' (44.)  fcil compreender que a simples presena da esposa deve ter atuado como proteo contra o poder atrativo dos homens a seu redor, e, 
se estivermos preparados para admitir que uma emisso no pode ocorrer num adulto sem algum acompanhamento mental, poderemos suplementar as emisses do paciente 
naquela noite presumindo que elas se fizeram acompanhar de fantasias homossexuais que permaneceram inconscientes.
         A razo de essa irrupo de libido homossexual ter dominado o paciente exatamente nesse perodo (isto , entre as datas de sua nomeao e da mudana para 
Dresden) no pode ser explicada na ausncia de um conhecimento mais preciso da histria de sua vida. Falando de modo geral, todo ser humano oscila, ao longo da vida, 
entre sentimentos heterossexuais e homossexuais e qualquer frustrao ou desapontamento numa das direes pode impulsion-lo para outra. Nada sabemos desses fatores 
no caso de Schreber, mas no devemos deixar de chamar ateno para um fator somtico que pode muito bem ter sido relevante. Na poca dessa doena, o Dr. Schreber 
contava 51 anos e, portanto, atingira uma idade de importncia decisiva na vida sexual.  um perodo no qual, nas mulheres, a funo sexual, aps uma fase de atividade 
intensificada, ingressa num processo de involuo de grandes conseqncias; tampouco os homens parecem estar isentos de sua influncia, pois tanto eles quanto as 
mulheres esto sujeitos a um 'climatrio' e s suscetibilidades a doena que o acompanham.
         Bem posso imaginar que hiptese dbia deve parecer a suposio de que o sentimento amistoso de um homem para com seu mdico possa repentinamente surgir 
sob forma intensificada, aps um lapso de oito anos, e ocasionar to grave doena mental. Mas no acho que seja justo pr de lado tal hiptese simplesmente por causa 
de sua inerente improbabilidade, se ela se recomenda a ns por outros motivos; devemos antes indagar at onde chegaremos, se a seguirmos. Pois a improbabilidade 
pode ser de tipo passageiro e devido ao fato de a hiptese duvidosa ainda no ter sido relacionada com outras parcelas de conhecimento, e de ser ela a primeira hiptese 
com que o problema foi abordado. Mas, em benefcio daqueles que so incapazes de manter o julgamento em suspenso e que encaram nossa hiptese como inteiramente insustentvel, 
 fcil sugerir uma possibilidade que a despojaria de seu carter desconcertante. O sentimento amistoso do paciente para com o mdico bem se pode ter devido a um 
processo de 'transferncia', por meio do qual uma catexia emocional se transps de alguma pessoa que lhe era importante para o mdico que, na realidade, era-lhe 
indiferente; de maneira que o ltimo ter sido escolhido como representante ou substituto de algum muito mais chegado ao paciente. Para colocar o assunto de forma 
mais concreta: o paciente lembrou-se de seu irmo ou de seu pai ante a figura do mdico; redescobriu-os nele; ento, no causar espanto que, em certas circunstncias, 
um anseio pela figura substituta reaparecesse nele e operasse com uma violncia que s pode ser explicada  luz de sua origem e significao primria.
         Com o fito de acompanhar essa tentativa de explicao, naturalmente achei que valeria a pena descobrir se o pai do paciente ainda se achava vivo  poca 
em que ele caiu doente, se tivera um irmo e, nesse caso, se ainda se achava vivo ou entre os 'abenoados'. Fiquei satisfeito, portanto, quando, aps prolongada 
busca pelas pginas das Denkwrdigkeiten, deparei por fim com uma passagem em que o paciente aplaca estas dvidas: 'A memria de meu pai e meu irmo...  to sagrada 
para mim como...' etc. (442.) De modo que ambos eram falecidos por ocasio do desencadeamento de sua segunda doena (e,  possvel, tambm da primeira). 
         No levantaremos, portanto, penso eu, novas objees  hiptese de que a causa ativadora da enfermidade foi o aparecimento de uma fantasia feminina (isto 
, homossexual passiva) de desejo, que tomou por objeto a figura do mdico. Uma resistncia intensa a esta fantasia surgiu por parte da personalidade de Schreber, 
e a luta defensiva que se seguiu, e que talvez pudesse ter assumido alguma outra forma, tomou, por razes que nos so desconhecidas, a forma de delrio de perseguio. 
A pessoa por que agora ansiava tornou-se seu perseguidor, e a essncia da fantasia de desejo tornou-se a essncia da perseguio. Pode-se presumir que o mesmo delineamento 
esquemtico se tornar aplicvel a outros casos de delrios de perseguio. O que distingue o caso de Schreber dos outros, contudo,  seu desenvolvimento ulterior, 
e a transformao que sofreu no decurso deste.
         
         Uma das modificaes foi a substituio de Flechsig pela figura superior de Deus. Isto parece, a princpio, um sinal de agravamento do conflito, uma intensificao 
da perseguio insuportvel, mas logo se torna evidente que preparava o caminho para a segunda mudana, e, com esta, a soluo do conflito. Era impossvel para Schreber 
resignar-se a representar o papel de uma devassa para com seu mdico, mas a misso de fornecer ao Prprio Deus as sensaes voluptuosas que Este exigia no provocava 
tal resistncia por parte de seu ego. A emasculao, agora, no era mais uma calamidade; tornava-se 'consonante com a Ordem das Coisas', assumia seu lugar numa grande 
cadeia csmica de eventos e servia de instrumento para a recriao da humanidade, aps a extino desta. 'Uma nova raa de homens, nascida do esprito de Schreber', 
assim pensava ele, reverenciaria como ancestral esse homem que se acreditava vtima de perseguio. Por esse meio, fornecia-se uma sada que satisfaria ambas as 
foras em contenda. Seu ego encontrava satisfao na megalomania, enquanto que sua fantasia feminina de desejo avanava e tornava-se aceitvel. A luta e a doena 
podiam cessar. O senso de realidade do paciente, contudo, que nesse meio tempo tornara-se mais forte, compelia-o a adiar a soluo do presente para o futuro remoto, 
e a contentar-se com o que poderia ser descrito como uma realizao de desejo assinttica. A qualquer momento, previa ele, sua transformao em mulher ocorreria; 
at ento, a personalidade do Dr. Schreber permaneceria indestrutvel.
         Em compndios de psiquiatria, freqentemente deparamos com afirmaes segundo as quais a megalomania pode desenvolver-se a partir de delrios de perseguio. 
Imagina-se que o processo seja o seguinte: o paciente  primariamente vtima de um delrio de estar sendo perseguido por foras de mximo poder. Sente ento necessidade 
de explicar isto a si prprio e, dessa maneira, ocorre-lhe a idia de que ele prprio  personagem muito eminente e digna de tal perseguio. O desenvolvimento da 
megalomania  assim atribudo, pelos livros didticos, a um processo que (tomando de emprstimo a Ernest Jones [1908] uma palavra til) podemos descrever como 'racionalizao'. 
Mas atribuir conseqncias afetivas to importantes a uma racionalizao , segundo nos parece, procedimento inteiramente no psicolgico e, conseqentemente, traaramos 
a diviso ntida entre nossa opinio e aquela que citamos, dos livros didticos. No estamos reivindicando, por enquanto, conhecer a origem da megalomania. 
         
         Voltando mais uma vez ao caso de Schreber, somos obrigados a admitir que qualquer tentativa de lanar luz sobre a transformao de seu delrio faz-nos defrontar 
com dificuldades extraordinrias. De que maneira e por que meios foi realizada a ascenso de Flechsig para Deus? De que fonte derivou ele a megalomania que to afortunadamente 
o capacitou a resignar-se a essa perseguio, ou em fraseologia analtica, a aceitar a fantasia de desejo que tivera de ser reprimida? As Denkwrdkeiten do-nos 
uma primeira pista, pois mostram-nos que, na mente do paciente, 'Flechsig' e 'Deus' pertenciam  mesma classe. Numa de suas fantasias, ele escutou por acaso uma 
conversa entre Flechsig e a esposa deste, na qual o primeiro asseverava ser 'Deus Flechsig', de modo que a esposa pensou que ele ficara louco. (82.) Mas h outro 
aspecto no desenvolvimento dos delrios de Schreber que exige nossa ateno. Se efetuarmos um levantamento das iluses como um todo, veremos que o perseguidor se 
acha dividido em Flechsig e Deus; exatamente da mesma maneira, o prprio Flechsig, subseqentemente, cinde-se em duas personalidades, o 'superior' e o 'mdio' Flechsig 
[ver em [1]], e Deus, em Deus 'inferior' e 'superior'. Nos estgios posteriores da doena, a decomposio de Flechsig progride ainda mais. (193.) Um processo de 
decomposio desse tipo  muito caracterstico da parania. A parania decompe, tal como a histeria condensa. Ou antes, a parania reduz novamente a seus elementos 
os produtos das condensaes e identificaes realizadas no inconsciente. A freqente repetio do processo de decomposio no caso de Schreber seria, de acordo 
com Jung, expresso da importncia que a pessoa em apreo possua para ele. Toda essa diviso de Flechsig e Deus em certo nmero de pessoas possua assim o mesmo 
significado que a ciso do perseguidor em Flechsig e Deus. Todas eram duplicaes do mesmo importante relacionamento. Mas, a fim de interpretar todos estes pormenores, 
temos ainda de chamar ateno para nossa viso da decomposio do perseguidor em Flechsig e Deus como uma reao paranide a uma identificao previamente estabelecida 
das duas figuras ou a pertencerem elas  mesma classe. Se o perseguidor Flechsig fora originalmente uma pessoa a quem Schreber amara, ento tambm Deus deveria ser 
simplesmente o reaparecimento de algum mais que ele amara, e, provavelmente, algum de maior importncia.
         Se acompanharmos essa seqncia de pensamento, que parece ser legtima, seremos levados  concluso de que esta outra pessoa deve ter sido seu pai; isso 
torna ainda mais claro que Flechsig deve ter representado o irmo, que, esperemos, pode ter sido mais velho que ele prprio. A fantasia feminina, que despertou uma 
oposio to violenta no paciente, tinha assim suas razes num anseio, intensificado at um tom ertico, pelo pai e pelo irmo. Esse sentimento, na medida em que 
se referia ao irmo, passou, por um processo de transferncia, para o mdico, Flechsig; e, quando foi devolvido ao pai, chegou-se a uma estabilizao do conflito.
         No acharemos que tivemos razo de introduzir assim o pai de Schreber em seus delrios, a menos que a nova hiptese mostre, ela prpria, ser de alguma utilidade 
para compreenso do caso e a elucidao de pormenores dos delrios que ainda so ininteligveis. Recordar-se- que o Deus de Schreber e as relaes deste com Ele 
exibiam as caractersticas mais curiosas: como apresentavam uma estranha mistura de crtica blasfema e insubordinao amotinada, por um lado, e de devoo reverente, 
por outro. Deus, segundo ele, sucumbira  influncia desencaminhadora de Flechsig: era incapaz de aprender qualquer coisa pela experincia e no compreendia os homens 
vivos, porque s sabia lidar com cadveres, e manifestava o Seu poder numa sucesso de milagres que, por espantosos que fossem, eram, todavia, fteis e ridculos.
         Ora, o pai do Senatsprsident Dr. Schreber no era pessoa insignificante. Era o Dr. Daniel Gottlob Moritz Schreber, cuja memria  mantida viva at os dias 
de hoje pelas numerosas Associaes Schreber que florescem especialmente na Saxnia; e, alm disso, era mdico. Suas atividades em favor da promoo da criao harmoniosa 
dos jovens, de assegurar uma coordenao entre a educao no lar e na escola, de introduzir a cultura fsica e o trabalho manual com vistas a elevar os padres de 
sade, tudo isto exerceu influncia duradoura sobre seus contemporneos. Sua grande reputao como fundador da ginstica teraputica na Alemanha  ainda comprovada 
pela ampla circulao de seus rztliche Zimmergymnastik nos crculos mdicos e pelas numerosas edies que teve. 
         Um pai como esse de maneira alguma seria inadequado para a transfigurao em Deus na lembrana afetuosa do filho de quem to cedo havia sido separado pela 
morte.  verdade que no podemos deixar de achar que existe um abismo intransponvel entre a personalidade de Deus e a de qualquer ser humano, por eminente que este 
possa ser, mas devemos lembrar que isto nem sempre foi assim. Os deuses dos povos da antiguidade achavam-se em relacionamento humano mais estreito com eles. Os romanos 
costumavam deificar seus imperadores mortos, como questo de rotina, e o Imperador Vespasiano, homem sensato e competente, exclamou quando pela primeira vez caiu 
doente: 'Ai de mim! Parece-me que me estou transformando em Deus!'
         Estamos perfeitamente familiarizados com a atitude infantil dos meninos para com o pai; ela se compe da mesma mistura de submisso reverente e insubordinao 
amotinada que encontramos na relao de Schreber com o seu Deus, e  o prottipo inequvoco dessa relao, fielmente copiada dela. Mas a circunstncia de o pai de 
Schreber ter sido mdico, e mdico dos mais eminentes, que sem dvida foi muito respeitado por seus pacientes,  que explica as caractersticas mais notveis de 
seu Deus e aquelas sobre as quais se demora, de maneira to crtica. Poderia um escrnio mais acerbo ser demonstrado por um mdico, do que declarar que ele nada 
compreende sobre os homens vivos e s sabe lidar com cadveres? Sem dvida, constitui atributo essencial de Deus realizar milagres, mas um mdico os realiza tambm; 
ele efetua curas miraculosas, como seus clientes entusisticos proclamam. De maneira que, quando vemos que esses prprios milagres (para os quais o material foi 
fornecido pela hipocondria do paciente) mostram ser incrveis, absurdos e, at certo ponto, positivamente ridculos, lembramo-nos da assero feita em A Interpretao 
de Sonhos, de que o absurdo nos sonhos expressa ridculo e derriso. Evidentemente, portanto, ele  utilizado com os mesmos propsitos na parania. Com referncia 
a algumas das outras censuras que ele dirige contra Deus, tais como, por exemplo, a de que nada aprendeu pela experincia,  natural supor que constituem exemplos 
do mecanismo tu quoque empregado pelas crianas, que, quando recebem uma reprovao, dirigem-na de volta, inalterada,  pessoa que a originou. Semelhantemente, as 
vozes do-nos fundamentos para suspeitar que a acusao de assassinato de alma levantada contra Flechsig foi, desde o incio, uma auto-acusao. 
         Encorajados pela descoberta de que a profisso do pai auxilia a explicar as peculiaridades do Deus de Schreber, aventurar-nos-emos agora a uma interpretao 
que pode lanar certa luz sobre a extraordinria estrutura desse Ser. O mundo celestial consistia, como sabemos, nos 'domnios anteriores de Deus', tambm chamados 
de 'ante-salas do Cu' e que continham as almas dos mortos, e de deus 'inferior' e Deus 'superior' que, juntos, constituam os 'domnios posteriores de Deus'. (19.) 
[ver em [1]]. Embora devamos estar preparados para descobrir que existe aqui uma condensao que no poderemos solucionar, todavia vale a pena referir-nos a uma 
pista que j se acha em nossas mos. Se os pssaros 'miraculados', que se demonstrou serem moas, foram originalmente ante-salas do Cu [ver em [1]], no poder 
acontecer que os domnios anteriores de Deus e as ante-salas do Cu devam ser encarados como smbolo do que  feminino, e os domnios posteriores de Deus, do que 
 masculino? Se tivssemos certeza de que o irmo falecido de Schreber era mais velho que ele, poderamos supor que a decomposio de Deus em inferior e superior 
expressava a recordao do paciente de que, aps a morte prematura do pai, o irmo mais velho ocupara seu lugar. 
         Com relao a isso, finalmente, gostaria de chamar a ateno para o tema do Sol, o que, atravs de seus 'raios', veio a ter tanta importncia na expresso 
dos delrios. Schreber mantm uma relao bastante peculiar com o Sol. Este lhe fala em linguagem humana, e assim se lhe revela como um ser humano, ou como o rgo 
de um ser superior, que est por trs dele. (9.) Somos informados, por um relatrio mdico, de que, em determinada ocasio, Schreber 'costumava gritar-lhe ameaas 
e insultos, e positivamente berrar com ele' (382) e gritar-lhe que deveria rastejar para longe e esconder-se. Ele prprio nos conta que o Sol empalidece na sua frente. 
A maneira pela qual o Sol se encontra ligado a seu destino  demonstrada pelas importantes alteraes que aquele experimenta logo que ele sofre mudanas, assim como, 
por exemplo, durante suas primeiras semanas em Sonnenstein. (135.) Schreber facilita-nos a interpretao deste seu mito solar. Ele identifica o Sol diretamente com 
Deus, s vezes com o Deus inferior (Arim), outras com o superior. 'No dia seguinte... vi o Deus superior (Ormuzd), e desta vez no com meus olhos espirituais, mas 
com os corporais. Era o Sol, mas no o Sol em seu aspecto comum, como  conhecido de todos os homens; era...' (137-8.) Portanto, no  mais que coerente de sua parte 
trat-lo do mesmo modo que trata o Prprio Deus.
         O Sol, por conseguinte, nada mais  que outro smbolo sublimado do pai, e, salientando isto, devo declinar de toda responsabilidade pela monotonia das solues 
fornecidas pela psicanlise. Neste caso, o simbolismo ignora o gnero gramatical, pelo menos no que concerne ao alemo, pois na maioria das outras lnguas o Sol 
 masculino. Seu correspondente neste quadro dos dois pais  a 'Terra Me', como  geralmente chamada. Freqentemente deparamos com confirmaes dessa afirmao, 
ao solucionar as fantasias patognicas dos neurticos por meio da psicanlise. No posso fazer mais que simples aluso  relao de tudo isso com os mitos csmicos. 
Um de meus pacientes, que perdera o pai muito cedo, estava sempre procurando redescobri-lo no que era grande e sublime na Natureza. Desde que soube disto, pareceu-me 
provvel que o hino de Nietzsche, 'Vor Sonnenaufgang' ('Antes do Amanhecer'), constitua expresso do mesmo anseio. Outro paciente, que se tornou neurtico aps a 
morte do pai, foi acometido da primeira crise de ansiedade e tonturas quando o Sol resplandeceu sobre ele, no momento em que estava trabalhando no jardim com uma 
p. Apresentou espontaneamente, como interpretao, o fato de se ter assustado porque o pai o olhara enquanto trabalhava na me com um instrumento pontudo. Quando 
me aventurei a uma suave admoestao, deu ar de maior plausibilidade  sua opinio dizendo que, mesmo em vida do pai, ele o havia comparado ao Sol, ainda que em 
sentido satrico. Sempre que lhe perguntavam onde seu pai ia passar o vero, respondia nestas sonoras palavras do 'Prlogo no Cu': 
         Und seine vorgeschrieb'ne ReiseVollendet er mit Donnergang. 
         O pai, a conselho mdico, costumava fazer uma visita anual a Marienbad. A atitude infantil deste paciente para com ele manifestou-se em duas fases sucessivas. 
Enquanto o pai estava vivo, revelou-se em rebeldia indomvel e franca discrdia, mas, imediatamente aps sua morte, assumiu a forma de uma neurose baseada em submisso 
abjeta e obedincia tardia para com ele.
         Assim, no caso de Schreber, mais uma vez encontramo-nos no terreno familiar do complexo paterno. A luta do paciente com Flechsig revelou-se a ele como um 
conflito com Deus, e temos portanto de explic-la como um conflito infantil com o pai que amava; os pormenores desde conflito (sobre o qual nada sabemos) foram o 
que determinou o contedo de seus delrios. Nenhum material que, em outros casos dessa natureza,  revelado pela anlise, acha-se ausente no caso atual: todo elemento 
 sugerido, de uma maneira ou de outra. Em experincia infantis como essa, o pai interfere com a satisfao que a criana est tentando obter; esta  geralmente 
de carter auto-ertico, embora, posteriormente, seja amide substituda na fantasia por alguma outra satisfao de tipo menos inglrio. No estgio final do delrio 
de Schreber, vitria magnfica foi alcanada pelo impulso sexual infantil, pois a voluptuosidade tornou-se temente a Deus e o Prprio Deus (o pai) nunca se cansava 
de exigi-la dele. A ameaa paterna mais temida, a castrao, na realidade forneceu o material para sua fantasia de desejo (a princpio combatida mas depois aceita) 
de ser transformado em mulher. Sua aluso a um delito acobertado pela idia substituta de 'assassinato de alma' no poderia ser mais transparente. Descobriu-se que 
o assistente-chefe era idntico a seu vizinho von W. [Ver a partir de [1].], que, conforme as vozes, havia-o falsamente acusado de masturbao. (108.) As vozes diziam, 
como se fornecendo fundamentos para a ameaa de castrao: 'Pois voc deve ser representado como sendo dado a excessos voluptuosos.' (127-8.) Finalmente, chegamos 
ao pensamento forado (47) a que o paciente se submeteu porque supunha que Deus acreditaria que ele se havia tornado idiota e se afastaria dele se deixasse de pensar 
por um s momento. [Ver em [1].] Trata-se de reao (com a qual estamos tambm familiarizados, sob outros aspectos)  ameaa ou temor de perder a razo por entregar-se 
a prticas sexuais e, especialmente,  masturbao. Considerando o enorme nmero de idias delirantes de natureza hipocondraca que o paciente desenvolveu, talvez 
no se deva dar grande importncia ao fato de algumas delas coincidirem, palavra por palavra, com os temores hipocondracos dos masturbadores.
         Qualquer um que fosse mais audacioso do que eu em efetuar interpretaes, ou estivesse em contato com a famlia de Schreber e, conseqentemente, mais familiarizado 
com a sociedade em que se movimentava e com os pequenos fatos de sua vida, acharia fcil remontar inumerveis pormenores de seus delrios s fontes e descobrir assim 
seu significado; e isso apesar da censura a que as Denkwrdigkeiten foram submetidas. Sendo como , porm, devemos necessariamente contentar-nos com este enevoado 
esboo do material infantil que foi utilizado pelo distrbio paranico ao retratar o conflito atual.
         Talvez me seja permitido acrescentar umas poucas palavras, com vistas a estabelecer as causas deste conflito que irrompeu em relao  fantasia feminina 
de desejo. Como sabemos, quando uma fantasia feminina de desejo aparece, nossa tarefa  associ-la com alguma frustrao, alguma privao na vida real. Ora, Schreber 
admite haver sofrido privao deste tipo. Seu casamento, que descreve como feliz, sob outros aspectos, no lhe deu filhos; e, em particular, no lhe trouxe filho 
homem que poderia t-lo consolado da perda do pai e do irmo e sobre quem poderia ter drenado suas afeies homossexuais insatisfeitas. Sua linha familiar ameaava 
perecer e parece que ele sentia bastante orgulho de seu nascimento e linhagem: 'Tanto os Flechsigs quanto os Schrebers eram membros da "mais alta nobreza do Cu", 
como diz a expresso. Os Schrebers, em particular, portavam o ttulo de "Margraves da Toscana e Tasmnia"; pois as almas, instigadas por algum tipo de vaidade pessoal, 
tm o costume de adornar-se com ttulos um tanto antissonantes, tomados de emprstimos a este mundo.' (24.) O grande Napoleo obteve divrcio de Josefina (embora 
somente aps graves lutas internas) porque ela no poderia propagar a dinastia. O Dr. Schreber pode ter formado uma fantasia de que, se fosse mulher, trataria o 
assunto de ter filhos com mais sucesso; e pode ter assim retornado  atitude feminina em relao ao pai que apresentaria nos primeiros anos de sua infncia. Se assim 
fosse, ento o delrio de que, por causa de sua emasculao, o mundo se povoaria de 'uma nova raa de homens nascidos no esprito de Schreber' (288) - delrio cuja 
realizao continuamente adiava para um futuro cada vez mais remoto - teria tambm a inteno de oferecer-lhe uma sada para sua falta de filhos. Se os 'homenzinhos' 
que o prprio Schreber acha to enigmticos fossem crianas, ento no teramos dificuldade em compreender por que se achavam reunidos em to grande nmero em sua 
cabea (158): eles eram, verdadeiramente, os 'filhos de seu esprito'.
         
         III - SOBRE O MECANISMO DA PARANIA
         
         Estivemos at aqui lidando com o complexo paterno, elemento dominante no caso de Schreber, e com a fantasia de desejos em torno da qual a doena se centralizou. 
Mas, em tudo isso, nada existe de caracterstico da enfermidade conhecida como parania, nada que no possa ser encontrado (e que no tenha sido, em verdade, encontrado) 
em outros tipos de neuroses. O carter distintivo da parania (ou da dementia paranoides) deve ser procurar alhures, a saber, na forma especfica assumida pelos 
sintomas; e esperamos descobrir que esta  determinada, no pela natureza dos prprios complexos, mas pelo mecanismo mediante o qual os sintomas so formados ou 
a represso  ocasionada. Tenderamos a dizer que caracteristicamente paranico na doena foi o fato de o paciente, para repelir uma fantasia de desejo homossexual, 
ter reagido precisamente com delrios de perseguio desta espcie.
         Estas consideraes emprestam, portanto, peso adicional  circunstncia de que somos, na realidade, levados pela experincia a atribuir s fantasias de 
desejo homossexuais uma relao ntima (talvez invarivel) com essa forma especfica de enfermidade. Duvidando de minha prpria experincia no assunto, durante os 
ltimos anos reuni-me a meus amigos C.G. Jung, de Zurique, e Sndor Ferenczi, de Budapest, para pesquisar, sob esta nica caracterstica, certo nmero de casos de 
distrbio paranide que tinham estado sob observao. Os pacientes cujas histrias forneceram o material para esta pesquisa incluam tanto homens quanto mulheres 
e variavam quanto  raa, ocupao e posio social. Ainda assim, ficamos estupefatos ao descobrir que, em todos esses casos, uma defesa contra o desejo homossexual 
era claramente identificvel no prprio centro do conflito subjacente  molstia, e que fora numa tentativa de dominar uma corrente inconscientemente reforada de 
homossexualismo que todos eles haviam fracassado. Isso certamente no era o que havamos esperado. A parania constitui exatamente um distrbio no qual a etiologia 
sexual de maneira alguma  bvia; longe disso, as caractersticas notavelmente relevantes na origem da parania, particularmente entre indivduos do sexo masculino, 
so as humilhaes e desconsideraes sociais. Mas, se nos aprofundarmos apenas um pouco mais no assunto, poderemos perceber que o fator realmente eficaz nessas 
afrontas sociais reside na parte que nelas desempenham os componentes homossexuais da vida emocional. Enquanto o indivduo age normalmente e , por conseguinte, 
impossvel perscrutar as profundezas de sua vida psquica, podemos duvidar que suas relaes emocionais com o prximo na sociedade tenham algo a ver com a sexualidade, 
concretamente ou em sua gnese. Mas os delrios nunca deixam de revelar estas relaes e de remontar os sentimentos sociais s suas razes num desejo ertico positivamente 
sensual. Enquanto foi sadio, tambm o Dr. Schreber, cujos delrios culminaram por uma fantasia de desejo de natureza inequivocamente homossexuais, no havia, segundo 
afirmam todos, demonstrado quaisquer sinais de homossexualismo no sentido comum da palavra.
         Esforar-me-ei agora (e penso que a tentativa no  desnecessria nem injustificvel) por demonstrar que o conhecimento dos processos psicolgicos, que 
graas  psicanlise hoje possumos, j nos permite compreender o papel desempenhado por um desejo homossexual no desenvolvimento da parania. Pesquisas recentes 
dirigiram nossa ateno para um estdio do desenvolvimento da libido, entre o auto-erotismo e o amor objetal. Este estdio recebeu o nome de narcisismo. O que acontece 
 o seguinte: chega uma ocasio, no desenvolvimento do indivduo, em que ele rene seus instintos sexuais (que at aqui haviam estado empenhados em atividades auto-erticas), 
a fim de conseguir um objeto amoroso; e comea por tomar a si prprio, seu prprio corpo, como objeto amoroso, sendo apenas subseqentemente que passa da para a 
escolha de alguma outra pessoa que no ele mesmo, como objeto. Essa fase eqidistante entre o auto-erotismo e o amor objetal pode, talvez, ser indispensvel normalmente; 
mas parece que muitas pessoas se demoram por tempo inusitadamente longo nesse estado e que muitas de suas caractersticas so por elas transportadas para os estdios 
posteriores de seu desenvolvimento. De importncia principal no eu (self) do sujeito assim escolhido como objeto amoroso j podem ser os rgos genitais. A linha 
de desenvolvimento, ento, conduz  escolha de um objeto externo com rgos genitais semelhantes - isto , a uma escolha objetal homossexual - e da ao heterossexualismo. 
As pessoas que se tornam homossexuais manifestas mais tarde, nunca se emanciparam, pode-se presumir, da condio obrigatria de que o objeto de sua escolha deve 
possuir rgos genitais como os seus; e, com relao a isto, as teorias sexuais infantis que atribuem o mesmo tipo de rgos genitais a ambos os sexos exercem muita 
influncia. [Cf. Freud, 1908c.]
         Aps o estdio de escolha objetal heterossexual ter sido atingido, as tendncias homossexuais no so, como se poderia supor, postas de lado ou interrompidas; 
so simplesmente desviadas de seu objetivo sexual e aplicadas a novas utilizaes. Combinam-se agora com partes dos instintos do ego e, como componentes 'ligados', 
ajudam a constituir os instintos sociais, contribuindo assim como um fator ertico para a amizade e a camaradagem, para o esprit de corps e o amor  humanidade em 
geral. Quo grande  a contribuio realmente derivada de fontes erticas (com o objetivo sexual inibido) dificilmente poder-se-ia adivinhar pelas relaes sociais 
normais da humanidade. Mas no  irrelevante observar que so precisamente os homossexuais manifestos, e entre eles exatamente aqueles que se colocam contra a tolerncia 
quanto a atos sensuais, que se distinguem por participao particularmente ativa nos interesses gerais da humanidade - interesses que por si mesmo se originaram 
de uma sublimao de instintos erticos.
         Em meus Trs Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade [Ver em [1], 1972], expressei a opinio de que cada estdio no desenvolvimento da psicossexualidade fornece 
uma possibilidade de 'fixao', e, assim, de um ponto disposicional. As pessoas que no se libertaram completamente do estdio de narcisismo - que, equivale a dizer, 
tm nesse ponto uma fixao que pode operar como disposio para uma enfermidade posterior - acham-se expostas ao perigo de que alguma vaga de libido excepcionalmente 
intensa, no encontrando outro escoadouro, possa conduzir a uma sexualizao de seus instintos sociais e desfazer assim as sublimaes que haviam alcanado no curso 
de seu desenvolvimento. Este resultado pode ser produzido por qualquer coisa que faa a libido fluir regressivamente (isto , que causa uma 'regresso'): quer, por 
um lado, a libido se torne colateralmente reforada, devido a algum desapontamento com uma mulher, ou seja diretamente represada devido a um infortnio nas relaes 
sociais com outros homens, ambos os casos sendo exemplos de 'frustrao'; quer, por outro lado, haja uma intensificao geral da libido, de maneira que ela se torne 
poderosa demais para encontrar um escoadouro ao longo dos canais que j lhe esto abertos, e, conseqentemente, irrompa por suas margens no ponto mais fraco. Visto 
nossas anlises demonstrarem que os paranicos se esforam por proteger-se contra esse tipo de sexualizao de suas catexias sociais instintuais, somos levados a 
supor que o ponto fraco em seu desenvolvimento deve ser procurado em algum lugar entre os estdios de auto-erotismo, narcisismo e homossexualismo, e que sua disposio 
 enfermidade (que talvez seja suscetvel de definio mais precisa) deve estar localizada nessa regio. Uma disposio semelhante teria de ser atribuda aos pacientes 
que sofrem da demncia precoce de Kraepelin ou de (como Bleuler a denominou) esquizofrenia; e esperamos, posteriormente, encontrar pistas que nos permitam remontar 
s diferenas entre os dois distrbios (com referncia tanto  forma que assumem quanto ao curso que seguem) a diferenas correspondentes nas fixaes disposicionais 
dos pacientes.
         Assumindo ento o ponto de vista de que o que jaz no cerne do conflito, nos casos de parania entre indivduos do sexo masculino,  uma fantasia de desejo 
homossexual de amar um homem, certamente no esqueceremos que a confirmao de hiptese to importante s pode decorrer da investigao de um grande nmero de exemplos 
de toda espcie de distrbio paranide. Temos, portanto, de estar preparados, se preciso for, para limitar nossa assertiva a um nico tipo de parania. No obstante, 
constitui fato notvel que as principais formas de parania conhecidas podem ser todas representadas como contradies da proposio nica 'eu (um homem) o amo (um 
homem)', e que, na verdade, exaurem todas as maneiras possveis em que tais contradies poderiam ser formuladas.
         A proposio 'eu (um homem) o amo'  contraditada por: 
         (a) Delrios de perseguio, pois eles ruidosamente asseveram:
         'Eu no o amo - Eu o odeio.'
         Esta contradio, que deve ter sido enunciada assim no inconsciente, no pode, contudo, tornar-se consciente para um paranico sob essa forma. O mecanismo 
de formao de sintomas na parania exige que as percepes internas - sentimentos - sejam substitudas por percepes externas. Conseqentemente, a proposio 'eu 
o odeio' transforma-se, por projeo, em outra: 'Ele me odeia (persegue), o que me desculpar por odi-lo.' E, assim, o sentimento inconsciente compulsivo surge 
como se fosse a conseqncia de uma percepo externa:
         'Eu no o amo - eu o odeio, porque ELE ME PERSEGUE.'
         A observao no deixa lugar para dvidas de que o perseguidor  algum que foi outrora amado.
         (b) Outro elemento  escolhido para a contradio na erotomania, que permanece totalmente ininteligvel sob qualquer outro ponto de vista:
         'Eu no o amo - eu a amo.'
         E, em obedincia  mesma necessidade de projeo, a proposio  transformada em: 'Eu noto que ela me ama.'
         'Eu no o amo - eu a amo, porque ELA ME AMA.'
          possvel a muitos casos de erotomania dar a impresso de que poderiam ser satisfatoriamente explicados como fixaes heterossexuais exageradas ou deformadas, 
se nossa ateno no fosse atrada pela circunstncia de que essas afeies comeam invariavelmente no por qualquer percepo interna de amar, mas por uma percepo 
externa de ser amado. Nessa forma de parania, porm, a proposio intermediria 'eu a amo' tambm se pode tornar consciente, porque a contradio entre ela e a 
proposio original no  diametral nem to irreconcilivel como a existente entre amor e dio; afinal de contas,  possvel amar tanto ela quanto ele. Assim, pode 
acontecer que a proposio que foi substituda por projeo ('ela me ama') abra caminho novamente para a proposio da 'lngua bsica' 'eu a amo'.
         
         (c) A terceira modalidade pela qual a proposio original pode ser contraditada seria por delrios de cime, que podemos estudar nas formas caractersticas 
sob que aparecem em cada sexo.
         (?) Delrios alcolicos de cime. O papel desempenhado pelo lcool nesse distrbio , sob todos os aspectos, inteligvel. Sabemos que aquela fonte de prazer 
afasta inibies e desfaz sublimaes. No  raro que o desapontamento com uma mulher leve um homem a beber - mas isso significa, geralmente, que ele recorre ao 
bar e  companhia de homens, que lhe proporcionam a satisfao emocional que deixou de conseguir de sua mulher em casa. Se ento esses homens se tornarem os objetos 
de uma forte catexia libidinal em seu inconsciente, ele a repelir com o terceiro tipo de contradio:
         'No sou eu quem ama o homem - ela o ama', e suspeita da mulher em relao a todos os homens a quem ele prprio  incitado a amar.
         A deformao por meio da projeo acha-se necessariamente ausente nesse caso, visto que, com a mudana do sujeito que ama, todo o processo , de qualquer 
modo, lanado para fora do ego. O fato de a mulher amar os homens constitui matria de percepo externa para ele, ao passo que os fatos de que ele prprio no ama, 
mas odeia, ou de que ele mesmo ama, no esta, mas aquela pessoa, so assuntos de percepo interna.
         (?) Os delrios de cime nas mulheres so exatamente anlogos.
         'No sou eu quem ama as mulheres - ele as ama.' A mulher ciumenta suspeita do marido em relao a todas as mulheres por quem ela prpria  atrada, devido 
ao seu homossexualismo e ao efeito disposicional de seu narcisismo excessivo. A influncia da poca da vida em que sua fixao ocorreu  claramente demonstrada pela 
seleo dos objetos amorosos que imputa ao marido; so amide velhas e inteiramente inapropriadas para uma relao amorosa real - revivescncia das babs, criadas 
e meninas que foram suas amigas na infncia, ou das irms, que foram suas rivais verdadeiras.
         Ora, poder-se-ia supor que uma proposio composta de trs termos, tal como 'eu o amo', s pudesse ser contestada por trs maneiras diferentes. Os delrios 
de cime contradizem o sujeito, os delrios de perseguio contradizem o predicado, e a erotomania contradiz o objeto. Na realidade, porm,  possvel um quarto 
tipo de contradio - a saber, aquele que rejeita a proposio como um todo:
         'No amo de modo algum - no amo ningum'. E visto que, afinal de contas, a libido tem de ir para algum lugar, essa proposio parece ser o equivalente 
psicolgico da proposio: 'Eu s amo a mim mesmo'. Desta maneira, esse tipo de contradio dar-nos-ia a megalomania, que podemos encarar como uma supervalorizao 
sexual do ego e ser assim colocada ao lado da supervalorizao do objeto amoroso, com a qual j nos achamos familiarizados.
          de alguma importncia, com relao a outras partes da teoria da parania, observar que podemos detectar um elemento de megalomania na maioria das outras 
formas de distrbio paranide.  justo presumir que a megalomania  essencialmente de natureza infantil e que,  medida que o desenvolvimento progride, ela  sacrificada 
s consideraes sociais. Do mesmo modo, a megalomania de um indivduo nunca  to veementemente abafada como quando ele se acha em poder de um amor irresistvel:
         Denn wo die Lieb' erwachet, stirbt
         das Ich, der finstere Despot.
         Aps este exame do papel inesperadamente importante desempenhado pelas fantasias de desejo homossexuais na parania, retornemos aos dois fatores em que 
espervamos, desde o princpio, encontrar os sinais caractersticos da parania, a saber, o mecanismo pelo qual os sintomas so formados e o mecanismo pelo qual 
a represso  ocasionada [ver em [1]].
         Certamente no temos direito de comear por presumir que estes dois mecanismos so idnticos e que a formao de sintomas segue o mesmo caminho que a represso, 
cada qual avanando ao longo dele, talvez, em direo oposta. Tampouco parece haver qualquer grande possibilidade de que tal identidade exista. No obstante, abster-nos-emos 
de expressar qualquer opinio sobre o assunto at termos completado nossa pesquisa.
         A caracterstica mais notvel da formao de sintomas na parania  o processo que merece o nome de projeo. Uma percepo interna  suprimida e, ao invs, 
seu contedo, aps sofrer certo tipo de deformao, ingressa na conscincia sob a forma de percepo externa. Nos delrios de perseguio, a deformao consiste 
numa transformao do afeto; o que deveria ter sido sentido internamente como amor  percebido externamente como dio. Deveramos sentir-nos tentados a encarar esse 
processo notvel como o elemento mais importante na parania e dela absolutamente patognomnico, se oportunamente no nos lembrssemos de duas coisas. Em primeiro 
lugar, a projeo no desempenha o mesmo papel em todas as formas de parania; e, em segundo, ela faz seu aparecimento no apenas na parania mas tambm sob outras 
condies psicolgicas, e de fato -lhe concedida participao regular em nossa atitude para com o mundo externo. Pois, quando atribumos as causas de certas sensaes 
ao mundo externo, ao invs de procur-las (como fazemos no caso dos outros) dentro de ns mesmos, esse procedimento normal tambm merece ser chamado de projeo. 
Cientes de que problemas psicolgicos mais gerais acham-se envolvidos na questo da natureza da projeo, decidamos adiar sua investigao (e, com ela, a do mecanismo 
da formao paranide de sintomas em geral) para outra ocasio, e passemos agora a considerar que idias podemos reunir sobre o tema do mecanismo da represso na 
parania. Gostaria de dizer ao mesmo tempo, para justificar esta renncia temporria, que descobriremos que a maneira pela qual o processo de represso ocorre acha-se 
muito mais intimamente vinculada  histria do desenvolvimento da libido e  disposio a que ele d origem, do que a maneira pela qual os sintomas se formam.
         Na psicanlise, acostumamo-nos a encarar os fenmenos patolgicos como derivados, de maneira geral, da represso. Se examinarmos mais de perto o que  chamado 
de 'represso', encontraremos razes para dividir o processo em trs fases que so facilmente distinguveis uma da outra, conceptualmente.
         (1) A primeira fase consiste na fixao, que  a precursora e condio necessria de toda 'represso'. A fixao pode ser descrita da seguinte maneira: 
determinado instinto ou componente instintual deixa de acompanhar os demais ao longo do caminho normal previsto de desenvolvimento, e, em conseqncia desta inibio 
em seu desenvolvimento,  deixado para trs, num estdio mais infantil. A corrente libidinal em apreo comporta-se ento, em relao a estruturas psicolgicas posteriores, 
como se pertencesse ao sistema do inconsciente, como reprimida. J demonstramos [ver em [1]] que essas fixaes instintuais constituem a base para a disposio  
enfermidade subseqente, e podemos agora acrescentar que elas constituem, acima de tudo, a base para a determinao do resultado da terceira fase da represso.
         (2) A segunda fase da represso  a da represso propriamente dita - fase  qual foi dada, at aqui, a mxima ateno. Provm dos sistemas mais altamente 
desenvolvidos do ego - sistemas capazes de serem conscientes - e pode, na realidade, ser descrita como um processo de 'ps-presso'. Aparenta ser um processo essencialmente 
ativo, ao passo que a fixao parece de fato constituir um retardamento passivo. Podem sofrer represso que os derivados psquicos dos instintos retardados originais, 
quando estes se reforam e entram assim em conflito com o ego (ou instintos egossintnicos), quer tendncias psquicas que, por outras razes, despertaram uma forte 
averso. Mas esta averso, em si prpria, no conduziria  represso, a menos que alguma vinculao tenha sido estabelecida e entre as tendncias indesejveis que 
tm de ser reprimidas e aquelas que j o foram. Onde isso acontece, a repulsa exercida pelo sistema consciente e a atrao exercida pelo inconsciente tendem na mesma 
direo, no sentido de ocasionar a represso. As duas possibilidades que so aqui isoladamente tratadas podem, talvez, ser menos nitidamente diferenadas na prtica, 
e a distino entre elas pode depender simplesmente do maior ou menor grau em que os instintos primariamente reprimidos contribuem para o resultado.
         (3) A terceira fase, e a mais importante no que se refere aos fenmenos patolgicos,  a do fracasso da represso, da irrupo, do retorno do reprimido. 
Esta irrupo toma seu impulso do ponto de fixao, e implica uma regresso do desenvolvimento libidinal a esse ponto.
         J aludimos [Ver a partir de [1].]  multiplicidade dos pontos possveis de fixao; existem na realidade, tantos quantos so os estdios no desenvolvimento 
da libido. Devemos estar preparados para encontrar uma multiplicidade semelhante de mecanismos da represso propriamente dita e de mecanismos de irrupo (ou de 
formao de sintomas), e j podemos comear a suspeitar que no ser possvel remontar todas essas multiplicidades somente  histria desenvolvimental da libido.
          fcil perceber que esse exame est comeando a invadir o problema da 'escolha da neurose', que, contudo, no pode ser abordado at que um trabalho preliminar 
de outro tipo tenha sido realizado. Mantenhamos em mente, por enquanto, que j tratamos da fixao, e que adiamos o assunto da formao de sintomas; e restrinjamo-nos 
 questo de saber se a anlise do caso de Schreber lana alguma luz sobre o mecanismo da represso propriamente dita que predomina na parania.
         No clmax de sua molstia, sob a influncia de vises que eram 'parcialmente de carter terrificante, mas em parte, tambm, de grandeza indescritvel' (73), 
Schreber convenceu-se da iminncia de uma grande catstrofe, do fim do mundo. Vozes disseram-lhe que o trabalho dos 14.000 anos passados viera agora a dar em nada, 
e que o perodo de vida concedido  Terra era apenas 212 anos mais (71); durante a ltima parte de sua estada na clnica de Flechsig, acreditou que esse perodo 
j havia passado. Ele prprio era 'o nico homem real deixado vivo' e as poucas formas humanas que ainda via - o mdico, os assistentes, os outros pacientes - explicava-as 
como 'miraculadas, homens apressadamente improvisados.' Ocasionalmente, a corrente inversa de sentimento tambm aparecia: foi colocado em suas mos um jornal no 
qual havia um comunicado de sua prpria morte (81); ele prprio existia sob forma secundria, inferior, e sob esta forma secundria, certo dia tranqilamente faleceu 
(73). Mas a forma de seu delrio, em que seu ego era mantido e o mundo sacrificado, mostrou ser, de longe, a mais poderosa. Ele tinha vrias teorias sobre a causa 
da catstrofe. Certa ocasio, teve em mente um processo de glaciao devido a retirada do Sol; em outra, seria a destruio por um terremoto, ocorrncia na qual 
ele, com sua capacidade de 'vidente de espritos', deveria representar papel dominante, tal como se alega que outro vidente desempenhou no terremoto de Lisboa de 
1755. (91.) Ou, ento, Flechsig era o culpado, visto que atravs de suas artes mgicas semeara o medo e o terror entre os homens, destrura os fundamentos da religio 
e disseminara distrbios nervosos gerais e imoralidades, de modo que pestilncias devastadoras se haviam abatido sobre a humanidade. (91.) Em qualquer caso, o fim 
do mundo era a conseqncia do conflito que irrompera entre ele Flechsig ou, de acordo com a etiologia adotada na segunda fase de seu delrio, do vnculo indissolvel 
que se formara entre ele e Deus; era, na realidade, o resultado inevitvel de sua doena. Anos aps, quando o Dr. Schreber retornou  sociedade humana, e no podia 
encontrar os livros, nas partituras musicais ou nos outros artigos de uso cotidiano que lhe caam mais uma vez nas mos trao algum que corroborasse sua teoria de 
que tinha havido um hiato de imensa durao na histria da humanidade, ele admitiu que sua opinio no era mais sustentvel: 'No posso mais evitar reconhecer que, 
considerado externamente, tudo est como costumava ser. Se, todavia, no pode ter havido uma profunda mudana interna  uma questo a que retornarei mais tarde.' 
(84-5.) Ele no se podia permitir duvidar que, durante sua molstia, o mundo havia chegado ao fim e que, apesar de tudo, aquele que agora via diante de si era um 
mundo diferente.
         Uma catstrofe mundial deste tipo no  infreqente durante o estdio agitado em outros casos de parania. Se nos basearmos em nossa teoria da catexia libidinal, 
e seguirmos a sugesto dada pela viso que Schreber tinha das outras pessoas como 'homens apressadamente improvisados', no acharemos difcil explicar estas catstrofes. 
O paciente retirou das pessoas de seu ambiente, e do mundo externo em geral, a catexia libidinal que at ento havia dirigido para elas. Assim, tudo tornou-se indiferente 
e irrelevante para ele, e tem de ser explicado atravs de uma racionalizao secundria, como 'miraculado, apressadamente improvisado'. O fim do mundo  a projeo 
dessa catstrofe interna; seu mundo subjetivo chegou ao fim, desde o retraimento de seu amor por ele. 
         Aps Fausto ter pronunciado as maldies que o liberam do mundo, o coro dos Espritos canta:
         Weh! Weh!
         Du hast sie zerstort,
         die schne Welt,
         mit mchtiger Faust!
         sie strzt, sie zerfllt!
         Ein Halbgott hat sie zerschlagen!
         .......................................
         Mchtiger
         der Erdenshne,
         Prchtiger
         baue sie wieder,
         in deinem Busen baue sie auf!
         
         E o paranico constri-o de novo, no mais esplndido,  verdade, mas pelo menos de maneira a poder viver nele mais uma vez. Constri-o com o trabalho de 
seus delrios. A formao delirante, que presumimos ser o produto patolgico, , na realidade, uma tentativa de restabelecimento, um processo de reconstruo. Tal 
reconstruo aps a catstrofe  bem sucedida em maior ou menor grau, mas nunca inteiramente; nas palavras de Schreber, houve uma 'profunda mudana interna' no mundo. 
Mas o indivduo humano recapturou uma relao, e freqentemente uma relao muito intensa, com as pessoas e as coisas do mundo, ainda que esta seja agora hostil, 
onde anteriormente fora esperanosamente afetuosa. Podemos dizer, ento, que o processo da represso propriamente dita consiste num desligamento da libido em relao 
s pessoas - e coisas - que foram anteriormente amadas. Acontece silenciosamente; dele no recebemos informaes, s podemos inferi-lo dos acontecimentos subseqentes. 
O que se impe to ruidosamente  nossa ateno  o processo de restabelecimento, que desfaz o trabalho da represso e traz de volta novamente a libido para as pessoas 
que ela havia abandonado. Na parania, este processo  efetuado pelo mtodo da projeo. Foi incorreto dizer que a percepo suprimida internamente  projetada para 
o exterior; a verdade , pelo contrrio, como agora percebemos, que aquilo que foi internamente abolido retorna desde fora. O exame completo do processo de projeo, 
que adiamos para outra ocasio, esclarecer as dvidas remanescentes sobre o assunto. 
         
         Entrementes, contudo, constitui fonte de alguma satisfao descobrir que o conhecimento que acabamos de adquirir nos envolve em vrias argumentaes adicionais.
         (1) Nossa primeira reflexo revelar-nos- que no  possvel que esse desligamento da libido ocorra exclusivamente na parania; tampouco pode acontecer 
que, em outra parte que ocorra, tenha as mesmas conseqncias desastrosas.  bem possvel que um desligamento da libido seja o mecanismo essencial e regular de toda 
represso. No podemos ter conhecimento positivo sobre esse ponto at que as outras perturbaes que se baseavam na represso tenham sido similarmente examinadas. 
Mas  certo que, na vida mental normal (e no apenas em perodos de luto), estamos constantemente desligando nossa libido, desta maneira, de pessoas ou de outros 
objetos, sem cairmos enfermos. Quando Fausto se libertou do mundo pela enunciao de suas maldies, o resultado no foi uma parania ou qualquer outra neurose, 
mas simplesmente uma exata estrutura geral da mente. Por conseguinte, o desligamento da libido no pode, em si prprio, ser o fator patognico na parania; tem de 
haver alguma caracterstica especial que distinga o desligamento paranico da libido dos outros tipos. No  difcil sugerir qual possa ser essa caracterstica. 
Que emprego se faz da libido aps ela ter sido liberada pelo processo de desligamento? Uma pessoa normal comear imediatamente a procurar um substituto para a ligao 
perdida e, at que esse substituto seja encontrado, a libido liberada ser mantida em suspenso dentro da mente, e a dar origem a tenses e alterar o seu humor. 
Na histeria, a libido liberada transforma-se em inervaes somticas ou em ansiedade. Na parania, porm, a evidncia clnica vai demonstrar que a libido, aps ter 
sido retirada do objeto,  utilizada de modo especial. Recordar-se- [ver em [1]] que a maioria dos casos de parania exibe traos de megalomania, e que a megalomania 
pode, por si mesma, constituir uma parania. Disto pode-se concluir que, na parania, a libido liberada vincula-se ao ego e  utilizada para o engrandecimento deste. 
Faz-se assim um retorno ao estdio do narcisismo (que reconhecemos como estdio do desenvolvimento da libido), no qual o nico objeto sexual de uma pessoa  seu 
prprio ego. Com base nesta evidncia clnica, podemos supor que os paranicos trouxeram consigo uma fixao no estdio do narcisismo, e podemos asseverar que a 
extenso do retrocesso do homossexualismo sublimado para o narcisismo constitui medida da quantidade de regresso caracterstica da parania.
         (2) Objeo igualmente plausvel pode-se basear na histria clnica de Schreber, bem como em muitas outras. Pois pode-se alegar que os delrios de perseguio 
(que eram dirigidos contra Flechsig) inquestionavelmente surgiram em data anterior  da fantasia de fim do mundo; de maneira que o que se supe ter sido um retorno 
do reprimido, realmente precedeu a prpria represso ... o que  absurdo patente. A fim de enfrentar esta objeo, temos de abandonar o campo elevado da generalizao 
e descer  considerao pormenorizada das circunstncias concretas, que so, indubitavelmente, muitssimo mais complicadas. Temos de admitir a possibilidade de que 
um desligamento da libido como o que estamos examinando pudesse ser tanto parcial - um recuo a partir de algum complexo isolado - quanto geral. Um desligamento parcial 
seria, de longe, o mais comum dos dois, e deveria preceder o geral, visto que, inicialmente,  apenas para o desligamento parcial que as influncias da vida fornecem 
motivo. O processo pode ento interromper-se no estdio de um desligamento parcial ou pode estender-se ao geral, que em alta voz proclamar sua presena nos sintomas 
da megalomania. Dessa maneira, o desligamento da libido em relao  figura de Flechsig pode, no obstante, ter constitudo o elementar no caso de Schreber; foi 
imediatamente seguido pelo aparecimento do delrio, que trouxe a libido de volta novamente para Flechsig (embora com sinal negativo, para assinalar o fato de que 
a represso se efetuara) e anulou assim o trabalho da represso. E ento a batalha da represso irrompe de novo, mas desta vez com armas mais poderosas. Na proporo 
em que o objeto de disputa se tornou a coisa mais importante do mundo externo, tentando, por um lado, arrastar a totalidade da libido para si, e, por outro, mobilizando 
todas as resistncias contra si, assim tambm a luta que se trava em torno desse objeto nico tornou-se cada vez mais comparvel a um conflito geral; at que, por 
fim, uma vitria para a foras da represso expressou-se na convico de que o mundo chegara ao fim e de que somente o eu (self) sobrevivia. Se passarmos em revista 
as engenhosas construes erigidas pelo delrio de Schreber no campo da religio - a hierarquia de Deus, as almas provadas, as antes-salas do Cu, o Deus inferior 
e o superior - podemos avaliar, retrospectivamente, a quantidade de sublimaes transformadas em runas pela catstrofe do desligamento geral da libido.
         
         (3) Uma terceira considerao que surge das opinies desenvolvidas nestas pginas  a seguinte: devemos supor que um desligamento geral da libido do mundo 
externo constitua agente eficaz o bastante para explicar o 'fim do mundo'? Ou as catexias pelo ego ainda efetivas no teriam sido suficientes para manter rapport- 
com o mundo externo? Para enfrentar esta dificuldade, teramos ou de presumir que aquilo que chamamos de catexia libidinal (isto , um interesse que emana de fontes 
erticas) coincide com o interesse em geral, ou de considerar a possibilidade de que um distrbio muito disseminado na distribuio da libido possa ocasionar perturbao 
correspondente nas catexias pelo ego. Mas estes so problemas que ainda nos achamos inteiramente impotentes e incompetentes para resolver. Seria diferente se pudssemos 
partir de alguma teoria bem fundamentada dos instintos, mas, na realidade, nada disso possumos  nossa disposio. Consideramos o instinto como sendo o conceito 
sobre a fronteira entre o simtico e o mental, e vemos nele o representante psquico de foras orgnicas. Ademais, aceitamos a distino popular entre instintos 
do ego e instinto sexual, pois tal distino parece concordar com a concepo biolgica de que o indivduo possui dupla orientao, visando, por um lado,  autopreservao 
e, por outro,  preservao das espcies. Alm disso, porm, existem apenas hipteses, que encampamos - e estamos inteiramente prontos a abandonar de novo - para 
que nos ajudassem a encontrar orientao no caso dos processos mais obscuros da mente. O que esperamos das investigaes psicanalticas dos processos patolgicos 
mentais  exatamente que nos levem a algumas concluses sobre questes vinculadas  teoria dos instintos. Estas investigaes, contudo, acham-se no comeo, e so 
realizadas apenas por pesquisadores isolados, de maneira que as esperanas que nelas depositamos devem ainda permanecer irrealizadas. No podemos mais pr de lado 
a possibilidade de que distrbios da libido reajam sobre as catexias pelo ego. Na verdade,  provvel que processos deste tipo constituam a caracterstica istintiva 
das psicoses. O quanto de tudo isso se pode aplicar  parania  impossvel dizer presentemente. Existe uma considerao, contudo, que gostaria de acentuar. No 
se pode asseverar que um paranico, mesmo no auge da represso, retire completamente seu interesse do mundo externo - como se julga ocorrer em alguns outros tipos 
de psicose alucinatria (tais como a amncia de Meynert). O paranico percebe o mundo externo e leva em considerao quaisquer alteraes que nele possam acontecer, 
e o efeito que aquele lhe causa estimula-o a inventar teorias explanatrias (tais como os 'homens apressadamente improvisados', de Schreber). Parece-me, portanto, 
muito mais provvel que a relao alterada do paranico com o mundo deva ser explicada inteira ou principalmente pela perda de seu interesse libidinal.
         (4)  impossvel evitar perguntar, em vista da estreita vinculao entre os dois distrbios, at onde esta concepo de parania afetar a nossa concepo 
de demncia precoce. Sou de opinio que Kraepelin estava inteiramente justificado em tomar a medida de separar grande parte do que at ento havia sido chamado de 
parania e fundi-la, junto com a catatonia e certas outras formas de doena, numa nova entidade clnica - embora 'demncia precoce' fosse um nome particularmente 
infeliz de se escolher para ela. A designao escolhida por Bleuler para o mesmo grupo de formas - 'esquizofrenia' - acha-se tambm exposta  objeo, de que o nome 
parece apropriado contanto que esqueamos seu significado literal, pois, de outro modo, ele cria preveno contra o assunto, visto basear-se numa caracterstica 
da molstia postulada teoricamente - caracterstica, alm disso, que no pertence exclusivamente a essa doena, e que,  luz de outras consideraes, no pode ser 
encarada como sendo a essencial. Em geral, contudo, no so de muito grande importncia as denominaes, que damos aos quadros clnicos. O que me parece mais essencial 
 que a parania deve ser mantida com um tipo clnico independente, por mais freqentemente que o quadro que oferea possa ser complicado pela presena de caractersticas 
esquizofrnicas. Do ponto de vista da teoria da libido, embora se assemelhe  demncia precoce na medida em que a represso propriamente dita em ambas as molstias 
teria o mesmo aspecto principal - desligamento da libido, juntamente com sua regresso para o ego -, ela se distinguiria da demncia precoce por ter sua fixao 
disposicional diferentemente localizada e por possuir um mecanismo diverso para o retorno do reprimido (isto , para a formao de sintomas). Parecer-me-ia plano 
mais conveniente dar  demncia precoce o nome de parafrenia. Este termo no possui conotao especial e serviria para indicar um relacionamento com a parania (nome 
que no pode ser modificado) e, alm disso, relembraria a hebefrenia, entidade que hoje se acha fundida com a demncia precoce.  verdade que o nome j foi proposto 
para outros fins, mas isto no precisa nos preocupar, visto que as aplicaes alternativas ainda no passaram para uso geral. 
         Abraham muito convincentemente demonstrou que o afastamento da libido do mundo externo  uma caracterstica particular e claramente marcada da demncia 
precoce. Desta caracterstica inferimos que a represso  efetuada por meio do desligamento da libido. Aqui, mais uma vez, podemos considerar a fase de alucinaes 
violentas como uma luta entre a represso e uma tentativa de restabelecimento, por devolver a libido novamente a seus objetos. [Cf. em [1]]. Jung, com extraordinrio 
acume analtico, percebeu que os delrios (delria) e esteretipos motores que ocorrem nessa perturbao so os resduos de antigas catexias objetais, que se apegam 
com grande persistncia. Essa tentativa de restabelecimento, que os observadores equivocadamente tomam pela prpria doena, no faz uso da projeo, como na parania, 
mas emprega um mecanismo alucinatrio (histrico). Este  um dos principais aspectos em que a demncia precoce difere da parania e esta diferena pode ser geneticamente 
explicada a partir de outro ngulo. A segunda diferena  demonstrada pelo resultado da doena naqueles casos em que o processo no permaneceu demasiadamente restrito. 
O prognstico, em geral,  mais desfavorvel do que na parania. A vitria fica com a reconstruo. A regresso estende-se no simplesmente ao narcisismo (manifestando-se 
sob a forma de megalomania), mas a um completo abandono do amor objetal e um retorno ao auto-erotismo infantil. A fixao disposicional deve, portanto, achar-se 
situada mais atrs do que na parania, e residir em algum lugar no incio do curso do desenvolvimento entre o auto-erotismo e o amor objetal. Alm disso, no  de 
modo algum provvel que impulsos homossexuais, to freqentemente - talvez invariavelmente - encontrados na parania, desempenham papel igualmente importante na 
etiologia dessa enfermidade muito mais abrangente, a demncia precoce.
         Nossas hipteses quanto s fixaes disposicionais na parania e na parafrenia tornam fcil perceber que um caso pode comear por sintomas paranides e, 
apesar disso, transformar-se em demncia precoce, e que fenmenos paranides e esquizofrnicos podem achar-se combinados em qualquer proporo. E podemos compreender 
como um quadro clnico como o de Schreber pode ocorrer, e merecer o nome de demncia paranide, a partir do fato de que, na produo de uma fantasia de desejo e 
de alucinaes, ele apresenta traos parafrnicos, enquanto que, na causa ativadora, no emprego do mecanismo da projeo, e no desfecho, exibe um carter paranide. 
Porque  possvel que diversas fixaes sejam abandonadas no curso do desenvolvimento, e cada uma delas, sucessivamente, pode permitir uma irrupo da libido que 
havia sido impelida para fora - comeando talvez com as ltimas fixaes adquiridas, e passando,  medida que a molstia se desenvolve, s originais, que se acham 
mais perto do ponto de partida. Gostaramos de saber a que condies o resultado relativamente favorvel do presente caso se deve; pois no podemos de bom grado 
atribuir toda a responsabilidade pelo desfecho a algo to casual quanto a 'melhora devido  mudana de domiclio', que se estabeleceu aps a remoo do paciente 
da clnica de Flechsig. Mas nosso conhecimento insuficiente das circunstncias ntimas da histria clnica torna impossvel fornecer resposta a essa interessante 
questo. Pode-se suspeitar, contudo, que aquilo que capacitou Schreber a reconciliar-se com sua fantasia homossexual, e possibilitou  sua molstia terminar em algo 
que se aproxima de um restabelecimento, pode ter sido o fato de que seu complexo paterno se achava, principalmente, afinado de maneira positiva, e que, na vida real, 
os anos finais de seu relacionamento com um pai excelente provavelmente no foram tempestuosos.
         Visto no temer a crtica dos outros nem esquivar-me de criticar a mim prprio, no tenho motivos para evitar a meno de uma semelhana que tem possibilidade 
de prejudicar nossa teoria da libido na opinio de muitos de meus leitores. Os 'raios de Deus' de Schreber, que se constituam de uma condensao de raios de Sol, 
fibras nervosas e espermatozides [ver em [1]], nada mais so, na realidade, que uma representao concreta e uma projeo para o exterior de catexias libidinais, 
e emprestam assim a seus delrios uma conformidade marcante com nossa teoria. A crena de que o mundo deveria acabar porque seu ego estava atraindo todos os raios 
para si, a preocupao ansiosa num perodo posterior, durante o processo de reconstruo, de que Deus rompesse Sua vinculao de raios com ele - esses e muitos outros 
pormenores da estrutura delirante de Schreber soam quase como percepes endo-psquicas dos processos cuja existncia presumi nestas pginas, como base de nossa 
explicao da parania. Posso, no obstante, invocar um amigo e colega especialista para testemunhar que desenvolvi minha teoria da parania antes de me familiarizar 
com o contedo do livro de Schreber. Compete ao futuro decidir se existe mais delrio em minha teoria do que eu gostaria de admitir, ou se h mais verdade no delrio 
de Schreber do que outras pessoas esto, por enquanto, preparadas para acreditar.
         Por fim, no posso concluir o presente trabalho - que, mais uma vez, constitui apenas fragmento de um todo maior - sem prenunciar as duas teses principais 
no sentido de cujo estabelecimento a teoria da libido das neuroses e das psicoses est avanando: a saber, que as neuroses surgem, principalmente, de um conflito 
entre o ego e o instinto sexual, e que as formas que elas assumem guardam a marca do curso do desenvolvimento seguido pela libido - e pelo ego.
         
         PS-ESCRITO (1912 [1911])
         
         Ao lidar com a histria clnica do Senatsprsident Schreber, propositadamente restringi-me a um mnimo de interpretao; e sinto-me confiante de que todo 
leitor com um conhecimento de psicanlise ter aprendido, a partir do material que apresentei, mais do que foi explicitamente afirmado por mim, e que no ter encontrado 
dificuldade em juntar mais os fios e em chegar a concluses que apenas insinuei. Por um feliz acaso, o mesmo nmero da revista em que meu prprio artigo apareceu 
mostrou que a ateno de alguns outros colaboradores fora dirigida para a autobiografia de Schreber e tornou fcil adivinhar quanto material mais resta a ser coletado 
do contedo simblico das fantasias e delrios desse talentoso paranico. 
         Desde que publiquei meu trabalho sobre Schreber, uma aquisio fortuita de conhecimento colocou-me em posio de apreciar mais adequadamente uma de suas 
crenas delirantes e de reconhecer a riqueza de sua relao com a mitologia. Mencionei em [1] a estranha relao do paciente com o Sol e fui levado a explicar este 
ltimo como um 'smbolo paterno' sublimado. O Sol costumava falar-lhe em linguagem humana e assim se revelou a ele como ser vivo. Schreber tinha o hbito de vituper-lo 
e de gritar-lhe ameaas; declara, alm disso, que quando se detinha a encar-lo e falava alto, seus raios empalideciam perante ele. Aps seu 'restabelecimento', 
gaba-se de poder olh-lo fixamente sem qualquer dificuldade e sem ficar mais que ligeiramente ofuscado, coisa que, naturalmente, ter-lhe-ia sido impossvel previamente.
          a este privilgio delirante de ser capaz de olhar fixamente o Sol sem ficar ofuscado que o interesse mitolgico se prende. Lemos em Reinach que os autores 
de histrias naturais da antigidade atribuam esse poder somente  guia, que, como moradora das mais altas regies do ar, era colocada em relao especialmente 
ntima com os cus, com o Sol e com o relmpago. Aprendemos das mesmas fontes, ademais, que a guia submete seus filhotes a um teste, antes de reconhec-los como 
sua descendncia legtima: a menos que consigam olhar para o Sol sem piscar, so arrojados para fora do ninho.
         No pode haver dvida sobre o significado deste mito animal.  certo que ele est simplesmente atribuindo a animais algo que constitui costume sagrado entre 
os homens. O processo usado pela guia com seus filhotes  um ordlio, teste de linhagem, tal como  transmitido das mais diversas raas da antigidade. Assim, os 
celtas, que viviam nas margens do Reno, costumavam confiar seus bebs recm-nascidos s guas do rio, a fim de determinar se eles eram verdadeiramente do seu prprio 
sangue. O cl dos psilos, que habitavam o que hoje  Trpoli, gabava-se de serem descendentes de serpentes e costumavam expor os filhos ao contato destas; aqueles 
que eram filhos verdadeiramente nascidos do cl no eram picados ou restabeleciam-se rapidamente dos efeitos da picada. A suposio subjacente a esses testes conduz-nos 
profundamente aos hbitos totmicos de pensamento dos povos primitivos. O totem - um animal, ou uma fora natural, animisticamente concebido, ao qual a tribo remonta 
sua origem - poupa os membros da tribo como sendo seus prprios filhos, tal como ele prprio  por estes honrado como ancestral e por eles poupado. Chegamos aqui 
 considerao de assuntos que, segundo me parece, podem tornar possvel chegar-se a uma explicao psicanaltica das origens da religio.
         A guia, pois, que faz os filhotes olharem para o Sol e deles exige que no sejam ofuscados por sua luz, comporta-se como se ela prpria fosse descendente 
do Sol e estivesse submetendo os filhos a um teste de linhagem. E quando Schreber se gaba de poder olhar para o Sol ileso e no ofuscado, redescobriu o mtodo mitolgico 
de expressar sua relao filial com o Sol, e mais uma vez confirmou nossa opinio de que o Sol  um smbolo do pai. Recordar-se- que, durante sua enfermidade, Schreber 
deu livre expresso ao seu orgulho familiar, e que descobrimos no fato de sua falta de filhos um motivo humano para ele ter cado enfermo com uma fantasia feminina 
dedesejo [ver em [1]]. Assim, a vinculao entre seu privilgio delirante e a origem de sua molstia se torna evidente.
         Este breve ps-escrito  minha anlise de um paciente paranide pode servir para demonstrar que Jung tinha excelentes fundamentos para sua assero de que 
as foras criadoras de mitos da humanidade no se acham extintas, mas que, at o dia de hoje, originam nas neuroses os mesmos produtos psquicos que originaram nas 
mais remotas eras passadas. Gostaria de retomar uma sugesto que eu prprio fiz h algum tempo, e acrescentar que a mesma  vlida para as foras que constroem as 
religies. E sou de opinio que em breve chegar a hora propcia para efetuarmos a ampliao de uma tese que h muito tempo foi sustentada por psicanalistas, e completar 
o que at aqui teve apenas aplicao individual e ontogentica acrescentando-lhe o correspondente antropolgico, que deve ser concebido filogeneticamente. 'Nos sonhos 
e nas neuroses", assim dizia nossa tese, 'deparamos mais uma vez com a criana e as peculiaridades que caracterizam suas modalidades de pensamento e sua vida emocional.' 
'E deparamos tambm com o selvagem', podemos agora acrescentar, 'com o homem primitivo, tal como se nos revela  luz das pesquisas da arqueologia e da etnologia.'
         
         
         
         
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       ARTIGOS SOBRE TCNICA (1911-1915 [1914])
         
         
         INTRODUO DO EDITOR INGLS
         
         Em sua contribuio a Estudos sobre a Histeria (1895d), Freud forneceu um relato muito completo do procedimento psicanaltico que havia desenvolvido com 
base nas descobertas de Breuer. Este pode ser descrito como a tcnica de 'presso' e ainda inclua considerveis elementos de sugesto, embora estivesse avanando 
rapidamente no sentido daquele que cedo ele deveria chamar de mtodo 'psicanaltico'. Um exame da relao dos escritos tcnicos de Freud, publicada adiante (ver 
em [1]), mostrar que, depois desse, a no ser por duas descries muito superficiais datadas de 1903 e 1904, ele no publicou nenhuma descrio geral de sua tcnica 
por mais de 15 anos. O pouco que sabemos de seus mtodos durante este perodo tem de ser inferido principalmente de observaes ocasionais - por exemplo, em A interpretao 
de Sonhos (1900a) - e mais particularmente do que  revelado em suas trs principais histrias clnicas do perodo, 'Dora' (1905e [1901]), 'Little Hans' (1909b) 
e o "Rat Man' (1909d). (As duas ltimas, incidentalmente, muito prximo do final deste perodo de relativo silncio.) Informa-nos o Dr. Ernest Jones (1955, 258 e 
segs.) que j em 1908 Freud alimentava a idia de escrever uma Allgemeine Technik der Psychoanalyse (Exposio Geral da Tcnica Psicanaltica). Deveria ter cerca 
de 50 pginas, e 36 destas j haviam sido escritas ao final do ano. Neste ponto, porm, houve uma interrupo, e ele decidiu adiar-lhe o trmino para as frias de 
vero de 1909. Quando estas chegaram, porm, havia o artigo do 'Rat Man' para completar e a visita aos Estados Unidos a preparar, e o trabalho sobre tcnica foi 
mais uma vez deixado de lado. No obstante, durante esse mesmo vero, Freud disse ao dr. Jones que estava planejando 'um pequeno memorando sobre mximas e normas 
de tcnicas', que deveria ser distribudo privadamente apenas entre os seus mais chegados seguidores. Da em diante, nada mais se ouviu sobre o assunto at o artigo 
sobre 'As Perspectivas Futuras da Psicanlise', lido por ele no final de maro do ano seguinte para o Congresso de Nuremberg (1910d). Nesse trabalho, que aflorava 
a questo da tcnica, anunciou Freud que pretendia, 'em futuro prximo', produzir uma Allgemeine Methodik der Psychoanalyse (Metodologia Geral da Psicanlise), presumivelmente 
um trabalho sistemtico sobre tcnica (Ver em [1], 1970). Mais uma vez, porm, a no ser pelo comentrio crtico sobre anlise 'silvestre' escrito alguns meses mais 
tarde (1910k), houve um atraso de mais de 18 meses, e foi somente em fins de 1911 que o trabalho foi iniciado, com a publicao dos seis artigos seguintes.
         Os quatro princpios deles foram publicados em sucesso bastante rpida durante os 15 meses seguintes (entre dezembro de 1911 e maro de 1913). Houve ento 
outra pausa e os dois ltimos trabalhos da srie apareceram em novembro de 1914 e janeiro de 1915. Estes dois, porm, foram na realidade terminados por volta do 
final de julho de 1914, exatamente antes da deflagrao da Primeira Guerra Mundial. Embora os seis artigos se achassem assim espalhados por cerca de dois anos e 
meio. Freud parece t-los considerado como formando uma srie, como se ver pela nota de rodap ao quarto artigo (Ver em [1]) e pelo fato de os ltimos quatro originalmente 
partilharem um ttulo comum; alm disso, reimprimiu-os juntos em sua quarta compilao de artigos breves, em 1918, sob o ttulo 'Zur Technik der Psychoanalyse' ('Sobre 
a Tcnica da Psicanlise'). Portanto, achamos correto, neste caso, desprezar a cronologia e incluir a srie inteira no presente volume.
         Embora estes seis artigos abranjam grande nmero de temas importantes, dificilmente podem ser descritos como mais exposio sistemtica da tcnica psicanaltica. 
Representam, no entanto, a abordagem mais aproximada de Freud sobre uma exposio desse tipo, pois, nos vinte anos que se seguiram  sua publicao, ele no efetuou 
mais que um par de contribuies mais explcitas ao assunto: um exame dos mtodos 'ativos' de tratamento, em seu artigo para o congresso de Budapest (1919a [1918]), 
e alguns ttulos de conselhos prticos sobre interpretao de sonhos (1923c). Fora estes, temos de nos apoiar principalmente, como antes, no material incidental 
das histrias clnicas, em particular na anlise do 'Wolf Man' (1918b [1914]), mais ou menos contempornea dos presentes artigos. Alm disso, h, naturalmente, o 
longo enunciado dos princpios que fundamentam a terapia psicanaltica nas Conferncias XXVII e XXVIII de suas Conferncias Introdutrias (1916-17), embora dificilmente 
possa ser encarado como contribuio direta s questes de tcnica. Na verdade, foi somente no fim da vida, em 1937, que mais uma vez ele retornou a esse tpico, 
em dois importantes artigos de natureza explicitamente tcnica (1937c e 1937d).
         A relativa escassez de trabalhos de Freud sobre tcnica, bem como suas hesitaes e demoras para produzi-los, sugere que havia de sua parte um sentimento 
de relutncia em publicar esse tipo de material. E na verdade parece ter sido este o caso, por vrios motivos. Antipatizava certamente com a idia de pacientes futuros 
virem a conhecer demais sobre os pormenores de sua tcnica, e dava-se conta de que estes escrutinariam avidamente tudo aquilo que escrevesse sobre o assunto. (Este 
sentimento  exemplificado por sua proposta, mencionada acima, de restringir a circulao do trabalho sobre tcnica a nmero limitado de analistas.) Independentemente 
disso, porm, ele era altamente ctico quanto ao valor, para principiantes, do que se poderia descrever como 'Manuais para Jovens Analistas'.  somente no terceiro 
e no quarto artigos desta srie que algo semelhante pode ser encontrado. Isto se deveu em parte, como nos diz no artigo 'Sobre o Incio do Tratamento', ao fato de 
os fatores psicolgicos envolvidos (inclusive a personalidade do analista) serem complexos e variveis demais para tornar possveis regras rgidas e firmes. Tais 
regras s poderiam ter valor se suas razes fossem apropriadamente compreendidas e digeridas; e, de fato, grande parte destes trabalhos  dedicada a uma exposio 
do mecanismo da terapia psicanaltica e, na verdade, da psicoterapia em geral. Uma vez apreendido este mecanismo, tornava-se possvel explicar as reaes do paciente 
(e do analista) e formar opinio sobre os provveis efeitos e mritos de qualquer artifcio tcnico especfico.
         Depois de todos os seus estudos sobre tcnica, contudo, Freud nunca deixou de insistir que um domnio apropriado do assunto s poderia ser adquirido pela 
experincia clnica e no pelos livros. Experincia clnica com pacientes, sem dvida, mas, acima de tudo, experincia clnica oriunda da prpria anlise do analista. 
Esta, como Freud cada vez mais se convenceu, constitua a necessidade fundamental de todo psicanalista militante. Apresentou a idia de forma bastante experimental 
a princpio, tal como, por exemplo, em 'As Perspectivas Futuras da Teraputica Psicanaltica' (1910d), ver em [1], 1970; expressou-a mais definitivamente num trabalho 
da presente srie (Ver a partir de [2].); e, num de seus ltimos trabalhos, 'Anlise Terminvel e Interminvel' (1937c), estabelece que todo analista deveria, periodicamente, 
talvez a cada cinco anos, reingressar em anlise. Os artigos sobre tcnica que se seguem tm obviamente de ser lidos sob a impresso constante desta condio orientadora.
         Finalmente, pode-se observar que, na presente srie de artigos, Freud no faz referncia  questo de se a posse de uma qualificao mdica constitui atributo 
no menos necessrio a todo psicanalista. Nestes trabalhos, parece ser tomado como evidente que o analista ser um mdico e ele  assim chamado com muito mais freqncia 
que o caso contrrio: a palavra 'Arzt' - 'mdico' ou 'doutor' - encontra-se em toda parte. A primeira publicao de Freud a abordar o possvel surgimento de psicanalistas 
no-mdicos foi, de fato, contempornea do ltimo destes trabalhos e ser encontrada adiante (Ver a partir de [1].), em sua introduo a um livro de autoria de Pfister. 
Seus principais estudos sobre o assunto vieram muito mais tarde na brochure sobre anlise leiga (1926e) e no ps-escrito a esta (1927a). Pode-se conjeturar que, 
se houvesse escrito os presentes artigos em fase posterior de sua carreira, a palavra 'Arzt' teria ocorrido com menos freqncia. Na verdade, nos dois ltimos trabalhos 
sobre tcnica (1937c e 1937d), ela no aparece de modo algum;  substituda, em toda a parte, por 'Analytiker' - 'analista'.
         
         
         




















O MANEJO DA INTERPRETAO DE SONHOS NA PSICANLISE (1911)
         
         
         NOTA DO EDITOR INGLS
         
         DIE HANDHABUNG DER TRAUMDEUTUNG IN DER PSYCOANALYSE
         
         (a) EDIES ALEMS:
         1911 Zbl. Psychoan., 2, (3), 109-13.
         1918 S. K. S. N., 4, 378-85 (1922, 2 ed.)
         1924 Technik un Metapsychol., 45-52.
         1925 G. S., 6, 45-52.
         1931 Neurosenlehre und Technik, 321-8.
         1943 G. W., 8, 350-7.
         
         (b) TRADUO INGLESA:
         'The Employment of Dream-Interpretation in Psycho-Analysis'
         1924 C. P., 2, 305-11. (Trad. de Joan Riviere.)
         
         A presente traduo inglesa  verso modificada, com o ttulo ligeiramente alterado, da publicada em 1924.
         
         O artigo foi publicado pela primeira vez em dezembro de 1911. Seu tpico, como o ttulo indica,  restrito: relaciona-se aos sonhos apenas como aparecem 
numa anlise teraputica. Outras constituies ao mesmo assunto sero encontradas nas Sees I a VIII de 'Consideraes sobre a Teoria da Interpretao de Sonhos' 
(1923c).
         
         O MANEJO DA INTERPRETAO DE SONHOS NA PSICANLISE
         
         A Zentralblatt fr Psychoanalyse no foi planejada apenas para manter os leitores informados dos progressos efetuados no conhecimento psicanaltico, e para 
publicar contribuies ao assunto relativamente breves; visa tambm a realizar as tarefas adicionais de apresentar ao estudioso um esboo claro do que j  conhecido 
e de economizar tempo e esforos dos principiantes na prtica analtica, oferecendo-lhes instrues apropriadas. Doravante, portanto, artigos de natureza didtica 
e sobre assuntos tcnicos, no necessariamente contendo matria nova, aparecero tambm neste peridico.
         A questo de que pretendo agora tratar no  a da tcnica de interpretao de sonhos: nem os mtodos pelos quais os sonhos devem ser interpretados nem o 
emprego de tais interpretaes, quando efetuadas, sero considerados, mas apenas a maneira pela qual o analista deve utilizar a arte da interpretao de sonhos no 
tratamento psicanaltico dos pacientes. Existem indubitavelmente maneiras diferentes de trabalhar no assunto, mas por outro lado a resposta a questes de tcnica 
em anlise nunca  coisa rotineira. Embora haja talvez mais de um bom caminho a seguir, existem ainda muitssimos maus, e uma comparao entre os diversos mtodos 
no deixa de ser esclarecedora, mesmo que no conduza a uma deciso em favor de algum especificamente.
         Quem passar da interpretao de sonhos para a clnica analtica conservar o interesse no contedo dos sonhos, e tender a interpretar to completamente 
quanto possvel cada sonho relatado pelo paciente. Mas cedo observar que est trabalhando agora sob condies inteiramente diversas e que, se tentar levar a cabo 
sua inteno, entrar em choque com as tarefas mais imediatas do tratamento. Mesmo que o primeiro sonho de uma paciente se mostre admiravelmente adequado para a 
introduo das primeiras explicaes, outros sonhos prontamente aparecero, to longos e obscuros, que seu significado completo no poder ser extrado no limitado 
perodo de um dia de trabalho. Se o mdico continuar o trabalho de interpretao durante os dias posteriores, produzir-se-o, nesse meio tempo, novos sonhos que 
tero de ser postos de lado, at que ele possa considerar o primeiro sonho como finalmente solucionado. A produo de sonhos  s vezes to copiosa, e o progresso 
do paciente no sentido de sua compreenso to hesitante, que surgir no analista a suspeita de que o aparecimento do material, dessa maneira, pode ser simplesmente 
uma manifestao da resistncia do paciente, que se aproveita da descoberta de que o mtodo  incapaz de dominar o que  assim apresentado. Alm do mais, nesse nterim 
o tratamento ter-se- distanciado bastante do presente e ter perdido o contato com a atualidade. Em oposio a tal tcnica, levanta-se a regra de que  da maior 
importncia para o tratamento que o analista esteja sempre cnscio da superfcie da mente do paciente, em qualquer momento, que saiba que complexos e resistncias 
esto ativos nele na ocasio e que reao consciente a eles lhe orientar o comportamento. Quase nunca  correto sacrificar este objetivo teraputico a um interesse 
na interpretao de sonhos.
         Qual, ento, se tivermos em mente esta regra, deve ser a nossa atitude ao interpretar sonhos na anlise? Mais ou menos a seguinte. A interpretao que possa 
ser realizada em uma sesso deve ser aceita como suficiente e no se deve considerar prejuzo que o contedo do sonho no seja inteiramente descoberto. No dia seguinte, 
a interpretao do sonho no deve ser retomada novamente, como coisa natural, at que se tenha tornado evidente que nada mais, nesse meio tempo, abriu caminho para 
o primeiro plano dos pensamentos do paciente. Desse modo, nenhuma exceo, em favor de uma interpretao de sonhos interrompida, deve ser feita  regra de que a 
primeira coisa que vem  cabea do paciente  a primeira coisa a ser tratada. Se novos sonhos ocorrem antes que os anteriores tenham sido examinados, as produes 
mais recentes devem ser atendidas e nenhum constrangimento se precisa sentir por negligenciar as mais antigas. Se os sonhos se tornam por demais difusos e volumosos, 
toda a esperana de decifr-los deve ser tacitamente abandonada desde o incio. Devemos em geral evitar demonstrar interesse muito especial na interpretao de sonhos, 
ou despertar no paciente a idia de que o trabalho se interromperia se ele no apresentasse sonhos; de outra maneira, h o perigo de a resistncia ser dirigida para 
a produo de sonhos, com a conseqente cessao destes. Pelo contrrio, o paciente deve ser levado a crer que a anlise invariavelmente encontra material para sua 
continuao, independentemente de ele apresentar ou no sonhos, ou da ateno que lhes  dedicada.
         Perguntar-se- agora se no estaremos abandonando material excessivamente valioso, que poderia lanar luz sobre o inconsciente, se a interpretao de sonhos 
s puder ser realizada sujeita a tais restries de mtodo. A resposta a isto  que a perda de modo algum  to grande quanto poderia parecer a um exame superficial 
do assunto. Inicialmente, tem-se de reconhecer que, em casos de neurose grave, quaisquer produes onricas elaboradas devem, pela natureza das coisas, ser encaradas 
como incapazes de soluo completa. Um sonho deste tipo amide se baseia em todo o material patognico do caso, ainda desconhecido tanto do mdico quanto do paciente 
(os chamados 'sonhos programticos' e sonhos biogrficos), sendo s vezes equivalente a uma traduo, em linguagem onrica, de todo o contedo da neurose. Na tentativa 
de interpretar tal sonho, todas as resistncias latentes, ainda intocadas, sero postas em atividade e logo estabelecero um limite  sua compreenso. A interpretao 
completa deste sonho coincidir com o trmino de toda a anlise; se se tomar nota dele, no incio, talvez seja possvel compreend-lo ao final, muitos meses mais 
tarde.  o mesmo que acontece com a elucidao de um sintoma isolado (o sintoma principal, talvez).  preciso a anlise completa para explic-lo; no decorrer do 
tratamento, temos de esforar-nos por apreender primeiro este, depois aquele fragmento do significado do sintoma, um aps outro, at que possam ser todos reunidos. 
Semelhantemente, no se pode esperar mais de um sonho que ocorre nos primeiros estdios da anlise; temos de contentar-nos se a tentativa de interpretao traz  
luz um nico impulso patognico de desejo. 
         Assim, no se abandona nada que se pode obter, se se desiste da idia de uma interpretao de sonhos completa; tampouco nada se perde, via de regra, se 
interrompemos a interpretao de um sonho relativamente antigo e voltamo-nos para uma mais recente. Descobrimos, em timos exemplos de sonhos inteiramente analisados, 
que diversas cenas sucessivas de um s sonho podem ter o mesmo contedo, o qual pode nelas ser expresso com crescente clareza, e aprendemos tambm que diversos sonhos 
que ocorrem em uma mesma noite no passam de tentativas, manifestadas sob vrias formas, de representar um s significado. Em geral, podemos ficar certos de que 
todo impulso de desejo que cria hoje um sonho reaparecer noutros sonhos, enquanto no tiver sido compreendido e retirado do domnio do inconsciente. Por isso acontece 
freqentemente que a melhor maneira de completar a interpretao de um sonho seja abandon-lo e dedicar a ateno a um sonho novo, que pode conter o mesmo material 
sob forma possivelmente mais acessvel. Sei que  pedir muito, no apenas do paciente mas tambm do mdico, esperar que abandonem seus propsitos conscientes durante 
o tratamento e entreguem-se a uma orientao que, apesar de tudo, ainda nos parece 'acidental'. Mas posso responder que se  recompensado toda vez que se resolve 
ter f nos prprios princpios tericos e se persuade a no discutir a orientao do inconsciente ao estabelecer elos de ligao.
         Advirto, portanto, que a interpretao de sonhos no deve ser perseguida no tratamento analtico como arte pela arte, mas que seu manejo deve submeter-se 
quelas regras tcnicas que orientam a direo do tratamento como um todo. Ocasionalmente,  natural, pode-se agir de outra maneira e permitir um pouco de liberdade 
de ao ao prprio interesse terico; mas deve-se sempre estar cnscio do que se est fazendo. Outra situao a ser considerada  a que surgiu desde que adquirimos 
mais confiana em nossa compreenso do simbolismo onrico, e no dependemos tanto das associaes do paciente. Um intrprete onrico excepcionalmente hbil encontrar-se- 
s vezes em posio de poder perscrutar cada um dos sonhos de um paciente, sem exigir que este passe pelo tedioso e demorado processo de elabor-los. Um analista 
desse tipo acha-se assim livre de qualquer conflito entre as exigncias da interpretao de sonhos e as do tratamento. Alm disso, ficar tentado a fazer pleno uso 
da interpretao de sonhos em toda ocasio, dizendo ao paciente tudo o que detectou em seus sonhos. Assim procedendo, contudo, ter adotado um mtodo de tratamento 
que se afasta consideravelmente do estabelecido, como indicarei em relao a outro assunto. Os principiantes na clnica psicanaltica, de qualquer modo, so aconselhados 
a no tomarem este caso excepcional por modelo.
         Todo analista se encontra na posio do intrprete de sonhos superior que estivemos imaginando, com referncia aos primeirssimos sonhos que os pacientes 
trazem, antes de terem aprendido algo da tcnica de traduzi-los. Estes sonhos iniciais podem ser descritos como no refinados; revelam muito ao ouvinte, tal como 
os sonhos das chamadas pessoas sadias. Surge ento a questo de saber se o analista deve imediatamente traduzir para o paciente tudo o que l neles. No  este, 
porm, o lugar para responder a esta questo, pois ela evidentemente faz parte de outra mais ampla: em que estdio do tratamento e com que rapidez deve o analista 
deixar o paciente conhecer o que jaz oculto em sua mente? Quanto mais o paciente aprende da prtica da interpretao de sonhos, mais obscuros, geralmente, se tornam 
seus sonhos posteriores. Todo o conhecimento adquirido sobre sonhos serve tambm para colocar em guarda o processo de construo onrica.
         Nas obras 'cientficas' sobre sonhos, que, apesar de seu repdio da interpretao de sonhos, receberam da psicanlise novo estmulo, descobrimos com freqncia 
que um cuidado escrupuloso  desnecessariamente concedido  preservao acurada do texto do sonho. Supe-se que este precise de proteo contra deformaes e atritos, 
nas horas que seguem imediatamente o despertar. Alguns psicanalistas at, ao darem ao paciente instrues para anotar cada sonho logo aps acordar, no parecem confiar 
consistentemente em seu conhecimento das condies de formao onrica. No trabalho teraputico, essa regra  suprflua, e os pacientes alegram-se em fazer uso dela 
para perturbar o prprio sono e demonstrar grande zelo quando este  intil. Pois, mesmo que o texto de um sonho seja dessa maneira arduamente salvo do esquecimento, 
 bastante fcil convencer-nos de que nada foi conseguido para o paciente. No surgiro associaes no texto e o resultado ser igual ao que haveria se o sonho no 
houvesse sido preservado. Indubitavelmente, o mdico adquiriu um conhecimento que de outro modo no teria conseguido, mas no  a mesma coisa se o analista sabe 
de algo ou se o paciente o sabe; a importncia desta distino para a tcnica da psicanlise ser mais amplamente considerada alhures.
         Em concluso, mencionarei um tipo especfico de sonho que, conforme o caso, ocorre apenas no decurso do tratamento psicanaltico, e pode desconcertar ou 
desorientar os principiantes. Trata-se dos sonhos corroborativos que, por assim dizer, 'vo no rastro'; so facilmente acessveis  anlise e sua traduo simplesmente 
apresenta o que o tratamento j inferiu, durante os ltimos dias, do material das associaes dirias. Quando isto acontece,  como se o paciente houvesse sido amvel 
o bastante para trazer, sob forma onrica, exatamente o que lhe havamos estado 'sugerindo' pouco antes. O analista mais experiente achar sem dvida difcil atribuir 
amabilidade desse tipo ao paciente; ele aceita tais sonhos como confirmaes esperadas e reconhece que s so observados sob certas condies ocasionadas por influncia 
do tratamento. A grande maioria dos sonhos antecipa-se  anlise, de maneira que, aps subtrair deles tudo que j  sabido e compreendido, resta ainda uma aluso 
mais ou menos clara a algo que at ento estivera oculto.
         
         
         
         
A DINMICA DA TRANSFERNCIA (1912)
         
         NOTA DO EDITOR INGLS
         
         ZUR DYNAMIK DER BERTRAGUNG
         
         (a) EDIES ALEMS:
         1912 Zbl. Psychoan., 2, (4), 167-73.
         1918 S. K. S. N., 4, 388-98. (1922, 2 ed.)
         1924 Technik und Metapsychol., 53-63.
         1925 G. S., 6, 53-63.
         1931 Neurosenlehre und Technik, 328-40.
         1943 G. W., 8, 364-74.
         
         (b) TRADUO INGLESA:
         'The Dynamics of Transference'
         1924 C. P., 2, 312-22. (Trad. de Joan Riviere.)
         
         A presente traduo inglesa, da autoria de James Strachey, aparece aqui pela primeira vez.
         
         Embora Freud inclusse este artigo (publicado em janeiro de 1912) na srie sobre tcnica, ele  na verdade mais um exame terico do fenmeno da transferncia 
e da maneira pela qual esta opera no tratamento analtico. Freud j havia abordado o assunto em breves consideraes ao final da histria clnica de 'Dora' (1905e 
[1901]), ver em [1], 1972. Tratou dele muito mais amplamente na segunda metade da Conferncia XXVII e na primeira metade da Conferncia XXVIII de suas Conferncias 
Introdutrias (1916-17); e, perto do fim da vida, fez vrios importantes comentrios sobre o tema no decurso de seu longo artigo 'Anlise Terminvel e Interminvel' 
(1937c).
         
         A DINMICA DA TRANSFERNCIA
         
         O tpico quase inexaurvel da transferncia foi recentemente tratado por Wilhelm Stekel [1911b] nesse peridico, em estilo descritivo. Gostaria de, nas 
pginas seguintes, acrescentar algumas consideraes destinadas a explicar como a transferncia  necessariamente ocasionada durante o tratamento psicanaltico, 
e como vem ela a desempenhar neste seu conhecido papel.
         Deve-se compreender que cada indivduo, atravs da ao combinada de sua disposio inata e das influncias sofridas durante os primeiros anos, conseguiu 
um mtodo especfico prprio de conduzir-se na vida ertica - isto , nas precondies para enamorar-se que estabelece, nos instintos que satisfaz e nos objetivos 
que determina a si mesmo no decurso daquela. Isso produz o que se poderia descrever como um clich estereotpico (ou diversos deles), constantemente repetido - constantemente 
reimpresso - no decorrer da vida da pessoa, na medida em que as circunstncias externas e a natureza dos objetos amorosos a ela acessveis permitam, e que decerto 
no  inteiramente incapaz de mudar, frente a experincias recentes. Ora, nossas observaes demonstraram que somente uma parte daqueles impulsos que determinam 
o curso da vida ertica passou por todo o processo de desenvolvimento psquico. Esta parte est dirigida para a realidade, acha-se  disposio da personalidade 
consciente e faz parte dela. Outra parte dos impulsos libidinais foi retida no curso do desenvolvimento; mantiveram-na afastada da personalidade consciente e da 
realidade, e, ou foi impedida de expanso ulterior, exceto na fantasia, ou permaneceu totalmente no inconsciente, de maneira que  desconhecida pela conscincia 
da personalidade. Se a necessidade que algum tem de amar no  inteiramente satisfeita pela realidade, ele est fadado a aproximar-se de cada nova pessoa que encontra 
com idias libidinais antecipadas; e  bastante provvel que ambas as partes de sua libido, tanto a parte que  capaz de se tornar consciente quanto a inconsciente, 
tenham sua cota na formao dessa atitude.
         Assim,  perfeitamente normal e inteligvel que a catexia libidinal de algum que se acha parcialmente insatisfeito, uma catexia que se acha pronta por 
antecipao, dirija-se tambm para a figura do mdico. Decorre de nossa hiptese primitiva que esta catexia recorrer a prottipos, ligar-se- a um dos clichs estereotpicos 
que se acham presentes no indivduo; ou, para colocar a situao de outra maneira, a catexia incluir o mdico numa das 'sries' psquicas que o paciente j formou. 
Se a 'imago paterna', para utilizar o termo adequado introduzido por Jung (1911, 164), foi o fator decisivo no caso, o resultado concordar com as relaes reais 
do indivduo com seu mdico. Mas a transferncia no se acha presa a este prottipo especfico: pode surgir tambm semelhante  imago materna ou  imago fraterna. 
As peculiaridades da transferncia para o mdico, graas s quais ela excede, em quantidade e natureza, tudo que se possa justificar em fundamentos sensatos ou racionais, 
tornam-se inteligveis se tivermos em mente que essa transferncia foi precisamente estabelecida no apenas pelas idias antecipadas conscientes, mas tambm por 
aquelas que foram retidas ou que so inconscientes.
         Nada mais haveria a examinar ou com que se preocupar a respeito deste comportamento da transferncia, no fosse permanecerem inexplicados nela dois pontos 
que so de interesse especfico para os psicanalistas. Em primeiro lugar, no compreendemos por que a transferncia  to mais intensa nos indivduos neurticos 
em anlise que em outras pessoas desse tipo que no esto sendo analisadas. Em segundo, permanece sendo um enigma a razo por que, na anlise, a transferncia surge 
como a resistncia mais poderosa ao tratamento, enquanto que, fora dela, deve ser encarada como veculo de cura e condio de sucesso. Pois nossa experincia demonstrou 
- e o fato pode ser confirmado com tanta freqncia quanto o desejarmos - que, se as associaes de um paciente faltam, a interrupo pode invariavelmente ser removida 
pela garantia de que ele est sendo dominado, momentaneamente, por uma associao relacionada com o prprio mdico ou com algo a este vinculado. Assim que esta explicao 
 fornecida, a interrupo  removida ou a situao se altera, de uma em que as associaes faltam para outra em que elas esto sendo retidas.  primeira vista, 
parece ser uma imensa desvantagem, para a psicanlise como mtodo, que aquilo que alhures constitui o fator mais forte no sentido do sucesso nela se transforme no 
mais poderoso meio de resistncia. Contudo, se examinarmos a situao mais de perto, podemos pelo menos dissipar o primeiro de nossos dois problemas. No  fato 
que a transferncia surja com maior intensidade e ausncia de coibio durante a psicanlise que fora dela. Nas instituies em que doentes dos nervos so tratados 
de modo no analtico, podemos observar que a transferncia ocorre com a maior intensidade e sob as formas mais indignas, chegando a nada menos que servido mental 
e, ademais, apresentando o mais claro colorido ertico. Gabriele Reuter, com seus agudos poderes de observao, descreveu isso em poca na qual no havia ainda uma 
coisa chamada psicanlise, num livro notvel, que revela, sob todos os aspectos, a mais clara compreenso interna (insight) da natureza e gnese das neuroses. Essas 
caractersticas da transferncia, portanto, no devem ser atribudas  psicanlise, mas sim  prpria neurose.
         Nosso segundo problema - o problema de saber por que a transferncia aparece na psicanlise como resistncia - est por enquanto intacto; e temos agora 
de abord-lo mais de perto. Figuremos a situao psicolgica durante o tratamento. Uma precondio invarivel e indispensvel de todo desencadeamento de uma psiconeurose 
 o processo a que Jung deu o nome apropriado de 'introverso'. Isto equivale a dizer: a parte da libido que  capaz de se tornar consciente e se acha dirigida para 
a realidade  diminuda, e a parte que se dirige para longe da realidade e  inconsciente, e que, embora possa ainda alimentar as fantasias do indivduo, pertence 
todavia ao inconsciente,  proporcionalmente aumentada. A libido (inteiramente ou em parte) entrou num curso regressivo e reviveu as imagos infantis do indivduo. 
O tratamento analtico ento passa a segui-la; ele procura rastrear a libido, torn-la acessvel  conscincia e, enfim, til  realidade. No ponto em que as investigaes 
da anlise deparam com a libido retirada em seu esconderijo, est fadado a irromper um combate; todas as foras que fizeram a libido regredir se erguero como 'resistncias' 
ao trabalho da anlise, a fim de conservar o novo estado de coisas. Pois, se a introverso ou regresso da libido no houvesse sido justificada por uma relao especfica 
entre o indivduo e o mundo externo - enunciado, em termos mais gerais, pela frustrao da satisfao - e se no se tivesse, no momento, tornado mesmo conveniente, 
no teria absolutamente ocorrido. Mas as resistncias oriundas desta fonte no so as nicas ou, em verdade, as mais poderosas. A libido  disposio da personalidade 
do indivduo esteve sempre sob a influncia da atrao de seus complexos inconscientes (ou mais corretamente, das partes desse complexos pertencentes ao inconsciente), 
e encontrou num curso regressivo devido ao fato de a atrao da realidade haver diminudo. A fim de liber-la, esta atrao do inconsciente tem de ser superada, 
isto , a represso dos instintos inconscientes e de suas produes, que entrementes estabeleceu no indivduo, deve ser removida. Isto  responsvel, de longe, pela 
maior parte da resistncia, que to amide faz a doena persistir mesmo aps o afastamento da realidade haver perdido sua justificao temporria. A anlise tem 
de lutar contra as resistncias oriundas de ambas essas fontes. A resistncia acompanha o tratamento passo a passo. Cada associao isolada, cada ato da pessoa em 
tratamento tem de levar em conta a resistncia e representa uma conciliao entre as foras que esto lutando no sentido do restabelecimento e as que se lhe opem, 
j descritas por mim.
         Se acompanharmos agora um complexo patognico desde sua representao no consciente (seja ele bvio, sob a forma de um sintoma, ou algo inteiramente indiscernvel) 
at sua raiz no inconsciente, logo ingressaremos numa regio em que a resistncia se faz sentir to claramente que a associao seguinte tem de lev-la em conta 
a aparecer como uma conciliao entre suas exigncias e as do trabalho de investigao.  neste ponto, segundo prova nossa experincia, que a transferncia entra 
em cena. Quando algo no material complexivo (no tema geral do complexo) serve para ser transferido para a figura do mdico, essa transferncia  realizada; ela produz 
a associao seguinte e se anuncia por sinais de resistncias - por uma interrupo, por exemplo. Inferimos desta experincia que a idia transferencial penetrou 
na conscincia  frente de quaisquer outras associaes possveis, porque ela satisfaz a resistncia. Um evento deste tipo se repete inmeras vezes no decurso de 
um anlise. Reiteradamente, quando nos aproximamos de um complexo patognico, a parte desse complexo capaz de transferncia  empurrada em primeiro lugar para a 
conscincia e defendida com a maior obstinao. 
         Depois que ela for vencida, a superao das outras partes do complexo quase no apresenta novas dificuldades. Quanto mais um tratamento analtico demora 
e mais claramente o paciente se d conta de que as deformaes do material patognico no podem, por si prprias, oferecer qualquer proteo contra sua revelao, 
mais sistematicamente faz ela uso de um tipo de deformao que obviamente lhe concede as maiores vantagens - a deformao mediante a transferncia. Essas circunstncias 
tendem para uma situao na qual, finalmente, todo conflito tem de ser combatido na esfera da transferncia.
         Assim, a transferncia, no tratamento analtico, invariavelmente nos aparece, desde o incio, como a arma mais forte da resistncia, e podemosconcluir que 
a intensidade e persistncia da transferncia constituem efeito e expresso da resistncia. Ocupamo-nos do mecanismo da transferncia,  verdade, quando o remontamos 
ao estado de prontido da libido, que conservou imagos infantis, mas o papel que a transferncia desempenha no tratamento s pode ser explicado se entrarmos na considerao 
de suas relaes com as resistncias.
         Como  possvel que a transferncia sirva to admiravelmente de meio de resistncia? Poder-se-ia pensar que a resposta possa ser fornecida sem dificuldade, 
pois  claro que se torna particularmente difcil de admitir qualquer impulso proscrito de desejo, se ele tem de ser revelado diante desse tipo d origem a situaes 
que, no mundo real, mal parecem possveis. Mas  precisamente a isso que o paciente visa, quando faz o objeto de seus impulsos emocionais coincidir com o mdico. 
Uma nova considerao, no entanto, mostra que essa vitria aparente no pode fornecer a soluo do problema. Na verdade, uma relao de dependncia afetuosa e dedicada 
pode, pelo contrrio, ajudar uma pessoa a superar todas as dificuldades de fazer uma confisso. Em situaes reais anlogas, as pessoas geralmente diro: 'Na sua 
frente, no sinto vergonha: posso dizer-lhe qualquer coisa.' Assim, a transferncia para o mdico poderia, de modo igualmente simples, servir para facilitar as confisses, 
e no fica claro por que deve tornar as coisas mais difceis.
         A resposta  questo que foi to amide repetida nestas pginas no pode ser alcanada por nova reflexo, mas pelo que descobrimos quando examinamos resistncias 
transferenciais particulares que ocorrem durante o tratamento. Percebemos afinal que no podemos compreender o emprego da transferncia como resistncia enquanto 
pensarmos simplesmente em 'transferncia'. Temos de nos resolver a distinguir uma transferncia 'positiva' de uma 'negativa', a transferncia de sentimentos afetuosos 
da dos hostis e tratar separadamente os dois tipos de transferncia para o mdico. A transferncia positiva  ainda divisvel em transferncia de sentimentos amistosos 
ou afetuosos, que so admissveis  conscincia, e transferncia de prolongamentos desses sentimentos no inconsciente. Com referncia aos ltimos, a anlise demonstra 
que invariavelmente remontam a fontes erticas. E somos assim levados  descoberta de que todas as relaes emocionais de simpatia, amizade, confiana e similares, 
das quais podemos tirar bom proveito em nossas vidas, acham-se geneticamente vinculadas  sexualidade e se desenvolveram a partir de desejos puramente sexuais, atravs 
da suavizao de seu objetivo sexual, por mais puros e no sensuais que possam parecer  nossa autopercepo consciente. Originalmente, conhecemos apenas objetos 
sexuais, e a psicanlise demonstra-nos que pessoas que em nossa vida real so simplesmente admiradas ou respeitadas podem ainda ser objetos sexuais para nosso inconsciente.
         Assim, a soluo do enigma  que a transferncia para o mdico  apropriada para a resistncia ao tratamento apenas na medida em que se tratar de transferncia 
negativa ou de transferncia positiva de impulsos erticos reprimidos. Se "removermos' a transferncia por torn-la consciente, estamos desligando apenas, da pessoa 
do mdico, aqueles dois componentes do ato emocional; o outro componente, admissvel  conscincia e irrepreensvel, persiste, constituindo o veculo de sucesso 
na psicanlise, exatamente como o  em outros mtodos de tratamento. At este ponto admitimos prontamente que os resultados da psicanlise baseiam-se na sugesto; 
por esta, contudo, devemos entender, como o faz Ferenczi (1909), a influenciao de uma pessoa por meio dos fenmenos transferenciais possveis em seu caso. Cuidamos 
da independncia final do paciente pelo emprego da sugesto, a fim de faz-lo realizar um trabalho psquico que resulta necessariamente numa melhora constante de 
sua situao psquica.
         Pode-se levantar ainda a questo de saber por que os fenmenos de resistncia da transferncia s aparecem na psicanlise e no em formas indiferentes de 
tratamento (em instituies, por exemplo). A resposta  que eles tambm se apresentam nestas outras situaes, mas tm de ser identificados como tal. A manifestao 
de uma transferncia negativa , na realidade, acontecimento muito comum nas instituies. Assim que um paciente cai sob o domnio da transferncia negativa, ele 
deixa a instituio em estado inalterado ou agravado. A transferncia ertica no possui efeito to inibidor nas instituies, visto que nestas, tal como acontece 
na vida comum, ela  encoberta ao invs de revelada. Mas se manifesta muito claramente como resistncia ao restabelecimento, no,  verdade, por levar o paciente 
a sair da instituio - pelo contrrio, retm-no a - mas por mant-lo a certa distncia da vida. Pois, do ponto de vista do restabelecimento,  completamente indiferente 
que o paciente supere essa ou aquela ansiedade ou inibio na instituio; o que importa  que ele fique livre dela tambm na vida real.
         A transferncia negativa merece exame pormenorizado, que no pode ser feito dentro dos limites do presente trabalho. Nas formas curveis de psiconeurose, 
ela  encontrada lado a lado com a transferncia afetuosa, amide dirigidas simultaneamente para a mesma pessoa. Bleuler adotou o excelente termo 'ambivalncia' 
para descrever este fenmeno. At certo ponto, uma ambivalncia de sentimento deste tipo parece ser normal; mas um alto grau dela , certamente, peculiaridade especial 
de pessoas neurticas. Nos neurticos obsessivos, uma separao antecipada dos 'pares de contrrios' parece ser caracterstica de sua vida instintual e uma de suas 
precondies constitucionais. A ambivalncia nas tendncias emocionais dos neurticos  a melhor explicao para sua habilidade em colocar as transferncias a servio 
da resistncia. Onde a capacidade de transferncia tornou-se essencialmente limitada a uma transferncia negativa, como  o caso dos paranicos, deixa de haver qualquer 
possibilidade de influncia ou cura.
         Em todas estas reflexes, porm, lidamos at agora com apenas um dos lados do fenmeno da transferncia; temos de voltar nossa ateno para outro aspecto 
do mesmo assunto. Todo aquele que faa uma apreciao correta da maneira pela qual uma pessoa em anlise, assim que entra sob o domnio de qualquer resistncia transferencial 
considervel,  arremessada para fora de sua relao real com o mdico, como se sente ento em liberdade para desprezar a regra fundamental da psicanlise, que estabelece 
que tudo que lhe venha  cabea deve ser comunicado sem crtica, como esquece as intenes com que iniciou o tratamento, e como encara com indiferena argumentos 
e concluses lgicas que, apenas pouco tempo antes, lhe haviam causado grande impresso - todo aquele que tenha observado tudo isso achar necessrio procurar uma 
explicao de sua impresso em outros fatores alm dos que j foram aduzidos. E esses fatores no se acham longe; originam-se, mais uma vez, da situao psicolgica 
em que o tratamento coloca o paciente.
         No processo de procurar a libido que fugira do consciente do paciente, penetramos no reino do inconsciente. As reaes que provocamos revelam, ao mesmo 
tempo, algumas das caractersticas que viemos a conhecer a partir do estudo dos sonhos. Os impulsos inconscientes no desejam ser recordados da maneira pela qual 
o tratamento quer que o sejam, mas esforam-se por reproduzir-se de acordo com a atemporalidade do inconsciente e sua capacidade de alucinao. Tal como acontece 
aos sonhos, o paciente encara os produtos do despertar de seus impulsos inconscientes como contemporneos e reais; procura colocar suas paixes em ao sem levar 
em conta a situao real. O mdico tenta compeli-lo a ajustar esses impulsos emocionais ao nexo do tratamento e da histria de sua vida, a submet-los  considerao 
intelectual e a compreend-los  luz de seu valor psquico. Esta luta entre o mdico e o paciente, entre o intelecto e a vida instintual, entre a compreenso e a 
procura da ao,  travada, quase exclusivamente, nos fenmenos da transferncia.  nesse campo que a vitria tem de ser conquistada - vitria cuja expresso  a 
cura permanente da neurose. No se discute que controlar os fenmenos da transferncia representa para o psicanalista as maiores dificuldades; mas no se deve esquecer 
que so precisamente eles que nos prestam o inestimvel servio de tornar imediatos e manifestos os impulsos erticos ocultos e esquecidos do paciente. Pois, quando 
tudo est dito e feito,  impossvel destruir algum in absentia ou in effligie.
         
         
         














RECOMENDAES AOS MDICOS QUE EXERCEM A PSICANLISE (1912)
         
         NOTA DO EDITOR INGLS
         
         RATSCHLGE FR DEN ARZT BEI DER PSYCHOANALYTISCHEN BEHANDLUNG
         
         (a) EDIES ALEMS:
         1912 Zbl. Psychoan., 2 (9), 483-9.
         1918 S. K. S. N., 4, 399-411. (1922, 2 ed.)
         1924 Technik und Metapsychol., 64-75.
         1925 G. S., 6, 64-75.
         1931 Neurosenlehre und Technik, 340-51.
         1943 G. W., 8, 376-87.
         
         (b) TRADUO INGLESA:
         'Recommendations for Physicians on the Psycho-AnalyticMethod of Treatment'
         1924 C. P., 2, 323-33. (Trad. de Joan Riviere)
         
         A presente traduo inglesa, com o ttulo alterado, constitui verso modificada da publicada em 1924.
         Este artigo apareceu pela primeira vez em junho de 1912.
         
         RECOMENDAES AOS MDICOS QUE EXERCEM A PSICANLISE
         
         As regras tcnicas que estou apresentando aqui alcancei-as por minha prpria experincia, no decurso de muitos anos, aps resultados pouco afortunados me 
haverem levado a abandonar outros mtodos. Ver-se- facilmente que elas (ou, pelo menos, muitas delas) podem ser resumidas num preceito nico [cf. em [1]]. Minha 
esperana  que a observao delas poupe aos mdicos que exercem a psicanlise muito esforo desnecessrio e resguarde-os contra algumas inadvertncias. Devo, contudo, 
tornar claro que o que estou asseverando  que esta tcnica  a nica apropriada  minha individualidade; no me arrisco a negar que um mdico constitudo de modo 
inteiramente diferente possa ver-se levado a adotar atitude diferente em relao a seus pacientes e  tarefa que se lhe apresenta.
         (a) O primeiro problema com que se defronta o analista que est tratando mais de um paciente por dia lhe parecer o mais rduo. Trata-se da tarefa de lembrar-se 
de todos os inumerveis nomes, datas, lembranas, pormenorizadas e produtos patolgicos que cada paciente comunica no decurso de meses e anos de tratamento, e de 
no confundi-los com material semelhante produzido por outros pacientes em tratamento, simultnea ou previamente. Se nos  exigido analisar seis, oito ou mesmo mais 
pacientes diariamente, o esforo de memria que isto implica provocar incredulidade, espanto ou at mesmo comiserao em observadores pouco informados. De qualquer 
modo, sentir-se- curiosidade pela tcnica que torna possvel dominar tal abundncia de material, e a expectativa ser de que alguns expedientes especiais sejam 
exigidos para esse fim.
         A tcnica, contudo,  muito simples. Como se ver, ela rejeita o emprego de qualquer expediente especial (mesmo de tomar notas). Consiste simplesmente em 
no dirigir o reparo para algo especfico e em manter a mesma 'ateno uniformemente suspensa' (como a denominei) em face de tudo o que se escuta. Desta maneira, 
poupamos de esforo violento nossa ateno, a qual, de qualquer modo, no poderia ser mantida por vrias horas diariamente, e evitamos um perigo que  inseparvel 
do exerccio da ateno deliberada. Pois assim que algum deliberadamente concentra bastante a ateno, comea a selecionar o material que lhe  apresentado; um 
ponto fixar-se- em sua mente com clareza particular e algum outro ser, correspondentemente, negligenciado, e, ao fazer essa seleo, estar seguindo suas expectativas 
ou inclinaes. Isto, contudo,  exatamente o que no deve ser feito. Ao efetuar a seleo, se seguir suas expectativas, estar arriscado a nunca descobrir nada 
alm do que j sabe; e, se seguir as inclinaes, certamente falsificar o que possa perceber. No se deve esquecer que o que se escuta, na maioria, so coisas cujo 
significado s  identificado posteriormente.
         Ver-se- que a regra de prestar igual reparo a tudo constitui a contrapartida necessria da exigncia feita ao paciente, de que comunique tudo o que lhe 
ocorre, sem crtica ou seleo. Se o mdico se comportar de outro modo, estar jogando fora a maior parte da vantagem que resulta de o paciente obedecer  'regra 
fundamental da psicanlise'. A regra para o mdico pode ser assim expressa: 'Ele deve conter todas as influncias conscientes da sua capacidade de prestar ateno 
e abandonar-se inteiramente  'memria inconsciente".' Ou, para diz-lo puramente em termos tcnicos: 'Ele deve simplesmente escutar e no se preocupar se est se 
lembrando de alguma coisa.'
         O que se consegue desta maneira ser suficiente para todas as exigncias durante o tratamento. Aqueles elementos do material que j formam um texto coerente 
ficaro  disposio consciente do mdico; o resto, ainda desconexo e em desordem catica, parece a princpio estar submerso, mas vem rapidamente  lembrana assim 
que o paciente traz  baila algo de novo, a que se pode relacionar e pelo qual pode ser continuado. O cumprimento imerecido de ter 'uma memria excepcionalmente 
boa', que o paciente nos presta quando reproduzimos algum pormenor aps mais de ano, pode ento ser aceito com um sorriso, enquanto que uma determinao consciente 
de relembrar o assunto provavelmente teria resultado em fracasso.
         Equvocos neste processo de recordao ocorrem apenas em ocasies e lugares em que nos achamos perturbados por alguma considerao pessoal (ver em [1]) 
- isto , quando se caiu seriamente abaixo do padro de um analista ideal. Confuso com material trazido por outros pacientes muito raramente ocorre. Quando h uma 
discusso com o paciente quanto a se ou como ele disse alguma coisa especfica, o mdico geralmente est com a razo.
         (b) No posso aconselhar a tomada de notas integrais, a manuteno de um registro estenogrfico etc., durante as sesses analticas.  parte a impresso 
desfavorvel que isto causa em certos pacientes, as mesmas consideraes que foram apresentadas com referncia  ateno aplicam-se tambm aqui. Far-se- necessariamente 
uma seleo prejudicial do material enquanto se escrevem ou se taquigrafam as notas, e parte de nossa prpria atividade mental acha-se dessa maneira presa, quando 
seria mais bem empregada na interpretao do que se ouviu. Nenhuma objeo pode ser levantada a fazerem-se excees a esta regra no caso de datas, texto de sonhos, 
ou eventos especficos dignos de nota, que podem ser facilmente desligados de seu contexto e so apropriados para uso independente, como exemplos. Mas tampouco tenho 
o hbito de fazer isto. Quanto aos exemplos, anoto-os, de memria,  noite, aps o trabalho se encerrar; quanto aos textos de sonhos a que dou importncia, fao 
o paciente repeti-los, aps hav-los relatado, de maneira a que eu possa fix-los na mente.
         (c) Tomar notas durante a sesso com o paciente poderia ser justificado pela inteno de publicar um estudo cientfico do caso. Em fundamentos gerais, isto 
dificilmente pode ser negado. No obstante, deve-se ter em mente que relatrios exatos de histrias clnicas analticas so de menor valor do que se poderia esperar. 
Estritamente falando, possuem apenas a exatido ostensiva de que a psiquiatria 'moderna' fornece-nos alguns exemplos marcantes. So, via de regra, fatigantes para 
o leitor e ainda no conseguem substituir sua presena concreta em uma anlise. A experincia invariavelmente demonstra que, se os leitores esto dispostos a acreditar 
num analista, tero confiana em qualquer reviso ligeira a que ele tenha submetido o material; se, por outro lado, no esto dispostos a levar a srio anlise e 
analista, tampouco prestaro ateno a acurados registros literais do tratamento. No  esta, segundo parece, a maneira de remediar a falta de provas convincentes 
em relatrios psicanalticos.
         (d) Uma das reivindicaes da psicanlise em seu favor  indubitavelmente, o fato de que, em sua execuo, pesquisa e tratamento coincidem; no obstante, 
aps certo ponto, a tcnica exigida por uma ope-se  requerida pelo outro. No  bom trabalhar cientificamente num caso enquanto o tratamento ainda est continuando 
- reunir sua estrutura, tentar predizer seu progresso futuro e obter, de tempos em tempos, um quadro do estado atual das coisas, como o interesse cientfico exigiria. 
Casos que so dedicados, desde o princpio, a propsitos cientficos, e assim tratados, sofrem em seu resultado; enquanto os casos mais bem sucedidos so aqueles 
em que se avana, por assim dizer, sem qualquer intuito em vista, em que se permite ser tomado de surpresa por qualquer nova reviravolta neles, e sempre se o enfrenta 
com liberalidade, sem quaisquer pressuposies. A conduta correta para um analista reside em oscilar, de acordo com a necessidade, de uma atitude mental para outra, 
em evitar especulao ou meditao sobre os casos, enquanto eles esto em anlise, e em somente submeter o material obtido a um processo sinttico de pensamento 
aps a anlise ter sido concluda. A distino entre as duas atitudes seria sem sentido se j possussemos todo o conhecimento (ou, pelo menos, o conhecimento essencial) 
sobre a psicologia do inconsciente e a estrutura das neuroses que podemos obter do trabalho psicanaltico. Atualmente, ainda nos achamos longe desse objetivo e no 
devemos cercear-nos a possibilidade de conferir o que j sabemos e ampliar mais nosso conhecimento.
         (e) No posso aconselhar insistentemente demais os meus colegas a tomarem como modelo, durante o tratamento psicanaltico, o cirurgio, que pe de lado 
todos os sentimentos, at mesmo a solidariedade humana, e concentra suas foras mentais no objetivo nico de realizar a operao to competentemente quanto possvel. 
Nas condies atuais, o sentimento mais perigoso para um psicanalista  a ambio teraputica de alcanar, mediante este mtodo novo e muito discutido, algo que 
produza efeito convincente sobre outras pessoas. Isto no apenas o colocar num estado de esprito desfavorvel para o trabalho, mas torna-lo- impotente contra 
certas resistncias do paciente, cujo restabelecimento, como sabemos, depende primordialmente da ao recproca de foras nele. A justificativa para exigir essa 
frieza emocional no analista  que ela cria condies mais vantajosas para ambas as partes: para o mdico, uma proteo desejvel para sua prpria vida emocional, 
e, para o paciente, o maior auxlio que lhe podemos hoje dar. Um cirurgio dos tempos antigos tomou como divisa as palavras: 'Je le pansai, Dieu le gurit.' O analista 
deveria contentar-se com algo semelhante.
         (f)  fcil perceber para que objetivo as diferentes regras que apresentei convergem. [Ver em [1].] Todas elas se destinam a criar, para o mdico, uma contrapartida 
 'regra fundamental da psicanlise' estabelecida para o paciente. Assim como o paciente deve relatar tudo o que sua auto-observao possa detectar, e impedir todas 
as objees lgicas e afetivas que procuram induzi-lo a fazer uma seleo dentre elas, tambm o mdico deve colocar-se em posio de fazer uso de tudo o que lhe 
 dito para fins de interpretao e identificar o material inconsciente oculto, sem substituir sua prpria censura pela seleo de que o paciente abriu mo. Para 
melhor formul-lo: ele deve voltar seu prprio inconsciente, como um rgo receptor, na direo do inconsciente transmissor do paciente. Deve ajustar-se ao paciente 
como um receptor telefnico se ajusta ao microfone transmissor. Assim como o receptor transforma de novo em ondas sonoras as oscilaes eltricas na linha telefnica, 
que foram criadas por ondas sonoras, da mesma maneira o inconsciente do mdico  capaz, a partir dos derivados do inconsciente que lhe so comunicados, de reconstruir 
esse inconsciente, que determinou as associaes livres do paciente.
         Mas se o mdico quiser estar em posio de utilizar seu inconsciente desse modo, como instrumento da anlise, deve ele prprio preencher determinada conduo 
psicolgica em alto grau. Ele no pode tolerar quaisquer resistncias em si prprio que ocultem de sua conscincia o que foi percebido pelo inconsciente; doutra 
maneira, introduziria na anlise nova espcie de seleo e deformao que seria muito mais prejudicial que a resultante da concentrao da ateno consciente. No 
basta para isto que ele prprio seja uma pessoa aproximadamente normal. Deve-se insistir, antes, que tenha passado por uma purificao psicanaltica e ficado ciente 
daqueles complexos seus que poderiam interferir na compreenso do que o paciente lhe diz. No pode haver dvida sobre o efeito desqualificante de tais defeitos no 
mdico; toda represso no solucionada nele constitui o que foi apropriadamente descrito por Stekel como um 'ponto cego' em sua percepo analtica.
         H alguns anos, dei como resposta  pergunta de como algum se pode tornar analista: 'Pela anlise dos prprios sonhos' Esta preparao, fora de dvida, 
 suficiente para muitas pessoas, mas no para todos que desejam aprender anlise. Nem pode todo mundo conseguir interpretar seus prprios sonhos sem auxlio externo. 
Enumero como um dos muitos mritos da escola de anlise de Zurique terem eles dado nfase aumentada a este requisito, e terem-no corporificado na exigncia de que 
todos que desejem efetuar anlise em outras pessoas tero primeiramente de ser analisados por algum com conhecimento tcnico. Todo aquele que tome o trabalho a 
srio deve escolher este curso, que oferece mais de uma vantagem; o sacrifcio que implica revelar-se a outra pessoa, sem ser levado a isso pela doena,  amplamente 
recompensado. No apenas o objetivo de aprender a saber o que se acha oculto na prpria mente  muito mais rapidamente atingido, e com menos dispndio de afeto, 
mas obter-se-o, em relao a si prprio, impresses e convices que em vo seriam buscadas no estudo de livro e na assistncia a palestras. E, por fim, no devemos 
subestimar a vantagem que deriva do contato mental duradouro que, via de regra, se estabelece entre o estudioso e seu guia.
         Uma anlise como esta, de algum particamente sadio, permanecer incompleta, como se pode imaginar. Todo aquele que possa apreciar o alto valor do autoconhecimento 
e aumento de autocontrole assim adquiridos continuar, quando ela terminar, o exame analtico de sua personalidade sob a forma de auto-anlise, e ficar contente 
em compreender que, tanto dentro de si quanto no mundo externo, deve sempre esperar descobrir algo de novo. Mas quem no se tiver dignado tomar a precauo de ser 
analisado no s ser punido por ser incapaz de aprender um pouco mais em relao a seus pacientes, mas correr tambm perigo mais srio, que pode se tornar perigo 
tambm para os outros. Cair facilmente na tentao de projetar para fora algumas das peculiaridades de sua prpria personalidade, que indistintamente percebeu, 
no campo da cincia, como uma teoria de validade universal; levar o mtodo psicanaltico ao descrdito e desencaminhar os inexperientes.
         (g) Acrescentarei agora algumas outras regras, que serviro como uma transio da atitude do mdico para o tratamento do paciente.
         Os psicanalistas jovens e vidos indubitavelmente ficaro tentados a colocar sua prpria individualidade livremente no debate, a fim de levar o paciente 
com eles e de ergu-lo sobre as barreiras de sua prpria personalidade limitada. Poder-se-ia esperar que seria inteiramente permissvel e, na verdade, til, com 
vistas a superar as resistncias do paciente, conceder-lhe o mdico um vislumbre de seus prprios defeitos e conflitos mentais e, fornecendo-lhe informaes ntimas 
sobre sua prpria vida, capacit-lo a pr-se ele prprio, paciente, em p de igualdade. Uma confidncia merece outra e todo aquele que exige intimidade de outra 
pessoa deve estar preparado para retribu-la.
         Mas nas relaes psicanalticas as coisas amide acontecem de modo diferente do que a psicologia da conscincia poderia levar-nos a esperar. A experincia 
no fala em favor de uma tcnica afetiva deste tipo. Tampouco  difcil perceber que ela envolve um afastamento dos princpios psicanalticos e beira o tratamento 
por sugesto. Ela pode induzir o paciente a apresentar mais cedo, e com menos dificuldade, coisas que j conhece, mas que, de outra maneira, esconderia por certo 
tempo, mediante as resistncias convencionais. Mas esta tcnica no consegue nada no sentido de revelar o que  inconsciente ao paciente. Torna-o ainda mais incapaz 
de superar suas resistncias mais profundas e, em casos mais graves, invariavelmente fracassa, por incentivar o paciente a ser insacivel: ele gostaria de inverter 
a situao, e acha a anlise do mdico mais interessante que a sua. A soluo da transferncia, tambm - uma das tarefas principais do tratamento -,  dificultada 
por uma atitude ntima por parte do mdico, de maneira que qualquer proveito que possa haver no princpio  mais que superado ao final. No hesito, portanto, em 
condenar este tipo de tcnica como incorreto. O mdico deve ser opaco aos seus pacientes e, como um espelho, no mostrar-lhes nada, exceto o que lhe  mostrado. 
Na prtica,  verdade, nada se pode dizer contra um psicoterapeuta que combine uma certa quantidade de anlise com alguma influncia sugestiva, a fim de chegar a 
um resultado perceptvel em tempo mais curto - tal como  necessrio, por exemplo, nas instituies. Mas  lcito insistir em que ele prprio no se ache em dvida 
quanto ao que est fazendo e saiba que o seu mtodo no  o da verdadeira psicanlise. 
         
         (h) Outra tentao surge da atividade educativa que, no tratamento psicanaltico, incumbe ao mdico, sem qualquer inteno deliberada de sua parte. Quando 
as inibies evolucionrias esto solucionadas, acontece, espontaneamente, que o mdico se encontra na posio de indicar novos objetivos para as inclinaes que 
foram liberadas. No , ento, nada mais que ambio natural que ele se esforce por transformar em especialmente excelente uma pessoa que ele lutou para livrar da 
neurose, e que determine altos propsitos para seus desejos. Mas novamente aqui o mdico deve controlar-se e guiar-se pelas capacidades do paciente em vez de por 
seus prprios desejos. Nem todo neurtico possui grande talento para sublimao; pode-se presumir que muitos deles de modo algum teriam cado enfermos se possussem 
a arte de sublimar seus instintos. Se os pressionarmos indevidamente no sentido da sublimao e lhes cercearmos as satisfaes instintuais mais acessveis e convenientes, 
geralmente tornar-lhe-emos a vida ainda mais rdua do que a sentem ser, de qualquer modo. Como mdico, tem-se acima de tudo de ser tolerante com a fraqueza do paciente, 
e contentar-se em ter reconquistado certo grau de capacidade de trabalho e divertimento para uma pessoa mesmo de valor apenas moderado. A ambio educativa  de 
to pouca utilidade quanto a ambio teraputica. Deve-se, ademais, manter em mente que muitas pessoas caem enfermas exatamente devido  tentativa de sublimar os 
seus instintos alm do grau permitido por sua organizao e que, naqueles que possuem capacidade de sublimao, o processo geralmente se d espontaneamente, assim 
que as suas inibies so superadas pela anlise. Em minha opinio, portanto, invariavelmente, esforos no sentido de usar o tratamento analtico para ocasionar 
a sublimao do instinto - embora, fora de dvida, sempre louvveis - esto longe de ser aconselhveis em todos os casos.
         (i) At que ponto deve-se buscar a cooperao intelectual do paciente no tratamento?  difcil dizer algo de aplicabilidade geral sobre este ponto: a personalidade 
do paciente  o fator determinante. Em todos os casos, porm, cautela e autodomnio devem ser observados a este respeito.  errado determinar tarefas ao paciente, 
tais como coligir suas lembranas ou pensar sobre um perodo especfico de sua vida. Pelo contrrio, ele tem de aprender, acima de tudo - o que nunca acontece facilmente 
com algum -, que atividades mentais, tais como refletir sobre algo ou concentrar a ateno, no solucionam nenhum dos enigmas de uma neurose; isto s pode ser efetuado 
ao se obedecer pacientemente  regra psicanaltica, que impe a excluso de toda crtica do inconsciente ou de seus derivados. Deve-se ser especialmente inflexvel 
a respeito da obedincia a essa regra com pacientes que praticam a arte de desviar-se para o debate intelectual durante o tratamento, que teorizam muito e com freqncia 
muito sabiamente sobre o seu estado e, dessa maneira, evitam fazer algo para super-lo. Por esta razo, no gosto de utilizar-me de escritos analticos como assistncia 
a meus pacientes; exijo que aprendam por experincia pessoal e asseguro-lhes que adquiriro conhecimento mais amplo e valioso do que toda a literatura da psicanlise 
poderia transmitir-lhes. Todavia, reconheo que, em condies institucionais, pode ser de grande vantagem empregar a leitura como preparao para pacientes em anlise 
e como meio de criar uma atmosfera de influncia.
         Devo fazer a mais sria advertncia contra qualquer tentativa de conquistar a confiana ou apoio de pais ou parentes dando-lhes livros psicanalticos para 
ler, de natureza introdutria ou avanada. Esta medida bem intencionada geralmente tem o efeito de fazer surgir prematuramente a oposio natural dos parentes ao 
tratamento - oposio fadada a aparecer, mais cedo ou mais tarde - de maneira que o tratamento nunca  sequer iniciado.
         Permitam-me expressar a esperana de que a experincia crescente da psicanlise cedo conduza  concordncia sobre questes de tcnica e sobre o mtodo mais 
eficaz de tratar os pacientes neurticos. Com referncia ao tratamento de seus parentes, tenho de confessar-me inteiramente perplexo e, em geral, deposito pouca 
f no seu tratamento individual.
         
         
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       SOBRE O INCIO DO TRATAMENTO (NOVAS RECOMENDAES SOBRE A TCNICA DA PSICANLISE I ) (1913)
         
         NOTA DO EDITOR INGLS
         
         ZUR EINLEITUNG DER BEHANDLUNG
         
         (a) EDIES ALEMS:
         1913 Int. Z. Psychoanal., 1 (1), 1-10 e (2), 139-46.
         1918 S. K. S. N., 4, 412-40. (1922, 2 ed.)
         1924 Technik und Metapsychol., 84-108.
         1925 G. S., 6, 84-108.
         1931 Neurosenlehre und Technik, 359-85.
         1943 G. W., 8, 454-78.
         
         (b) TRADUO INGLESA:
         'Further Recommendations in the Technique of Psycho-Analysis: On Beginning the Treatment. The Question of the First Communications. The Dynamics of the 
Cure'
         1924 C. P., 2, 342-65. (Trad. de Joan Riviere.)
         
         A presente traduo inglesa, com o ttulo alterado,  verso modificada da publicada em 1924.
         
         Este artigo foi publicado em duas partes, em janeiro e maro de 1913. A primeira parte, terminando com as palavras 'com que material deve o tratamento comear?' 
(ver em [1]), tinha o ttulo de 'Weitere Ratschlge zur Technik der Psychoanalyse: I. Zur Einleitung der Behandlung'. A segunda tinha o mesmo ttulo, mas com as 
palavras adicionais: '- Die Frage der ersten Mitteilungen - Die Dynamik der Heilung'. Este ttulo completo  o traduzido na primeira verso inglesa, tal como fornecido 
acima. Todas as edies alems, de 1924 em diante, adotaram o ttulo curto 'Zur Einleitung der Behandlung', sem quaisquer acrscimos. Na opinio original do autor 
(como  demonstrado por seu manuscrito), o artigo dividia-se em trs sees, correspondentes ao ttulo. A primeira destas, 'Sobre o Incio do Tratamento', termina 
em [1]; a segunda, 'A Questo das Primeiras Comunicaes', em [2], onde a terceira, 'A Dinmica da Cura', comea.
         
         
         
         
         SOBRE O INCIO DO TRATAMENTO (NOVAS RECOMENDAES SOBRE A TCNICA DA PSICANLISE I)
         
         Todo aquele que espera aprender o nobre jogo de xadrez nos livros, cedo descobrir que somente as aberturas e os finais de jogos admitem uma apresentao 
sistemtica exaustiva e que a infinita variedade de jogadas que se desenvolvem aps a abertura desafia qualquer descrio desse tipo. Esta lacuna na instruo s 
pode ser preenchida por um estudo diligente dos jogos travados pelos mestres. As regras que podem ser estabelecidas para o exerccio do tratamento psicanaltico 
acham-se sujeitas a limitaes semelhantes.
         No que segue, esforar-me-ei por reunir, para uso de psicanalistas militantes, algumas das regras para o incio do tratamento. Entre elas esto algumas 
que podem parecer pormenores insignificantes, como na verdade so. Sua justificativa  serem simplesmente regras que adquirem importncia por sua relao com o plano 
geral do jogo. Penso estar sendo prudente, contudo, em chamar estas regras de 'recomendaes' e no reivindicar qualquer aceitao incondicional para elas. A extraordinria 
diversidade das constelaes psquicas envolvidas, a plasticidade de todos os processos mentais e a riqueza dos fatores determinantes opem-se a qualquer mecanizao 
da tcnica; e ocasionam que um curso de ao que, via de regra,  justificado possa, s vezes, mostrar-se ineficaz, enquanto outro que habitualmente  errneo possa, 
de vez em quando, conduzir ao fim desejado. Estas circunstncias, contudo, no nos impedem de estabelecer para o mdico um procedimento que, em mdia,  eficaz.
         H alguns anos especifiquei as indicaes mais importantes para a seleo de pacientes e, portanto, no as repetirei aqui. Nesse meio tempo, elas foram 
aprovadas por outros psicanalistas. Mas posso acrescentar que desde ento tornei hbito meu, quando conheo pouco sobre um paciente, s aceit-lo a princpio provisoriamente, 
por um perodo de uma ou duas semanas. Se se interrompe o tratamento dentro deste perodo, poupa-se ao paciente a impresso aflitiva de uma tentativa de cura que 
falhou. Esteve-se apenas empreendendo uma 'sondagem', a fim de conhecer o caso e decidir se ele  apropriado para a psicanlise. Nenhum outro tipo de exame preliminar, 
exceto este procedimento, encontra-se  nossa disposio; os mais extensos debates e questionamentos, em consultas comuns, no lhe ofereceriam substituto. Este experimento 
preliminar, contudo, , ele prprio, o incio de uma psicanlise e deve conformar-se s regras desta. Pode-se talvez fazer a distino de que, nele, se deixa o paciente 
falar quase todo o tempo e no se explica nada mais do que o absolutamente necessrio para faz-lo prosseguir no que est dizendo.
         Existem tambm razes diagnsticas para comear o tratamento por um perodo de experincia deste tipo, a durar uma ou duas semanas. Com bastante freqncia, 
quando se v uma neurose com sintomas histricos ou obsessivos, que no  excessivamente acentuada e no existe h muito tempo - isto , exatamente o tipo de caso 
que se consideraria apropriado para tratamento - tem-se de levar em conta a possibilidade de que ela possa ser um estdio preliminar do que  conhecido por demncia 
precoce ('esquizofrenia', na terminologia de Bleuler; 'parafrenia', como propus cham-la) e que, mais cedo ou mais tarde, apresentar um quadro bem pronunciado dessa 
afeco. No concordo que seja sempre possvel fazer a distino to facilmente. Estou ciente de que existem psiquiatras que hesitam com menos freqncia em seu 
diagnstico diferencial, mas convenci-me de que, com a mesma freqncia, cometem equvocos. Cometer um equvoco, alm disso,  de muito mais gravidade para o psicanalista 
que para o psiquiatra clnico, como este  chamado, pois o ltimo no est tentando fazer algo que seja de utilidade, seja qual for o tipo de caso. Ele simplesmente 
corre o risco de cometer um equvoco terico e seu diagnstico no tem mais que um interesse acadmico. No que concerne ao psicanalista, contudo, se o caso  desfavorvel, 
ele cometeu um erro prtico; foi responsvel por despesas desnecessrias e desacreditou o seu mtodo de tratamento. Ele no pode cumprir sua promessa de cura se 
o paciente est sofrendo, no de histeria ou neurose obsessiva, mas de parafrenia, e, portanto, tem motivos particularmente fortes para evitar cometer equvocos 
no diagnstico. Num tratamento experimental de algumas semanas, ele amide observar sinais suspeitos que possam determin-lo a no levar alm a tentativa. Infelizmente, 
no posso asseverar que uma tentativa deste tipo sempre nos capacite a chegar  deciso certa; trata-se apenas de uma sbia precauo a mais.
         
         Longos debates preliminares antes do incio do tratamento analtico, tratamento prvio por outro mtodo e tambm conhecimento anterior entre o mdico e 
o paciente que deve ser analisado, tm conseqncias desvantajosas especiais, para as quais se tem de estar preparado. Elas resultam em o paciente encontrar o mdico 
com uma atitude transferencial j estabelecida e que o mdico deve, em primeiro lugar, revelar lentamente, em vez de ter a oportunidade de observar o crescimento 
e o desenvolvimento da transferncia desde o incio. Desta maneira, o paciente obtm sobre ns uma dianteira temporria, que no lhe concederamos voluntariamente 
no tratamento.
         Deve-se desconfiar de todos os pacientes em perspectiva que querem esperar um pouco antes de comear o tratamento. A experincia demonstra que, quando a 
ocasio combinada chega, eles deixam de aparecer, ainda que o motivo para o atraso - isto , a racionalizao de sua inteno - parea ao no iniciado acima de qualquer 
suspeita.
         Dificuldades especiais surgem quando o analista e seu novo paciente, ou suas famlias, acham-se em termos de amizade ou tm laos sociais um com o outro. 
O psicanalista chamado a encarregar-se do tratamento da esposa ou do filho de um amigo deve estar preparado para que isso lhes custe esta amizade, qualquer que seja 
o resultado do tratamento; todavia, ter de fazer o sacrifcio, se no puder encontrar um substituto merecedor de confiana.
         Tanto o pblico leigo quanto os mdicos - ainda prontos a confundir a psicanlise com o tratamento por sugesto - inclinam-se a atribuir grande importncia 
s expectativas que o paciente traz para o novo tratamento. Amide acreditam, no caso de determinado paciente, que no dar muito trabalho, pois tem grande confiana 
na psicanlise e acha-se plenamente convicto de sua verdade e eficcia; ao passo que, no caso de outro, acham que ele indubitavelmente mostrar ser mais difcil, 
por ter uma concepo ctica, e no acreditar em nada at haver experimentado os resultados bem sucedidos em sua prpria pessoa. Todavia, na realidade, esta atitude 
por parte do paciente tem muito pouca importncia. Sua confiana ou desconfiana inicial  quase desprezvel, comparada s resistncias internas que mantm a neurose 
firmemente no lugar.  verdade que a confiana alegre do paciente torna nosso primeiro relacionamento com ele muito agradvel; ficamos-lhe gratos por isso, mas advertimo-lo 
de que sua impresso favorvel ser destruda pela primeira dificuldade que surgir na anlise. Ao ctico, dizemos que anlise no exige f, que ele pode ser to 
crtico e desconfiado quanto queira e que no encaramos sua atitude de modo algum como sendo efeito de seu julgamento, pois ele no se acha em posio de formar 
um juzo fidedigno sobre esses assuntos; sua desconfiana  apenas um sintoma, como os seus outros sintomas, e no constituir interferncia, desde que conscienciosamente 
execute o que dele requer a regra do tratamento.
         Ningum que esteja familiarizado com a natureza da neurose ficar espantado em ouvir que mesmo um homem que  muito bem capaz de realizar uma anlise em 
outras pessoas possa comportar-se como qualquer outro mortal e ser capaz de produzir as mais intensas resistncias, assim que ele prprio se torna objeto da investigao 
analtica. Quando isto acontece, somos mais uma vez relembrados da dimenso da profundidade da mente, e no nos surpreende descobrir que a neurose tem suas razes 
em estratos psquicos nos quais o conhecimento intelectual da anlise no penetrou.
         Pontos de importncia no incio do tratamento so os acordos quanto a tempo e dinheiro.
         Com referncia ao tempo, atenho-me estritamente ao princpio de ceder uma hora determinada. A cada paciente  atribuda uma hora especfica de meu dia de 
trabalho disponvel; pertence a ele que  responsvel por ela, mesmo que no faa uso da mesma. Este acordo, que  aceito como natural para professores de msica 
ou idiomas na sociedade, pode talvez parecer rigoroso demais num mdico, ou at mesmo indigno de sua profisso. Tender-se- a indicar os muitos acidentes que podem 
impedir o paciente de comparecer todos os dias  mesma hora e esperar-se- que sejam levadas em conta as numerosas indisposies intervenientes que podem ocorrer 
no decurso de um tratamento analtico prolongado. A minha resposta, porm, : nenhuma outra maneira  praticvel. Sob regime menos estrito, as faltas 'ocasionais' 
aumentam de tal forma que o mdico v sua existncia material ameaada; ao passo que, quando o acordo  seguido, acontece que impedimentos acidentais no ocorrem 
de modo algum, e molstias intervenientes, apenas de modo muito raro. O analista quase nunca  colocado em posio de desfrutar de uma hora de lazer pela qual  
pago e da qual se envergonharia; e pode continuar seu trabalho sem interrupes, sendo-lhe poupada a aflitiva e desconcertante experincia de descobrir que um intervalo 
pelo qual no se pode culpar est sempre sujeito a acontecer exatamente quando o trabalho promete ser especialmente importante e rico em contedo. Nada nos convence 
to fortemente da significao do fator psicognico na vida cotidiana dos homens, da freqncia com que se simula doena e da inexistncia do acaso, quanto alguns 
anos de prtica da psicanlise segundo o princpio estrito da hora marcada. Em casos de molstias orgnicas indubitveis, que, afinal de contas, no podem ser afastadas, 
pelo fato de o paciente ter interesse psquico em comparecer, interrompo o tratamento, considero-me no direito de empregar alhures a hora que fica livre e aceito 
o paciente de volta novamente assim que ele se restabelece e disponho de outra hora vaga.
         Trabalho com meus pacientes todos os dias, exceto aos domingos e feriados oficiais - isto , geralmente seis dias por semana. Para casos leves ou continuao 
de um tratamento que j se acha bem avanado, trs dias por semana bastaro. Quaisquer restries de tempo alm destas no trazem vantagem, quer para o mdico quer 
para o paciente; e, no incio de um anlise, se chama inteiramente fora de questo. Mesmo interrupes breves tm efeito ligeiramente obscurecedor sobre o trabalho. 
Costumvamos falar, por brincadeira, da 'crosta da segunda-feira', quando retomamos o trabalho, aps o descanso dominical. Quando as horas de trabalho so menos 
freqentes, h o risco de no se poder manter o passo com a vida real do paciente e de o tratamento perder contato com o presente e ser forado a utilizar atalhos. 
Ocasionalmente, tambm, deparamos com pacientes a quem se tem de conhecer mais que o tempo mdio de uma hora por dia, porque a maior parte de uma hora j se passou 
antes que comecem a se abrir e a se tornarem comunicativos.
         Uma pergunta importuna que o paciente faz ao mdico, no incio, : 'Quanto tempo durar o tratamento? De quanto tempo o senhor precisar para aliviar-me 
de meu problema?' Se se props um tratamento experimental de algumas semanas, pode-se evitar fornecer resposta direta a esta pergunta, prometendo-se fazer um pronunciamento 
mais fidedigno ao final do perodo de prova. Nossa resposta assemelha-se  resposta dada pelo Filsofo ao Caminhante, na fbula de Esopo. Quando o caminhante perguntou 
quanto tempo teria de jornada, o Filsofo simplesmente respondeu 'Caminha"! e justificou sua resposta aparentemente intil, com o pretexto de que precisava saber 
a amplitude do passo do Caminhante antes de lhe poder dizer quanto tempo a viagem duraria. Este expediente auxilia-nos a superar as primeiras dificuldades, mas a 
comparao no  boa, pois o neurtico pode facilmente alterar o passo e, s vezes, fazer apenas progresso muito lento. Na verdade, a pergunta relativa  durao 
provvel de um tratamento  quase irrespondvel.
         
         Como resultado conjunto de falta de compreenso interna (insight) por parte dos pacientes e falta de engenhosidade por parte dos mdicos, espera-se que 
a anlise atenda s exigncias mais ilimitadas, e isso no tempo mais curto. Permitam-me, como exemplo, fornecer alguns pormenores de uma carta que recebi, h alguns 
dias, de uma senhora da Rssia. Ela conta 53 anos de idade, sua doena comeou h 23 anos e, durante os ltimos dez anos, no pde mais fazer qualquer trabalho continuado. 
'O tratamento em vrias instituies para casos nervosos' no conseguiu tornar-lhe possvel uma 'vida ativa'. Ela espera ser completamente curada pela psicanlise, 
sobre a qual leu, mas sua enfermidade j custou  famlia tanto dinheiro que ela no pode conseguir vir a Viena por mais de seis semanas ou dois meses. Outra dificuldade 
a acrescentar  que deseja, desde o incio, 'explicar-se', apenas por escrito, visto que qualquer exame de seus complexos causar-lhe-ia uma exploso de sentimento 
ou 'torn-la-ia temporariamente incapaz de falar'. Ningum espera que um homem levante uma pesada mesa com dois dedos, como se fosse uma leve banqueta, ou construa 
uma grande casa no tempo que levaria para levantar uma cabana de madeira; mas assim que se trata de uma questo de neuroses - que no parecem, at agora haver encontrado 
lugar apropriado no pensamento humano -, mesmo pessoas inteligentes esquecem que uma proporo necessria tem de ser observada entre tempo, trabalho e sucesso. Isto, 
incidentalmente, constitui resultado compreensvel da profunda ignorncia que predomina a respeito da etiologia das neuroses. Graas a esta ignorncia, a neurose 
 encarada como uma espcie de 'donzela vinda de longe'. 'Ningum sabia donde ela viera', de maneira que esperavam que um dia desapareceria.
         Os mdicos emprestam apoio a estas vs esperanas. Mesmo os bem informados dentre eles deixam de avaliar corretamente a gravidade das perturbaes nervosas. 
Um amigo e colega meu, para cujo maior crdito conto o fato de que, aps vrias dcadas de trabalho cientfico segundo outros princpios, converteu-se aos mritos 
da psicanlise, escreveu-me certa vez: 'Precisamos  de um tratamento curto, conveniente e externo para a neurose obsessiva.' No lhe pude fornecer e senti-me envergonhado; 
ento tentei desculpar-me com o comentrio de que tambm os especialistas em doenas internas ficariam contentes com um tratamento para tuberculose ou carcinoma 
que combinasse essas vantagens.
         
         Para falar claramente, a psicanlise  sempre questo de longos perodos de tempo, de meio ano ou de anos inteiros - de perodos maiores do que o paciente 
espera.  nosso dever, portanto, dizer-lhe isso antes que ele se decida finalmente sobre o tratamento. Considero muito mais honroso, e tambm mais conveniente, chamar 
sua ateno - sem tentar assust-lo, mas bem no comeo - para as dificuldades e sacrifcios que o tratamento analtico envolve, e, desta maneira, priv-lo de qualquer 
direito de dizer mais tarde que foi enganado para um tratamento de cuja extenso e implicaes no se deu conta. Um paciente que se deixa dissuadir por esta informao 
mostrar-se-ia, de qualquer modo, inadequado posteriormente.  bom o progresso do entendimento entre pacientes, o nmero daqueles que enfrentam com xito este primeiro 
teste aumenta.
         No obrigo os pacientes a continuar o tratamento por um certo perodo de tempo; permito a cada qual interromp-lo quando quiser. Mas no escondo dele que, 
se o tratamento  interrompido aps somente um pequeno trabalho ter sido feito, ele no ser bem sucedido, e poder facilmente, como uma operao inacabada, deix-lo 
em estado insatisfatrio. Nos primeiros anos de minha clnica psicanaltica, costumava ter a maior dificuldade em persuadir meus pacientes a continuarem sua anlise. 
Esta dificuldade h muito tempo foi substituda e hoje tenho de me dar aos maiores trabalhos para induzi-los a abandon-la.
         Abreviar o tratamento analtico  um desejo justificvel, e sua realizao, como aprenderemos, est sendo tentada dentro de vrias orientaes. Infelizmente, 
ope-se-lhe um fator muito importante, a saber, a lentido com que se realizam as mudanas profundas na mente - em ltima instncia, fora de dvida, a 'atemporalidade' 
de nossos processos inconscientes. Quando os pacientes se defrontam com a dificuldade do grande dispndio de tempo exigido pela anlise, no raro conseguem propor 
uma sada para ela. Dividem os seus achaques e descrevem alguns como insuportveis e outros como secundrios, e ento dizem: 'Se apenas o senhor me aliviasse deste 
(uma dor de cabea ou um medo especfico, por exemplo), eu poderia lidar com o outro sozinho, em minha vida normal.' Fazendo isto, contudo, sobrestimam o poder seletivo 
da anlise. O analista  certamente capaz de fazer muito, mas no pode determinar de antemo exatamente quais os resultados que produzir. Ele coloca em movimento 
um processo, o processo de solucionamento das represses existentes. Pode supervisar este processo, auxili-lo, afastar obstculos em seu caminho, e pode indubitavelmente 
invalidar grande parte dele. Mas, em geral, uma vez comeado, segue sua prpria rota e no permite que quer a direo que toma quer a ordem em que colhe seus pontos 
lhe sejam prescritas. O poder do analista sobre os sintomas da doena pode, assim, ser comparado  potncia sexual masculina. Um homem pode,  verdade, gerar uma 
criana inteira, mas mesmo o homem mais forte no pode criar no organismo feminino s uma cabea, ou um brao, ou uma perna; no pode sequer determinar de antemo 
o sexo da criana. Tambm ele coloca em movimento um processo altamente complicado, determinado por eventos no passado remoto, processo que termina pela separao 
entre a criana e a me. Tambm a neurose tem o carter de um organismo. Suas manifestaes no so independentes umas das outras; condicionam-se mutuamente e do-se 
apoio recproco. Uma pessoa padece apenas de uma neurose, nunca de vrias que acidentalmente se tenham reunido num indivduo isolado. Libertado o paciente, conforme 
seu desejo, de determinado sintoma insuportvel, poderia ele facilmente descobrir que um sintoma anteriormente insignificante aumentara agora e tornara-se insuportvel. 
O analista que deseja que o tratamento deva seu xito to pouco quanto possvel a seus elementos de sugesto (isto , a transferncia) far bem em abster-se de fazer 
uso at de vestgio de influncia seletiva sobre os resultados da terapia que talvez possa lhe ser acessvel. Os pacientes destinados a serem mais bem acolhidos 
so aqueles que lhe pedem para dar-lhes sade completa, na medida em que esta  atingvel, e colocam  sua disposio tanto tempo quanto foi necessrio para o processo 
de restabelecimento. Condies favorveis como estas,  natural, devem ser esperadas apenas em alguns casos.
         O prximo ponto a ser decidido no incio do tratamento  o do dinheiro, dos honorrios do mdico. Um analista no discute que o dinheiro deve ser considerado, 
em primeira instncia, como meio de autopreservao e de obteno de poder, mas sustenta que, ao lado disto, poderosos fatores sexuais acham-se envolvidos no valor 
que lhe  atribudo. Ele pode indicar que as questes de dinheiro so tratadas pelas pessoas civilizadas da mesma maneira que as questes sexuais - com a mesma incoerncia, 
pudor de hipocrisia. O analista, portanto, est determinado desde o princpio a no concordar com esta atitude, mas, em seus negcios com os pacientes, a tratar 
de assuntos de dinheiro com a mesma franqueza natural com que deseja educ-los nas questes relativas  vida sexual. Demonstra-lhes que ele prprio rejeitou uma 
falsa vergonha sobre esses assuntos, ao dizer-lhes voluntariamente o preo em que avalia seu tempo. O bom senso comum, ademais, adverte-o a no permitir que grandes 
somas de dinheiros se acumulem, mas a solicitar pagamento a intervalos regulares bastante curtos - mensalmente, talvez. (Constitui fato conhecido que o valor do 
tratamento no se reala aos olhos do paciente, se forem pedidos honorrios muito baixos.) Esta, naturalmente, no  a prtica usual dos especialistas em nervos 
e outros mdicos em nossa sociedade europia. Mas o psicanalista deve colocar-se na posio do cirurgio, que  franco e caro por ter  sua disposio mtodos de 
tratamento que podem ser teis. Parece-me mais respeitvel e eticamente menos objetvel reconhecer os prprios direitos e necessidades reais do que, como ainda  
costume entre os mdicos, desempenhar o papel do filantropo desinteressado - posio que no se pode, na realidade, ocupar, sob pena de ficar-se secretamente prejudicado, 
ou queixar-se em alta voz da falta da considerao e do desejo de explorao evidenciado pelos pacientes. Ao fixar os honorrios, o analista deve tambm considerar 
o fato de que, por mais que trabalhe, nunca poder ganhar tanto quanto outros especialistas mdicos.
         Pela mesma razo, deve tambm abster-se de fornecer tratamento gratuito e no fazer excees em favor de colegas ou suas famlias. Esta ltima recomendao 
parecer uma transgresso s vantagens profissionais. Deve-se lembrar, contudo, que um tratamento gratuito significa muito mais para um psicanalista do que para 
qualquer outro mdico; significa o sacrifcio de uma parte considervel - um stimo ou um oitavo, talvez - do tempo de trabalho de que dispe para ganhar a vida, 
durante um perodo de muitos meses. Um segundo tratamento gratuito efetuado ao mesmo tempo priv-lo-ia de um quarto ou de um tero de sua capacidade de ganho, o 
que seria comparvel ao prejuzo infligido por um grave acidente.
         Surge ento a questo de saber se a vantagem obtida pelo paciente no contrabalanaria, at certo ponto, o sacrifcio feito pelo mdico. Posso aventurar-me 
a formar julgamento sobre isto, visto que, durante dez anos ou mais separei, uma hora por dia, e s vezes duas, para tratamentos gratuitos, porque desejaria, a fim 
de penetrar nas neuroses, trabalhar frente a to pouca resistncia quanto possvel. As vantagens que busquei por este meio no apareceram. O tratamento gratuito 
aumenta enormemente algumas das resistncias do neurtico - em moas, por exemplo, a tentao inerente  sua relao transferencial, e, em moos, sua oposio  
obrigao de se sentirem gratos, oposio oriunda de seu complexo paterno e que apresenta um dos mais perturbadores obstculos  aceitao de auxlio mdico. A ausncia 
do efeito regulador oferecido pelo pagamento de honorrios ao mdico torna-se, ela prpria, muito penosamente sentida; todo o relacionamento  afastado do mundo 
real e o paciente  privado de um forte motivo para esforar-se por dar fim ao tratamento.
         Pode-se estar muito longe da viso asctica do dinheiro como sendo uma maldio e ainda lamentar que a terapia analtica seja quase inacessvel s pessoas 
pobres, tanto por razes externas quanto internas. Pouco se pode fazer para remediar isto. Talvez haja verdade na crena disseminada de que aqueles que so forados, 
pela necessidade, a uma vida de rdua labuta so menos facilmente dominados pela neurose. Por outro lado, porm, a experincia demonstra, sem qualquer dvida, que 
quando um homem pobre produz uma neurose, s com dificuldade permite ser livrado dela. Ela lhe presta timo servio na luta pela existncia; o livro secundrio da 
doena, que ela lhe traz,  demasiadamente importante. Ele agora reivindica, por direito de sua neurose, a piedade que o mundo lhe recusou  aplicao material, 
e pode ento eximir-se da obrigao de combater sua pobreza por meio do trabalho. Todo aquele, portanto, que teme tratar da neurose de uma pessoa pobre pela psicoterapia, 
geralmente descobre que o que  aqui exigido dele  uma terapia prtica do tipo muito diferente - o tipo que, segundo nossa tradio local, costumava ser dispensado 
pelo Imperador Jos II. Ocasionalmente,  natural, deparamos com pessoas merecedoras que se acham desamparadas sem culpa alguma de sua parte, nas quais o tratamento 
no remunerado no se defronta com nenhum dos obstculos mencionados e conduz a excelentes resultados.
         No que concerne s classes mdias, a despesa envolvida na psicanlise  excessiva apenas na aparncia. Inteiramente  parte do fato de nenhuma comparao 
ser possvel entre a sade e a eficincia restauradas, por um lado, e um moderado dispndio financeiro por outro, quando adicionamos os custos incessantes das casas 
de sade e do tratamento mdico e contrastamo-los com o aumento de eficincia e de capacidade de ganhar a vida que resulta de uma anlise inteiramente bem sucedida, 
temos o direito de dizer que os pacientes fizeram um bom negcio. Nada na vida  to caro quanto a doena - e a estupidez.
         Antes de concluir estas consideraes sobre o incio do tratamento analtico, tenho de dizer uma palavra sobre um certo cerimonial que concerne  posio 
na qual o tratamento  realizado. Atenho-me ao plano de fazer com que o paciente se deite num div, enquanto me sento atrs dele, fora de sua vista. Esta disposio 
possui uma base histrica:  o remanescente do mtodo hipntico, a partir do qual a psicanlise se desenvolveu. Mas ele merece ser mantido por muitas razes. A primeira 
 um motivo pessoal, mas que outros podem partilhar comigo. No posso suportar ser encarado fixamente por outras pessoas durante oito horas (ou mais) por dia. Visto 
que, enquanto estou escutando o paciente, tambm me entrego  corrente de meus pensamentos inconscientes; no desejo que minhas expresses faciais dem ao paciente 
material para interpretao ou influenciem-no no que me conta. Em geral, o paciente encara a obrigao de adotar essa posio como um incmodo e rebela-se contra 
ele, especialmente se o instinto de olhar (escopofilia) desempenhar papel importante em sua neurose. Insisto nesse procedimento, contudo, pois seu propsito e resultado 
so impedir que a transferncia se misture imperceptivelmente s associaes do paciente, isolar a transferncia e permitir-lhe que aparea, no devido tempo, nitidamente 
definida como resistncia. Sei que muitos analistas trabalham de modo diferente, mas no sei se esta variao se deve mais a um anseio de agir diferentemente ou 
a alguma vantagem que pensem obter dela. [Ver tambm em [1].]
         Havendo as condies de tratamento sido reguladas desta maneira, surge a questo: em que ponto e com que material deve o tratamento comear?
         O material com que se inicia o tratamento , em geral, indiferente - a histria da vida do paciente, ou a histria de sua doena, ou suas lembranas de 
infncia. Mas, em todos os casos, deve-se deixar que o paciente fale e ele deve ser livre para escolher em que ponto comear. Dessa maneira, dizemos-lhe: 'Antes 
que eu possa lhe dizer algo, tenho de saber muita coisa sobre voc; por obsquio, conte-me o que sabe a respeito de si prprio.'
         A nica exceo a isto refere-se  regra fundamental da tcnica psicanaltica, que o paciente tem de observar. Isto lhe deve ser comunicado bem no comeo: 
'Uma coisa mais, antes que voc comece. O que me vai dizer deve diferir, sob determinado aspecto, de uma conversa comum. Em geral, voc procura, corretamente, manter 
um fio de ligao ao longo de suas observaes e exclui quaisquer idias intrusivas que lhe possam ocorrer, bem como quaisquer temas laterais, de maneira a no divagar 
longe demais do assunto. Neste caso, porm, deve proceder de modo diferente. Observar que,  medida que conta coisas, ocorrer-lhe-o diversos pensamentos que gostaria 
de pr de lado, por causa de certas crticas e objees. Ficar tentado a dizer a si mesmo que isto ou aquilo  irrelevante aqui, ou inteiramente sem importncia, 
ou absurdo, de maneira que no h necessidade de diz-lo. Voc nunca deve ceder a estas crticas, mas diz-lo apesar delas - na verdade, deve diz-lo exatamente 
porque sente averso a faz-lo. Posteriormente, voc descobrir e aprender a compreender a razo para esta exortao, que  realmente a nica que tem de seguir. 
Assim, diga tudo o que lhe passa pela mente. Aja como se, por exemplo, voc fosse um viajante sentado  janela de um vago ferrovirio, a descrever para algum que 
se encontra dentro as vistas cambiantes que v l fora. Finalmente, jamais esquea que prometeu ser absolutamente honesto e nunca deixar nada de fora porque, por 
uma razo ou outra,  desagradvel diz-lo.
         
         Os pacientes que datam sua enfermidade de um momento especfico geralmente se concentram na causa precipitante. Outros, que por si reconhecem a vinculao 
entre sua neurose e a infncia, amide comeam pelo relato de toda a histria de sua vida. Nunca se deve esperar uma narrativa sistemtica e nada deve ser feito 
para incentiv-la. Cada pormenor da histria ter de ser repetido mais tarde e  apenas com estas repeties que aparecer material adicional para suprir as importantes 
associaes que so desconhecidas do paciente.
         H pacientes que, desde as primeira horas, preparam com cuidado o que iro comunicar, aparentemente de maneira a se certificarem de que esto fazendo o 
melhor uso do tempo dedicado ao tratamento. O que assim se disfara como avidez  resistncia. Qualquer preparao deste tipo no deve ser recomendada, pois ela 
 empregada apenas para impedir que pensamentos desagradveis venham  superfcie. Por mais sinceramente que o paciente possa acreditar em suas excelentes intenes, 
a resistncia desempenhar seu papel neste mtodo deliberado de preparao e providenciar para que o material mais valioso escape  comunicao. Cedo se descobrir 
que o paciente planeja ainda outros meios pelos quais o que  exigido possa ser negado ao tratamento. Ele pode distribuir o tratamento todo o dia com um amigo ntimo, 
e trazer a este debate todos os pensamentos que deveriam apresentar-se na presena do mdico. O tratamento possui assim um vazamento que deixa passar exatamente 
o que  mais valioso. quando isto acontece, o paciente deve, sem muita demora, ser aconselhado a considerar a anlise como um assunto entre ele e seu mtodo e a 
excluir todos ou demais de partilhar o conhecimento daquela, por ntimos que possam ser, os indagadores. Em estdios posteriores do tratamento, o paciente geralmente 
no fica sujeito a tentaes deste tipo.
         Certos pacientes querem que seu tratamento seja mantido secreto, freqentemente porque mantiveram secreta sua neurose, e no lhes ponho obstculos. O fato 
de que, em conseqncia disso, o mundo nada saiba de algumas das curas mais bem sucedidas , naturalmente, considerao que no pode ser levada em conta.  evidente 
que a deciso de um paciente em favor do segredo j revela uma caracterstica de sua histria secreta.
         Ao aconselhar o paciente, no incio do tratamento, a contar ao menor nmero de pessoas possvel a respeito dele, protegemo-lo tambm at certo ponto, das 
muitas influncias hostis que procuraro atra-lo para longe da anlise. Tais influncias podem ser muito daninhas no comeo do tratamento; mais tarde, geralmente 
no tm importncia ou so at mesmo teis, por colocarem em evidncia resistncias que esto tentando ocultar-se.
         Se, no decorrer da anlise, o paciente necessitar temporariamente de algum outro tratamento mdico ou especializado,  muito mais sensato chamar um colega 
no analista do que fornecermos esse outro tratamento. Tratamentos combinados para distrbios neurticos, que tm poderosa base orgnica, so quase sempre impraticveis. 
Os pacientes afastam o interesse da anlise assim que lhes  mostrado mais de um caminho que promete lev-los  sade. O melhor plano  adiar o tratamento orgnico 
at que o tratamento psquico se complete; se aquele fosse tentado primeiro, na maioria dos casos no encontraria xito.
         Retornando ao incio do tratamento, encontram-se ocasionalmente pacientes que iniciam o tratamento assegurando-nos que no conseguem pensar em nada para 
dizer, embora todo o campo da histria de sua vida e da histria de sua doena se lhes ache aberto para escolher. Sua solicitao de que lhes digamos sobre o que 
falar no deve ser atendida nesta primeira ocasio, no mais do que em qualquer outra, posterior. Temos de ter em mente o que se acha aqui envolvido. Uma forte resistncia 
adiantou-se, a fim de defender a neurose; temos de aceitar o desafio, ento e a, e enfrent-la. Afirmaes enrgicas e repetidas ao paciente de que  impossvel 
que no lhe ocorra idia alguma ao incio, e de que o que se acha em pauta  uma resistncia contra a anlise, cedo obrigam-no a efetuar as admisses esperadas ou 
a revelar uma primeira amostra de seus complexos.  mau sinal ele confessar que, enquanto escutava a regra fundamental de anlise, fez a reserva mental de que, no 
obstante, guardaria isto ou aquilo para si; j no  to srio se tudo o que tem a nos dizer  quo desconfiado se acha da anlise ou das coisas horripilantes que 
ouviu a respeito dela. Se negar essas e outras possibilidades semelhantes, quando lhe so apresentadas, pode ser levado, por nossa insistncia, a reconhecer que 
todavia desprezou certos pensamentos que lhe ocupavam a mente. Pensara no tratamento em si, embora nada de definido a seu respeito, ou estivera ocupado com a aparncia 
da sala em que estava, ou no pudera deixar de pensar nos objetos do consultrio e no fato de l se achar deitado num div - tudo que substitura pela palavra 'nada'. 
Estas indicaes so bastante inteligveis: tudo que  relacionado com a situao atual representa uma transferncia para o mdico, que se mostra apropriada para 
servir como uma primeira resistncia. Somos assim obrigados a comear por descobrir esta transferncia; e um caminho que dela parte fornecer rpido acesso ao material 
patognico do paciente. Mulheres que esto preparadas, por acontecimentos em sua histria passada, para serem submetidas a agresso sexual, e homens com homossexualismo 
reprimido excessivamente forte so os mais aptos a reterem desta maneira as idias que lhes ocorrem no incio da anlise.
         Os primeiros sintomas ou aes fortuitas do paciente, tal como sua primeira resistncia, podem possuir interesse especial e revelar um complexo que dirige 
sua neurose. Um arguto e jovem filsofo, com delicada sensibilidade esttica, apressar-se- a endireitar os vincos das calas antes de deitar-se para a sua primeira 
hora; est-se revelando como um ex-coprfilo do mais alto requinte - o que era de se esperar do recente esteta. Uma moa, na mesma conjuntura, apressadamente puxar 
a barra da saia sobre os tornozelos expostos; assim procedendo, est revelando a essncia do que sua anlise mais tarde demonstrar: um orgulho narcsico de sua 
beleza fsica e inclinaes ao exibicionismo.
         Um nmero particularmente grande de pacientes no gosta de que lhes seja pedido para deitar, enquanto o mdico se senta atrs dele, fora de sua vista. Pedem 
que lhe seja concedido passar o tratamento em alguma outra posio, na maioria dos casos por estarem ansiosos por no serem privados da viso do mdico. A permisso 
 geralmente recusada, mas no se pode impedi-los de darem um jeito de dizer algumas frases antes do incio da 'sesso' real ou aps ter-se indicado que ela terminou 
e eles terem se levantado do div. Deste modo, dividem o tratamento, no seu ponto de vista, em uma parte oficial, na qual se comportam principalmente de maneira 
muito inibida, e em uma parte informal e 'amistosa' na qual falam realmente de modo livre e dizem toda espcie de coisas que eles prprios no encaram como fazendo 
parte do tratamento. O mdico no aceita esta diviso por muito tempo. Toma nota do que  dito antes ou depois da sesso e apresenta na primeira oportunidade, derrubando 
assim a diviso que o paciente tentou erguer. Esta diviso, mais uma vez, ter sido formada a partir do material de uma resistncia transferencial.
         Enquanto as comunicaes e idias do paciente flurem sem qualquer obstruo, o tema da transferncia no deve ser aflorado. Deve-se esperar at que a transferncia, 
que  o mais delicado de todos os procedimentos, tenha-se tornado uma resistncia.
         A outra pergunta com que nos defrontamos levanta uma questo de princpio.  ela: Quando devemos comear a fazer nossas comunicaes ao paciente? Qual  
o momento para revelar-lhe o significado oculto das idias que lhe ocorrem, e para inici-los nos postulados, e procedimentos tcnicos da anlise?
         A resposta a isto s pode ser: somente aps uma transferncia eficaz ter-se estabelecido no paciente, um rapport apropriado com ele. Permanece sendo o primeiro 
objetivo do tratamento ligar o paciente a ele e  pessoa do mdico. Para assegurar isto, nada precisa ser feito, exceto conceder-lhe tempo. Se se demonstra um interesse 
srio nele, se cuidadosamente se dissipam as resistncias que vm  tona no incio e se evita cometer certos equvocos, o paciente por si prprio far essa ligao 
e vincular o mdico a uma das imagos das pessoas por quem estava acostumado a ser tratado com afeio.  certamente possvel sermos privados deste primeiro sucesso 
se, desde o incio, assumirmos outro ponto de vista que no o da compreenso simptica, tal como um ponto de vista moralizador, ou se nos comportarmos como representantes 
ou advogados da parte litigante - o outro cnjuge, por exemplo. 
         Esta resposta, naturalmente, implica uma condenao de qualquer linha de conduta que nos levasse a dar ao paciente uma traduo de seus sintomas assim que 
ns prprios a adivinhssemos, ou mesmo a considerar triunfo especial lanar-lhe essas 'solues' ao rosto na primeira entrevista. No  difcil para um analista 
treinado ler claramente os desejos secretos do paciente nas entrelinhas de suas queixas e da histria de sua doena; mas quanta vaidade e falta de reflexo deve 
possuir aquele que, com o mais breve conhecimento, pode informar a um estranho, inteiramente ignorante de todos os princpios da anlise, que ele se acha ligado 
 me por laos incestuosos, que abriga desejos de morte da esposa, a quem parece amar, que oculta uma inteno de trair seu superior, e assim por diante! Ouvi dizer 
que h analistas que se vangloriam destes tipos de diagnsticos-relmpago e tratamentos 'expressos', mas tenho de prevenir a todos contra seguir tais exemplos. Um 
comportamento deste tipo desacreditar completamente a ns e ao tratamento aos olhos do paciente e nele despertar a mais violenta oposio, tenha o nosso palpite 
sido verdadeiro ou no; na verdade, quanto mais verdadeiro for, mas violenta ser a resistncia. Via de regra, o efeito teraputico ser nenhum, mas o desencorajamento 
do paciente quanto  anlise ser definitivo. Mesmo nos estdios posteriores da anlise, tem-se de ter cuidado em no fornecer ao paciente a soluo de um sintoma 
ou a traduo de um desejo at que ele esteja to prximo delas que s tenha de dar mais um passo para conseguir a explicao por si prprio. Em anos anteriores, 
com freqncia tive ocasio de descobrir que a comunicao prematura de uma soluo punha ao tratamento um fim intempestivo, devido no apenas s resistncias que 
assim subitamente despertava, mas tambm ao alvio que a soluo trazia consigo.
         Neste ponto, porm, levantar-se- uma objeo. Ser ento nossa tarefa alongar o tratamento e no, pelo contrrio, lhe dar fim to rapidamente quanto possvel? 
No so os achaques do paciente devidos  sua falta de conhecimento e compreenso e no constitui um dever esclarec-lo to pronto quanto possvel - isto , to 
logo o prprio mdico conhea as explicaes? A resposta a esta pergunta exige uma breve digresso sobre o significado de conhecimento e o mecanismo de cura na anlise.
          verdade que nos primrdios da tcnica analtica assumamos uma viso intelectualista da situao. Dvamos alto valor ao conhecimento, pelo paciente, do 
que havia esquecido, e nisto mal fazamos distino entre o nosso conhecimento e o dele. Pensvamos ser uma verdadeira sorte se poderamos obter informaes sobre 
um esquecido trauma infantil a partir de outras fontes - dos pais, babs ou do prprio sedutor, por exemplo - como em alguns casos foi possvel fazer; e apressvamo-nos 
a transmitir a informao e as provas de sua exatido ao paciente, na expectativa certa de assim dar um fim rpido  neurose e ao tratamento. Era um srio desapontamento 
quando o sucesso esperado no vinha. Como era possvel que o paciente, que agora sabia a respeito de sua experincia traumtica, todavia se comportasse ainda como 
se sobre ela no soubesse mais do que antes? Na verdade, contar e descrever-lhe o trauma reprimido nem mesmo resultava em que alguma recordao dele lhe viesse  
mente.
         Em um caso especfico, a me de uma moa histrica confidenciou-me a experincia homossexual que contribura grandemente para fixao das crises da moa. 
A prpria me havia surpreendido a cena, mas a paciente esquecera-a completamente, embora houvesse ocorrido quando ela j se aproximava da puberdade. Pude ento 
efetuar uma observao muito instrutiva. Cada vez que eu repetia  moa a histria da me, ela reagia com uma crise histrica aps a qual esquecia mais uma vez a 
histria. No h dvida de que a paciente estava expressando uma resistncia violenta contra o conhecimento que lhe estava sendo imposto. Por fim, simulou imbecilidade 
e uma completa perda de memria, a fim de proteger-se contra o que eu lhe havia contado. Aps isto, no havia, escolha exceto deixar de atribuir ao fato de saber, 
em si, a importncia que anteriormente lhe havia sido concedida e pr a nfase nas resistncias que, no passado, haviam ocasionado o estado de desconhecimento e 
que ainda se achavam prontas para defender esse estado. O conhecimento consciente, mesmo quando no era subseqentemente expulso outra vez, era impotente contra 
essas resistncias. 
         A estranha conduta dos pacientes, por serem capazes de combinar um conhecimento consciente com o desconhecimento, permanece inexplicvel pela chamada psicologia 
normal. Para a psicanlise, entretanto, que reconhece a existncia do inconsciente, ela no apresenta dificuldade. O fenmeno que descrevemos, ademais, fornece o 
melhor apoio do ngulo da diferenciao topogrfica. Os pacientes conhecem agora a experincia reprimida em seu pensamento consciente, mas falta a este pensamento 
qualquer vinculao com o lugar em que a lembrana reprimida, de uma ou outra maneira, est contida. Nenhuma mudana  possvel at que o processo consciente de 
pensamento tenha penetrado at esse lugar e l superado as resistncias da represso.  exatamente como se fosse promulgado pelo Ministrio da Justia um decreto 
no sentido de que os delitos juvenis fossem tratados de modo decididamente demente. Enquanto esse decreto no chegar ao conhecimento dos magistrados locais, ou no 
caso de eles no pretenderem obedec-lo, mas preferirem administrar a justia segundo suas prprias luzes, nenhuma mudana pode ocorrer no tratamento de determinados 
delinqentes juvenis. Todavia, a bem da completa exatido, dever-se-ia acrescentar que a comunicao do material reprimido  conscincia do paciente no fica, entretanto, 
sem efeito. Ela no produz o resultado desejado de acabar com os sintomas, mas tem outras conseqncias. A princpio, desperta resistncias, mas depois, quando estas 
foram superadas, estabelece um processo de pensamento no decorrer do qual a influncia esperada da recordao inconsciente acaba por realizar-se. 
          tempo, agora, que empreendamos um levantamento do jogo de foras colocado em ao pelo tratamento. A fora motivadora primria na terapia  o sofrimento 
do paciente e o desejo de ser curado que deste se origina. A intensidade desta fora motivadora  diminuda por diversos fatores - que no so descobertos at que 
a anlise se acha em andamento -, sobretudo pelo que chamamos de 'livro secundrio da doena'; e mas ela deve ser mantida at o fim do tratamento. Cada melhora efetua 
uma sua diminuio. Sozinha, porm, esta fora motivadora no  suficiente para livrar-se da doena. Duas coisas lhe faltam para isto: no sabe que caminhos seguir 
para chegar a esse fim a no possui a necessria cota da energia para se opor s resistncias. O tratamento analtico ajuda a remediar ambas as deficincias. Fornece 
as quantidades de energia necessrias para superar as resistncias, pela mobilizao das energias que esto prontas para a transferncia; e, dando ao paciente informaes 
no momento correto, mostra-lhe os caminhos ao longo dos quais deve dirigir essas energias. Com bastante freqncia, a transferncia  capaz de remover os sintomas 
da doena por si mesma, mas s por pouco tempo - apenas enquanto ela prpria perdura. Neste caso, o tratamento  por sugesto, e no, de modo algum, a psicanlise. 
S merece o ltimo nome se a intensidade da transferncia foi utilizada para a superao das resistncias. Somente ento a enfermidade tornou-se impossvel, mesmo 
quando a transferncia foi mais uma vez desfeita, o que  seu destino.
         No decurso do tratamento, ainda  estimulado outro fator til, que  o interesse e a compreenso intelectuais do paciente. Mas ele, sozinho, mal entra em 
considerao, comparado s outras foras que se acham empenhadas na luta, pois est sempre em perigo de perder seu valor, em resultado da perturbao de juzo que 
se origina das resistncias. Assim, as novas fontes de fora pelas quais o paciente  grato ao analista reduzem-se  transferncia e  instruo (atravs das comunicaes 
que lhe so feitas). O paciente, contudo, s faz uso da instruo na medida em que  induzido a faz-lo pela transferncia;  por esta razo que nossa primeira comunicao 
deve ser retida at que uma forte transferncia se tenha estabelecido. E isto, podemos acrescentar, vale para todas as comunicaes subseqentes. Em cada caso, temos 
de esperar at que a perturbao da transferncia pelo aparecimento sucessivo de resistncias transferenciais tenha sido removida.
         
         































RECORDAR, REPETIR E ELABORAR (NOVAS RECOMENDAES 
SOBRE A TCNICA DA PSICANLISE II) (1914)
         
         
         NOTA DO EDITOR INGLS
         
         ERINNERN, WIEDERHOLEN UND DURCHARBEITEN
         
         (a) EDIES ALEMS:
         1914 Int. Z. Psychoanal., 2 (6), 485-91.
         1918 S. K. S. N., 4, 441-52, (1922, 2 ed.)
         1924 Technik und Metapsychol., 109-19
         1925 G. S., 6, 109-19.
         1931 Neurosenlehre und Technik, 385-96.
         1946 G. W., 10, 126-36.
         
         (b) TRADUO INGLESA:
         'Further Recommendations in the Technique of Psycho-Analysis: Recollection, Repetition and Working-Through'
         1924 C. P., 2, 366-76. (Trad. de Joan Riviere.)
         
         A presente traduo inglesa, com o ttulo alterado,  verso modificada da publicada em 1924.
         
         Em seu aparecimento original (ao final de 1914), o ttulo deste artigo era: 'Weitere Ratschlge zur Technik der Psychoanalyse (II): Erinnern, Wiederholen 
und Durcharbeiten.' O ttulo da verso inglesa de 1924, citado acima,  traduo deste. De 1924 em diante, as edies alems adotaram o ttulo mais curto.
         Este trabalho  digno de nota,  parte seu interesse tcnico, por conter o primeiro aparecimento dos conceitos da 'compulso  repetio' (ver em [1]) e 
da 'elaborao' (ver em [2]).
         
         RECORDAR, REPETIR E ELABORAR (NOVAS RECOMENDAES SOBRE A TCNICA DA PSICANLISE II)
         
         No me parece desnecessrio continuar a lembrar aos estudiosos as alteraes de grandes conseqncias que a tcnica psicanaltica sofreu desde os primrdios. 
Em sua primeira fase - a da catarse de Breuer - ela consistia em focalizar diretamente o momento em que o sintoma se formava, e em esforar-se persistentemente por 
reproduzir os processos mentais envolvidos nessa situao, a fim de dirigir-lhes a descarga ao longo do caminho da atividade consciente. Recordar e ab-reagir, com 
o auxlio, era a que, quela poca, se visava. A seguir, quando a hipnose foi abandonada, a tarefa transformou-se em descobrir, a partir das associaes livres do 
paciente, o que ele deixava de recordar. A resistncia deveria ser contornada pelo trabalho da interpretao e por dar a conhecer os resultados desta ao paciente. 
As situaes que haviam ocasionado a formao do sintoma e as outras anteriores ao momento em que a doena irrompeu conservaram seu lugar como foco de interesse; 
mas o elemento da ab-reao retrocedeu para segundo plano e pareceu ser substitudo pelo dispndio de trabalho que o paciente tinha de fazer por ser obrigado a superar 
sua censura das associaes livres, de acordo com a regra fundamental da psicanlise. Finalmente, desenvolveu-se a tcnica sistemtica hoje utilizada, na qual o 
analista abandona a tentativa de colocar em foco um momento ou problema especficos. Contenta-se em estudar tudo o que se ache presente, de momento, na superfcie 
da mente do paciente, e emprega a arte da interpretao principalmente para identificar as resistncias que l aparecem, e torn-las conscientes ao paciente. Disto 
resulta um novo tipo de diviso de trabalho: o mdico revela as resistncias que so desconhecidas ao paciente; quando essas tiverem sido vencidas, o paciente amide 
relaciona as situaes e vinculaes esquecidas sem qualquer dificuldade. O objetivo destas tcnicas diferentes, naturalmente, permaneceu sendo o mesmo. Descritivamente 
falando, trata-se de preencher lacunas na memria; dinamicamente,  superar resistncias devidas  represso.
         Ainda devemos ser gratos  velha tcnica hipntica por ter-nos apresentado processos psquicos nicos de anlise sob forma isolada ou esquemtica. Somente 
isto poder-nos-ia ter dado a coragem para criar situaes mais complicadas no tratamento analtico e mant-las claras diante de ns.
         Nesses tratamentos hipnticos, o processo de recordar assumia forma muito simples. O paciente colocava-se de volta numa situao anterior, que parecia nunca 
confundir com a atual, e fornecia um relato dos processos mentais a ela pertencentes, na medida em que permaneciam normais; acrescentava ento a isso tudo o que 
podia surgir como resultado da transformao dos processos, que na poca haviam sido inconscientes, em conscientes.
         Neste ponto, interpolarei algumas consideraes que todo analista j viu confirmadas em suas observaes. Esquecer impresses, cenas ou experincias quase 
sempre se reduz a intercept-las. Quando o paciente fala sobre estas coisas 'esquecidas', raramente deixa de acrescentar: 'Em verdade, sempre o soube; apenas nunca 
pensei nisso.' Amide expressa desapontamento por no lhe vierem  cabea coisas bastantes que possa chamar de 'esquecidas' - em que nunca pensou desde que aconteceram. 
No obstante, mesmo este desejo  realizado, especialmente no caso das histerias de converso. O 'esquecer' torna-se ainda mais restrito quando avaliamos em seu 
verdadeiro valor as lembranas encobridoras que to geralmente se acham presentes. Em certos casos, tive a impresso de que a conhecida amnsia infantil, que teoricamente 
nos  to importante,  completamente contrabalanada pelas lembranas encobridoras. No apenas algo, mas a totalidade do que  essencial na infncia foi retido 
nessas lembranas. Trata-se simplesmente de saber como extra-lo delas pela anlise. Elas representam os anos esquecidos da infncia to adequadamente quanto o contedo 
manifesto de um sonho representa os pensamentos onricos.
         O outro grupo de processos psquicos - fantasias, processos de referncia, impulsos emocionais, vinculaes de pensamento - que, como atos puramente internos, 
no podem ser contrastados com impresses e experincias, deve, em sua relao com o esquecer e o recordar, ser considerado separadamente. Nestes processos, acontece 
com extraordinria freqncia ser 'recordado' algo que nunca poderia ter sido 'esquecido', porque nunca foi, em ocasio alguma, notado - nunca foi consciente. Com 
referncia ao curso tomado pelos eventos psquicos, parece no fazer nenhuma diferena se determinada 'vinculao de pensamento' foi consciente e depois esquecida 
ou se nunca, de modo algum, conseguiu tornar-se consciente. A convico que o paciente alcana no decurso de sua anlise  inteiramente independente deste tipo de 
lembrana.
         
         Nas muitas formas diferentes da neurose obsessiva, em particular, o esquecer restringe-se principalmente  dissoluo das vinculaes de pensamento, ao 
deixar de tirar as concluses corretas e isolar lembranas.
         H um tipo especial de experincias da mxima importncia, para a qual lembrana alguma, via de regra, pode ser recuperada. Trata-se de experincias que 
ocorreram em infncia muito remota e no foram compreendidas na ocasio, mas que subseqentemente foram compreendidas e interpretadas. Obtm-se conhecimento delas 
atravs dos sonhos e -se obrigado a acreditar neles com base nas provas mais convincentes fornecidas pela estrutura da neurose. Ademais, podemos certificar-nos 
de que o paciente, aps suas resistncias haverem sido superadas, no mais invoca a ausncia de qualquer lembrana delas (qualquer sensao de familiaridade com 
elas) como fundamento para recusar-se a aceit-las. Este assunto, contudo, exige tanta cautela crtica e introduz tanta coisa nova e espantosa que reserv-lo-ei 
para um exame separado, juntamente com material apropriado. 
         Sob a nova tcnica, muito pouco, e com freqncia nada resta deste deliciosamente calmo curso de acontecimentos. H certos casos que se comportam como aqueles 
sob a tcnica hipntica at certo ponto e s mais tarde deixam de faz-lo, mas outros conduzem-se diferentemente desde o incio. Se nos limitarmos a este segundo 
tipo, a fim de salientar a diferena, podemos dizer que o paciente no recorda coisa alguma do que esqueceu e reprimiu, mas expressa-o pela atuao ou atua-o (acts 
it out). Ele o reproduz no como lembrana, mas como ao; repete-o, sem, naturalmente, saber que o est repetindo.
         Por exemplo, o paciente no diz que recorda que costumava ser desafiador e crtico em relao  autoridade dos pais; em vez disso, comporta-se dessa maneira 
para com o mdico. No se recorda de como chegou a um impotente e desesperado impasse em suas pesquisas sexuais infantis; mas produz uma massa de sonhos e associaes 
confusas, queixa-se de que no consegue ter sucesso em nada e assevera estar fadado a nunca levar a cabo o que empreende. No se recorda de ter-se envergonhado intensamente 
de certas atividades sexuais e de ter tido medo de elas serem descobertas; mas demonstra achar-se envergonhado do tratamento que agora empreendeu e tenta escond-lo 
de todos. E assim por diante.
         Antes de mais nada, o paciente comear seu tratamento por uma repetio deste tipo. Quando anunciamos a regra fundamental da psicanlise a um paciente 
com uma vida cheia de acontecimentos e uma longa histria de doena, e ento lhe pedimos para dizer-nos o que lhe vem  mente, esperamos que ele despeje um dilvio 
de informaes; mas, com freqncia, a primeira coisa que acontece  ele nada ter a dizer. Fica silencioso e declara que nada lhe ocorre. Isto, naturalmente,  simplesmente 
a repetio de uma atitude homossexual que se evidencia como uma resistncia contra recordar alguma coisa [ver em [1]]. Enquanto o paciente se acha em tratamento, 
no pode fugir a esta compulso  repetio; e, no final, compreendemos que esta  a sua maneira de recordar.
         O que nos interessa, acima de tudo, , naturalmente, a relao desta compulso  repetio com a transferncia e com a resistncia. Logo percebemos que 
a transferncia , ela prpria, apenas um fragmento da repetio e que a repetio  uma transferncia do passado esquecido, no apenas para o mdico, mas tambm 
para todos os outros aspectos da situao atual. Devemos estar preparados para descobrir, portanto, que o paciente se submete  compulso,  repetio, que agora 
substitui o impulso a recordar, no apenas em sua atitude pessoal para com o mdico, mas tambm em cada diferente atividade e relacionamento que podem ocupar sua 
vida na ocasio - se, por exemplo, se enamora, incumbe-se de uma tarefa ou inicia um empreendimento durante o tratamento. Tambm o papel desempenhado pela resistncia 
 facilmente identificvel. Quanto maior a resistncia, mais extensivamente a atuao (acting out) (repetio) substituir o recordar, pois o recordar ideal do que 
foi esquecido, que ocorre na hipnose, corresponde a um estado no qual a resistncia foi posta completamente de lado. Se o paciente comea o tratamento sob os auspcios 
de uma transferncia positiva branda e impronunciada, ela lhe torna possvel, de incio, desenterrar suas lembranas tal como o faria sob hipnose, e, durante este 
tempo, seus prprios sintomas patolgicos acham-se inativos. Mas se,  medida que a anlise progride, a transferncia se torna hostil ou excessivamente intensa e, 
portanto, precisando de represso, o recordar imediatamente abre caminho  atuao (acting out). Da por diante, as resistncias determinam a seqncia do material 
que deve ser repetido. O paciente retira do arsenal do passado as armas com que se defende contra o progresso do tratamento - armas que lhe temos de arrancar, uma 
por uma.
         Aprendemos que o paciente repete ao invs de recordar e repete sob as condies da resistncia. Podemos agora perguntar o que  que ele de fato repete ou 
atua (acts out). A resposta  que repete tudo o que j avanou a partir das fontes do reprimido para sua personalidade manifesta - suas inibies, suas atitudes 
inteis e seus traos patolgicos de carter. Repete tambm todos os seus sintomas, no decurso do tratamento. E podemos agora ver que, ao chamar ateno para a compulso 
 repetio, no obtivemos um fato novo, mas apenas uma viso mais ampla. S esclarecemos a ns mesmos que o estado de enfermidade do paciente no pode cessar com 
o incio de sua anlise, e que devemos tratar sua doena no como um acontecimento do passado, mas como uma fora atual. Este estado de enfermidade  colocado, fragmento 
por fragmento, dentro do campo e alcance do tratamento e, enquanto o paciente o experimenta como algo real e contemporneo, temos de fazer sobre ele nosso trabalho 
teraputico, que consiste, em grande parte, em remont-lo ao passado.
         O recordar, tal como era induzido pela hipnose, s podia dar a impresso de um experimento realizado em laboratrio. O repetir, tal como  induzido no tratamento 
analtico, segundo a tcnica mais recente, implica, por outro lado, evocar um fragmento da vida real; e, por essa razo, no pode ser sempre incuo e irrepreensvel. 
Esta considerao revela todo o problema do que  to amide inevitvel - a 'deteriorao durante o tratamento'.
         Primeiro e antes de tudo, o incio do tratamento em si ocasiona uma mudana na atitude consciente do paciente para com sua doena. Ele habitualmente se 
contentava em lament-la, desprez-la como absurda e subestimar sua importncia; quanto ao resto, estendeu s manifestaes dela a poltica de avestruz de represso 
que adotara em relao s suas origens. Assim, pode acontecer que no saiba corretamente em que condies sua fobia se manifesta, no escute o fraseado preciso de 
suas idias obsessivas ou no apreenda o intuito real de seu impulso obsessivo. O tratamento, naturalmente, no  auxiliado por isto. O paciente tem de criar coragem 
para dirigir a ateno para os fenmenos de sua molstia. Sua enfermidade em si no mais deve parecer-lhe desprezvel, mas sim tornar-se um inimigo digno de sua 
tmpera, um fragmento de sua personalidade, que possui slido fundamento para existir e da qual coisas de valor para sua vida futura tm de ser inferidas. Acha-se 
assim preparado o caminho, desde o incio, para uma reconciliao com o material reprimido que se est expressando em seus sintomas, enquanto, ao mesmo tempo, acha-se 
lugar para uma certa tolerncia quanto ao estado de enfermidade. Se esta nova atitude em relao  doena intensifica os conflitos e pe em evidncia sintomas que 
at ento haviam permanecido vagos, podemos facilmente consolar o paciente mostrando-lhe que se trata apenas de agravamentos necessrios e temporrios e que no 
se pode vencer um inimigo ausente ou fora de alcance. A resistncia, contudo, pode explorar a situao para seus prprios fins e abusar da licena de estar doente. 
Ela parece dizer: 'Veja o que acontece se eu realmente transijo com tais coisas. No tinha razo em confi-las  represso?' Pessoas jovens e pueris, em particular, 
inclinam-se a transformar a necessidade, imposta pelo tratamento, de prestar ateno  sua doena, numa desculpa bem-vinda para regalar-se em seus sintomas.
         Outros perigos surgem do fato de que, no curso do tratamento, novos e mais profundos impulsos instintuais, que at ento no se haviam feito sentir, podem 
vir a ser 'repetidos'. Finalmente,  possvel que as aes do paciente, fora da transferncia, possam causar-lhe dano temporrio em sua vida normal, ou at mesmo 
terem sido escolhidos para invalidar permanentemente suas perspectivas de restabelecimento.
         As tticas a serem adotadas pelo mdico, nesta situao, so facilmente justificadas. Para ele, recordar  maneira antiga - reproduo no campo psquico 
-  o objetivo a que adere, ainda que saiba que tal objetivo no pode ser atingido na nova tcnica. Ele est preparado para uma luta perptua com o paciente, para 
manter na esfera psquica todos os impulsos que este ltimo gostaria de dirigir para a esfera motora; e comemora como um triunfo para o tratamento o fato de poder 
ocasionar que algo que o paciente deseja descarregar em ao seja utilizado atravs do trabalho de recordar. Se a ligao atravs da transferncia transformou-se 
em algo de modo algum utilizvel, o tratamento  capaz de impedir o paciente de executar algumas das aes repetitivas mais importantes e utilizar sua inteno de 
assim proceder, in statu nascendi, como material para o trabalho teraputico. Protege-se melhor o paciente de prejuzos ocasionados pela execuo de um de seus impulsos, 
fazendo-o prometer no tomar quaisquer decises importantes que lhe afetem a vida durante o tempo do tratamento - por exemplo, no escolher qualquer profisso ou 
objeto amoroso definitivo - mas adiar todos os planos desse tipo para depois de seu restabelecimento.
         Ao mesmo tempo, deixa-se voluntariamente intocado um tanto da liberdade pessoal do paciente quanto  compatvel com estas restries, e no se o impede 
de levar a cabo intenes sem importncia, mesmo que sejam tolas; no nos esqueamos de que, na realidade,  apenas atravs de sua prpria experincia e infortnios 
que uma pessoa se torna sagaz. H tambm pessoas a quem no se pode impedir de mergulharem em algum projeto inteiramente indesejvel durante o tratamento e que somente 
depois ficam prontas para a anlise ou a esta acessves. Ocasionalmente, tambm, est sujeito a acontecer que os instintos indomados se afirmem antes que haja tempo 
de colocar-lhes as rdeas da transferncia, ou que os laos que ligam o paciente ao tratamento sejam por ele rompidos numa ao repetitiva. Como exemplo extremo 
disto, posso citar o caso de uma senhora de idade que havia repetidamente fugido de casa e do marido em estado crepuscular e ido para onde ningum sabia, sem sequer 
tornar-se consciente de seu motivo para partir desta maneira. Ela chegou ao tratamento com uma acentuada transferncia afetuosa que cresceu em intensidade com misteriosa 
rapidez nos primeiros dias; ao final da semana, havia-me abandonado tambm, antes que tivesse tempo de dizer-lhe algo que pudesse ter impedido esta repetio.
         Toda vida, o instrumento principal para reprimir a compulso do paciente  repetio e transform-la num motivo para recordar reside no manejo da transferncia. 
Tornamos a compulso incua, e na verdade til, concedendo-lhe o direito de afirmar-se num campo definido. Admitimo-la  transferncia como a um playground no qual 
se espera que nos apresente tudo no tocante a instintos patognicos, que se acha oculto na mente do paciente. Contanto que o paciente apresente complacncia bastante 
para respeitar as condies necessrias da anlise, alcanamos normalmente sucesso em fornecer a todos os sintomas da molstia um novo significado transferencial 
e em substituir sua neurose comum por uma 'neurose de transferncia', da qual pode ser curado pelo trabalho teraputico. A transferncia cria, assim, uma regio 
intermediria entre a doena e a vida real, atravs da qual a transio de uma para a outra  efetuada. A nova condio assumiu todas as caractersticas da doena, 
mas representa uma doena artificial, que , em todos os pontos, acessvel  nossa interveno. Trata-se de um fragmento de experincia real, mas um fragmento que 
foi tornado possvel por condies especialmente favorveis, e que  de natureza provisria. A partir das reaes repetitivas exibidas na transferncia, somos levados 
ao longo dos caminhos familiares at o despertar das lembranas, que aparecem sem dificuldade, por assim dizer, aps a resistncia ter sido superada. 
         Poder-me-ia deter neste ponto, no fosse o ttulo deste artigo, que me obriga a debater ainda um ponto na tcnica analtica. O primeiro passo para superar 
as resistncias  dado, como sabemos, pelo fato de o analista revelar a resistncia que nunca  reconhecida pelo paciente, e familiariz-lo com ela. Ora, parece 
que os principiantes na clnica analtica inclinam-se a encarar este passo introdutrio como a totalidade do seu trabalho. Amide me tm sido pedidos conselhos sobre 
casos em que o mdico se queixou de ter apontado a resistncia ao paciente e, no obstante, mudana alguma ter-se efetuado; na verdade, a resistncia tornou-se ainda 
mais forte e toda situao ficou mais obscura do que nunca. O tratamento parecia no progredir. Este prenncio sombrio sempre se mostrou errneo. O tratamento, via 
de regra, progredia muito satisfatoriamente. O analista simplesmente se havia esquecido de que o fato de dar  resistncia um nome poderia no resultar em sua cesso 
imediata. Deve-se dar ao paciente tempo para conhecer melhor esta resistncia com a qual acabou de se familiarizar, para elabor-la, para super-la, pela continuao, 
em desafio a ela, do trabalho analtico segundo a regra fundamental da anlise. S quando a resistncia est em seu auge  que pode o analista, trabalhando em comum 
com o paciente, descobrir os impulsos instintuais reprimidos que esto alimentando a resistncia; e  este tipo de experincia que convence o paciente da existncia 
e do poder de tais impulsos. O mdico nada mais tem a fazer seno esperar e deixar as coisas seguirem seu curso, que no pode ser evitado nem continuamente apressado. 
Se se apegar a esta convico, amide ser-lhe- poupada a iluso de ter fracassado, quando, de fato, est conduzindo o tratamento segundo as linhas corretas.
         Esta elaborao das resistncias pode, na prtica, revelar-se uma tarefa rdua para o sujeito da anlise e uma prova de pacincia para o analista. Todavia, 
trata-se da parte do trabalho que efetua as maiores mudanas no paciente e que distingue o tratamento analtico de qualquer tipo de tratamento por sugesto. De um 
ponto de vista terico, pode-se correlacion-la com a 'ab-reao' das cotas de afeto estranguladas pela represso - uma ab-reao sem a qual o tratamento hipntico 
permanecia ineficaz. 
         
         































OBSERVAES SOBRE O AMOR TRANSFERENCIAL (NOVAS RECOMENDAES SOBRE A TCNICA DA PSICANLISE III) (1915 [1914])
         
         
         NOTA DO EDITOR INGLS
         
         BEMERKUNGEN BER DIE BERTRAGUNGSLIEBE
         
         (a) EDIES ALEMS:
         1915 Int. Z. Psychoanl., 3, (1), 1-11.
         1918 S. D. S. N., 4, 453-69. (1922, 2 ed.)
         1924 Technik und Metapsychol. 120-35.
         1925 G. S., 6, 120-35.
         1931 Neurosenlehre und Technik, 385-96.
         1946 G. W., 10, 306-21.
         
         (b) TRADUO INGLESA:
         'Further Recommendations in the Technique of Psycho-Analysis: Observations on Transference-Love'
         1924 C.P., 2, 377-91. (Trad. de Joan Riviere.)
         
         A presente traduco inglesa, com o ttulo alterado,  verso modificada da publicada em 1924.
         
         Quando este artigo foi publicado pela primeira vez (em comeos de 1915), seu ttulo era: 'Weitere Ratschlge zur Technik der Psychoanalyse (III): Bemerkungen 
ber die bertragungsliebe.' O ttulo da verso inglesa de 1924, tal como fornecido acima,  traduo disto. As edies alems, de 1924 em diante, adotaram o ttulo 
mais curto.
         O Dr. Erneste Jones nos conta (1955, 266) que Freud considerava este o melhor da presente srie de trabalhos tcnicos. Uma carta escrita por Freud a Ferenczi, 
em 13 de dezembro de 1931, com respeito s inovaes tcnicas introduzidas pelo ltimo, constitui interessante ps-escrito a este artigo. Ela foi publicada pelo 
Dr. Jones quase no final do Captulo IV de seu terceiro volume da biografia de Freud (1957, 174 e segs.)
         
         
         
         
         
         OBSERVAES SOBRE O AMOR TRANSFERENCIAL (NOVAS RECOMENDAES SOBRE A TCNICA DA PSICANLISE III)
         
         Todo principiante em psicanlise provavelmente se sente alarmado, de incio, pelas dificuldades que lhe esto reservadas quando vier a interpretar as associaes 
do paciente e lidar com a reproduo do reprimido. Quando chega a ocasio, contudo, logo aprende a encarar estas dificuldades como insignificantes e, ao invs, fica 
convencido de que as nicas dificuldades realmente srias que tem de enfrentar residem no manejo da transferncia.
         Entre as situaes que surgem a este respeito, selecionarei uma que  muito nitidamente definida; e selecion-la-ei, em parte, porque ocorre muito amide 
e  to importante em seus aspectos reais e em parte devido ao seu interesse terico. O que tenho em mente  o caso em que uma paciente demonstra, mediante indicaes 
inequvocas, ou declara abertamente, que se enamorou, como qualquer outra mulher mortal poderia faz-lo, do mdico que a est analisando. Esta situao tem seus 
aspectos aflitivos e cmicos, bem como os srios. Ela  tambm determinada por tantos e to complicados fatores,  to inevitvel e to difcil de esclarecer, que 
uma discusso sobre o assunto, para atender a uma necessidade vital da tcnica analtica, j h muito se fazia necessria. Mas visto que ns, que rimos das fraquezas 
de outras pessoas, nem sempre estamos livres delas, at agora no estivemos precisamente apressados em cumprir esta tarefa. Deparamos constantemente com a obrigao 
 discrio profissional - discrio que no se pode dispensar na vida real, mas que  intil em nossa cincia. Na medida em que as publicaes psicanalticas tambm 
fazem parte da vida real, temos aqui uma contradio insolvel. Recentemente desprezei esta questo da discrio a certa altura, e demonstrei como esta mesma situao 
transferencial retardou o desenvolvimento da terapia psicanaltica durante sua primeira dcada.
         Para um leigo instrudo (a pessoa civilizada ideal, em relao  psicanlise), as coisas que se relacionam com o amor so incomensurveis; acham-se, por 
assim dizer, escritas numa pgina especial em que nenhum outro texto  tolerado. Se uma paciente enamorou-se de seu mdico, parece a tal leigo que so possveis 
apenas dois desfechos. Um, que acontece de modo comparativamente raro,  que todas as circunstncias permitam uma unio legal e permanente entre eles; o outro, mais 
freqente,  que mdico e paciente se separem e abandonem o trabalho que comearam e que deveria levar ao restabelecimento dela, como se houvesse sido interrompido 
por algum fenmeno elementar. H, sem dvida, um terceiro desfecho concebvel, que at mesmo parece compatvel com a continuao do tratamento.  que eles iniciam 
um relacionamento amoroso ilcito e que no se destina a durar para sempre. Mas esse caminho  impossvel por causa da moralidade convencional e dos padres profissionais. 
No obstante, o nosso leigo implorar ao analista que lhe assegure, to inequivocamente quanto possvel, que esta terceira alternativa se acha excluda.
          claro que um psicanalista tem de encarar as coisas de um ponto de vista diferente.
         Tomemos o caso do segundo desfecho da situao que estamos considerando. Aps a paciente ter-se enamorado de seu mdico, eles se separam; o tratamento  
abandonado. Mas logo o estado da paciente obriga-a a fazer uma segunda tentativa de anlise, com outro mdico. O que acontece a seguir  que ela sente se ter enamorado 
deste segundo mdico tambm; e, se romper com ele e recomear outra vez, o mesmo acontecer com o terceiro mdico, e assim por diante. Este fenmeno, que ocorre 
constantemente e que , como sabemos, um dos fundamentos da teoria psicanaltica, pode ser avaliado a partir de dois pontos de vista, o do mdico e o da paciente 
que dele necessita.
         Para o mdico, o fenmeno significa um esclarecimento valioso e uma advertncia til contra qualquer tendncia a uma contratransferncia que pode estar 
presente em sua prpria mente. Ele deve reconhecer que o enamoramento da paciente  induzido pela situao analtica e no deve ser atribudo aos encantos de sua 
prpria pessoa; de maneira que no tem nenhum motivo para orgulhar-se de tal 'conquista', como seria chamada fora da anlise. E  sempre bom lembrar-se disto. Para 
a paciente, contudo, h duas alternativas: abandonar o tratamento psicanaltico ou aceitar enamorar-se de seu mdico como um destino inelutvel.
         
         No tenho dvida de que os parentes e amigos da paciente se decidiro enfaticamente pela primeira destas duas alternativas, assim como o analista optar 
pela segunda. Mas acho que temos aqui um caso em que a deciso no pode ser deixada ao terno - ou antes, egosta e ciumento - cuidado dos parentes. Somente o bem-estar 
da paciente deveria ser a pedra de toque; o amor dos parentes no pode insistir que  indispensvel para a consecuo de certos fins. Qualquer parente que adote 
a atitude de Tolstoi em relao ao problema pode permanecer na posse imperturbada de sua esposa ou filha; mas ter de tentar suportar o fato de que ela, de sua parte, 
mantm a neurose e a interferncia com sua capacidade de amar que aquela acarreta. A situao, afinal,  semelhante  de um tratamento ginecolgico. Alm disso, 
o pai ou marido ciumento est grandemente equivocado se pensa que a paciente escapar de enamorar-se do mdico se ele entreg-la a algum outro tipo de tratamento, 
que no a anlise, para combater-lhe a neurose. Pelo contrrio, a nica diferena ser que um amor deste tipo, fadado a permanecer oculto e no analisado, nunca 
poder prestar ao restabelecimento da paciente a contribuio que a anlise dele teria extrado.
         Chegou ao meu conhecimento que alguns mdicos que praticam a anlise preparam freqentemente suas pacientes para o surgimento da transferncia ertica ou 
at mesmo as instam a 'ir em frente a enamorar-se do mdico, de modo a que o tratamento possa progredir'. Dificilmente posso imaginar procedimento mais insensato. 
Assim procedendo, o analista priva o fenmeno do elemento de espontaneidade que  to convincente e cria para si prprio, no futuro, obstculos difceis de superar.
          primeira vista, certamente no parece que o fato de a paciente se enamorar na transferncia possa resultar em qualquer vantagem para o tratamento. Por 
mais dcil que tenha sido at ento, ela repentinamente perde toda a compreenso do tratamento e todo o interesse nele, e no falar ou ouvir a respeito de nada 
que no seja o seu amor, que exige que seja retribudo. Abandona seus sintomas ou no lhes presta ateno; na verdade, declara que est boa. H uma completa mudana 
de cena;  como se uma pea de fingimento houvesse sido interrompida pela sbita irrupo da realidade - como quando, por exemplo, um grito de incndio se erguer 
durante uma representao teatral. Nenhum mdico que experimente isto pela primeira vez achar fcil manter o controle sobre o tratamento analtico e livrar-se da 
iluso de que o tratamento realmente chegou ao fim.
         Uma pequena reflexo capacita-nos a encontrar orientao. Primeiro e antes de tudo, mantm-se na mente a suspeita de que tudo que interfere com a continuao 
do tratamento pode constituir expresso da resistncia. No pode haver dvida de que a irrupo de uma apaixonada exigncia de amor , em grande parte, trabalho 
da resistncia. H muito notaram-se na paciente sinais de uma transferncia afetuosa, e pde-se ter certeza de que a docilidade dela, sua aceitao das explicaes 
analticas, sua notvel compreenso e o alto grau de inteligncia que apresentava deveriam ser atribudos a esta atitude em relao ao mdico. Agora, tudo isto passou. 
Ela ficou inteiramente sem compreenso interna (insight) e parece estar absorvida em seu amor. Ademais, esta modificao ocorre muito regularmente na ocasio precisa 
em que se est tentando lev-la a admitir ou recordar algum fragmento particularmente aflitivo e pesadamente reprimido da histria da sua vida. Ela esteve enamorada, 
portanto, por longo tempo; mas agora a resistncia est comeando a utilizar seu amor a fim de estorvar a continuao do tratamento, desviar todo o seu interesse 
do trabalho e colocar o analista em posio canhestra.
         Se se examinar a situao mais de perto, reconhece-se a influncia de motivos que complicam ainda mais as coisas - dos quais, alguns acham-se vinculados 
ao enamoramento e outros so expresses especficas da resistncia. Do primeiro tipo so os esforos da paciente em certificar-se de sua irresistibilidade, em destruir 
a autoridade do mdico rebaixando-o ao nvel de amante e em conquistar todas as outras vantagens prometidas, que so incidentais  satisfao do amor. Com referncia 
 resistncia, podemos suspeitar que, ocasionalmente, ela faz uso de uma declarao de amor da paciente como meio de colocar  prova a severidade do analista, de 
maneira que, se ele mostra sinais de complacncia, pode esperar se chamado  ordem por isso. Acima de tudo, porm, fica-se com a impresso de que a resistncia est 
agindo como um agent provocateur; ela intensifica o estado amoroso da paciente e exagera sua disposio  rendio sexual, a fim de justificar ainda mais enfaticamente 
o funcionamento da represso, ao apontar os perigos de tal licenciosidade. Todos estes motivos acessrios, que em casos mais simples podem no se achar presente, 
foram, como sabemos, encarados por Adler como parte essencial de todo o processo.
         Mas como deve o analista comportar-se, a fim de no fracassar nessa situao, se estiver persuadido de que o tratamento deve ser levado avante, apesar desta 
transferncia ertica, e que deve enfrent-la com calma?
         Ser-me-ia fcil enfatizar os padres universalmente aceitos de moralidade e insistir que o analista nunca deve, em quaisquer circunstncias aceitar ou retribuir 
os ternos sentimentos que lhe so oferecidos; que, ao invs disso, deve ponderar que chegou sua vez de apresentar  mulher que o ama as exigncias da moralidade 
social e a necessidade de renncia, conseguir faz-las abandonar seus desejos e, havendo dominado o lado animal do seu eu (self), prosseguir com o trabalho da anlise.
         No atenderei, contudo, a estas expectativas - nem a primeira nem a segunda delas. A primeira, porque no estou escrevendo para pacientes, mas sim para 
mdicos que tm srias dificuldades com que lutar, e tambm porque, neste caso, posso remontar a prescrio moral  sua fonte, ou seja, a convenincia. Encontro-me, 
nesta ocasio, na feliz posio de poder substituir o impedimento moral por consideraes de tcnica analtica, sem qualquer alterao no resultado.
         Ainda mais decididamente, contudo, recuso-me a atender  segunda das expectativas que mencionei. Instigar a paciente a suprimir, renunciar ou sublimar seus 
instintos, no momento em que ela admitiu sua transferncia ertica, seria, no uma maneira analtica de lidar com eles, mas uma maneira insensata. Seria exatamente 
como se, aps invocar um esprito dos infernos, mediante astutos encantamentos, devssemos mand-lo de volta para baixo, sem lhe haver feito uma nica pergunta. 
Ter-se-ia trazido o reprimido  conscincia, apenas para reprimi-lo mais uma vez, um susto. No devemos iludir-nos sobre o xito de qualquer procedimento desse tipo. 
Como sabemos, as paixes pouco so afetadas por discursos sublimes. A paciente sentir apenas humilhao e no deixar de vingar-se por ela.
         Tampouco posso eu advogar um caminho intermedirio, que a certas pessoas se recomendaria como especialmente engenhoso. Consistiria em declarar que se retribuem 
os amorosos sentimentos da paciente, mas, ao mesmo tempo, em evitar qualquer complementao fsica desta afeio, at que se possa orientar o relacionamento para 
canais mais calmos e elev-lo a um nvel mais alto. Minha objeo a este expediente  que o tratamento analtico se baseia na sinceridade, e neste fato reside grande 
parte de seu efeito educativo e de seu valor tico.  perigoso desviar-se deste fundamento. Todo aquele que se tenha embebido na tcnica analtica no mais ser 
capaz de fazer uso das mentiras e fingimentos que um mdico normalmente acha inevitveis; e se, com a melhor das intenes, tentar faz-lo,  muito provvel que 
se traia. Visto exigirmos estrita sinceridade de nossos pacientes, colocamos em perigo toda a nossa autoridade, se nos deixarmos ser por eles apanhados num desvio 
da verdade. Alm disso, a experincia de se deixar levar um pouco por sentimentos ternos em relao  paciente no  inteiramente sem perigo. Nosso controle sobre 
ns mesmos no  to completo que no possamos subitamente, um dia, ir mais alm do que havamos pretendido. Em minha opinio, portanto, no devemos abandonar a 
neutralidade para com a paciente, que adquirimos por manter controlada a contratransferncia.
         J deixei claro que a tcnica analtica exige do mdico que ele negue  paciente que anseia por amor a satisfao que ela exige. O tratamento deve ser levado 
a cabo na abstinncia. Com isto no quero significar apenas a abstinncia fsica, nem a privao de tudo o que a paciente deseja, pois talvez nenhuma pessoa enferma 
pudesse tolerar isto. Em vez disso, fixarei como princpio fundamental que se deve permitir que a necessidade e anseio da paciente nela persistam, a fim de poderem 
servir de foras que a incitem a trabalhar e efetuar mudanas, e que devemos cuidar de apaziguar estas foras por meio de substitutos. O que poderamos oferecer 
nunca seria mais que um substituto, pois a condio da paciente  tal que, at que suas represses sejam removidas, ela  incapaz de alcanar satisfao real.
         Admitamos que este princpio fundamental de o tratamento ser levado a cabo na abstinncia estenda-se muito alm do caso isolado que estamos aqui considerando, 
e que ele necessite ser completamente debatido, a fim de podermos definir os limites de sua possvel aplicao. Todavia, abordaremos agora este assunto, mas manter-nos-emos 
to prximos quanto possvel da situao de que partimos. O que aconteceria se o mdico se comportasse diferentemente e, supondo que ambas as partes fossem livres, 
se aproveitasse dessa liberdade para retribuir o amor da paciente e acalmar sua necessidade de afeio?
         
         Se ele houvesse sido guiado pelo clculo de que esta concordncia de sua parte lhe garantiria o domnio sobre a paciente e assim capacit-lo-ia a influenci-la 
a realizar as tarefas exigidas pelo tratamento e, dessa maneira, liberar-se permanentemente de sua neurose, ento a experincia inevitavelmente mostrar-lhe-ia que 
seu clculo estava errado. A paciente alcanaria o objetivo dela, mas ele nunca alcanaria o seu. O que aconteceria ao mdico e  paciente seria apenas o que aconteceu, 
segundo a divertida anedota, ao pastor e ao corretor de seguros. O corretor de seguros, livre pensador, estava  morte e seus parentes insistiram em trazer um homem 
de deus para convert-lo antes de morrer. A entrevista durou tanto tempo que aqueles que esperavam do lado de fora comearam a ter esperanas. Por fim, a porta do 
quarto do doente se abriu. O livre pensador no havia sido convertido, mas o pastor foi embora com um seguro.
         Se os avanos da paciente fossem retribudos, isso constituiria grande triunfo para ela, mas uma derrota completa para o tratamento. Ela teria alcanado 
sucesso naquilo por que todos os pacientes lutam na anlise - teria tido xito em atuar (acting out), em repetir na vida real o que deveria apenas ter lembrado, 
reproduzido como material psquico e mantido dentro da esfera dos eventos psquicos. No curso ulterior do relacionamento amoroso, ela expressaria todas as inibies 
e reaes patolgicas de sua vida ertica, sem que houvesse qualquer possibilidade de corrigi-las; e o episdio penoso terminaria em remorso e num grande fortalecimento 
de sua propenso  represso. O relacionamento amoroso, em verdade, destri a suscetibilidade da paciente  influncia do tratamento analtico. Uma combinao dos 
dois seria impossvel.
         , portanto, to desastroso para a anlise que o anseio da paciente por amor seja satisfeito, quanto que seja suprimido. O caminho que o analista deve seguir 
no  nenhum destes;  um caminho para o qual no existe modelo na vida real. Ele tem de tomar cuidado para no se afastar do amor transferencial, repeli-lo ou torn-lo 
desagradvel para a paciente; mas deve, de modo igualmente resoluto, recusar-lhe qualquer retribuio. Deve manter um firme domnio do amor transferencial, mas trat-lo 
como algo irreal, como uma situao que se deve atravessar no tratamento e remontar s suas origens inconscientes e que pode ajudar a trazer tudo que se acha muito 
profundamente oculto na vida ertica da paciente para sua conscincia e, portanto, para debaixo de seu controle. Quanto mais claramente o analista permite que se 
perceba que ele est  prova de qualquer tentao, mais prontamente poder extrair da situao seu contedo analtico. A paciente, cuja represso sexual naturalmente 
ainda no foi removida, mas simplesmente empurrada para segundo plano, sentir-se- ento segura o bastante para permitir que todas as suas precondies para amar, 
todas as fantasias que surgem de seus desejos sexuais, todas as caractersticas pormenorizadas de seu estado amoroso venham  luz. A partir destas, ela prpria abrir 
o caminho para as razes infantis de seu amor.
         Existe,  verdade, determinada classe de mulheres com quem esta tentativa de preservar a transferncia ertica para fins do trabalho analtico, sem satisfaz-la, 
no lograr xito. Trata-se de mulheres de paixes poderosas, que no toleram substitutos. So filhas da natureza que se recusam a aceitar o psquico em lugar do 
material e que, nas palavras do poeta, so acessveis apenas  'lgica da sopa, com bolinhos por argumentos'. ['Suppenlongik mit Kndelgrnden', de 'Die Wanderraten' 
de Heine. (Transcrito erradamente por Freud: 'Kndelargumenten'.)] Com tais pessoas tem-se de escolher entre retribuir seu amor ou ento acarretar para si toda a 
inimizade de uma mulher desprezada. Em nenhum dos casos se podem salvaguardar os interesses do tratamento. Tem-se de bater em retirada, sem sucesso, e tudo o que 
se pode fazer  revolver na prpria mente o problema de como  que uma capacidade de neurose se liga a to obstinada necessidade de amor.
         Muitos analistas indubitavelmente estaro de acordo sobre o mtodo pelo qual outras mulheres, menos violentas em seu amor, podem ser gradativamente levadas 
a adotar a atitude analtica. O que fazemos, acima de tudo,  acentuar para a paciente o elemento inequvoco de resistncia nesse 'amor'. O amor genuno, dizemos, 
torn-la-ia dcil e intensificaria sua presteza em solucionar os problemas de seu caso, simplesmente porque o homem de quem est enamorada espera isso dela. Em tal 
caso, ela alegremente escolheria a estrada da concluso do tratamento, a fim de adquirir valor aos olhos do mdico e preparar-se para a vida real, onde este sentimento 
de amor poderia encontrar lugar adequado. Em vez disso, apontamos ns, ela est mostrando um esprito teimoso e rebelde, abandonou todo o interesse no tratamento 
e claramente no sente respeito pelas convices bem fundadas do mdico. Est assim expressando uma resistncia, sob o disfarce de estar enamorada dele; e, alm 
disso, no se compunge por coloc-lo numa situao difcil. Pois, se ele recusa seu amor, como o dever e a compreenso compelem-no a fazer, ela pode representar 
o papel de mulher desprezada e ento afastar-se de seus esforos teraputicos por vingana e ressentimento, exatamente como agora est fazendo por amor ostensivo.
         
         Como segundo argumento contra a genuinidade desse amor, apresentamos o fato de que ele no exibe uma s caracterstica nova que se origine da situao atual, 
mas compe-se inteiramente de repeties e cpias de reaes anteriores, inclusive infantis. Prometemos provar isso mediante uma anlise pormenorizada do comportamento 
da paciente no amor.
         Se se acrescenta a dose necessria de pacincia a estes argumentos,  geralmente possvel superar a difcil situao e continuar o trabalho com um amor 
que foi moderado ou transformado; o trabalho visa ento a desvendar a escolha objetal infantil da paciente e as fantasias tecidas ao redor dela.
         Todavia, gostaria agora de examinar estes argumentos com olhos crticos e levantar a questo de saber se, apresentando-os  paciente, estamos realmente 
dizendo a verdade, ou se no nos estamos valendo, em nosso desespero, de ocultamentos e deturpaes. Em outras palavras: podemos verdadeiramente dizer que o estado 
de enamoramento que se manifesta no tratamento analtico no  real?
         Acho que dissemos  paciente a verdade, mas no toda a verdade, sem atentar para as conseqncias. Dos nossos dois argumentos, o primeiro  o mais forte. 
O papel desempenhado pela resistncia no amor transferencial  inquestionvel e muito considervel. Entretanto, a resistncia, afinal de contas, no cria esse amor; 
encontra-o pronto,  mo, faz uso dele e agrava suas manifestaes. Tampouco a genuinidade do fenmeno deixa de ser provada pela resistncia. O segundo argumento 
 muito mais dbil.  verdade que o amor consiste em novas adies de antigas caractersticas e que ele repete reaes infantis. Mas este  o carter essencial de 
todo estado amoroso. No existe estado deste tipo que no reproduza prottipos infantis.  precisamente desta determinao infantil que ele recebe seu carter compulsivo, 
beirando, como o faz, o patolgico. O amor transferencial possui talvez um grau menor de liberdade do que o amor que aparece na vida comum e  chamado de normal; 
ele exibe sua dependncia do padro infantil mais claramente e  menos adaptvel e capaz de modificao; mas isso  tudo, e no o que  essencial.
         Por que outros sinais pode a genuinidade de um amor ser reconhecida? Por sua eficcia, sua utilidade em alcanar o objetivo do amor? A esse respeito, o 
amor transferencial no parece ficar devendo nada a ningum; tem-se a impresso de que se poderia obter dele qualquer coisa.
         Resumamos, portanto. No temos o direito de contestar que o estado amoroso que faz seu aparecimento no decurso do tratamento analtico tenha o carter de 
um amor 'genuno'. Se parece to desprovido de normalidade, isto  suficientemente explicado pelo fato de que estar enamorado na vida comum, fora da anlise,  tambm 
mais semelhante aos fenmenos mentais anormais que aos normais. No obstante, o amor transferencial caracteriza-se por certos aspectos que lhe asseguram posio 
especial. Em primeiro lugar,  provocado pela situao analtica; em segundo,  grandemente intensificado pela resistncia, que domina a situao; e, em terceiro, 
falta-lhe em alto grau considerao pela realidade,  menos sensato, menos interessado nas conseqncias e mais ego em sua avaliao da pessoa amada do que estamos 
preparados para admitir no caso do amor normal. No devemos esquecer, contudo, que esses afastamentos da norma constituem precisamente aquilo que  essencial a respeito 
de estar enamorado.
         Quanto  linha de ao do analista,  a primeira destas trs caractersticas do amor transferencial que constitui o fator decisivo. Ele evocou este amor, 
ao instituir o tratamento analtico a fim de curar a neurose. Para ele, trata-se de conseqncia inevitvel de uma situao mdica, tal como a exposio do corpo 
de um paciente ou a comunicao de um segredo vital. -lhe, portanto, evidente que no deve tirar qualquer vantagem pessoal disso. A disposio da paciente no faz 
diferena; simplesmente lana toda a responsabilidade sobre o prprio analista. Na verdade, como ele deve saber, a paciente no se preparara para nenhum outro mecanismo 
de cura. Aps todas as dificuldades haverem sido triunfantemente superadas, ela muitas vezes confessar ter tido uma fantasia antecipatria na ocasio em que comeou 
o tratamento, no sentido de que, se se comportasse bem, seria recompensada no final pela afeio do mdico.
         Para o mdico, motivos ticos unem-se aos tcnicos para impedi-lo de dar  paciente seu amor. O objetivo que tem de manter em vista  que a essa mulher, 
cuja capacidade de amor acha-se prejudicada por fixaes infantis, deve adquirir pleno controle de uma funo que lhe  de to inestimvel importncia; que ela no 
deve, porm, dissip-lo no tratamento, mas mant-la pronta para o momento em que, aps o tratamento, as exigncias da vida real se fazem sentir. Ele no deve encenar 
a situao de uma corrida de ces em que o prmio deveria ser uma guirlanda de salsichas, mas que algum humorista estragou ao atirar uma salsicha na pista. O resultado 
foi, naturalmente, que os ces se atiraram sobre ela e esqueceram tudo sobre a corrida e sobre a guirlanda que os atraa  vitria muito distante. No quero dizer 
que  sempre fcil ao mdico se manter dentro dos limites prescritos pela tica e pela tcnica. Aqueles que ainda so jovens e no esto ligados por fortes laos 
podem, em particular, ach-lo tarefa rdua. O amor sexual  indubitavelmente uma das principais coisas da vida, e a unio da satisfao mental e fsica no gozo do 
amor constitui um de seus pontos culminantes.  parte alguns excntricos fanticos, todos sabem disso e conduzem sua vida dessa maneira; s a cincia  refinada 
demais para admiti-lo. Por outro lado, quando uma mulher solicita amor, rejeit-la e recus-la constitui papel penoso para um homem desempenhar; e, apesar da neurose 
e da resistncia, existe um fascnio incomparvel numa mulher de elevados princpios que confessa sua paixo. No so os desejos cruamente sensuais da paciente que 
constituem a tentao.  mais provvel que estes repugnem, e encar-los como fenmeno natural exigir toda a tolerncia do mdico. So, talvez, os desejos de mulher 
mais sutis e inibidos em seu propsito que trazem consigo o perigo de fazer um homem esquecer sua tcnica e sua misso mdica no interesse de uma bela experincia.
         E no entanto  inteiramente impossvel para o analista ceder. Por mais alto que possa prezar o amor, tem de prezar ainda mais a oportunidade de ajudar sua 
paciente a passar por um estdio decisivo de sua vida. Ela tem de aprender com ele a superar o princpio do prazer, e abandonar uma satisfao que se acha  mo, 
mas que socialmente no  aceitvel, em favor de outra mais distante, talvez inteiramente incerta, mas que  psicolgica e socialmente irrepreensvel. Para conseguir 
esta superao, ela tem de ser conduzida atravs do perodo primevo de seu desenvolvimento mental e, nesse caminho, tem de adquirir a parte adicional de liberdade 
mental que distingue a atividade mental consciente - no sentido sistemtico - da inconsciente.
         O psicoterapeuta analtico tem, assim, uma batalha trplice a travar - em sua prpria mente, contra as foras que procuram arrast-lo para abaixo do nvel 
analtico; fora da anlise, contra opositores que discutem a importncia que ele d s foras instintuais sexuais e impedem-nos de fazer uso delas em sua tcnica 
cientfica; e, dentro da anlise, contra as pacientes, que a princpio comportam-se como opositores, mas, posteriormente, revelam a supervalorizao da vida sexual 
que as domina e tentam torn-lo cativo de sua paixo socialmente indomada.
         O pblico, leigo, sobre cuja atitude em relao  psicanlise falei no incio, indubitavelmente apossar-se- deste debate do amor transferencial como mais 
outra oportunidade de dirigir a ateno do mundo para o srio perigo desse mtodo teraputico. O psicanalista sabe que est trabalhando com foras altamente explosivas 
e que precisa avanar com tanto cautela e escrpulo quanto um qumico. Mas quando foram os qumicos proibidos, devido ao perigo, de manejar substncias explosivas, 
que so indispensveis, por causa de seus efeitos?  digno de nota que a psicanlise tenha de conquistar para a prpria, de novo, todas as liberdades que h muito 
tempo foram concebidas a outras atividades mdicas. Certamente no sou favorvel a abandonar os mtodos incuos de tratamento. Para muitos casos, eles so suficientes 
e, quando tudo est dito, a sociedade humana no tem mais uso para o furor senandi do que para qualquer outro fanatismo. Mas acreditar que as neuroses podem ser 
vencidas pela administrao de remediozinhos incuos  subestimar grosseiramente esses distrbios, tanto quanto  sua origem quanto  sua importncia prtica. No; 
na clnica mdica sempre haver lugar para o 'ferrum' e para o 'ignis', lado a lado com as 'medicinas'; e, da mesma maneira, nunca seremos capazes de passar sem 
uma psicanlise estritamente regular e forte, que no tenha medo de manejar os mais perigosos impulsos mentais e de obter domnio sobre eles, em benefcio do paciente.
         
         APNDICE: RELAO DOS TRABALHOS DE FREUD QUE TRATAM PRINCIPALMENTE DA TCNICA PSICANALTICA E DA TEORIA DA PSICOTERAPIA
         
         [A data ao incio de cada ttulo  a do ano durante o qual o trabalho em apreo foi provavelmente escrito. A data ao final  a da publicao, e sob esta 
data pormenores mais completos da obra sero encontrados na Biblio-grafia e ndice Remissivo de Autores.]
         
         1888   * Crtica de Der Hypnotismus, de Forel (1889a)
         1888   * Introduo  traduo de De la suggestion, de Bernheim (1888-9)
         1890   * 'Tratamento Psquico (ou Mental)' (1890a)
         1891   * 'Hipnose' em Therapeutisches Lexikon, de Bum (1891d)
         1892   * 'Um Caso de Tratamento Bem Sucedido pelo Hipnotismo' (1892-93b)
         1895   Estudos sobre a Histeria, Parte IV (1895d)
         1898   'A Sexualidade na Etiologia das Neuroses' (ltima parte) (1898a)
         1899   A Interpretao de Sonhos, Captulo H (primeira parte) (1900a)
         1901   'Fragmento de uma Anlise de um Caso de Histeria', Captulo IV (1905e)
         1903   'O Procedimento Psicanaltico de Freud' (1904a)
         1904   'Sobre a Psicoterapia' (1905a)
         1910   'As Perspectivas Futuras da Terapia Psicanaltica' (1910d)
         1910   'Psicanlise "Silvestre"' (1910k)
         1911   'O Manejo da Interpretao de Sonhos na Psicanlise' (1911e)
         1912   'A Dinmica da Transferncia' (1912b)
         1912   'Recomendaes aos Mdicos que Exercem a Psicanlise' (1912e)
         1913   'Sobre o Incio do Tratamento' (1913c)
         1914   'Fausse Reconnaissance ("dj racont") no Tratamento Psicanaltico' (1914a)
         1914   'Recordar, Repetir e Elaborar' (1914g)
         1914   'Observaes sobre o Amor Transferencial' (1915a)
         1917   Conferncias Introdutrias sobre Psicanlise, Conferncias XXVII e XXVIII (1916-17)
         1918   'Linhas de Avano na Terapia Psicanaltica' (1919a)
         1920   Alm do Princpio de Prazer, Captulo III (1920g)
         1923   'Consideraes sobre a Teoria e Prtica da Interpretao de Sonhos' (1923c)
         1926   A Questo da Anlise Leiga, Captulo V (1926e)
         1932   Novas Conferncias Introdutrias sobre Psicanlise, Conferncia XXXIV (ltima parte) (1933a)
         1937   'Anlise Terminvel e Interminvel' (1937c)
         1937   'Construes em Anlise' (1937d)
         1938   Compndio de Psicanlise, Captulo VI (1940a)
         
         
         
         

















OS SONHOS NO FOLCLORE (FREUD E OPPENHEIM) (1957 [1911])
         
         
         NOTA DO EDITOR INGLS
         
         TRUME IM FOLKLORE
         
         (a) EDIO ALEM:
         (1911 Data provvel da composio.)
         1958 Dreams in Folklore, Parte II, Nova Iorque, International Universities Press, pp. 69-111.
         
         (b) TRADUO INGLESA:
          'Dreams in Folklore'
         1958 Id., Parte I, Nova Iorque, International Universities Press,pp. 19-65, (Trad. de A. M. O. Richards; intr. de J. Strachey.)
         
         A presente traduo inglesa constitui reimpresso da publicada em Nova Iorque, com algumas mudanas muito pequenas. O artigo recebeu originalmente o nmero 
de referncia 1957a, da Standard Edition, e pensou-se ser melhor mant-lo, embora a publicao real do artigo fosse inesperadamente adiada para 1958.
         
         A existncia deste artigo, escrito conjuntamente por Freud e o Professor D. E. Oppenheim, de Viena, foi com efeito ignorada at o vero de 1956, quando 
a Sra. Liffman, filha de Oppenheim, morando ento na Austrlia, trouxe-o ao conhecimento de um livreiro de Nova Iorque. Logo depois, o manuscrito foi adquirido em 
nome dos Arquivos Sigmund Freud pelo Dr. Bernard L. Pacella, e  graas  sua generosidade e  ajuda infalvel do Dr. K. R. Eissler, Secretrio dos Arquivos, que 
podemos incluir o trabalho na Standard Edition.
         David Ernst Oppenheim, colaborador de Freud neste artigo, nasceu em Brnn, no que hoje  a Tchecoslovquia, em 1881. Foi um erudito clssico e tornou-se 
professor de Akademisches Gymnasium, escola secundria de Viena, onde ensinou grego e latim. O Dr. Ernest Jones (1955, 16) menciona-o entre os que assistiram s 
conferncias universitrias de Freud em 1906, mas suas relaes com este aparentemente datam apenas de 1909. No outono desse ano, parece ter enviado a Freud cpia 
de um artigo que tratava da mitologia clssica, de maneira que demonstrava conhecimento da literatura psicanaltica, pois h uma carta de Freud (datada de 28 de 
outubro de 1909) agradecendo-lhe por ele em termos muito cordiais e sugerindo que colocasse seu conhecimento dos clssicos a servio dos estudos psicanalticos. 
O resultado foi, evidentemente, a associao de Oppenheim com a Sociedade Psicanaltica de Viena, da qual (novamente segundo Jones, loc. cit.) tornou-se membro em 
1910. Em 20 de abril desse ano, abriu um simpsio da Sociedade de Viena sobre o suicdio (particularmente entre escolares), que foi publicado sob forma de brochura 
(1910; ver tambm Freud, 1910g). A contribuio de Oppenheim l ser encontrada sob a assinatura 'Unus Multorum', mas ela foi reimpressa sob seu prprio nome alguns 
anos mais tarde, num trabalho coletivo, Heilen und Bilden, coordenado por Adler e Furtmller (1914). As minutas publicadas da Sociedade de Viena demonstram que l 
ele leu trs 'comunicaes breves' durante 1910 e 1911, a primeira das quais, sobre 'Material Folclrico Relacionado ao Simbolismo Onrico' (16 de novembro de 1910), 
possui relao evidente com o presente trabalho. Na primavera de 1911, Freud publicou a terceira edio de A Interpretao de Sonhos e nela inseriu uma nota de rodap 
mencionando o trabalho de Oppenheim com relao a sonhos no folclore e declarando que um artigo sobre o assunto deveria aparecer brevemente (Ver em [1], 1972). Esta 
nota foi omitida em todas as edies posteriores. A omisso, bem como o desaparecimento do presente artigo so indubitavelmente explicados pelo fato de, logo depois, 
Oppenheim haver-se tornado um adepto de Adler e, juntamente com cinco outros membros, ter-se demitido da Sociedade Psicanaltica de Viena, em 11 de outubro de 1911. 
Morreu durante a Segunda Guerra Mundial no campo de concentrao de Theresienstadt, no qual ele e sua esposa haviam sido internados. Aps a guerra, a esposa emigrou 
para a Austrlia, levando consigo o manuscrito; que pudera preservar. De acordo com seus desejos, a publicao dele foi retida at depois de sua morte.
          possvel datar a participao de Freud neste artigo dentro de limites bastante restritos. Ele no pode ter sido escrito antes da primeira parte de 1911, 
como se demonstra por uma referncia do mesmo ao Die Sprache des Traumes, de Stekel, publicado por volta do incio desse ano (Ver em [1].); e deve ter sido completado 
antes do rompimento final com Adler no mesmo vero.
         
         Embora o manuscrito, tal como agora o possumos, no tenha sofrido uma reviso final por parte dos autores, ele de fato exige apenas uma organizao editorial 
muito pequena e fornece-nos um meio claro de ajuizar a parte que nele coube aos dois autores. O material bruto foi evidentemente coligido por Oppenheim e deriva 
em grande parte da revista Anthropophyteia (Leipzig, 1904-1913), editada por F. S. Krauss, na qual Freud sempre tivera interesse especial. (Cf. sua carta aberta 
ao editor da mesma, 1910f, e seu prefcio a Scatalogic Rites of All Nations [Ritos Escatolgicos de Todas as Naes], da autoria de Bourke, 1913k, p. 423 adiante, 
especialmente pertinente ao presente artigo.) Oppenheim copiou este material, parte  mquina e parte  mo (acrescentando breves observaes), e submeteu-o a Freud, 
que ento o disps em seqncia apropriada, colou as laudas de Oppenheim nas suas, muito maiores, e interpolou-as com profusos comentrios. Freud deve ter ento 
devolvido todo o manuscrito a Oppenheim, que parece mais uma vez ter adicionado duas ou trs outras notas (algumas delas taquigrafadas).
         Na verso apresentada a seguir, portanto, as contribuies dos dois autores so automaticamente distinguidas, se no levarmos em considerao qualquer intercmbio 
prvio de idias. Todo material bruto, impresso aqui em tipo um pouco menor, deve ser atribudo a Oppenheim; Freud  responsvel por tudo o mais - a introduo, 
os comentrios, a concluso e toda a disposio do material. A nica modificao efetuada pelos coordenadores foi transferir as referncias do corpo do texto para 
as notas de rodap. As poucas observaes marginais de Oppenheim foram tambm impressas como notas de rodap, com a especificao, de sua autoria. Algumas delas, 
contudo, infelizmente, haviam-se tornado ilegveis.
         Nenhuma tentativa se fez, na traduo, de reproduzir os diversos dialetos em que muitas das histrias originais acham-se redigidas. Adotou-se um idioma 
convencional, de um tipo geralmente associado aos contos folclricos. Onde possvel, as referncias foram conferidas e nelas corrigidos vrios erros.
         
        OS SONHOS NO FOLCLORE
         
         Por Sigm. Freud e Prof. Ernst Oppenheim (Viena)
         'Celsi praetereunt austera poemata Ramnes.'Prsio, Stiras. 
         Um de ns (O.) em seus estudos do folclore, efetuou duas observaes com referncia aos sonhos ali narrados que lhe pareceram dignas de serem comunicadas. 
Em primeiro lugar, que o simbolismo empregado nesses sonhos coincide inteiramente com o aceito pela psicanlise, e, em segundo, que grande nmero desses sonhos so 
entendidos pelo povo comum da mesma maneira que seriam interpretados pela psicanlise, isto , no como premonies sobre um futuro ainda no revelado, mas como 
realizao de desejos, satisfao de necessidades que surgem durante o estado de sono. Certas peculiaridades desses sonhos geralmente indecentes, contados como anedotas 
cmicas, incentivaram o segundo de ns (Fr.) a tentar uma interpretao deles, a qual os fez parecer mais srios e mais merecedores de ateno.
         
         I - SIMBOLISMO DO PNIS EM SONHOS QUE OCORREM NO FOLCLORE
         
         O sonho que apresentamos em primeiro lugar, embora no contenha representaes simblicas, soa quase como uma ridicularizao do proftico e um apelo em 
favor da interpretao psicolgica dos sonhos.
         
                                UMA INTERPRETAO DE SONHO
         Uma moa levantou-se da cama e disse  me que tivera um sonho muito estranho.
         
         'E o que foi que voc sonhou? - perguntou a me.
         
         'Como lhe contar? Eu prpria no sei o que era - uma espcie de coisa comprida, vermelha e rombuda.'
         'Comprida quer dizer uma estrada', disse a me, reflexivamente, 'uma estrada comprida; vermelho quer dizer alegria, mas no sei o que pode significar rombuda.'
         O pai da moa, que nesse meio tempo se vestia e escutava tudo o que a me e a filha estavam dizendo, ante isso murmurou, mais ou menos para si prprio:
         'Parece-se mais com o meu peru.' 
          muito mais conveniente estudar o simbolismo onrico no folclore do que nos sonhos reais. Estes so obrigados a esconder coisas e s entregar seus segredos 
 interpretao; contudo, estas anedotas cmicas disfaradas em sonhos visam a ser comunicaes destinadas a dar prazer  pessoa que as conta assim como  que as 
escuta, e, portanto, a interpretao se acrescenta bastante desavergonhadamente ao smbolo. Estas histrias deleitam-se em revelar os smbolos ocultadores.
         No quarteto seguinte, o pnis aparece como um cetro:
         
         Noite passada sonhei
         Que era o rei da regio
         E quo alegre eu estava
         Com um peru na mo.
         Compare-se isto com os exemplos, nos quais o mesmo simbolismo  empregado externamente a um sonho.
         Amo uma rapariga,
         Que  bonita mas no minha;
         Por-te-ei um cetro na mo
         E sers uma rainha.
         
         'Recorda-te, meu rapaz', disse Napoleo, 
         O imperador que no falava  toa,
         'Enquanto o peru for o cetro,
         A boceta ser a coroa'.
         Uma variante diferente desta exaltao simblica dos rgos genitais  favorecida na imaginao dos artistas. Uma bela gravura da autoria de Flicien Rops, 
com o ttulo 'tout est grand chez les rois' ['Tudo nos reis  grande'], mostra a figura nua de um rei com as feies do Roi Soleil [Luz XIV], cujo pnis gigantesco, 
que se ergue ao nvel do brao, porta, ele prprio, uma coroa. A mo direita equilibra o cetro, enquanto a esquerda agarra uma grande orbe, que, em virtude de uma 
fenda central, apresenta semelhana inequvoca com outra parte do corpo que  objeto de desejos erticos. O dedo indicador da mo esquerda acha-se inserido neste 
sulco.
         Na cano folclrica que se segue, na Silsia, o sonho s  inventado para ocultar uma ocorrncia diferente. O pnis aparece aqui como um verme ('gorda 
minhoca') que se esgueirou para dentro da moa, e, na ocasio apropriada, arrasta-se de novo para fora, como um vermezinho (beb).
         
                                          CANO DA MINHOCA
         Deitada na relva, certo dia, uma jovem,
         Susana seu nome, com paixo sonhava;
         E, a dormir, um sorriso no rosto lhe danava,
         Enquanto em seu zagal e nos ardis dele pensava.
         
         
         Mas, enquanto dormia -  sonho de temor! -
         Sonhou que seu amor se havia transformado,
         De belo e encantador, numa gorda minhoca,
         E que esta dentro dela havia penetrado.
         
         Com pavor no corao, assustada despertou;
         Rpida, em direo  aldeia, se lanou
         E que uma minhoca corpo a dentro lhe entrara
         A chorar a todos, moos e velhos, contou.
         
         Dos lamentos e prantos o som chegou
         Aos ouvidos da me, que muito praguejou;
         Pressentindo desgraa, ao quarto acorreu
         E mui completamente a donzela examinou.
         
         A minhoca buscava, mas nada achou -
         Infelicidade de desanimar.
         E assim, sem delongas, se apressou,
         Em auxlio  cartomante solicitar.
         
         Esta com percia as cartas botou
         E falou: 'Ainda temos de esperar.
         'O Valete, indagado, resposta no deu;
         'Mais forte o Rei Vermelho h de se mostrar.
         
         'Aquilo que temeis Rei Vermelho confirmou:
         'O verme, realmente, nela penetrou;
         'Mas, como em tudo, h de se dar tempo ao tempo,
         'A hora de apanh-lo ainda no chegou.'
         
         Quando as funestas palavras Susana escutou,
         Cheia de tristeza no quarto se encerrou,
         At que chegou a pavorosa hora, e, para fora, 
         Alegremente o vermezinho se esgueirou.
         
         Alertadas assim,  donzelas, ficai,
         De a sorte de Susana por guia tomar,
         Pois seno, para vossa pena e pesar,
         Uma gorda minhoca em vs h de penetrar. 
         A mesma simbolizao do pnis por um verme  encontrada em diversas piadas obscenas.
         No sonho que agora se segue o pnis  simbolizado por uma adaga; a mulher que o sonha est puxando uma adaga a fim de apunhalar-se, quando  acordada pelo 
marido e exortada a no arrancar fora seu membro.
                                            UM SONHO MAU
         Uma mulher sonhou que as coisas haviam chegado a tal ponto que nada tinham para comer antes do feriado de fim de ano e tampouco podiam comprar coisa alguma. 
O marido havia bebido todo o dinheiro. Sobrava apenas um bilhete de loteria e at este realmente teriam de penhorar. Mas o homem ainda o estava guardando, porque 
a extrao deveria realizar-se no dia 2 de janeiro. Disse ele: 'Mulher, a extrao ser amanh; deixemos o bilhete esperar mais um pouco. Se no ganharmos, ento 
teremos de vend-lo ou penhor-lo.' - 'Bem, que o diabo o leve; tudo o que voc comprou foi aborrecimento e tirou tanto dele quanto leite de um bode.' Ento, o dia 
seguinte chegou e l veio o jornaleiro. Ele o fez parar, apanhou um exemplar e comeou a olhar a lista. Passou os olhos pelos nmeros, correu todas as colunas seu 
nmero no se achava nelas. No confiou nos prprios olhos, examinou-as novamente e, desta vez, realmente, deu com o nmero de seu bilhete. O nmero era o mesmo, 
mas o nmero da srie no conferia. Mais uma vez no confiou em si mesmo e pensou consigo:
         'Deve ser um engano. Espera um pouco, irei ao banco e certificar-me-ei de qualquer maneira.' E l se foi, cabisbaixo. No caminho, encontrou um segundo jornaleiro. 
Comprou outro exemplar de um segundo jornal, conferiu atentamente a lista e logo encontrou o nmero de seu bilhete. O nmero da srie tambm era o mesmo que se achava 
no bilhete. Coubera-lhe o prmio de 5.000 rublos. Irrompeu banco a dentro, correu para cima e pediu-lhes que pagassem imediatamente o bilhete premiado. O banqueiro 
disse-lhe que no poderiam pagar-lhe ainda, somente dentro de uma semana ou duas. O homem comeou a implorar e a rogar: 'Por favor, seja bondoso! D-me mil, pelo 
menos; posso receber o resto depois!' O banqueiro recusou-se, mas aconselhou-o a procurar o vendedor que lhe havia fornecido o bilhete premiado. Que fazer agora? 
Exatamente ento, como se houvesse sado do cho, apareceu um pequeno judeu. Este cheirou um bom negcio e fez-lhe a oferta de pagar o dinheiro imediatamente, s 
que, ao invs de 5.000, apenas 4.000. Os outros mil seria a sua cota. O homem ficou encantado com sua boa sorte e decidiu dar ao judeu os 1.000 rublos, de maneira 
a obter o dinheiro no ato. Recebeu o dinheiro do judeu e entregou-lhe o bilhete; depois foi para casa. No caminho, entrou numa estalagem, tomou um trago e de l 
seguiu direto para casa. Caminhava sorrindo e trauteando uma cano. Sua mulher o viu pela janela e pensou: 'Ele certamente vendeu o bilhete de loteria; pode-se 
ver como est alegre. Provavelmente fez uma visita  estalagem e embebedou-se, porque estava se sentindo infeliz.' A o homem entrou, colocou o dinheiro sobre a 
mesa da cozinha e procurou a mulher para dar-lhe a boa notcia de que havia ganho e conseguido o dinheiro. Enquanto se abraavam e beijavam, com alegria no corao 
por serem to felizes, a filha de trs anos apanhou o dinheiro e jogou-o no fogo. A, eles vieram contar o dinheiro e este no se achava mais l. O ltimo mao 
de notas j estava pegando fogo. Enfurecido, o homem apanhou a meninazinha pelas pernas e arremessou-a contra o fogo. Ela caiu morta. A desgraa era evidente, agora 
no havia meio de fugir  Sibria. Apanhou o revlver e - bang! - deu um tiro no peito e caiu morto. Horrorizada por tal calamidade, a mulher agarrou uma adaga e 
ia apunhalar-se. Tentou tir-la para fora da bainha, mas no conseguia, por mais que tentasse. Escutou ento uma voz, como se proviesse do Cu: 'Chega, pra! O que 
est fazendo?' Ela acordou e viu que no estava puxando da adaga, mas sim do instrumento do marido, que lhe dizia: 'Chega, larga, seno voc vai arranc-lo fora!'
         A representao do pnis por uma arma, faca de corte,  adaga etc., -nos familiar a partir dos sonhos de ansiedade das mulheres abstinentes em geral, achando-se 
tambm na raiz de numerosas fobias em pessoas neurticas. O complicado disfarce do presente sonho, contudo, exige que faamos uma tentativa de torn-lo mais claro 
para ns mediante uma interpretao psicanaltica baseada em interpretaes j efetuadas. Assim procedendo, no estamos desprezando o fato de que iremos alm do 
material apresentado no prprio conto folclrico e que, conseqentemente, nossas concluses perdero em certeza.
         Visto este sonho terminar num ato de agresso sexual efetuado pela mulher como uma ao onrica. Isto sugere que devemos tomar o estado de necessidade material 
do contedo do sonho como substituto de um estado de necessidade sexual. S a compulso libidinal mais extrema pode justificar tal agressividade por parte de uma 
mulher. Outros fragmentos do contedo onrico apontam em direo bastante definida e diferente. A culpa por este estado de necessidade  atribuda ao homem. (Ele 
bebera todo o dinheiro.) O sonho prossegue livrando-se do homem e da filha e, astuciosamente, foge ao senso de culpa ligado a estes desejos, fazendo com que a filha 
seja morta pelo homem, que, ento, comete suicdio devido ao remorso. Visto ser este o contedo do sonho, somos levados a concluir, de muitos exemplos anlogos, 
que aqui est uma mulher que no se acha satisfeita com o marido e que, em suas fantasias, anseia por outro casamento.  a mesma coisa para a interpretao encararmos 
esta insatisfao da pessoa que sonha como um estado permanente de carncia ou simplesmente como expresso de um estado temporrio. A loteria, que no sonho ocasionou 
um efmero estado de felicidade, talvez pudesse ser entendida como referncia simblica ao casamento. Este smbolo ainda no foi identificado com certeza no trabalho 
psicanaltico, mas o povo tem o hbito de dizer que o casamento  um jogo de azar, que no matrimnio se tira o bilhete premiado ou ento um em branco. Os nmeros, 
que foram enormemente ampliados pela elaborao onrica, bem poderiam corresponder, neste caso, ao nmero de repeties do ato satisfatrio que so desejadas. Damo-nos 
assim conta de que o ato de puxar o membro do homem no apenas tem o significado de uma provocao libidinal, mas tambm o sentido adicional de crtica desdenhosa, 
como se a mulher quisesse arrancar o membro fora - como o homem corretamente presumiu - por ele no ser bom, no cumprir suas obrigaes.
         No nos teramos demorado na interpretao deste sonho e investigado-o alm de seu simbolismo aberto, no fosse pelo fato de que outros sonhos, que da mesma 
maneira terminam por uma ao onrica, demonstram que o povo comum identificou aqui uma situao tpica que, onde quer que ocorra,  suscetvel da mesma explicao. 
(Cf. em [1].)
         
         II - SIMBOLISMO DAS FEZES E AES ONRICAS RELACIONADAS
         
         A psicanlise ensinou-nos que, no mais primitivo perodo da infncia, as fezes constituem substncia muito apreciada, em relao  qual os instintos coprfilos 
encontram satisfao. Com a represso destes instintos, que  acelerada tanto quanto possvel pela educao, essa substncia cai em desprezo e ento serve a propsitos 
conscientes como meio de expressar desdm e menosprezo. Certas formas de atividade mental, tais como o chiste, ainda so capazes de tornar a fonte obstruda de prazer 
acessvel por um breve momento, e assim demonstram quanto da estima que os seres humanos outrora dedicaram a suas fezes ainda continua preservada no inconsciente. 
O remanescente mais importante desta antiga estima , porm, que todo o interesse que a criana teve nas fezes transfere-se, no adulto, para outro material, que 
aprende na vida a colocar acima de quase tudo o mais - o ouro. Quo antiga  esta vinculao entre excremento e ouro pode-se ver a partir de uma observao de Jeremias: 
o ouro, segundo antiga mitologia oriental,  o excremento do inferno.
         
         Nos sonhos do folclore, o ouro  visto, da maneira menos ambgua, como smbolo das fezes. Se o que dorme sente necessidade de defecar, sonha com ouro, com 
tesouros. O disfarce do sonho, que se destina a induzi-lo erradamente a satisfazer suas necessidades na cama, geralmente faz o monte defezes servir de sinal para 
assinalar o lugar em que o tesouro pode ser encontrado; o que equivale a dizer que o sonho - como se atravs de uma percepo endopsquica - afirma diretamente, 
ainda que em forma invertida, ser o ouro um sinal ou smbolo das fezes.
         Um simples sonho de tesouro ou defecao deste tipo  o seguinte, relatado nas Facetiae, de Poggio.
                                              OURO DE SONHO 
         Certo homem contou em um grupo que sonhara haver encontrado ouro. Imediatamente, outro homem suplantou-o com esta histria. (O que se segue  citado literalmente).
         'Meu vizinho um dia sonhou que o Diabo conduziu-o a um lugar, para escavar em busca de ouro, mas ele no encontrou nada. Ento o Diabo disse "Est a, certamente; 
somente voc no pode desenterr-lo agora; mas tome nota do lugar, de modo a poder reconhec-lo de novo, sozinho."
         'Quando o homem perguntou se o lugar deveria ser identificado por algum sinal, o Diabo sugeriu: ''Basta cagar nele; assim, no ocorrer a ningum que haja 
ouro escondido a e voc poder reconhecer o lugar exato." O homem assim fez e ento acordou imediatamente e viu que havia feito um grande monte na cama.'
         (Damos a concluso em resumo.) Enquanto deixava apressadamente a casa, ps um bon em que um gato havia feito suas necessidades durante a mesma noite. Teve 
de lavar a cabea e os cabelos. 'E assim o ouro de seu sonho transformou-se em imundcie.'
         
         Trarasevsky (1909, 194, n 232) relata um sonho semelhante, oriundo da Ucrnia, no qual o campons recebe um tesouro do Diabo, a quem acendera uma vela, 
e pe um monte de fezes para assinalar o lugar.
         
         No precisamos surpreender-nos com que o Diabo aparece nestes dois sonhos como outorgante de tesouros e sedutor, pois o Diabo - ele prprio anjo expulso 
do Paraso - 'certamente nada mais  que a personificao da vida instintual reprimida e inconsciente.'
         
         Os motivos por trs destas simples anedotas cmicas sobre sonhos parecem esgotar-se num deleite cnico, na sujeira e numa satisfao maliciosa pelo constrangimento 
do que sonha. Noutros sonhos sobre tesouros, porm, a forma assumida pelo sonho  variada ['Variirt' no MS - transcrito incorretamente como 'verwirrt' no texto alemo.] 
sob todos os aspectos e inclui diversos constituintes cuja origem e significao bem podemos investigar; pois no encararemos nem mesmo estes contedos onricos, 
destinados a fornecer uma justificao racionalista para a obteno da satisfao, como inteiramente arbitrrios e sem sentido.
         Nos dois exemplos seguintes, o sonho no  atribudo a uma pessoa a dormir sozinha, mas a uma de duas pessoas - dois homens - que partilham um s leito. 
Como resultado do sonho, o sonhador suja seu companheiro de cama.
                                            UM SONHO VVIDO 
         Dois viajantes chegaram cansados a uma estalagem e solicitaram acomodaes para a noite. 'Sim' respondeu o estalajadeiro, 'se no tiverem medo, podero 
conseguir um quarto, mas ele  mal-assombrado. Se quiserem ficar, est bem, e o pernoite nada lhes custar, no que diz respeito ao quarto. Os rapazes se perguntaram: 
'Voc tem medo?' 'No'. Ento apanharam outro litro de vinho e foram para o quarto que lhes fora destinado.
         Mal se haviam deitado quando a porta se abriu e uma figura branca deslizou atravs do quarto. Um dos companheiros perguntou ao outro: 'Voc viu algo?' 'Vi'. 
'E por que no disse nada?' 'Espere, ela vai atravessar de novo o quarto.' E, realmente, a figura deslizou para dentro de novo. Um dos rapazes pulou da cama rapidamente, 
mas mais rpido ainda o fantasma deslizou para fora atravs da abertura da porta. O rapaz, muito rpido, escancarou a porta e viu a figura, uma bela mulher, j a 
meio caminho escadas abaixo. 'O que est fazendo aqui?' gritou-lhe o rapaz. A figura parou, virou e falou: 'Agora estou livre. Muito tempo tive de vagar. Como recompensa, 
fique com o tesouro que se acha exatamente no lugar onde voc est parado.' O rapaz ficou to assustado quanto deliciado e, a fim de assinalar o lugar, levantou 
sua camisa de dormir e deixou cair um belo monte, porque pensava que ningum limparia aquele sinal. Mas, exatamente quando se achava no melhor da coisa, sentiu algum 
subitamente agarr-lo. 'Seu porco sujo', berraram-lhe no ouvido, voc est cagando na minha camisa.' Ante essas grosseiras palavras, o feliz sonhador despertou de 
sua boa sorte de mentira para descobrir-se rudemente arremessado para fora do leito.
                                          CAGOU NA SEPULTURA
         Dois cavalheiros chegaram a um hotel, comeram a ceia, beberam e, por fim, quiseram recolher-se. Perguntaram ao encarregado se podia conseguir-lhes um quarto. 
Como os quartos se achavam todos tomados, o encarregado cedeu-lhes o seu, em que ambos deveriam pernoitar, pois logo encontraria um lugar para dormir noutra parte. 
Os dois homens deitaram-se na mesma cama. Um esprito apareceu a um deles em sonho, acendeu uma vela e conduziu-o ao cemitrio. O porto se abriu e o esprito, com 
a vela na mo e o homem atrs dele, caminhou at a sepultura de uma virgem. Quando l chegaram, a vela subitamente se apagou. 'O que farei agora? Como poderei dizer 
qual  a sepultura da donzela amanh, quando for dia?' perguntou ele no sonho. Ento uma idia lhe veio em salvao; abaixou as calas e cagou na sepultura. Quando 
acabou de cagar, seu companheiro, que dormia ao lado, esbofeteou-o primeiro numa face e depois na outra: 'O qu? e voc me caga bem na cara?'
         Nestes dois sonhos, em lugar do Demnio aparecem outras figuras sobrenaturais, a saber, fantasmas - isto , esprito de mortos. O esprito do segundo sonho 
conduz realmente o que sonha at o cemitrio, onde deve assinalar uma sepultura especfica defecando sobre ela. Uma parte desta situao  muito fcil de entender. 
Quem dorme sabe que a cama no  lugar apropriado para satisfazer suas necessidades; da, no sonho, faz-se afastar dela e arranja uma pessoa que mostra a seu impulso 
oculto o caminho certo para outro lugar onde lhe  permitido satisfaz-las e, na verdade, as circunstncias lhe exigem que o faa. O esprito do segundo sonho utiliza 
uma vela ao conduzi-lo, como um criado faria se estivesse levando um estranho  privada,  noite, quando est escuro. Mas por que estes representantes da exigncia 
de uma mudana de cena, que a pessoa adormecida preguiosamente deseja evitar a todo custo, so indivduos to sinistros como fantasmas e espritos de mortos? Por 
que o esprito do segundo sonho mostra o caminho at o cemitrio, como para profanar uma sepultura? Afinal de contas, estes elementos nada parecem ter a ver com 
a premncia de defecar e a simbolizao das fezes pelo ouro. H neles indicao de uma ansiedade que talvez pudesse ser remontada a um esforo para suprimir a realizao 
da satisfao na cama; mas esta ansiedade no explicaria a natureza especfica do contedo onrico, ou seja, sua referncia  morte. Abster-nos-emos de efetuar uma 
interpretao neste ponto e acentuaremos ainda, como a necessitar de explicao, o fato de que em ambas as situaes, em que dois homens esto dormindo juntos, o 
elemento sinistro do guia fantasmagrico acha-se associado a uma mulher. O esprito do primeiro sonho  logo revelado como sendo uma bela mulher, que sente ter sido 
agora libertada, e o do segundo mostra o caminho at a sepultura de uma moa, na qual a marca assinaladora deve ser colocada.
         Voltemo-nos, em busca de maiores esclarecimentos, para alguns outros sonhos de defecao deste tipo, em que os companheiros de leito no so mais dois homens, 
mas sim um homem e uma mulher, um casal. O ato de satisfao realizado no sono, em resultado do sonho, parece aqui particularmente repelente, mas talvez por essa 
prpria razo oculte um sentido especial.
         Em primeiro lugar, porm apresentaremos um sonho (por causa de sua vinculao em contedo com o que o seguem) que, estritamente falando, no se ajusta no 
plano que acabamos de formular. Ele  incompleto, visto que um elemento, isto , o sonhador a sujar seu companheiro de leito, a esposa, acha-se ausente. Por outro 
lado, a vinculao entre a premncia de defecar e temor da morte  extremamente evidente. O campons, descrito como casado, sonha que foi atingido por um raio e 
que sua alma ascendeu ao Cu. L em cima, implora que lhe seja permitido retornar mais uma vez  Terra, a fim de ver a mulher e os filhos, obtm permisso para transformar-se 
numa aranha e deixar-se cair pelo fio tecido por ele prprio. O fio  curto demais e o esforo para emitir ainda mais fio do corpo resulta em defecao.
         
                                            SONHO E REALIDADE
         Um campons deitou-se e teve um sonho. Viu-se no campo com os seus bois, arando. Ento repentinamente, caiu um raio e o matou. Depois sentiu muito claramente 
sua alma flutuando para cima, at que, por fim, chegou ao Cu. So Pedro estava parado nos portes de entrada e ia mandar o campons entrar sem mais conversa, mas 
esse implorou que lhe fosse permitido descer  Terra uma vez mais, a fim de poder, pelo menos, despedir-se da mulher e dos filhos. Mas So Pedro disse que no poderia 
faz-lo, pois uma vez um homem chegue ao Cu no lhe  permitido retornar ao mundo. Ante isto, o campons chorou e implorou lastimosamente, at que, por fim, So 
Pedro concordou. Entretanto, s havia uma maneira possvel de o campons ver sua famlia de novo e essa era So Pedro transform-lo num animal e envi-lo para baixo. 
Assim, o campons foi transformado numa aranha e teceu um longo fio, pelo qual se deixou cair. Quando chegou exatamente em cima de seu lar, ao nvel das chamins 
e j podia ver as crianas brincando no prado, para seu horror notou que no podia mais fiar. Naturalmente, seu medo foi grande, pois certamente queria chegar at 
o cho. Ento se espremeu e espremeu para fazer o fio mais comprido. Espremeu-se com toda a fora - houve um rudo alto - e o campons acordou. Algo muito humano 
havia-lhe acontecido enquanto dormia.
         Encontramos aqui o fio tecido como um novo smbolo para fezes evacuadas, embora a psicanlise no nos fornea nenhu correspondente para essa simbolizao 
mas, pelo contrrio, atribua outro significado simblico a fio. Esta contradio ser resolvida posteriormente. [Ver em [1].]
         O sonho seguinte, ricamente elaborado e mordazmente narrado, poderia ser descrito como 'socivel'; ele termina com a esposa sendo sujada. Seus pontos de 
concordncia com o sonho anterior, no entanto, so muito marcantes. O Campons,  verdade, no est morto, mas se acha no Cu, quer retornar  Terra e experimenta 
a mesma dificuldade em 'fiar' um fio suficientemente longo para permitir-lhe chegar em baixo. Todavia, no tece este fio para si mesmo como uma aranha, de seu prprio 
corpo, mas, de maneira menos fantstica, de tudo que pode amarrar, e, como o fio ainda no  bastante longo para chegar, os anjinhos efetivamente o aconselham a 
defecar e a encompridar a corda com os excrementos.
                          A ASCENSO DO CAMPONS AO CU
         Um campons teve o seguinte sonho. Ele escutara que o trigo no Cu estava muito valorizado, de maneira que pensou que gostaria de levar seu trigo para l. 
Carregou a carroa, arreou o cavalo e ps-se a caminho. Viajou muito tempo at que viu a estrada do Cu e a seguiu. Assim chegou aos portes do Cu e - vejam s! 
- eles estavam abertos. Avanou direto, a fim de ir parar l dentro, mas mal havia dirigido a carroa para eles quando - blam! - os portes se fecharam com estrondo. 
Ento, comeou a implorar: 'Deixem-me entrar, por favor, sejam bondosos!' Mas os anjos no o deixaram entrar e disseram-lhe que havia chegado tarde. Ento, ele viu 
que nada tinha a fazer ali, que no havia nada para ele, de modo que deu meia volta. Mas - imaginem! - a estrada pela qual havia viajado desaparecera. O que deveria 
fazer? Dirigiu-se novamente aos anjos: 'Queridinhos, por favor, sejam bonzinhos e levem-me de volta  Terra, se for possvel! Dem-me uma estrada, a fim de que possa 
voltar a casa com meu cavalo e minha carroa!' Mas os anjos responderam: 'No, filho do homem, seu cavalo e sua carroa ficam aqui e voc pode descer como quiser.' 
'Mas como  que vou descer.' Ento, ele apanhou as rdeas. Desceu, desceu, e ento olhou para baixo - a Terra ainda estava muito longe. Subiu novamente e encompridou 
a corda que havia atado, acrescentando-lhe a cilha e os tirantes. Depois, comeou a descer novamente, mas mesmo assim ainda no alcanava a Terra; de modo que atou 
tambm os varais e o corpo da carroa. Ainda era curto. O que fazer agora? Deu tratos  bola e ento pensou: 'Ah, vou encomprid-la com o casaco, as calas, a camisa 
e depois com o cinto'. E foi o que fez; atou tudo e desceu. Quando chegou ao final do cinto, a Terra ainda se achava longe. E a no soube o que fazer; no tinha 
mais nada para atar e pular era perigoso; poderia quebrar o pescoo. Implorou novamente aos anjos: 'Sejam gentis, levem-me de volta para a Terra!' Os anjos responderam: 
'Cague, que o estrume dar uma corda.' E ele cagou e cagou quase meia hora, at no lhe sobrar mais nada para cagar. Deu uma longa corda e ele desceu por ela. Desceu, 
desceu e chegou ao fim da corda, mas a Terra ainda se achava longe. Comeou ento a implorar de novo aos anjos que o levassem de volta para a Terra. Mas os anjos 
responderam: 'Ora, filho do homem, mije, que o mijo dar um cordo de seda!' O campons mijou e mijou, sem parar, at no poder mais. Viu que o mijo se havia realmente 
transformado num cordo de seda e agarrou-se nele. Desceu, desceu e chegou ao fim do cordo; olhou e este no chegava ainda  Terra: eram necessrias ainda uma braa 
e meia ou duas. Mais uma vez implorou aos anjos que o levassem para baixo, mas os anjos responderam: 'No, irmo, agora no tem mais ajuda; pula!' O campons balanou-se 
indeciso na corda; no conseguia reunir coragem para pular. Mas, ento, viu que no lhe restava outra sada e - bum! - em vez de pular do Cu, caiu voando da estufa 
e s recobrou os sentidos no meio do quarto. A acordou e gritou: 'Mulher, mulher, onde  que voc est?' A esposa acordou, pois escutara o alarido, e disse 'Diabos 
o levem, est ficando maluco?' Apalpou em volta e viu a sujeira: o marido havia cagado e mijado em cima dela. Comeou a xing-lo e a repreend-lo severamente. O 
campons perguntou: 'Por que est reclamando? J temos amolaes bastantes, de qualquer jeito. O cavalo est perdido, ficou l no Cu, e eu quase morri. Deus seja 
louvado que ainda me acho vivo, pelo menos!' 'que besteiras est falando? Voc andou bebendo demais. O cavalo est no estbulo, voc estava em cima da estufa e me 
sujou toda e depois pulou l de cima'. Foi ento que o homem recobrou o domnio e somente a comeou a compreender que havia simplesmente sonhado aquilo tudo e ento 
contou  mulher o sonho, de como havia viajado at o Cu e, de l, descera novamente  Terra.
         Neste ponto, contudo, a psicanlise impe-nos uma interpretao que altera toda nossa viso desta espcie de sonhos. Objetos extensveis, assim nos diz 
a experincia de interpretao de sonhos, so normalmente smbolos de ereo. Em ambas estas anedotas de sonhos, a nfase reside no elemento de o fio recusar-se 
a ficar suficientemente longo e a ansiedade no sonho acha-se tambm ligada ao mesmo elemento. O fio, alm disso, como todas as coisas a ele anlogas (cordel, corda, 
barbante etc.),  um smbolo do smem. O campons, pois, est-se esforando por produzir uma ereo e somente quando esta no  bem sucedida  que recorre  defecao. 
Surge imediatamente, nestes sonhos, uma necessidade sexual por trs da excremencial.
         Esta necessidade sexual, porm,  muito mais adequada para explicar os constituintes remanescentes do contedo do sonho. Somos forados a admitir, se estivermos 
prontos a presumir que estes sonhos fictcios so, em essncia, corretamente construdos, que a ao onrica pela qual terminam deve ter um significado, o significado 
pretendido pelos pensamentos latentes do sonhador. Se este defeca sobre a mulher no final, ento todo sonho deve ter isto por objetivo e fornecer o motivo para tal 
desenlace. Este motivo no pode significar seno um insulto  esposa, ou, estritamente falando, uma rejeio a ela.  ento fcil estabelecer associao entre isto 
e a significao mais profunda da ansiedade expressa no sonho. 
         A situao, a partir da qual este ltimo sonho se desenvolve, pode ser explicada de acordo com as sugestes seguintes. A pessoa adormecida  dominada por 
uma intensa necessidade ertica, indicada por smbolos bastante claros no incio do sonho (ele ouvira dizer que o trigo - provavelmente equivalente ao smen - estava 
muito valorizado. Avanou, a fim de passar com seu cavalo e carroa - smbolos genitais - pelos portes abertos do Cu). Mas este impulso libidinal provavelmente 
se aplica a um objeto inatingvel. Os portes se fecham, ele abandona sua inteno e quer retornar  Terra. Mas a esposa, deitada a seu lado, no o atrai; esfora-se 
em vo por conseguir uma ereo com ela. O desejo de livrar-se dela, a fim de substitu-la por outra mulher melhor , no sentido infantil, um desejo de morte. Quando 
algum acalenta tais desejos em seu inconsciente contra uma pessoa que, no obstante,  realmente amada, eles se transformam, para esse algum, em medo da morte, 
temor por sua prpria vida. Da a presena, nestes sonhos, do estado de morto, da ascenso ao Cu, do desejo hipcrita de ver mulher e filhos novamente. Mas a libido 
sexual desapontada encontra liberao ao longo do caminho da regresso, no impulso de desejo excremencial, que injuria e emporcalha o objeto sexual imprestvel.
         Se este sonho especfico torna plausvel uma interpretao deste tipo, ento, em vista das peculiaridades do material que o sonho contm, s podemos conseguir 
testar a interpretao aplicando-a a toda uma sucesso de sonhos com contedo afim. Com este objetivo em vista, retornemos aos sonhos anteriormente mencionados, 
onde encontramos a situao de um homem que dorme com outro como companheiro de leito. A presena da mulher nestes sonhos adquire agora, retrospectivamente, significado 
adicional. O que dorme, dominado por um impulso libidinal, rejeita o homem; quer v-lo longe e uma mulher em seu lugar. Um desejo de morte, dirigido contra o companheiro 
de cama masculino e indesejado,  certo que no  to severamente punido pela censura moral quanto um dirigido contra a esposa, mas a reao  suficientemente ampla 
para fazer voltar o desejo contra si prprio ou contra o objeto feminino desejado. O prprio sonhador  levado pela morte; e no  o homem que est morto, mas a 
mulher pela qual o sonhador anseia. Todavia, no final, a rejeio do objeto sexual masculino encontra um escoadouro no emporcalhamento deste, e isto  sentido e 
vingado pelo outro como uma afronta.
         Nossa interpretao adapta-se, assim, a este grupo de sonhos. Se retornarmos agora aos sonhos acompanhados pelo emporcalhamento da mulher, estaremos preparados 
para descobrir que elementos ausentes ou apenas sugeridos no sonho que tomamos como exemplo so inequivocamente expressos em outros sonhos semelhantes.
         No sonho de defecao seguinte, o emporcalhamento da mulher no  enfatizado, mas -nos dito muito claramente, tanto quanto possvel no reino do simbolismo, 
que o impulso libidinal se acha dirigido para outra mulher. A pessoa que sonha no deseja sujar seu prprio campo, mas pretende defecar na terra do vizinho.
         
                                             ESTPIDO!
         Um campons sonhou que estava trabalhando em seu campo de trevos. Foi surpreendido por uma necessidade urgente e, visto no querer sujar seu prprio trevo, 
correu at a rvore que se erguia no campo do vizinho, baixou as calas e deixou cair uma rodela de bom tamanho sobre o cho. Finalmente, quando satisfeito acabou, 
quis limpar-se e comeou a arrancar grama com vontade. Mas, o que era aquilo? Nosso campons acordou de seu sono com um tranco e agarrou sua bochecha dolorida, que 
algum havia acabado de esbofetear. 'Seu estpido velho e surdo' - voltando a si, ouviu a mulher, a seu lado na cama, a xing-lo. 'Quer parar de puxar os meus plos, 
quer?'
         Arrancar cabelos (grama), que aqui toma o lugar de emporcalhar, est mencionado ao lado deste no sonho seguinte. A experincia psicanaltica demonstra que 
se origina do grupo de smbolos relativos  masturbao (ausreissen, abreissen [sacar, arrancar]). 
         O desejo de morte da pessoa que sonha, dirigido contra a esposa, pareceria ser o que mais exige confirmao em nossa interpretao. Mas no sonho que se 
segue, o sonhador realmente enterra a esposa (hipocritamente designada como um tesouro), ao enterrar o recipiente que contm o ouro na terra e, como  comum nos 
sonhos sobre tesouro, ao deixar cair um monte de fezes em cima, para assinalar o lugar. Durante a escavao, ele est com as mos ocupadas na vagina da mulher.
                                          O SONHO DO TESOURO
         Certa vez um campons teve um sonho terrvel. Pareceu-lhe que era tempo de guerra e que todo o distrito estava sendo saqueado pelos soldados inimigos. Mas 
ele possua um tesouro em relao ao qual se achava to assustado que no sabia bem o que fazer com ele nem mesmo onde, na verdade, deveria escond-lo. Por fim, 
pensou em enterr-lo no jardim, onde sabia de um lugar bom e apropriado. E sonhou ainda que saiu e foi at o lugar onde queria cavar a terra, de maneira a colocar 
grande pote no buraco. Mas, ao procurar uma ferramenta para escavar, no encontrou nada em volta e afinal teve de usar as mos. Assim, cavou o buraco com as mos 
nuas, nele depositou o pote de barro com o dinheiro e cobriu tudo novamente com terra. J ia embora, mas deteve-se l um instante e pensou consigo mesmo: 'Mas, quando 
os soldados se forem de novo, como farei para encontrar o tesouro, se no puser uma marca aqui?' E imediatamente comeou a procurar; procurou aqui e acol, em cima 
e em baixo, em todo o lugar. No, no final nada encontrou, em parte alguma que lhe pudesse indicar novamente o lugar em que enterrara o dinheiro. Logo em seguida, 
porm, sentiu uma necessidade. 'Ah', disse consigo, ' isso mesmo, posso cagar em cima'. De maneira que abaixou as calas imediatamente e fez um belo monte no lugar 
em que enterrara o pote. Viu ento perto dele, um pouco de grama e ia arranc-la, de modo a poder limpar-se com ela. Nesse momento, porm, recebeu uma bofetada tal 
que, por um segundo, ficou inteiramente tonto e olhou em volta espantado. Logo em seguida escutou a esposa, fora de si de raiva, a gritar-lhe: 'Seu bastardo atrevido, 
seu imprestvel! Pensa que tenho de aturar tudo que vem de voc? Primeiro mexe com as duas mo na minha boceta, depois caga em cima dela e agora quer at arrancar-lhe 
os plos!'
         Com este exemplo, retornamos aos sonhos de tesouro com que comeamos, e observamos que estes sonhos de defecao que se relacionam a tesouros contm pouco 
ou nenhum medo da morte, enquanto que os outros, nos quais a relao com a morte  diretamente expressa (sonhos de uma ascenso ao Cu), desprezam o tesouro e motivam 
a defecao de outras maneiras.  quase como se a transformao hipcrita da esposa num tesouro evitasse a punio pelo desejo de morte. 
         Um desejo de morte dirigido contra a mulher  muito claramente admitido em outro sonho de ascenso ao Cu, o qual, contudo, no termina pela defecao sobre 
o corpo da mulher, mas por uma atividade sexual que inclui seus rgos genitais, como j acontecera no sonho anterior. A pessoa que sonha realmente encurta a vida 
da esposa, a fim de alongar a sua, ao passar leo da lmpada da vida dela para a sua prpria. Como compensaopor esta hostilidade indisfarada, aparece no final 
do sonho algo semelhante a uma tentativa de carcia.
                                                 A LUZ DA VIDA 
         So Pedro apareceu a um homem quando este se achava profundamente adormecido e levou-o para o Paraso. O homem concordou em ir de toda boa vontade e partiu 
com So Pedro. Passearam pelo Paraso longo tempo e chegara a um bosque, grande e espaoso mas mantido em perfeita ordem, onde lmpadas dependuradas ardiam em cada 
rvore. O homem perguntou a So Pedro o que significava aquilo. So Pedro respondeu que eram lmpadas que s ardiam enquanto um homem vivia; assim que o leo se 
gastava e a lmpada se apagava, o homem tambm tinha de morrer ao mesmo tempo. Isto interessou muito ao homem e ele perguntou a So Pedro se podia lev-lo at sua 
prpria Lmpada. So Pedro deferiu-lhe o pedido e conduziu-o at a lmpada da esposa; ao lado desta, achava-se a lmpada do homem. Este viu que a lmpada da esposa 
ainda tinha bastante leo, mas que havia muito pouco na sua e isto o deixou muito triste, pois teria de morrer cedo, e perguntou se So Pedro podia despejar um pouco 
mais de leo na sua lmpada. So Pedro respondeu que era Deus que colocava o leo, no momento em que um homem nascia e determinava para cada um a durao da vida. 
Isto deixou o homem muito abatido e ele chorou e lamentou-se ao lado de sua lmpada. So Pedro lhe disse: 'Fique a, mas eu tenho de ir - tenho mais o que fazer.' 
O homem rejubilou-se com isto e, mal So Pedro se achava fora de vista, comeou a mergulhar o dedo na lmpada da mulher e a pingar o leo na sua prpria. Fez isto 
diversas vezes e, quando So Pedro se aproximou, ele deu um pulo, aterrorizado, acordou do sonho, e viu que estivera enfiando o dedo na boceta da mulher e depois 
fazendo-o pingar dentro da boca e lambendo o dedo.
         Nota. Segundo uma verso contada por um viajante de Sarajevo, o homem desperta aps levar da mulher um bofeto nos ouvidos, pois a havia acordado ao mexer 
em suas partes pudendas. Nesta verso, So Pedro acha-se ausente e, ao invs de lmpadas pendentes, h vidros com leo a queimar. De acordo com uma terceira verso, 
que escutei de um estudante em Mostar, um venervel homem de barbas brancas mostra ao homem diversas velas a arder. A dele  muito delgada, e a da mulher enormemente 
espessa. A fim de alongar sua vida, o homem comea ento, com ardente entusiasmo, a lamber a vela grossa. Mas leva ento uma tremenda bofetada.  'Eu sabia que voc 
era um bobo, mas, honestamente, no sabia que fosse um porco tambm', disse-lhe a mulher, porque, no sono, ele lhe estava lambendo a boceta.
         
         A histria  extraordinariamente difundida na Europa.
         Este  o momento de relembrar o 'sonho mau' da mulher que terminou por ela puxar o rgo de seu marido, como se quisesse arranc-lo [Ver a partir de [1].]. 
A interpretao que vimos razo para efetuar naquele caso concorda inteiramente com a interpretao dos sonhos de defecao dos homens, tal como  exposta aqui. 
No sonho da esposa insatisfeita, tambm ela descaradamente se livra do marido (e da filha), como obstculos existentes no caminho da satisfao.
         Outro sonho de defecao, sobre cuja interpretao no podemos, talvez, estar completamente certos, sugere, contudo, que devemos admitir existirem certas 
diferenas na inteno desses sonhos, e lana nova luz sobre sonhos como os que acabamos de mencionar e sobre alguns que ainda devem se seguir, nos quais a ao 
onrica consiste na manipulao dos rgos genitais da mulher.
                                                   'DE MEDO'
         O Pax passou a noite com o Bei. Quando chegou o dia seguinte, o Bei ficou deitado na cama e no quis levantar-se. O Bei perguntou ao Pax: 'O que foi que 
voc sonhou?' 'Sonhei que sobre o minarete havia outro minarete.' 'Poderia ser?' ficou pensando o Bei. 'E que mais voc sonhou?' 'Sonhei', disse ele, 'que sobre 
o minarete havia um cntaro de cobre e que havia gua no cntaro. O vento soprou e o cntaro de cobre balanou. Agora, o que teria feito voc, se houvesse sonhado 
isso?' 'Teria me mijado, e cagado tambm, de medo.' 'Veja voc, eu s me mijei.'
         Este sonho exige uma interpretao simblica, por seu contedo manifesto ser inteiramente incompreensvel, embora os smbolos sejam inequivocamente claros. 
Por que deveria o sonhador senti-se realmente assustado pela viso de um cntaro de gua a balanar-se na ponta de um minarete? Mas um minarete  otimamente adequado 
para ser smbolo do pnis e o receptculo de gua a mover-se ritmicamente parece um bom smbolo dos rgos genitais femininos no ato da copulao. O Pax teve portanto 
um sonho de copulao e, se seu hospedeiro sugere a defecao com relao a ele,  provvel que a interpretao deva ser buscada na circunstncia de ambos serem 
homens velhos e impotentes, em quem a velhice ocasionou a mesma proverbial substituio do prazer sexual pelo excremencial que, como vimos, surgiu nos outros devido 
 falta de um objeto sexual apropriado. Para um homem que no mais pode copular, diz o povo com seu grosseiro amor pela verdade, ainda resta o prazer de cagar; podemos 
dizer de tal homem que h uma volta do erotismo anal, que existia antes do erotismo genital, e foi reprimido e substitudo por este ltimo impulso. Os sonhos de 
defecao podem assim ser tambm sonhos de impotncia.
         A diferena entre as interpretaes no  to pronunciada como poderia parecer  primeira vista. Tambm os sonhos de defecao, nos quais a vtima  uma 
mulher, tratam da impotncia - uma impotncia relativa, pelo menos, quanto  pessoa especfica que no mais possui qualquer atrao para o que sonha. Uma sonho de 
defecao torna-se assim o sonho de um homem que no mais pode satisfazer uma mulher, bem como de um homem a quem uma mulher no mais satisfaz. 
         A mesma interpretao (de sonhos de impotncia) tambm pode ser aplicada a um sonho das Facetiae, de Poggio, que, manifestamente, se apresenta como o sonho 
de um homem ciumento - isto , na realidade, de um homem que no acha que possa satisfazer sua mulher.
                                        O ANEL DA FIDELIDADE
         Franciscus Philelphus tinha cimes da mulher e, atormentado pelo grande temor de que ela tivesse relaes com outro homem, dia e noite lhe montava guarda. 
Visto que o que nos ocupa na viglia costuma retornar nos sonhos, apareceu-lhe durante o sono um demnio que lhe disse que, se agisse de acordo com suas ordens, 
a mulher sempre lhe permaneceria fiel. No sonho, Franciscus respondeu-lhe que ficaria muito penhorado e prometeu-lhe uma recompensa.
         
         'Toma este anel!', respondeu o demnio, ' e usa-o em teu dedo com cuidado. Enquanto o usares, tua mulher no poder deitar-se com nenhum outro homem sem 
o teu conhecimento.'
         Enquanto acordava, excitado de alegria, sentiu que estava enfiando o dedo na vulva da esposa.
         Os ciumentos no tem melhor expediente; desta maneira, suas mulheres nunca se podem deixar possuir por outro homem sem o conhecimento dos maridos.
         Esta anedota de Poggio  considerada como a fonte de uma histria de Rabelais, que, sob outros aspectos muito semelhante,  mais clara, uma vez que realmente 
descreve o marido, j velho, a trazer para casa uma jovem esposa, que ento lhe d motivos para temores ciumentos.
         
         Hans Carvel era um homem instrudo, experimentado e diligente; um homem de honra, de boa compreenso e julgamento, benevolente, caridoso com os pobres, 
e um alegre filsofo. Alm disso, era um bom companheiro, que gostava de uma troa, um tanto corpulento e instvel, mas tambm bem construdo sob todos os aspectos. 
Na velhice, casou-se com a filha de Concordat, o meirinho, mulher jovem, bonita, boa, alegre, vivaz e agradvel, apenas talvez um pouco amistosa demais com os vizinhos 
e criados do sexo masculino. Assim, aconteceu que, ao fim de algumas semanas, ele se tornou ciumento como um tigre e desconfiou que ela estivesse dando suas voltinhas 
por a. Para resguardar-se disto, relatou-lhe toda uma srie de agradveis histrias de castigos por adultrio, leu-lhe muitas vezes em voz alta encantadoras lendas 
de mulheres virtuosas, pregou-lhe o evangelho da castidade, escreveu-lhe um pequeno volume de canes em louvor da fidelidade matrimonial, atacou com palavras mordazes 
e custicas a licenciosidade das esposas indisciplinadas e, alm disso tudo, ofertou-lhe um magnfico colar, cravejado de safiras orientais.
         Mas, independente disso, viu que ela se dava com os vizinhos de maneira to amistosa e socivel que seu cime cresceu ainda mais. Certa noite, enquanto 
se achava deitado com ela na cama, em meio a estas penosas reflexes, sonhou que falava com o Demnio Personificado e lamentava seu pesar. Mas o Diabo o confortou, 
ps-lhe um anel no dedo e disse-lhe: 'Toma este anel; enquanto o levares no dedo, nenhum outro homem ter conhecimento carnal de tua mulher, sem teu conhecimento 
e contra tua vontade.' 'Mil agradecimentos,  Senhor Diabo!' exclamou Hans Carvel. 'Renegarei Maom antes de tirar este anel do dedo.' O Diabo desapareceu: Hans 
Carvel, porm, acordou com o corao feliz e descobriu que estava com o dedo enfiado naquela parte de sua mulher.
         Esqueci-me de contar que a jovem esposa, ao senti-lo deu um pulo com as ndegas para trs, como se dissesse: 'Pare! No, no! No  isso o que se deve botar 
a!' - o que fez Hans Carvel imaginar que algum queria arrancar o seu anel.
         
         No  uma medida infalvel? Creiam-me, ajam de acordo com este exemplo e tomem cuidado para, em todas as ocasies, ter o anel da mulher no dedo!
         O Demnio, que aparece aqui como conselheiro, como o faz nos sonhos de tesouro, d-nos uma pista sobre algo dos pensamentos latentes do sonhador. Originalmente, 
pelo menos, imaginava-se que ele 'tomasse' a esposa infiel que  difcil de vigiar. Mostra, ento, no sonho manifesto, um meio infalvel de guard-la permanentemente. 
Nisto tambm identificamos uma analogia com o desejo de livrar-se de algum (desejo de morte) dos sonhos de defecao.
         Concluiremos esta pequena compilao de sonhos, acrescentando um sonho de loteria, cuja vinculao com os outros  bastante ligeira, mas serve para confirmar 
a sugesto que apresentamos anteriormente [ver em [1]], de que a loteria simboliza um contrato de casamento.
                            NO ADIANTA CHORAR SOBRE O LEITE        DERRAMADO!
         Um mercador teve um estranho sonho. Sonhou que vira uma bunda de mulher, com tudo o que lhe  prprio. Numa das metades estava o nmero 1 e, na outra, um 
3. Diante disso, o mercador teve a idia de comprar um bilhete de loteria. Pareceu-lhe que essa figura de seu sonho constitua um augrio feliz. Sem esperar at 
a nona hora, a primeira coisa que fez foi correr at o banco, pela manh, a fim de adquirir o bilhete. Chegado l, sem deter-se para pensar, pediu o bilhete n 13, 
ou seja, os menos algarismos que havia visto no sonho. Aps haver comprado o bilhete, nem s um dia se passou sem que ele examinasse todos os jornais, para ver se 
seu nmero havia sado. Aps uma semana, ou no mximo dez dias, surgiu a lista de extrao. Quando a examinou, viu que seu nmero no havia sado, mas sim o nmero 
103, srie 8, que havia ganho 200.000 rublos. O mercador quase arrancou os cabelos. 'Devo ter cometido um engano! H algo errado!' Achava-se fora de si, quase inconsolvel 
e no podia conceber qual a razo de haver ele tido um sonho assim. Resolveu ento debater o assunto com um amigo, para ver se este no poderia explicar seu infortnio. 
Encontrou o amigo e contou-lhe tudo minuciosamente. Ento, o amigo disse: 'Seu simplrio! Ento voc no viu o zero entre o nmero 1 e o nmero 3 na bunda?!' 'Ah, 
diabos me levem, nunca me ocorreu que a bunda tinha um zero.' 'Mas estava l claro e evidente, s que voc no calculou certo o nmero da loteria. E o nmero 8, 
pertencente  srie - a boceta lhe mostra isso - ela  como um nmero 8'. - No adianta chorar sobre o leite derramado!
         Nossa inteno ao publicar este breve artigo foi dupla. Por um lado, desejvamos sugerir que no se deve deixar desencorajar pela natureza amide repulsivamente 
suja e indecente deste material popular de nele buscar confirmao valiosa das opinies psicanalticas. Assim, nesta ocasio, pudemos estabelecer o fato de que o 
folclore interpreta os smbolos onricos da mesma maneira que a psicanlise, e que, ao contrrio da altamente proclamada opinio popular, deriva um grupo de sonhos 
de necessidades e desejos que se tornaram imediatos. Por outro lado, gostaramos de expressar a opinio de que  cometer uma injustia com o povo comum supor que 
emprega esta forma de entretenimento simplesmente para satisfazer os desejos mais grosseiros. Parece antes que por trs destas feias fachadas se acham ocultas reaes 
mentais a impresses da vida que devem ser tomadas a srio, que at mesmo entristecem - reaes a que o povo comum est pronto a entregar-se, desde que se faam 
acompanhar por uma produo de prazer grosseiro.
         
         
         























SOBRE A PSICANLISE (1913 [1911])
         
         NOTA DO EDITOR INGLS
         
         (a) EDIO ALEM:
         (1911 Data de composio; no subsiste texto alemo.)
         
         (b) TRADUO INGLESA:
         'On Psycho-Analysis'
         1913 Congresso Mdico Australasiano, Atas da Nona Sesso, 2, Parte 8, 839-42.
         
         A presente traduo inglesa  uma verso modificada da publicada em 1913.
         
         No comeo de maro de 1911, Freud recebeu um convite do Dr. Andrew Davidson, secretrio da Seo de Medicina Psicolgica e Neurologia, para enviar um artigo 
a ser lido perante o Congresso Mdico Australasiano, que se deveria reunir em Sidney em setembro daquele ano. Ele enviou o artigo em 13 de maio; foi devidamente 
lido e posteriormente publicado nas Atas do Congresso, juntamente com artigos (tambm sobre assuntos psicanalticos) da autoria de Jung e Havelock Ellis.
         Nenhum texto alemo pde ser achado, mas parece improvvel, a partir de evidncias internas, que a verso publicada possa ter sido escrita pelo prprio 
Freud em ingls.  mais provvel que tenha sido traduzida de um original, alemo, possivelmente na Austrlia. No parece haver razo especfica, portanto, para ater-se 
ao texto publicado, e, por conseguinte, efetuamos nele algumas ligeiras modificaes terminolgicas e estilsticas.
         
         SOBRE A PSICANLISE
         
         Em resposta  amistosa solicitao do Secretrio de sua Seo de Neurologia e Psiquiatria, aventuro-me a chamar a ateno deste Congresso para o tema da 
psicanlise, que est sendo extensamente estudada, na poca atual, na Europa e nos Estados Unidos.
         A psicanlise constitui uma combinao notvel, pois abrange no apenas um mtodo de pesquisas das neuroses, mas tambm um mtodo de tratamento baseado 
na etiologia assim descoberta. Posso comear dizendo que a psicanlise no  fruto da especulao mas sim o resultado da experincia; e, por essa razo, como todo 
novo produto da cincia, acha-se incompleta.  vivel a todos convencerem-se por suas prprias investigaes da correo das teses nelas corporificadas e auxiliar 
no desenvolvimento ulterior do estudo.
         A psicanlise comeou com pesquisas sobre histeria, mas, com o decorrer dos anos, estendeu-se muito alm desse campo de trabalho. Os Estudos sobre a Histeria, 
de autoria de Breuer e minha, publicados em 1895, foram os primrdios da psicanlise. Eles seguiram o rastro do trabalho de Charcot sobre histeria 'traumtica', 
as investigaes dos fenmenos da hipnose efetuadas por Libeault e Bernheim e os estudos de Janet sobre os processos mentais inconscientes. A psicanlise logo encontrou-se 
em ntida oposio com as opinies de Janet, por (a) declinar de remontar a histeria diretamente  degenerao hereditria congnita; (b) oferecer, ao invs de mera 
descrio, uma explicao dinmica baseada na ao recproca das foras psquicas, e (c) atribuir a origem da dissociao psquica (cuja importncia fora reconhecida 
tambm por Janet) no a uma [falha de] sntese mental resultante de incapacidade congnita, mas sim a um processo psquico especial, conhecido como 'represso' ('Verdrngung').
         Foi conclusivamente provado que os sintomas histricos so resduos (reminiscncias) de experincias profundamente comovedoras, afastadas da conscincia 
cotidiana, e que sua forma  determinada (de maneira que exclui a ao deliberada) por pormenores dos efeitos traumticos das experincias. Segundo este ponto de 
vista, as perspectivas teraputicas residem na possibilidade de livrar-se desta 'represso', de modo a permitir que parte do material psquico inconsciente se torne 
consciente e priv-la assim de seu poder patognico. Esta viso  dinmica, na medida em que encara os processos psquicos como deslocamentos de energia psquica 
que podem ser medidos pelo valor de seu efeito sobre os elementos afetivos. Isto  muito significativo na histeria, onde o processo de 'converso' cria os sintomas 
pela transformao de uma quantidade de impulsos mentais em inervaes somticas.
         Os primeiros exames e tentativas psicanalticas de tratamento foram feitos com o auxlio do hipnotismo. Posteriormente, este foi abandonado e o trabalho 
foi efetuado pelo mtodo da 'associao livre', com o paciente em seu estado normal. Esta modificao teve a vantagem de permitir que o processo fosse aplicado a 
um nmero muito maior de casos de histeria, assim como a outras neuroses e tambm a pessoas sadias. Tornou-se necessrio, porm, o desenvolvimento de uma tcnica 
especial de interpretao, a fim de tirar concluses das idias expressadas pela pessoa em investigao. Estas interpretaes estabeleceram com completa certeza 
o fato de que as dissociaes psquicas so inteiramente sustentadas por 'resistncias internas'. Parece portanto justificada a concluso de que as dissociaes 
se originaram devido a conflito interno, que conduziu  'represso' do impulso subjacente. Para superar este conflito e desta maneira curar a neurose,  necessria 
a mo orientadora de um mdico treinado em psicanlise.
         Ademais, demonstrou-se ser geralmente verdadeiro que, em todas as neuroses, os sintomas patolgicos so realmente os produtos finais desses conflitos, que 
conduziram  'represso' e  'diviso' (splitting) da mente. Os sintomas so gerados por mecanismos diferentes: (a) seja como formaes de substituio das foras 
reprimidas, seja (b) como conciliaes entre as foras repressoras e reprimidas, seja (c) como formaes reativas e salvaguardas contra as foras reprimidas.
         As pesquisas estenderam-se ulteriormente s condies que determinam se os conflitos psquicos conduziro ou no  'represso' (isto ,  dissociao dinamicamente 
provocada), visto no ser necessrio dizer que um conflito psquico, per se, pode ter tambm um desfecho normal. A concluso a que a psicanlise chegou foi que tais 
conflitos davam-se sempre entre os instintos sexuais (empregando a palavra 'sexual' em seu sentido mais amplo) e os desejos e tendncias do restante do ego. Nas 
neuroses, so os instintos sexuais que sucumbem  'represso', e constituem assim a base mais importante para a gnese dos sintomas, que podem, por conseguinte, 
ser encarados como substitutos de satisfaes sexuais.
         Nosso trabalho sobre a questo da disposio s afeces neurticas acrescentou o fato 'infantil' ao somtico e ao hereditrio, at ento identificados. 
A psicanlise foi obrigada a remontar a vida mental dos pacientes at sua primeira infncia, e chegou-se  concluso de que inibies de desenvolvimento mental ('infantilismos') 
apresentam uma disposio  neurose. Especificamente, aprendemos, de nossas investigaes da vida sexual, que existe realmente algo chamado 'sexualidade infantil', 
que o instinto sexual  constitudo de muitos componentes e atravessa um complicado curso de desenvolvimento, cujo desfecho final, aps muitas restries e transformaes, 
 a sexualidade 'normal' dos adultos. As enigmticas perverses do instinto sexual que ocorrem em adultos parecem ser inibies de desenvolvimento, fixaes ou crescimentos 
assimtricos. Assim, as neuroses so o negativo das perverses.
         O desenvolvimento cultural imposto  humanidade  o fator que torna inevitveis as restries e represses do instinto sexual, sendo exigidos sacrifcios 
maiores ou menores, de acordo com a constituio individual. O desenvolvimento quase nunca  conseguido de modo suave e podem ocorrer distrbios (quer por causa 
da constituio individual ou de incidentes sexuais prematuros) que deixem atrs de si uma disposio a futuras neuroses. Tais disposies podem permanecer inofensivas 
se a vida do adulto progride de modo satisfatrio e tranqilo, mas podem tornar-se patognicas se as condies da vida madura probem a satisfao da libido ou exigem 
gravemente sua supresso.
         Pesquisas sobre a atividade sexual de crianas conduziram a outra concepo do instinto sexual, baseada no em seus intuitos, mas em suas fontes. O instinto 
sexual possui em alto grau a capacidade de ser desviado dos objetivos sexuais diretos e ser dirigido no sentido de metas mais elevadas, que no so mais sexuais 
('sublimao'). O instinto fica assim capacitado a efetuar contribuies muito importantes s realizaes sociais e artsticas da humanidade.
         O reconhecimento da presena simultnea dos trs fatores de 'infantilismo', 'sexualidade' e 'represso' constitui a principal caracterstica da teoria psicanaltica 
e assinala sua distino de outras vises da vida mental patolgica. Ao mesmo tempo, a psicanlise demonstrou que no existe diferena fundamental, mas apenas de 
grau, entre a vida mental das pessoas normais, dos neurticos e dos psicticos. Uma pessoa normal tem de passar pelas mesmas represses e lutar com as mesmas estruturas 
substitutas; a nica diferena  que ela lida com estes acontecimentos com menos dificuldade e mais sucesso. O mtodo psicanaltico de investigao pode, por conseguinte, 
ser aplicado igualmente  explanao dos fenmenos psquicos normais e tornou possvel descobrir o estreito relacionamento existente entre produtos psquicos patolgicos 
e estruturas normais, tais como os sonhos, os pequenos erros da vida cotidiana, e fenmenos to valiosos como chistes, mitos e obras da imaginao. A explicao 
foi conduzida mais longe no caso dos sonhos e resultou aqui na seguinte frmula geral: 'O sonho  uma realizao, disfarada de um desejo reprimido.' A interpretao 
de sonhos tem por objetivo a remoo do disfarce a que os pensamentos do que sonha foram submetidos. Constitui, alm disso, auxlio altamente valioso  tcnica psicanaltica, 
porque  o mtodo mais conveniente de obter uma compreenso interna (insight) da vida psquica inconsciente.
         Amide h uma tendncia nos crculos mdicos e, especialmente, nos crculos psiquitricos, para contradizer as teorias da psicanlise sem nenhum estudo 
real ou aplicao prtica delas. Isto se deve no apenas  notvel novidade destas teorias e ao contraste que apresentam com as opinies at aqui sustentadas pelos 
psiquiatras, mas tambm ao fato de as premissas e a tcnica da psicanlise acharem-se relacionadas muito mais de perto com o campo da psicologia que com o da medicina. 
No se pode discutir, contudo, que os ensinamentos puramente mdicos e no psicolgicos at o presente muito pouco fizeram por uma compreenso da vida mental. O 
progresso da psicanlise  ainda retardado pelo termo que o observador mdio sente de ver-se a si mesmo em seu prprio espelho. Os homens de cincia tendem a enfrentar 
resistncias emocionais com argumentos e, assim, satisfazem-se a si mesmos para sua prpria satisfao! Quem quer que deseje no ignorar uma verdade far bem em 
desconfiar de suas antipatias e, se quiser submeter a teoria da psicanlise a um exame crtico, que primeiro se analise a si mesmo.
         No posso achar que nestas poucas frases tenha conseguido pintar um quadro claro dos princpios e propsitos da psicanlise, mas a elas adicionarei uma 
relao das principais publicaes sobre o assunto, cujo estudo fornecer maiores esclarecimentos a quem quer que eu possa ter interessado. 
         
         1.   Breuer e Freud, Studien ber Hysterie, 1895, Fr. Deuticke, Viena. Uma parte deles foi traduzida para o ingls em 'Selected Papers on Hysteria and other 
Psycho-neuroses', do Dr. A. A. Brill, Nova Iorque, 1909.
         2.   Freud, Drei Abhandlungen zur Sexualtheorie, Viena, 1905. Traduo inglesa do Dr. Brill, 'Three Contributions to the Sexual Theory', Nova Iorque, 1910.
         
         3.   Freud, i, S. Karger, Berlim, 3 edio. 1910.
         4.   Freud, Die Traumdeutung, Viena, 1900, 3 ed., 1911.
         5.   Freud, 'The Origin and Development of Psycho-analysis', Amer. Jour. of Psychology, abril, 1910. Tambm em alemo: Ueber Psychoanalyse, Cinco conferncias 
pronunciadas na Universidade Clark, Worcester, Mass., 1909.
         6.   Freud, Der Witz und seine Beziehung zum Unbewussten, Viena, 1905.
         7.   Freud, Collection of minor papers on the Doctrine of Neuroses, 1893-1906. Viena, 1906.
         8.   Idem, segunda compilao. Viena, 1909.
         9.   Hitschmann, Freud's Neurosenlehre, Viena, 1911.
         10. C. G. Jung, Diagnostische Associationsstudien, dois volumes, 1906-1910.
         11.  C. G. Jung, ber die Psychologie der Dementia Praecox, 1907.
         12.  Jahrbuch fr psycho-analytische und psychopathologische Forschungen, publicado por E. Bleuler e S. Freud, organizado por Jung. A partir de 1909.
         13.  Schriften zur angewandten Seelenkunde, Fr. Deuticke, Viena, a partir de 1907. Onze partes, da autoria de Freud, Jung, Abraham, Pfister, Rank, Jones, 
Riklin, Graf, Sadger.
         14.  Zentralblatt fr Psychoanalyse. Organizado por A. Adler e W. Stekel. J. Bergmann, Wiesbaden. A partir de setembro de 1910.
         
         
         
         
FORMULAES SOBRE OS DOIS PRINCPIOS
 DO FUNCIONAMENTO MENTAL (1911)
         
         NOTA DO EDITOR INGLS
         
         FORMULIERUNGEN BER DIE ZWEI PRINZIPIEN DES PSYCHISCHEN GESCHEHENS
         
         (a) EDIES ALEMS:
         1911 Jb. psychoan. psychopath. Forsch., 3 (1), 1-8.
         1913 S. K. S. N., 3, 271-9. (1921, 2 ed.)
         1924 G. S., 5, 409-17.
         1931 Theoretische Schriften, 5-14.
         1943 G. W., 8, 230-8.
         
         (b) TRADUO INGLESA:
         'Formulations Regarding the Two Principle in Mental Functioning'
         1925 C. P., 4, 13-21. (Trad. de M. N. Searl.)
         
         A presente traduo inglesa, com o ttulo modificado, baseia-se na publicada em 1925, mas foi em grande parte redigida novamente.
         
         Informa-nos o Dr Ernest Jones que Freud comeou a planejar este artigo em junho de 1910, e que trabalhava nele simultaneamente com a histria clnica de 
Schreber (1911c). Seu progresso foi lento, mas, em 26 de outubro, falou sobre o assunto perante a Sociedade Psicanaltica de Viena; achou a assistncia indiferente, 
porm, e ele prprio se achava insatisfeito com sua apresentao. Foi somente em dezembro que comeou realmente a escrever o artigo. Achava-se pronto ao final de 
janeiro de 1911, mas no foi publicado seno no fim da primavera, quando apareceu no mesmo nmero do Jahrbuch que o caso Schreber.
         Com este notrio artigo, que constitui um dos clssicos da psicanlise, e com a terceira parte, quase contempornea, da histria clnica de Schreber, Freud 
pela primeira vez, aps um intervalo de mais de dez anos, novamente empreendeu o exame das hipteses tericas gerais que se achavam implcitas em suas descobertas 
clnicas. Sua primeira tentativa ampla de tal exame fora feita em terminologia quase neurolgica, em seu 'Project for a Scientific Psychology', de 1895, que, no 
entanto, no foi publicado durante a sua vida (Freud, 1950a). O Captulo VII de A Interpretao de Sonhos (1900a) foi a exposio de um conjunto muito semelhante 
de hiptese, mas, desta vez, em termos puramente psicolgicos. Grande parte do material do presente artigo (especialmente em sua primeira parte) deriva diretamente 
destas duas fontes. O trabalho d a impresso de ter o carter de um levantamento de estoque.  como se Freud estivesse trazendo  sua prpria inspeo, por assim 
dizer, as hipteses fundamentais de um perodo anterior e preparando-as para servir de base para os principais exames tericos que se achavam adiante, no futuro 
imediato: o artigo sobre narcisismo, por exemplo, e a grande srie dos artigos metapsicolgicos.
         A presente exposio de suas opinies  excessivamente condensada, no sendo fcil de assimilar, mesmo hoje. Embora saibamos agora que Freud muito pouco 
dizia nela que j no se achasse h muito tempo em sua mente, por ocasio de sua publicao deve ter impresionado os leitores como desconcertantemente cheia de novidades. 
Os pargrafos assinalados (1), por exemplo, a partir de [1], seriam verdadeiramente obscuros para aqueles que no se achassem familiarizados com o 'Projeto' ou com 
os artigos metapsicolgicos e que tivessem de retirar o esclarecimento que pudessem de um certo nmero de passagens quase igualmente condensadas e muito pouco sistematizadas 
de A Interpretao de Sonhos. No  de surpreender que a primeira assistncia de Freud se mostrasse indiferente.
         O tema principal da obra  a distino entre os princpios reguladores (o princpio de prazer e o princpio de realidade) que dominam, respectivamente, 
os processos mentais primrio e secundrio. A tese, na verdade, j fora enunciada na Seo 1 da Parte I do 'Projeto' e elaborada nas Sees 15 e 16 da Parte I e 
nas partes posteriores da Seo I da Parte III. Foi novamente examinada no Captulo VII de A interpretao de Sonhos (Ver a partir de [1] e [2], 1972), mas o tratamento 
mais completo foi reservado para o artigo sobre a metapsicologia dos sonhos (1917d [1915]), escrito cerca de trs anos aps o presente. Um relato mais pormenorizado 
do desenvolvimento das opinies de Freud sobre a questo de nossa atitude mental para com a realidade pode ser encontrado na Nota do Editor Ingls a esse artigo 
(Ver a partir de [1], 1974).
         Perto do fim do trabalho, surgem vrios outros tpicos relacionados, cujo desenvolvimento ulterior (como o do tema principal)  deixado para posterior investigao. 
Na verdade, todo o artigo foi (como o prprio Freud observa) de natureza preparatria e exploratria, mas no  menos interessante por essa razo.
         A maior parte deste artigo, na verso de 1925, foi includa em General Selection from the Works of Simund Freud (1937, 45-53), de Rickman.
         
         FORMULAES SOBRE OS DOIS PRINCPIOS DO FUNCIONAMENTO MENTAL
         
         H muito tempo observamos que toda neurose tem como resultado e, portanto, provavelmente, como propsito arrancar o paciente da vida real, alien-lo da 
realidade. No poderia um fato assim fugir  observao de Piere Janet; ele falou de uma perda de 'la fonction du rel' ['a funo da realidade'] como sendo caracterstica 
especial dos neurticos, mas sem descobrir a vinculao deste distrbio com as determinantes fundamentais da neurose. Pela introduo do processo de represso na 
gnese das neuroses, pudemos obter uma certa compreenso interna (insight) com referncia a isto. Os neurticos afastam-se da realidade por ach-la insuportvel 
- seja no todo ou em parte. O tipo mais extremo deste afastamento da realidade  apresentado por certos casos de psicose alucinatria que procuram negar o evento 
especfico que ocasionou o desencadeamento de sua insanidade (Griesinger). Mas, na verdade, todo neurtico faz o mesmo com algum fragmento da realidade. E defrontamo-nos 
agora com a tarefa de investigar o desenvolvimento da relao dos neurticos e da humanidade em geral com a realidade e, desta maneira, de trazer a significao 
psicolgica do mundo externo e real para a estrutura de nossas teorias.
         Na psicologia que se baseia na psicanlise, acostumamo-nos a tomar como ponto de partida os processos mentais inconscientes, com cujas peculiaridades nos 
tornamos familiarizados atravs da anlise. Consideramos que so os processos mais antigos, primrios, resduos de uma fase de desenvolvimento em que eram o nico 
tipo de processo mental. O propsito dominante obedecido por estes processos primrios  fcil de reconhecer; ele  descrito como o princpio de prazer-desprazer 
[Lust-Unlust], ou, mais sucintamente, princpio de prazer. Estes processos esforam-se por alcanar prazer; a atividade psquica afasta-se de qualquer evento que 
possa despertar desprazer. (Aqui, temos a represso.) Nossos sonhos  noite e, quando acordados, nossa tendncia a afastar-nos de impresses aflitivas so resqucios 
do predomnio deste princpio e provas do seu poder.
         Retorno a linhas de pensamento j desenvolvidas noutra parte quando sugiro que o estado de repouso psquico foi originalmente perturbado pelas exigncias 
peremptrias das necessidades internas. Quando isto aconteceu, tudo que havia sido pensado (desejado) foi simplesmente apresentado de maneira alucinatria, tal como 
ainda acontece hoje com nossos pensamentos onricos a cada noite. Foi apenas a ausncia da satisfao esperada, o desapontamento experimentado, que levou ao abandono 
desta tentativa de satisfao por meio da alucinao. Em vez disso, o aparelho psquico teve de decidir tomar uma concepo das circunstncias reais no mundo externo 
e empenhar-se por efetuar nelas uma alterao real. Um novo princpio de funcionamento mental foi assim introduzido; o que se apresentava na mente no era mais o 
agradvel, mas o real, mesmo que acontecesse ser desagradvel. Este estabelecimento do princpio de realidade provou ser um passo momentoso.
         
         (1) Em primeiro lugar, as novas exigncias efetuaram uma sucesso de adaptaes necessrias no aparelho psquico, as quais, devido a nosso conhecimento 
insuficiente ou incerto, s podemos relatar muito superficialmente.
         A significao crescente da realidade externa elevou tambm a importncia dos rgo sensoriais, que se acham dirigidos para esse mundo externo, e da conscincia 
a eles ligada. A conscincia aprendeu ento a abranger qualidades sensrias, em acrscimo s qualidades de prazer e desprazer que at ento lhe haviam exclusivamente 
interessado. Institui-se uma funo especial, que tinha de periodicamente pesquisar o mundo externo, a fim de que seus dados j pudessem ser conhecidos se uma urgente 
necessidade interna surgisse: a funo da ateno. Sua atividade vai encontrar as impresses sensrias a meio caminho, ao invs de esperar por seu aparecimento. 
Ao mesmo tempo, provavelmente, foi introduzido um sistema de notao, cuja tarefa era assentar os resultados desta atividade peridica da conscincia - uma parte 
do que chamamos memria.
         O lugar da represso, que exclua da catexia como produtoras de desprazer algumas das idias emergentes, foi assumido por uma passagem de julgamento imparcial, 
que tinha de decidir se determinada idia era verdadeira ou falsa - isto , se se achava ou no em concordncia com a realidade -, deciso que era determinada efetuando-se 
uma comparao com os traos de memria da realidade.
         Nova funo foi ento atribuda  descarga motora, que, sob o predomnio do princpio de prazer, servira como meio de aliviar o aparelho mental de adies 
de estmulos, e que realizara esta tarefa ao enviar inervaes para o interior do corpo (conduzindo a movimentos expressivos, mmica facial e manifestaes de afeto). 
A descarga motora foi agora empregada na alterao apropriada da realidade; foi transformada em ao.
         A coibio da descarga motora (da ao), que ento se tornou necessria, foi proporcionada atravs do processo do pensar, que se desenvolveu a partir da 
apresentao de idias. O pensar foi dotado de caractersticas que tornavam possvel ao aparelho mental tolerar uma tenso aumentada de estmulo, enquanto o processo 
de descarga era adiado. Ele  essencialmente um tipo experimental de atuao acompanhado por deslocamento de quantidades relativamente pequenas de catexia, junto 
com menor dispndio (descarga) destas. Para este fim, foi necessria a transformao de catexias livremente mveis em catexias vinculadas o que se conseguiu mediante 
elevao do nvel de todo o processo catexial.  provvel que o pensar fosse originalmente inconsciente, na medida em que ultrapassava simples apresentaes ideativas 
e era dirigido para as relaes entre impresses de objetos, e que no adquiriu outras qualidades perceptveis  conscincia at haver-se ligado a resduos verbais.
         (2) Uma tendncia geral de nosso aparelho mental, que pode ser remontada ao princpio econmico de poupar consumo [de energia], parece encontrar expresso 
na tenacidade com que nos apegamos s fontes de prazer  nossa disposio e na dificuldade com que a elas renunciamos. Com a introduo do princpio de realidade, 
uma das espcies de atividade de pensamento foi separada; ela foi liberada no teste de realidade e permaneceu subordinada somente ao princpio de prazer. Esta atividade 
 o fantasiar, que comea j nas brincadeiras infantis, e, posteriormente, conservada como devaneio, abandona a dependncia de objetos reais.
         (3) A substituio do princpio de prazer pelo principio de realidade, com todas as conseqncias psquicas envolvidas aqui esquematicamente condensadas 
numa s frase, no se realiza, na verdade, de repente; tampouco se efetua simultaneamente em toda a linha, pois, enquanto este desenvolvimento tem lugar nos instintos 
do ego, os instintos sexuais se desligam deles de maneira muito significativa. Os instintos sexuais comportam-se auto-eroticamente a princpio; obtm sua satisfao 
do prprio corpo do indivduo e, portanto, no se encontram na situao de frustrao que forou a instituio do princpio de realidade. Quando, posteriormente, 
comea o processo de encontrar um objeto, ele  logo interrompido pelo longo perodo de latncia que retarda o desenvolvimento sexual at a puberdade. Estes dois 
fatores - auto-erotismo e perodo de latncia - ocasionam que o instinto sexual seja detido em seu desenvolvimento psquico e permanea muito mais tempo sob o domnio 
do princpio de prazer, do qual, em muitas pessoas, nunca  capaz de se afastar.
         Em conseqncia dessas condies, surge uma vinculao mais estreita entre o instinto sexual e a fantasia, por um lado, e, por outro, entre os instintos 
do ego e as atividades da conscincia. Tanto em pessoas sadias quanto em neurticos, esta vinculao impressiona-nos como muito ntima, embora as consideraes de 
psicologia gentica que acabaram de ser apresentadas levem-nos a identific-la como secundria. A continuidade do auto-erotismo  que torna possvel reter por tanto 
tempo a satisfao momentnea e imaginria mais simples em relao ao objeto sexual, em lugar da satisfao real, que exige esforo e adiamento. No campo da fantasia, 
a represso permanece todo-poderosa; ela ocasiona a inibio de idias in statu nascendi antes que possam ser notadas pela conscincia, se a catexia destas tiver 
probabilidade de ocasionar uma liberao de desprazer. Este  o ponto fraco de nossa organizao psquica; e ele pode ser empregado para restituir ao domnio do 
princpio de prazer processos de pensamento que j se haviam tornado racionais. Parte essencial da disposio psquica  neurose reside assim na demora em ensinar 
os instintos sexuais a considerar a realidade e, como corolrio, nas condies que tornam possvel esta demora.
         (4) Tal como o ego-prazer nada pode fazer a no ser querer, trabalhar para produzir prazer e evitar o desprazer, assim o ego-realidade nada necessita fazer 
a no ser lutar pelo que  til e resguardar-se contra danos. Na realidade, a substituio do princpio de prazer pelo princpio de realidade no implica a deposio 
daquele, mas apenas sua proteo. Um prazer momentneo, incerto quanto a seus resultados,  abandonado, mas apenas a fim de ganhar mais tarde, ao longo do novo caminho, 
um prazer seguro. Mas a impresso endopsquica causada por esta substituio foi to poderosa que se reflete num mito religioso especial. A doutrina da recompensa 
noutra vida pela renncia - voluntria ou forada - dos prazeres terrenos nada mais  que uma projeo mtica desta revoluo na mente. Seguindo constantemente neste 
sentido, as religies puderam efetuar uma renncia completa do prazer na vida, adiante a promessa de compensao numa existncia futura; mas no realizaram, por 
este meio, uma conquista do princpio de prazer.  a cincia que chega mais perto de obter xito nessa conquista; ela, contudo, tambm oferece prazer intelectual 
durante seu trabalho e promete um lucro prtico ao final.
         (5) A educao pode ser descrita, sem mais, como um incentivo  conquista do princpio de prazer e  sua substituio pelo princpio de realidade; isto 
, ela procura auxiliar o processo de desenvolvimento que afeta o ego. Para este fim, utiliza uma oferta de amor dos educadores como recompensa; e falha, portanto, 
se uma criana mimada pensa que possui esse amor de qualquer jeito e no pode perd-lo, acontea o que acontecer.
         (6) A arte ocasiona uma reconciliao entre os dois princpios, de maneira peculiar. Um artista  originalmente um homem que se afasta da realidade, porque 
no pode concordar com a renncia  satisfao instintual que ela a princpio exige, e que concede a seus desejos erticos e ambiciosos completa liberdade na vida 
de fantasia. Todavia, encontra o caminho de volta deste mundo de fantasia para a realidade, fazendo uso de dons especiais que transformam suas fantasias em verdades 
de um novo tipo, que so valorizadas pelos homens como reflexos preciosos da realidade. Assim, de certa maneira, ele na verdade se torna o heri, o rei, o criador 
ou o favorito que desejava ser, sem seguir o longo caminho sinuoso de efetuar alteraes reais no mundo externo. Mas ele s pode conseguir isto porque outros homens 
sentem a mesma insatisfao, que resulta da substituio do princpio de prazer pelo princpio de realidade;  em si uma parte da realidade.
         (7) Enquanto o ego passa por suas transformaes, de ego-prazer para ego-realidade, os instintos sexuais sofrem as alteraes que os levam de seu auto-erotismo 
original, atravs de diversas fases intermedirias, ao amor objetal a servio da procriao. Se estamos certos em pensar que cada passo destes dois cursos de desenvolvimento 
pode tornar-se local de uma disposio  doena neurtica posterior,  plausvel supor que a forma assumida pela doena subseqente (a escolha da neurose) depender 
da fase especfica de desenvolvimento do ego e da libido na qual a inibio disposicional do desenvolvimento ocorreu. Assim, uma significao inesperada liga-se 
aos aspectos cronolgicos dos dois desenvolvimentos (que ainda no foram estudados) e a possveis variaes em sua sincronizao.
         (8) A caracterstica mais estranha dos processos inconscientes (reprimidos),  qual nenhum pesquisador se pode acostumar sem o exerccio de grande autodisciplina, 
deve-se ao seu inteiro desprezo pelo teste de realidade; eles equiparam a realidade do pensamento com a realidade externa e os desejos com sua realizao - com o 
fato - tal como acontece automaticamente sob o domnio do antigo princpio de prazer. Da tambm a dificuldade de distinguir fantasias inconscientes de lembranas 
que se tornaram inconscientes. Mas nunca nos devemos permitir ser levados erradamente a aplicar os padres da realidade a estruturas psquicas reprimidas e, talvez 
por causa disso, a menosprezar a importncia das fantasias na formao dos sintomas, sob o pretexto de elas no serem realidades, ou a remontar um sentimento neurtico 
de culpa a alguma outra fonte, por no haver provas de que qualquer crime real tenha sido cometido. Somos obrigados a empregar a moeda-corrente do pas que estamos 
explorando; em nosso caso, uma moeda neurtica. Suponha-se, por exemplo, que estamos tentando solucionar um sonho como este. Um homem, que outrora cuidara do pai 
durante longa e penosa doena mortal, contou-me que nos meses seguintes  morte daquele havia repetidamente sonhado que o pai estava novamente vivo e lhe falava 
da maneira costumeira. Mas ele achava excessivamente penoso que o pai houvesse realmente morrido, apenas sem sab-lo O nico modo de compreender este sonho aparentemente 
absurdo  acrescentar 'como aquele que sonhou quisera' ou 'em conseqncia de seu desejo' aps as palavras 'que ele [o que sonhou] o desejaria', s ltimas palavras. 
O pensamento onrico  ento o seguinte: foi-lhe penosa a lembrana de haver sido obrigado a desejar a morte do pai (como liberao) enquanto este ainda se achava 
vivo, e quo terrvel teria sido se o pai houvesse tido qualquer suspeita disso.
         As deficincias deste breve artigo, que  mais preparatrio que expositivo, sero talvez desculpadas, apenas em pequena parte, se eu alegar que so inevitveis. 
Nestas poucas observaes sobre as conseqncias psquicas da adaptao ao princpio de realidade, fui obrigado a esboar opinies que, no momento, teria preferido 
reter e cuja justificao certamente exigir esforo nada insignificante. Mas tenho esperana de que no escapar  observao do leitor benevolente como, nestas 
pginas tambm, o predomnio do princpio de realidade est comeando.
         
















TIPOS DE DESENCADEAMENTO DA NEUROSE (1912)
         
         NOTA DO EDITOR INGLS
         
         BER NEUROTISCHE ERKRANKUNGSTYPEN
         
         (a) EDIES ALEMS:
         1912 Zbl. Psychoan., 2 (6), 297-302.
         1913 S. K. S. N., 3, 306-13. (1921, 2 ed.)
         1924 G. S., 5, 400-8.
         1943 G. W., 8, 322-30.
         
         (b) TRADUO INGLESA:
         'Types of Neurotic Nosogenesis'
         1924 C. P., 2, 113-21. (Trad. de E. C. Mayne.)
         
         A presente traduo inglesa, com ttulo diferente,  nova, da autoria de James Strachey.
         
         Este artigo apareceu no nmero de maro de 1912 da Zentralblatt. Constitui uma ampliao de observaes contidas num pargrafo da anlise de Schreber (1911c), 
pp. 83 e seg., anteriores, e seu tema  a classificao das causas precipitantes das enfermidades neurticas. Naturalmente, Freud j se ocupara muitas vezes com 
o assunto mas em seus primeiros escritos a posio foi obscurecida pela proeminncia neles concedida aos eventos traumticos. Aps haver abandonado mais ou menos 
completamente a teoria do trauma, seu interesse focalizou-se em grande parte [p. ex., no 'Resumo', ao final dos Trs Ensaios (1905d), ver a partir de [1], 1972] 
nas diversas causas predisponentes  neurose. As causas precipitantes so mencionadas em um ou dois artigos contemporneos, mas apenas nos termos mais gerais e, 
s vezes, depreciativos. [Ver, por exemplo, o artigo sobre a etiologia das neuroses (1906a), em [2]]  verdade, contudo, que a noo de 'privao' ('Entbehrung') 
aparece ocasionalmente, p. ex. em 'Sobre a Psicoterapia' (1905a), em [3], mas somente no sentido de privao devida a circunstncia externa. A possibilidade de a 
neurose resultar de um obstculo interno  satisfao surge em data um tanto posterior - no artigo, por exemplo, sobre os efeitos da moralidade 'civilizada' (1908d) 
- talvez, como Freud sugere adiante (em [4]), sob o impacto do trabalho de Jung. No artigo por ltimo mencionado, o termo 'Versagung (frustrao)'  utilizado para 
descrever obstculo interno. Reaparece, mas desta vez com referncia apenas a obstculos externos, na anlise de Schreber, bastante anterior (1911c) (ver em [1] 
e [2]), bem como em dois artigos contemporneos deste - sobre a dinmica da transferncia (1912b), em [3], e sobre a tendncia ao aviltamento no amor (1912d), ver 
em [4], 1970. No presente artigo, porm, Freud empregou a palavra pela primeira vez, a fim de introduzir um conceito mais abrangente, a abarcar ambos os tipos de 
obstculos.
         Daqui por diante, 'Frustrao', como principal causa precipitante da neurose, tornou-se uma das armas mais comumente usadas no arsenal clnico de Freud, 
e reaparece em muitos de seus escritos posteriores. O mais elaborado destes exames posteriores pode ser encontrado na Conferncia XXII das Conferncias Introdutrias 
(1916-17). O caso aparentemente contraditrio de uma pessoa cair doente no momento de alcanar xito - o prprio oposto na frustrao - foi apresentado e resolvido 
por Freud no decurso de um artigo sobre diversos tipos de carter (1916d), ver a partir de [1], 1974, e ele retornou mais uma vez ao mesmo ponto em sua carta aberta 
a Romain Rolland, que descreve uma visita  Acrpole (1936a). Numa passagem da histria clnica do 'Wolf Man' (1918b), Freud mostrou existir uma omisso na presente 
relao de tipo de desencadeamento da neurose - o tipo resultante de uma frustrao narcsica (ver em [1]).
         A maior parte deste artigo, na verso de 1924, foi includa na General Selection from the Works of Sigmund Freud (1937, 70-8), de Rickman.
         
         TIPOS DE DESENCADEAMENTO DA NEUROSE
         
         Nas pginas que se seguem, descreverei, com bases em impresses alcanadas empiricamente, as mudanas que as condies tm de experimentar a fim de ocasionar 
a irrupo de uma doena neurtica numa pessoa com disposio a essa. Tratarei assim da questo dos fatores precipitantes das enfermidades e pouco terei a dizer 
sobre suas formas. O presente exame das causas precipitantes diferir de outros pelo fato de que as mudanas a serem enumeradas referem-se exclusivamente  libido 
do indivduo, pois a psicanlise nos ensinou que so as vicissitudes da libido que decidem em favor da sade ou da molstia nervosa. Neste sentido, tampouco se gastaro 
palavras sobre o conceito de disposio. Foi precisamente a pesquisa psicanaltica que nos capacitou a demonstrar que a disposio neurtica reside na histria do 
desenvolvimento da libido, e a remontar os fatores operantes nesse desenvolvimento a variedade inatas de constituio sexual e a influncias do mundo externo experimentadas 
na primeira infncia.
         (a) A causa precipitante mais bvia, mais facilmente descobrvel e mais inteligvel de um desencadeamento da neurose deve ser vista no fator externo que 
pode ser descrito, em termos gerais, como frustrao. O indivduo foi sadio enquanto sua necessidade de amor foi satisfeita por um objeto real no mundo externo; 
torna-se neurtico assim que esse objeto  afastado dele, sem que um substituto ocupe seu lugar. Aqui, a felicidade coincide com a sade e a infelicidade, com a 
neurose.  mais fcil para o destino que para o mdico ocasionar uma cura, pois aquele pode oferecer ao paciente um substituto para a possibilidade de satisfao 
que perdeu.
         Assim, para este tipo, ao qual indubitavelmente pertence a maioria dos seres humanos em geral, a possibilidade de cair enfermo surge apenas quando h abstinncia. 
E da se pode avaliar que papel importante na causao das neuroses pode ser desempenhado pela limitao imposta pela civilizao ao campo das satisfaes acessveis. 
A frustrao tem efeito patognico por represar a libido e submeter assim o indivduo a um teste de quanto tempo ele pode tolerar este aumento de tenso psquica 
e que mtodos adotar para lidar com ela. H apenas duas possibilidades de permanecer sadio quando existe uma frustrao persistente de satisfao no mundo real. 
A primeira  transformar a tenso psquica em energia ativa, que permanece voltada para o mundo externo e acaba por arrancar dele uma satisfao real da libido. 
A segunda  renunciar  satisfao libidinal, sublimar a libido represada e volt-la para a consecuo de objetivos que no so mais erticos e fogem  frustrao. 
O fato de estas duas possibilidades serem realizadas nas vidas dos homens prova que a infelicidade no coincide com a neurose e que a frustrao no decide sozinha 
se sua vtima permanece sadia ou tomba enferma. O efeito imediato da frustrao reside em ela colocar em jogo os fatores disposicionais que at ento haviam sido 
inoperantes.
         Onde estes se acham presentes e so desenvolvidos de modo suficientemente intenso, h o risco de a libido tornar-se 'introvertida'. Ela vira as costas  
realidade, que, devido  frustrao persistente, perdeu o valor para o indivduo, e volta-se para a vida da fantasia, na qual cria novas estruturas de desejo e revive 
os traos de outras anteriores, esquecidas. Em conseqncia da estreita vinculao existente entre a atividade da fantasia e o material presente em todos, que  
infantil e reprimido e se tornou inconsciente, bem como graas  excepcional posio desfrutada pela vida de fantasia com referncia ao teste de realidade, a libido 
pode, da por diante, mover-se num curso retroativo; pode seguir o caminho da regresso ao longo de linhas infantis e lutar por objetivos que se coadunem com elas. 
Se estes esforos, que so incompatveis com a individualidade atual do paciente, adquirem intensidade suficiente, tem de resultar um conflito entre eles e a outra 
parte da personalidade, que manteve sua relao com a realidade. O conflito  solucionado pela formao de sintomas e seguido pelo desencadeamento da doena manifesta. 
O fato de todo o processo ter-se originado da frustrao no mundo real reflete-se no resultado: os sintomas, nos quais o terreno da realidade  mais uma vez alcanado, 
representam satisfaes substitutas.
         
         (b) O segundo tipo de causas precipitante da enfermidade no , de maneira alguma, to evidente quanto o primeiro e, em verdade, s foi possvel descobri-lo 
atravs de minuciosas investigaes analticas que se seguiram  teoria dos complexos da escola de Zurique. Aqui o indivduo no cai enfermo em resultado de uma 
mudana no mundo externo, que substituiu a satisfao pela frustrao, mas em resultado de um esforo interno para conseguir a satisfao que lhe  acessvel na 
realidade. Cai enfermo por causa de sua tentativa de adaptar-se  realidade e de atender s exigncias da realidade - tentativa no curso da qual se defronta com 
dificuldades internas insuperveis.
          aconselhvel traar uma distino ntida entre os dois tipos de desencadeamento de enfermidade, uma distino mais ntida do que a observao via de regra 
permite. No primeiro tipo, o proeminente  uma mudana no mundo externo; no segundo, a nfase recai sobre uma mudana interna. No primeiro, o indivduo cai doente 
a partir de uma experincia; no segundo, a partir de um processo de desenvolvimento. No primeiro caso, defronta-se com a tarefa de renunciar  satisfao e cai enfermo 
devido  sua incapacidade de resistncia; no segundo, sua tarefa  trocar um tipo de satisfao por outro, e sucumbe devido  sua inflexibilidade. No segundo caso, 
o conflito entre o esforo do indivduo para permanecer tal como  e o esforo para modificar-se, a fim de atender a novos intuitos e novas exigncias da realidade, 
acha-se presente desde o incio. No primeiro caso, o conflito s surge aps a libido represada haver escolhido outras, e incompatveis, possibilidades de satisfao. 
O papel desempenhado pelo conflito e pela fixao anterior da libido  incomparavelmente mais bvio no segundo tipo que no primeiro, onde tais fixaes imprestveis 
podem talvez surgir apenas como resultado da frustrao externa.
         Um jovem que at ento tenha satisfeito sua libido por meio de fantasias que findem pela masturbao, e que agora busca substituir um regime que se aproxima 
do auto-erotismo pela escolha de um objeto real - ou uma jovem que dedicou toda sua afeio ao pai ou ao irmo e que deve agora, a bem de um homem que a est cortejando, 
permitir que seus desejos libidinais incestuosos at ento inconscientes se tornem conscientes -, ou uma mulher casada, que gostaria de renunciar a suas inclinaes 
polgamas e fantasias de prostituio, de modo a tornar-se uma consorte fiel ao marido e perfeita me para o filho: todos estes caem enfermos devido aos mais louvveis 
esforos, se as fixaes anteriores de suas libidos so suficientemente poderosas para resistir a um deslocamento; e este ponto ser decidido, uma vez mais, pelos 
fatores da disposio, da constituio e da experincia infantil. Todos eles, poder-se-ia dizer, defrontam-se com a sorte da arvorezinha do conto de fadas de Grimm, 
que queria ter folhas diferentes. Do ponto de vista higinico - que, certamente, no  o nico a ser levado em considerao - s se poderia desejar para eles que 
continuassem a ser to subdesenvolvidos, inferiores e inteis como o eram, antes de carem enfermos. A mudana pela qual os pacientes se esforam, mas realizam apenas 
imperfeitamente ou de modo algum, tem invariavelmente o valor de um passo  frente do ponto de vista da vida real. Mas  diferente se aplicarmos padres ticos; 
vemos as pessoas carem enfermas to freqentemente quando pem de lado um ideal como quando buscam atingi-lo.
         Apesar das diferenas muito claras entre os dois tipos de desencadeamento de enfermidade que descrevemos, eles, no obstante coincidem em seus pontos essenciais 
e podem, sem dificuldade, ser reunidos numa unidade. Cair doente devido  frustrao tambm pode ser encarado como uma incapacidade de adaptao  realidade - isto 
, no caso especfico em que a realidade frustra a satisfao da libido. Cair enfermo sob as condies do segundo tipo conduz diretamente a um caso especial de frustrao. 
 verdade que a realidade no frustra aqui todos os tipos de satisfao, mas frustra aquele que o indivduo declara ser o nico possvel. Tampouco a frustrao provm 
imediatamente do mundo externo, mas, em primeiro lugar, de certas tendncias no ego do indivduo. No obstante, ela permanece sendo o fator comum e o mais abrangente. 
Em conseqncia do conflito que se estabelece imediatamente no segundo tipo, ambas as espcies de satisfao - tanto a habitual quanto a que se visa - so igualmente 
inibidas; d-se um represamento da libido, com todas as suas conseqncias, tal como no primeiro caso. Os eventos psquicos que conduzem  formao de sintomas so, 
se  que h alguma diferena, mais fceis de acompanhar no segundo tipo que no primeiro; pois naquele as fixaes patognicas da libido no precisam ser recentemente 
estabelecidas, mas j se encontraram em vigor enquanto o indivduo era sadio. Certa quantidade de introverso da libido em geral j se acha presente; e poupa-se 
parte da regresso do indivduo ao estdio infantil, devido ao fato de seu desenvolvimento no ter ainda completado seu curso.
         (c) O tipo seguinte, que descreverei como cair doente devido a uma inibio no desenvolvimento, parece uma exagerao do segundo, ou seja, cair doente devido 
s exigncias da realidade. No existe razo terica para distingui-lo, mas apenas prtica, pois aqueles em que nos achamos interessados aqui so pessoas que caem 
enfermas logo que passam da idade irresponsvel da infncia e que, assim, nunca atingiram uma fase de sade - isto , uma fase de capacidade de realizao e fruio 
que  geralmente ilimitada. A caracterstica essencial do processo disposicional , nestes casos, muito simples. A libido nunca abandonou as fixaes infantis; as 
exigncias da realidade no so subitamente feitas a uma pessoa integral ou parcialmente madura, mas originam-se do prprio fato de ficar mais velho, visto ser bvio 
que elas constantemente se alteram com a idade crescente do indivduo. Assim, o conflito cai para o segundo plano, em comparao com a insuficincia. Mas tambm 
aqui toda nossa outra experincia leva-nos a postular um esforo de superao das fixaes da infncia; pois, de outra maneira, o resultado do processo nunca poderia 
ser a neurose, mas apenas um infantilismo estacionrio.
         (d) Tal como o terceiro tipo apresentou-nos a determinante disposicional quase em isolamento, tambm o quarto tipo, que agora se segue, chama nossa ateno 
para outro fator, que entra em considerao em todo caso isolado e facilmente poderia, por essa prpria razo, ser negligenciado num exame terico. Vemos cair enfermas 
pessoas que at ento haviam sido sadias, que no se defrontaram com nenhuma experincia nova e cuja relao com o mundo externo no sofreu alterao, de maneira 
que o desencadeamento de sua molstia inevitavelmente d a impresso de espontaneidade. Uma considerao mais chegada desses casos, contudo, demonstra-nos que, no 
obstante, uma mudana realizou-se neles, mudana cuja importncia temos de avaliar em alto grau como causa de enfermidade. Em resultado de haverem atingido um perodo 
especfico da vida, e em conformidade com processos biolgicos normais, a quantidade de libido em sua economia mental experimentou um aumento que em si  suficiente 
para perturbar o equilbrio da sade e estabelecer as condies necessrias para uma neurose.  notrio que aumentos mais ou menos sbitos de libido deste tipo acham-se 
habitualmente associados  puberdade e  menopausa - quando as mulheres chegam a determinada idade; alm disso, em algumas pessoas, eles se podem manifestar em periodicidades 
que ainda so desconhecidas. Aqui, o represamento da libido  o fator primrio; ele se torna patognico em conseqncia de uma frustrao relativa procedente do 
mundo externo, que ainda teria concedido satisfao a uma reivindicao menor por parte da libido. Esta, insatisfeita e represada, pode mais uma vez abrir caminhos 
para a regresso e despertar os mesmos conflitos que demonstramos no caso da frustrao externa absoluta. Desse modo, lembramo-nos de que o fator qualitativo no 
deve ser negligenciado em qualquer considerao das causas precipitantes da doena. Todos os outros fatores - frustrao, fixao, inibio de desenvolvimento - 
permanecem ineficientes, a menos que afetem determinada quantidade de libido e ocasionem um razovel represamento desta.  verdade que no podemos medir esta quantidade 
de libido que nos parece indispensvel para um efeito patognico; s podemos postul-la aps a molstia resultante haver comeado. S h uma direo na qual podemos 
determin-la mais precisamente. Podemos supor que no se trata de uma quantidade absoluta, mas da relao entre a cota de libido em operao e a quantidade de libido 
com que o ego individual  capaz de lidar - isto , de manter sob tenso, sublimar ou empregar diretamente. Por este motivo, um aumento relativo na quantidade de 
libido pode ter os mesmos efeitos que um aumento absoluto. Um debilitamento do ego, devido a doena orgnica ou a alguma exigncia especial  sua energia, poder 
causar o surgimento de neuroses que de outra maneira permaneceriam latentes, apesar de qualquer disposio que pudesse se achar presente.
         A importncia na causao de doenas que deve ser atribuda  quantidade de libido acha-se em concordncia satisfatria com duas teses principais da teoria 
das neuroses a que a psicanlise nos levou; em primeiro lugar, a tese de que as neuroses derivam do conflito entre o ego e a libido e, em segundo, a descoberta de 
que no existe distino qualitativa entre as determinantes da sade e as da neurose, e que, pelo contrrio, as pessoas sadias tm de avir-se com as mesmas tarefas 
de dominao de sua libido - simplesmente, saram-se melhor nelas.
         Resta dizer algumas palavras sobre a relao destes tipos com os fatos da observao. Se passar em revista o conjunto de pacientes em cuja anlise acho-me 
presentemente empenhado, tenho de registrar que nem um s deles constitui exemplo puro de qualquer dos quatro tipos de desencadeamento. Em cada um, antes, encontro 
uma parte de frustrao operando lado a lado com uma parte de incapacidade a adaptar-se s exigncias da realidade; a inibio no desenvolvimento, que coincide, 
naturalmente, com a inflexibilidade das fixaes, tem de ser levada em conta em todos eles e, como j disse, a importncia da quantidade de libido nunca deve ser 
desprezada. Descubro, em verdade, que em diversos desses pacientes a doena apareceu em ondas sucessivas, entre as quais houve intervalos sadios, e que cada uma 
dessas ondas foi remontvel a um tipo diferente de causa precipitante. Dessa maneira, a formulao desses quatro tipos no pode reivindicar qualquer valor terico 
elevado; eles so simplesmente modos diferentes de estabeleceruma constelao patognica especfica na economia mental - a saber, o represamento da libido, que o 
ego no pode desviar sem danos com os meios  sua disposio. Mas esta situao em si apenas se torna patognica em resultado de um fator quantitativo; ela no chega 
como novidade  vida mental e no  criada pelo impacto daquilo que se denomina 'causa da doena'.
         Determinada importncia prtica pode ser prontamente concedida a estes tipos de desencadeamento. Na verdade, devem ser encontrados em sua forma pura em 
casos individuais; no teramos observado o terceiro e o quarto tipos se eles no houvessem, em certos indivduos, constitudo as nicas causas precipitantes da 
enfermidade. O primeiro tipo expe-nos a influncia extraordinariamente poderosa do mundo externo, e o segundo, a influncia no menos importante - e que se ope 
 primeira - da individualidade peculiar do sujeito. A patologia no poderia fazer justia ao problema dos fatores precipitantes nas neuroses enquanto estivesse 
simplesmente preocupada em decidir se estas afeces eram de natureza 'endgena' ou 'exgena'. Era obrigada a enfrentar toda observao que apontasse para a importncia 
da abstinncia (no sentido mais alto da palavra) como causa precipitante, com a objeo de que outras pessoas toleram as mesmas experincias sem carem enfermas. 
Se, contudo, buscasse enfatizar a individualidade peculiar do sujeito como sendo o fator decisivo essencial entre a doena e a sade, estaria obrigada a tolerar 
a ressalva de que pessoas que possuem esta peculiaridade podem permanecer sadias indefinidamente, enquanto so capazes de mant-la. A psicanlise alertou-nos de 
que devemos abandonar o contraste infrutfero entre fatores externos e internos, entre experincia e constituio, e ensinou-nos que invariavelmente encontraremos 
a causa do desencadeamento da enfermidade neurtica numa situao psquica especfica que pode ser ocasionada de vrias maneiras.
         
         
         
         






CONTRIBUIES A UM DEBATE SOBRE A MASTURBAO (1912)
         
         
         NOTA DO EDITOR INGLS
         
         ZUR ONANIE-DISKUSSION
         
         (a)EDIES ALEMS:
         1912 Em Die Onanie (Diskussionen der Wiener Psychoanalytischen Vereinigung, 2), Wiesbaden: Bergmann, p. iii-iv e 132-40.
         1925 G. S., 3 324-37.
         1931 Sexualtheorie und Traumlehre, 228-39.
         1943 G. W., 8, 332-45.
         
         (b) TRADUO INGLESA:
         'Masturbation'
         1921 Medical Critic and Guide (Nova Iorque), 24 (setembro), 327-34. (Omitindo a 'Introduo'.) (Trad. de Eden Paul.)
         
         A presente traduo inglesa, nova,  da autoria de James Strachey.
         
         O debate sobre masturbao realizado na Sociedade Psicanaltica de Viena foi muito mais prolongado que o anterior, sobre o suicdio; as contribuies de 
Freud a este foram igualmente publicadas (1910g). As minutas da Sociedade, impressas no Volume II do Zentralblatt fr Psychoanalyse (1911-12), mostram que 14 membros 
(incluindo Freud) tomaram parte nos debates, que ocuparam 9 noites, de 22 de novembro de 1911 a 24 de abril de 1912. Foi nesta ltima ocasio que Freud fez suas 
observaes finais, descritas nas minutas como 'Eplogo'. A 'Introduo' no foi pronunciada numa reunio, mas constitui simplesmente o prefcio ao opsculo em que 
os artigos acabaram por ser publicados.
         Este trabalho contm, de longe, o exame mais amplo da masturbao que pode ser encontrado nos escritos de Freud, embora breves aluses a ela sejam bastante 
freqentes. Em seus primeiros artigos, a masturbao figura principalmente por causa de sua relao com as 'neuroses atuais' e, em particular, como agente causador 
da neurastenia. (Ver, por exemplo, a Seo I de seu artigo em francs sobre a etiologia das neuroses, 1896a.)  interessante descobrir Freud defendendo bravamente 
essa posio no presente trabalho e aproveitando a oportunidade para efetuar um de seus poucos pronunciamentos posteriores sobre as 'neuroses atuais' em geral (ver 
em [1] e nota de rodap do Editor Ingls ao artigo sobre psicanlise 'silvestre' (1910k), em [2], 1970.
         Aps estes primeiros artigos, a primeira descrio importante da masturbao, feita por Freud, apareceu na Seo 4 do segundo de seus Trs Ensaios (1905d), 
a partir de [1], 1972. Aqui pela primeira vez, ps ele em relevo a significao da masturbao na primeira infncia. Entretanto, foi apenas na terceira edio (1915) 
daquela obra (isto , aps a data do presente debate) que a existncia de trs fases distintas de masturbao foi claramente demonstrada. (Ver em [2].) Tampouco 
foi essa distino evidenciada na seguinte referncia demorada ao assunto, por parte de Freud, na histria clinica do 'Rat Man' (1909d), em [1]. Contudo, duas proposies 
importantes foram demonstradas em artigos aproximadamente do mesmo perodo: a vinculao da masturbao com as fantasias, no artigo sobre fantasias histricas (1908a), 
e sua conexo com a ameaa de castrao, no trabalho sobre teorias sexuais infantis (1908c), e, naturalmente, na anlise de 'Little Hans' (1909b). Uma curta passagem 
no artigo sobre os efeitos da moral 'civilizada' (1908d) deve tambm ser mencionada, na qual as objees  masturbao so apresentadas em linhas semelhantes s 
do presente trabalho. Incidentalmente, Freud a observa que o comportamento sexual de uma pessoa amide 'estabelece um padro' para toda sua maneira de reagir ao 
mundo externo; e isto indubitavelmente explica a obscura referncia adiante, no pargrafo (b), em [1], ao 'estabelecimento de um padro psquico'.
          fato curioso que,  parte seus exames dos sentimentos de culpa ligados  masturbao e das caractersticas especiais desta em meninas, para a qual se 
chama a ateno em notas de rodap adiante, em [1] e [2], quase todas as referncias posteriores de Freud ao tpico ocorrem em relao ao pavor da castrao. Seu 
interesse nos outros aspectos do assunto parece ter-se exaurido na presente contribuio.
         
        CONTRIBUIES A UM DEBATE SOBRE A MASTURBAO
         
         I - INTRODUO
         
         Nunca foi objetivo dos debates na Sociedade Psicanaltica de Viena afastar divergncias ou chegar a concluses. Os diferentes oradores, que se mantm unidos 
por assumirem uma viso fundamental semelhante dos mesmos fatos, permitem-se dar a mais ntida expresso  variedade de suas opinies individuais, sem considerar 
sequer a probabilidade de converterem algum da platia que possa pensar de modo diverso. Pode haver muitos pontos nesses debates que foram mal enunciados e mal 
compreendidos, mas o resultado final, no obstante,  que todos receberam a mais clara impresso das opinies diferentes das suas e comunicaram suas prprias opinies 
diferentes a outras pessoas.
         O debate sobre masturbao, do qual, na realidade, apenas fragmentos so publicados aqui, durou diversos meses e foi conduzido segundo o plano de cada orador, 
por seu turno, ler um artigo, que era seguido de um debate exaustivo. Somente os artigos acham-se includos na atual publicao, no os debates, que foram altamente 
estimulantes e nos quais as diferentes opinies foram expressas e defendidas. De outro modo, este opsculo teria atingido dimenses que certamente o impediriam de 
ser amplamente lido e provar-se eficaz.
         A escolha do tpico no necessita justificativas, nestes dias em que por fim se faz uma tentativa de submeter os problemas da vida sexual do homem a exame 
cientfico. Numerosas repeties dos mesmos pensamentos e assertivas foram inevitveis; elas constituem, naturalmente, os sinais de concordncia entre os oradores. 
Com referncia s muitas divergncias de opinies, no pode ser tarefa do coordenador harmoniz-las ou tentar ocult-las. Espera-se que o interesse do leitor no 
seja rechaado pelas repeties nem pelas contradies. 
         Foi nosso intuito, nesta ocasio, indicar a direo em que o estudo do problema da masturbao foi forado, pelo surgimento de mtodo de abordagem psicanaltico. 
At onde fomos bem sucedidos nesse propsito tornar-se- evidente do aplauso dos leitores, ou talvez de modo ainda mais claro, de sua desaprovao.
         VIENA, vero de 1912.
         
         II - CONSIDERAES FINAIS
         
         SENHORES: os membros mais idosos deste grupo sero capazes de lembrar que, h alguns anos, fizemos uma tentativa prvia de um debate coletivo deste tipo 
- um 'simpsio', como nossos colegas americanos o chamam - sobre o assunto da masturbao. Naquela ocasio, as opinies expressas apresentavam divergncias to importantes 
que no nos aventuramos a expor nossas Atas ao pblico. Desde ento o mesmo grupo, juntamente com alguns recm-chegados, havendo estado ininterruptamente em contato 
com fatos observados e mantido um intercmbio constante de idias uns com os outros, esclareceram suas opinies e chegaram a um terreno comum, de maneira que a aventura 
que havamos anteriormente abandonado no mais parece to temerria. Tenho realmente a impresso de que os pontos sobre os quais concordamos, em conexo com a masturbao, 
so hoje mais firmes e mais profundos que as divergncias, embora estas ltimas inegavelmente existam. Algumas das aparentes contradies so apenas resultado das 
muitas direes diferentes a partir das quais os senhores se aproximaram do assunto, enquanto que, na verdade, as opinies em apreo podem muito bem encontrar lugar 
lado a lado.
         Com sua permisso, apresentar-lhes-ei um resumo dos pontos sobre os quais parecemos achar-nos acordes ou divididos.
         Todos ns concordamos, acho eu,
         (a) sobre a importncia das fantasias que acompanham ou representam o ato masturbatrio,
         (b) sobre a importncia do sentimento de culpa, qualquer que seja sua fonte, que se acha ligado  masturbao, e 
         (c) sobre a impossibilidade de atribuir um determinante qualitativo aos efeitos prejudiciais da masturbao. (Sobre este ltimo ponto, o acordo no  unnime.)
         Diferenas no solucionadas de opinio apareceram
         (a) com respeito  negao de um fator somtico nos efeitos da masturbao, 
         
         (b) com respeito a uma negao geral dos efeitos prejudiciais da masturbao,
         (c) com respeito  origem do sentimento de culpa, que alguns dos senhores desejam atribuir diretamente  falta de satisfao, enquanto outros aduzem fatores 
sociais, alm disso, ou  atitude da personalidade do indivduo no momento, e
         (d) com respeito  ubiqidade da masturbao nas crianas.
         Por fim, incertezas significativas existem
         (a) quanto ao mecanismo dos efeitos prejudiciais da masturbao, se os houver, e
         (b) quanto  relao etiolgica da masturbao com as 'neuroses atuais'.
         Com referncia  maioria dos pontos de controvrsia entre ns, temos de agradecer as crticas desafiantes de nosso colega, Wilhelm Stekel, baseadas em sua 
grande e independente experincia. No h dvida de que deixamos muitssimos pontos para serem estabelecidos e esclarecidos por algum grupo futuro de observadores 
e pesquisadores, mas podemos consolar-nos em saber que trabalhamos honestamente e sem esprito estreito, e que, assim procedendo, abrimos caminhos ao longo dos quais 
a pesquisa posterior poder viajar.
         No devem esperar muito de minhas prprias contribuies s questes em que estamos interessados. Esto cientes da minha preferncia pelo tratamento fragmentrio 
de um assunto, com nfase nos pontos que me parecem mais bem estabelecidos. Nada tenho de novo a oferecer - nenhuma soluo, s algumas repeties de coisas que 
j sustentei, algumas palavras em defesa dessas velhas assertivas contra ataques a elas feitos por alguns dos senhores, e, alm disso, alguns comentrios que se 
devem inevitavelmente impor a quem quer que escute seus artigos.
         Como bem sabem, dividi a masturbao segundo a idade do indivduo em (1) masturbao em bebs, que inclui todas as atividades auto-erticas que servem ao 
intuito da satisfao sexual, (2) masturbao em crianas, que se origina diretamente do tipo precedente e j se fixou em certas zonas ergenas, e (3) masturbao 
na puberdade, que continua a masturbao da infncia ou  dela separada pelo perodo de latncia. Em algumas das explicaes que ouvi dos senhores, plena justia 
no foi inteiramente feita a esta diviso temporal. A unidade ostensiva da masturbao, que  nutrida pela terminologia mdica costumeira, deu origem a certas generalizaes 
em que uma diferenciao segundo os trs perodos da vida teria sido mais justificada. Foi tambm de lamentar no termos sido capazes de prestar tanta ateno  
masturbao feminina quanto  masculina; a masturbao feminina, acredito eu,  merecedora de estudo especial e em seu caso  particularmente verdadeiro que uma 
nfase especial resida nas modificaes dela que aparecem em relao  idade do indivduo.
         Chego agora s objees levantadas por Reitler ao meu argumento teleolgico em favor da ubiqidade da masturbao na primeira infncia. Admito que este 
argumento tem de ser abandonado. Se mais uma edio de meus Trs Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade for exigida, ela no mais conter a frase que se acha sob 
ataque. Renunciarei  minha tentativa de adivinhar os intuitos da Natureza e contentar-me-ei em descrever os fatos.
         Outra observao de Reitler, , penso eu, significativa e importante. Foi ela no sentido de que certas disposies do aparelho genital, que so peculiares 
aos seres humanos, parecem tender a impedir a relao sexual na infncia. Aqui, contudo, surgem minhas dvidas. A ocluso do orifcio sexual feminino e a ausncia 
de um os penis que garantisse a ereo so, afinal de contas, dirigidos apenas contra o coito real, no contra excitaes sexuais em geral. Reitler parece-me assumir 
uma viso antropomrfica demais da maneira pela qual a Natureza persegue seus objetivos - como se se tratasse de uma questo de ela sustentar um s propsito, como 
 o caso da atividade humana. Entretanto, at onde podemos ver, nos processos naturais grande nmero de objetivos  perseguido, um ao lado de outro, sem interferir 
um com o outro. Se devemos falar da Natureza em termos humanos, teramos de dizer que ela nos parece ser o que, no caso dos homens, chamaramos de inconsistente. 
De minha parte, penso que Reitler no deveria dar tanto peso a seus prprios argumentos teleolgicos. O emprego da teleologia como hiptese heurstica tem seu lado 
duvidoso: em determinadas ocasies, nunca se pode dizer se demos com uma 'harmonia' ou uma 'desarmonia'.  o mesmo que acontece quando se enfia um prego na parede 
de uma sala; no podemos estar certos se vamos dar contra ripa, emboo ou tijolo.
         Sobre a questo da relao da masturbao e das emisses com a causao da chamada 'neurastenia', descobri-me, como muito dos senhores, em oposio a Stekel, 
e, sujeito a uma limitao que mencionarei dentro em pouco, sustento contra ele minhas opinies anteriores. Nada vejo que nos obrigue a abandonar a distino entre 
'neuroses atuais' e psiconeuroses, e no posso encarar a gnese dos sintomas, no caso das primeiras, seno como txica. Aqui, Stekel me parece realmente estender 
demais a psicogenia. Minha opinio ainda  a mesma da primeira ocasio, h mais de quinze anos: a saber, que as duas 'neuroses atuais' - a neurastenia e a neurose 
de angstia (e talvez devssemos adicionar a hipocondria propriamente dita como uma terceira 'neurose atual') - fornecem s psiconeuroses a necessria 'submisso 
somtica'; elas fornecem o material excitativo, que  ento psiquicamente selecionado e recebe um 'revestimento psquico', de maneira que, falando de modo geral, 
o ncleo do sintoma psiconeurtico - o gro de areia no centro da prola -  formado de uma manifestao sexual somtica. Isto  mais claro,  verdade, na neurose 
de angstia e sua relao com a histeria do que na neurastenia, sobre a qual nenhuma investigao psicanaltica cuidadosa foi feita ainda. Na neurose de angstia, 
como amide puderam convencer-se, h no fundo um pequeno fragmento de excitao no descarregada, vinculada ao coito, que emerge como sintoma de ansiedade ou fornece 
o ncleo para a formao de um sintoma histrico.
         Stekel partilha com muitos autores psicanalticos de uma inclinao a rejeitar as diferenciaes morfolgicas que fizemos dentro da mixrdia das neuroses 
e a aglomer-las todas sob uma s denominao - psicastenia, talvez. Neste ponto freqentemente o contradissemos e apegamo-nos  nossa expectativa de que as diferenas 
morfolgico-clnicas se mostraro valiosas como indicaes ainda no compreendidas de processos essencialmente distintos. Quando ele - corretamente - nos mostra 
que encontrou regularmente os mesmos complexos presentes, tanto no que so chamados de neurastnicos como em outros neurticos, seu argumento falha em atender o 
tema em debate. H muito tempo sabemos que os mesmos complexos e conflitos devem ser procurados tambm em todas as pessoas normais e sadias. Na verdade, acostumamo-nos 
a atribuir a todo ser humano civilizado certa quantidade de represso e impulsos perversos, determinada cota de erotismo anal, de homossexualismo e assim por diante, 
bem como uma poro de complexo paterno e complexo materno e de outros complexos fora esses, tal como na anlise qumica de uma substncia orgnica esperamos encontrar 
certos elementos: carbono, oxignio, hidrognio, nitrognio e traos de enxofre. O que distingue as substncias orgnicas umas das outras so as quantidades relativas 
desses elementos e a maneira pela qual as ligaes entre eles se acham constitudas. Do mesmo modo, no caso das pessoas normais e neurticas, o que se acha em debate 
no  se esses complexos e conflitos existem, mas se se tornaram patognicos e, nesse caso, mediante que mecanismos assim se tornaram.
         A essncia das teorias a respeito das 'neuroses atuais' que apresentei no passado e estou defendendo hoje reside na minha declarao, baseada em experimentos, 
de que seus sintomas, diferentemente dos psiconeurticos, no podem ser analisados. Isto equivale a dizer que a priso-de-ventre, as dores de cabea e a fadiga do 
chamado neurastnico no admitem serem remontadas, histrica ou simbolicamente, a experincia operantes, e no podem ser compreendidas como substitutos da satisfao 
sexual ou como conciliaes entre impulsos instintuais opostos, como  o caso dos sintomas psiconeurticos (ainda que os ltimos talvez possam ter a mesma aparncia). 
No acredito que seja possvel contrariar esta declarao com o auxlio da psicanlise. Por outro lado, admitirei hoje aquilo em que fui incapaz de acreditar anteriormente 
- que um tratamento analtico pode ter um efeito curativo indireto sobre sintomas 'atuais'. Ele pode consegui-lo, ou permitindo que os danos atuais sejam mais bem 
tolerados, ou capacitando a pessoa doente a escapar deste danos pela efetivao de uma mudana em seu regime sexual. Seriam perspectivas desejveis, do ponto de 
vista de nosso interesse teraputico.
         Se no final eu for condenado por estar errado sobre o problema terico das 'neuroses atuais', poderei consolar-me com o progresso em nosso conhecimento, 
que deve desprezar as opinies de um indivduo. Podem perguntar ento por que, visto que fao uma estimativa to louvvel das limitaes de minha prpria infalibilidade, 
no cedo imediatamente a estas novas sugestes, mas prefiro representar de novo a familiar comdia de um velho a aferrar-se obstinadamente s suas opinies. Minha 
resposta  que ainda no vejo nenhuma prova que me induza a ceder. Anteriormente, efetuei vrias alteraes em meus pontos de vista e no as ocultei do pblico. 
Fui censurado por causa dessas mudanas, tal como hoje sou censurado por causa de meu conservadorismo. No que fique intimado por uma censura ou pela outra, mas 
sei que tenho um destino a cumprir. No posso fugir a ele e no preciso movimentar-me em sua direo. Esper-lo-ei e, entrementes, conduzir-me-ei em relao a nossa 
cincia tal como a experincia anterior me ensinou.
         Repugna-me assumir posio na questo, tratada to amplamente pelos senhores, da nocividade da masturbao, pois ela no oferece uma abordagem correta aos 
problemas que nos interessam. Mas todos temos de faz-lo, no h dvida: o mundo no parece ter outro interesse na masturbao. Lembrar-lhe-ei que, em nossa srie 
anterior de debates sobre o assunto, tivemos entre ns, como visitante, um eminente pediatra vienense. O que foi que ele repetidamente pediu-nos para dizer-lhe? 
Simplesmente, at que ponto a masturbao  prejudicial e por que ela prejudica certas pessoas e no outras. Dessa maneira, temos de forar nossas pesquisas a efetuar 
um pronunciamento para atender a esta exigncia prtica.
         Tenho de confessar que aqui, mais uma vez, no posso partilhar o ponto de vista de Stekel, apesar das muitas observaes corretas e corajosas que ele nos 
fez sobre o assunto. A seu ver, a nocividade da masturbao equivale apenas a um preconceito insensato que, devido simplesmente a limitaes pessoais, no nos dispomos 
a rejeitar com suficiente cuidado. Acredito, contudo, que, se fixarmos nossos olhos sobre o problemas sine ira et studio - na medida,  claro, em que pudermos faz-lo 
-, seremos antes obrigados a declarar que assumir tal posio contradiz nossas opinies fundamentais sobre a etiologia das neuroses. A masturbao corresponde essencialmente 
 atividade sexual infantil e  sua reteno subseqente, em idade mais madura. Derivamos as neuroses de um conflito entre os impulsos sexuais de uma pessoa e suas 
outras tendncias (do ego). Ora, algum poderia dizer: 'Em minha opinio o fator patognico nesta relao etiolgica reside unicamente na reao do ego  sua sexualidade.' 
Com isto, estaria afirmando que qualquer um poderia manter-se livre da neurose, se apenas estivesse disposto a permitir uma satisfao irrestrita aos seus impulsos 
sexuais. Mas  evidentemente arbitrrio, e tambm sem sentido, chegar a tal deciso, e no permitir que os prprios impulsos sexuais tomem qualquer parte no processo 
patognico. Mas se admitirmos que os impulsos sexuais podem ter um efeito patognico, no mais negaremos um significado semelhante  masturbao, que afinal consiste 
apenas em pr em execuo esses impulsos instintuais, do sexo. Em todos os casos que parecem demonstrar que a masturbao  patognica, podero sem dvida remontar 
a operao ainda mais longe - at os instintos que se manifestam na masturbao e as resistncias que so dirigidas contra esses instintos. A masturbao no  nada 
definitivo - somtica ou psicologicamente -, no  um 'agente' real, mas simplesmente o nome para certas atividades. Entretanto, por mais que remontemos atrs, nossa 
opinio sobre a causao da doena continuar, no obstante, adequadamente ligada a essa atividade. E no esqueam que a masturbao no deve ser igualada  atividade 
sexual em geral: ela  atividade sexual sujeita a certas condies limitantes. Assim tambm persiste a possibilidade de que sejam precisamente essas peculiaridades 
da atividade masturbatria os veculos de seus efeitos patognicos.
         Somos, portanto, mais uma vez trazidos dos argumentos para a observao clnica, e por ela advertidos para no apagar o ttulo 'Efeitos Prejudiciais da 
Masturbao'. Somos, pelo menos, confrontados nas neuroses com casos em que a masturbao causou dano.
         Este dano parece ocorrer de trs modos diferentes:
         (a) Um prejuzo orgnico pode ocorrer, mediante algum mecanismo desconhecido. Aqui temos de levar em conta as consideraes de excesso e satisfao inadequada, 
que foram amide mencionadas pelos senhores.
         (b) O prejuzo pode ocorrer atravs do estabelecimento de um padro psquico, segundo o qual no h necessidade de tentar alterar o mundo externo a fim 
de satisfazer uma grande necessidade. Todavia, onde se desenvolve uma reao de grande alcance contra este padro, os mais valiosos traos de carter podem ser iniciados.
         (c) Uma fixao de objetivos sexuais infantis pode ser possvel, e uma persistncia de infantilismo psquico. Temos aqui a disposio para a ocorrncia 
de uma neurose. Como psicanalistas, no podemos deixar de estar grandemente interessados neste resultado da masturbao - que neste caso significa,  claro, uma 
masturbao que ocorre na puberdade e continua posteriormente. Devemos lembrar a significao que a masturbao adquire como realizadora da fantasia - aquela regio 
a meio caminho, inserida entre a vida de acordo com o princpio de prazer e a vida de acordo com o princpio de realidade e temos de lembrar-nos de como a masturbao 
possibilita efetuar desenvolvimentos e sublimaes sexuais na fantasia, que, no obstante, no so progressos, mas conciliaes prejudiciais - embora seja verdade, 
como uma importante observao de Stekel apontou, que esta mesma conciliao torna inofensivas graves inclinaes perversas e previne as piores conseqncias da 
abstinncia.
         Com base em minha experincia mdica, no posso excluir uma reduo permanente na potncia como um dos resultados da masturbao, embora assegure a Stekel 
que, em vrios casos, ela pode tornar-se apenas aparente. Este resultado especfico da masturbao, contudo, no pode ser classificado sem hesitao entre os prejudiciais. 
Certa diminuio da potncia masculina e da brutal agressividade nela envolvida  muito apropositada, do ponto de vista da civilizao. Ela facilita a prtica, pelos 
homens civilizados, das virtudes da moderao e confiana sexual que lhes incumbem. A virtude acompanhada de plena potncia  geralmente considerada tarefa rdua.
         Isto pode parecer-lhes cnico, mas podem ficar certos de que no h essa inteno. Dispe-se a ser apenas um fragmento de descrio rida, sem considerar 
se pode causar satisfao ou aborrecimento, pois a masturbao, como tantas outras coisas, tem les dfauts de ses vertus e, por outro lado, les vertus de ses dfauts. 
Se estamos deslindando um assunto complicado e complexo com um interesse prtico unilateral em sua nocividade e empregos, temos de aturar descobertas desagradveis.
         Alm disso, penso que podemos distinguir com vantagem o que podemos descrever como prejuzos diretos causados pela masturbao daqueles que resultam indiretamente 
da resistncia e indignao do ego contra essa atividade sexual. No me interessei por estas ltimas conseqncias.
         E agora sou obrigado a acrescentar algumas palavras sobre a segunda das duas penosas questes que foram formuladas. Supondo que a masturbao possa ser 
prejudicial, sob que condies e em que pessoas ela prova s-lo?
         Como a maioria dos senhores, acho-me inclinado a recusar dar uma resposta geral  questo. Ela coincide parcialmente com outra pergunta, mais abrangente: 
quando a atividade sexual em geral se torna patognica para determinadas pessoas? Se colocarmos esta considerao de lado, resta-nos uma questo de pormenor, referente 
s caractersticas da masturbao, na medida em que representa uma maneira e forma especiais de satisfao sexual. Aqui seria o lugar para repetir o que j conhecemos 
e foi debatido em relao a outros assuntos - avaliar a influncia do fator quantitativo e da operao combinada de diversos fatores patognicos. Acima de tudo, 
contudo, deveramos deixar amplo campo para o que se conhece como disposies constitucionais de um indivduo. Mas  preciso confessar que lidar com estas  ocupao 
difcil, pois temos o hbito de formar nossa opinio sobre as disposies individuais ex post facto: atribumos esta ou aquela disposio s pessoas aps o evento, 
quando elas j caram doentes. No temos mtodo de descobri-las de antemo. Conduzimo-nos, em verdade, como o rei escocs de uma das novelas de Victor Hugo, que 
se gabava de possuir um mtodo infalvel de identificar a feitiaria. Ele fazia cozer a mulher acusada em gua fervente e depois provava o caldo. Segundo o gosto, 
julgava ento: 'Esta era bruxa', ou 'Esta no era.'
         Poderia chamar sua ateno para outra questo, da qual muito pouco nos ocupamos em nossos debates: a da masturbao 'inconsciente'. Quero dizer a masturbao 
durante o sono, durante estados anormais, ou crises. Lembrar-se-o das muitas crises histricas em que atos masturbatrios tornam a acontecer de maneira disfarada 
ou irreconhecvel, aps o indivduo haver renunciado a essa forma de satisfao, e dos muitos sintomas na neurose obsessiva que buscam substituir e repetir este 
tipo de atividade sexual, que foi anteriormente proibido. Podemos tambm falar de um retorno teraputico da masturbao. Muitos dos senhores tero descoberto ocasionalmente, 
como eu, que representa um grande progresso se, durante o tratamento, o paciente se aventura a dedicar-se  masturbao novamente, embora possa no ter inteno 
de estacionar permanentemente neste ponto de parada infantil. Com respeito a isto, posso lembrar-lhes que nmero considervel precisamente dos mais graves padecedores 
de neuroses evitou toda rememorao da masturbao no passado, enquanto que a psicanlise  capaz de provar que essa espcie de atividade sexual no lhes foi de 
forma alguma estranha durante o mais remoto e esquecido perodo de suas vidas.
         
         Mas penso que chegou a hora de parar, pois todos ns achamo-nos de acordo sobre uma coisa - que o assunto da masturbao  inteiramente inexaurvel.
         
         
         
         































UMA NOTA SOBRE O INCONSCIENTE NA PSICANLISE (1912)
         
         NOTA DO EDITOR INGLS
         
         A NOTE ON THE UNCONSCIOUS IN PSYCHO-ANALYSIS
         
         (a) EDIES INGLESAS:
         1912 Atas da Sociedade de Pesquisas Psquicas, 26 (Parte 66), 312-18.
         1925 C. P., 4, 22-9.
         
         (b) TRADUO ALEM:
         'Einige Bemerkungen ber den Begriff des Unbewussten in der Psychoanalyse'
         1913 Int. Z. Psychoanal., 1 (2), 117-23.
         1918 S. K. S. N., 4, 157-67 (1922, 2 ed.)
         1924 G. S., 5, 433-42.
         1924 Technik und Metapsychol., 155-64.
         1931 Theorestische Schriften, 15-24.
         1943 G. W., 8, 430-39.
         
         Em 1912, Freud foi convidado pela Sociedade de Pesquisas Psquicas de Londres a contribuir para uma 'Parte Mdica Especial' de suas Atas, sendo o presente 
artigo o resultado. Foi escrito por Freud em ingls, mas revisado, segundo parece, na Inglaterra, antes de sua publicao em novembro de 1912. Uma verso alem do 
trabalho apareceu no nmero de maro de 1913 da Zeitschrift. Nada existe nele que demonstre que no tenha sido tambm escrito pelo prprio Freud, mas explica-nos 
o Dr. Jones. (19155, 352) que constituiu de fato uma traduo do artigo ingls de Freud por um de seus principais seguidores, Hanns Sachs. Por ltimo, deve-se acrescentar 
que quando o artigo foi reimpresso no Volume IV dos Collected Papers, em 1925, foi submetido a outra ligeira 'reviso secundria', que atualizou a terminologia.
         Em resultado disto tudo, ficamos sem nenhum texto completamente fidedigno do artigo. Indubitavelmente, tanto a reviso quanto a traduo foram excelentemente 
realizadas e, provavelmente, o prprio Freud examinou a ambas. No obstante, temos de necessariamente permanecer na incerteza onde h uma questo da escolha precisa 
de termos por Freud. Para tomar um exemplo de uma das dificuldades: o termo 'concepo'  repetidamente utilizado nos pargrafos 2 a 5. Estaramos inclinados a supor 
que Freud tivesse em mente a palavra alem 'Vorstellung', que  geralmente vertida nesta traduo pela palavra inglesa 'idea' ('idia'). E, de fato, 'Vorstellung' 
 a palavra empregada, nos lugares correspondentes, na traduo alem. Ao final do stimo pargrafo e no oitavo, a palavra 'idea' aparece no texto ingls, e a palavra 
correspondente no alemo  'Idee'. Mas, no dcimo e dcimo primeiro pargrafos, onde mais uma vez encontramos o ingls 'idea', a traduo alem  quase sempre 'Gedanke' 
(que geralmente traduzimos como 'thought', 'pensamento'), mas num dos lugares, 'Vorstellung'.
         Nas circunstncias, achamos ser o procedimento mais apropriado simplesmente reimprimir a verso original inglesa, exatamente como apareceu nas Atas originais 
da S. P. P., com notas de rodap ocasionais, onde a terminologia exige comentrios.
         Nossa razo para lamentar esta incerteza textual ser compreendida quando se lembrar que este se acha entre os mais importantes dos trabalhos tericos de 
Freud. Aqui, pela primeira vez, forneceu ele uma longa e ponderada descrio das premissas para sua hiptese de processos mentais inconscientes e especificou os 
diversos sentidos em que empregou o termo 'inconsciente' O artigo constitui de fato um estudo para o trabalho maior sobre o mesmo assunto que deveria escrever cerca 
de trs anos mais tarde (1915e). Como o artigo anterior, 'Sobre os Dois Princpios do Funcionamento Mental' (1911b), e a Seo III da anlise de Schreber (1911c), 
o atual constitui prova do interesse renovado de Freud pela teoria psicanaltica.
         A discusso das ambigidades inerentes  palavra 'inconsciente'  de particular interesse, com a distino entre os seus trs empregos - o 'descritivo', 
o 'dinmico', e o 'sistemtico'. O presente relato  mais elaborado e claro que o muito mais sucinto fornecido na Seo II do artigo maior (Ver em [1], 1974). Neste 
apenas dois usos so diferenciados, o 'descritivo' e o 'sistemtico', e nenhuma distino clara parece ser feita entre este ltimo e o 'dinmico' - termo que, no 
presente artigo,  aplicado ao inconsciente reprimido. Em dois exames posteriores do mesmo tpico, no Captulo I de O Ego e o Id (1923b), e na Conferncia XXXI das 
New Introductory Lectures (1933a), Freud retornou  distino trplice feita aqui; e o terceiro emprego do termo, o 'sistemtico' (aflorado apenas ligeiramente ao 
final do presente trabalho), surgiu ento com um passo no sentido da diviso estrutural da mente em 'id', 'ego', e 'superego', que muito deveria esclarecer toda 
a situao.
         A maior parte deste artigo, na verso de 1925, foi includa na General Selection from the Works of Sigmund Freud (1937, 54-62), da autoria de Rickman.
         
         UMA NOTA SOBRE O INCONSCIENTE NA PSICANLISE
         
         Desejo expor em poucas palavras e to simplesmente quanto possvel o que o termo 'inconsciente' veio a significar na Psicanlise e somente nesta.
         Uma concepo - ou qualquer outro elemento psquico - que se ache agora presente em minha conscincia pode tornar-se ausente no momento seguinte, e novamente 
presente, aps um intervalo, imutada, e, como dizemos, de memria, no como resultado de uma nova percepo por nossos sentidos.  este fato que estamos acostumados 
a explicar pela suposio de que, durante o intervalo, a concepo esteve presente em nossa mente, embora latente na conscincia. Sob que forma ela pode ter existido 
enquanto presente na mente e latente na conscincia no temos meios de adivinhar.
         Neste exato momento, podemos estar preparados para enfrentar a objeo filosfica de que a concepo latente no existiu como objeto de psicologia, mas 
como uma disposio fsica para a repetio do mesmo fenmeno psquico, isto , da dita concepo. Mas podemos replicar que isso  uma teoria que ultrapassa de muito 
o domnio da psicologia propriamente dita; que ela simplesmente incorre em petio de princpio ao asseverar que 'consciente'  um termo idntico a 'psquico', e 
que est positivamente errada ao negar  psicologia o direito de explicar seus fatos mais comuns, tais como a memria, por seus prprios meios.
         Ora, permitam-nos chamar de 'consciente' a concepo que est presente em nossa conscincia e da qual nos damos conta, e que este seja o nico significado 
do termo 'consciente'. Quanto s concepes latentes, se temos qualquer razo para supor que elas existam na mente - como tnhamos, no caso da memria - que elas 
sejam designadas pelo termo 'inconsciente'.
         Assim, uma concepo inconsciente  uma concepo da qual no estamos cientes, mas cuja existncia, no obstante, estamos prontos a admitir, devido a outras 
provas ou sinais.
         Esta poderia ser considerada uma amostra desinteressante de trabalho descritivo ou classificatrio se nenhuma outra experincia apelasse ao nosso julgamento 
seno os fatos da memria ou os casos de associao por vnculos inconscientes. Entretanto, o experimento bem conhecido da 'sugesto ps-hipntica' ensina-nos a 
insistir na importncia da distino entre consciente e inconsciente, e parece aumentar o seu valor.
         
         Neste experimento, tal como realizado por Bernheim, uma pessoa  colocada em estado hipntico e subseqentemente despertada. Enquanto se encontrava no estado 
hipntico, sob a influncia do mdico, foi-lhe ordenado executar determinada ao num certo momento fixado aps seu despertar, digamos meia hora mais tarde. Ela 
desperta e parece plenamente consciente e em seu estado normal; no tem lembrana do estado hipntico e, contudo, no momento predeterminado, aparece-lhe na mente 
o impulso a fazer tal tipo de coisa, e ela o faz conscientemente, embora sem saber por qu. Parece impossvel fornecer qualquer outra descrio do fenmeno a no 
ser dizer que a ordem esteve presente na mente da pessoa num estado de latncia, ou que esteve presente inconscientemente, at que o momento determinado chegou, 
e ento tornou-se consciente. Mas no foi sua totalidade que emergiu para a conscincia: somente a concepo do ato a ser executado. Todas as outras idias associadas 
a essa concepo - a ordem, a influncia do mdico, a recordao do estado hipntico - permaneceram inconscientes mesmo ento.
         Mas temos mais a aprender deste experimento. Somos levados da viso puramente descritiva a uma viso dinmica do fenmeno. A idia da ao ordenada na hipnose 
no apenas tornou-se objeto de conscincia em determinado momento, mas o aspecto mais notvel do fato  que esta idia tornou-se ativa; foi traduzida em ao, assim 
que a conscincia tornou-se ciente de sua presena. Sendo a ordem do mdico o estmulo real  ao,  difcil no admitir que a idia da ordem do mdico se tornou 
ativa tambm. Entretanto, esta ltima idia no se revelou  conscincia, como o fez seu resultado, a idia da ao; permaneceu inconsciente e, assim, foi ativa 
e inconsciente ao mesmo tempo.
         Uma sugesto ps-hipntica  uma produo de laboratrio, um fato artificial. Mas, se adotarmos a teoria dos fenmenos histricos, primeiramente apresentada 
por P. Janet e elaborada por Breuer e eu mesmo, no nos faltaro muitos fatos naturais que mostram o carter psicolgico da sugesto ps-hipntica ainda mais clara 
e distintamente.
         A mente do paciente histrico acha-se cheia de idias ativas, porm inconscientes; todos os seus sintomas procedem de tais idias. , na verdade, a caracterstica 
mais marcante da mente histrica ser governada por elas. Se a mulher histrica vomita, pode faz-lo devido  idia de estar grvida. Entretanto, ela no tem conhecimento 
desta idia, embora possa ser facilmente detectada em sua mente e tornada consciente mediante um dos processos tcnicos da psicanlise. Se se acha executando os 
arrancos e movimentos que constituem seu 'ataque', ela nem mesmo conscientemente representa para si as aes pretendidas e pode perceber estas aes com os sentimentos 
desligados de um observador. No obstante, a anlise demonstrar que estava desempenhando seu papel na reproduo dramtica de algum incidente de sua vida, cuja 
lembrana esteve inconscientemente ativa durante a crise. A mesma preponderncia de idias inconscientes ativas  revelada pela anlise como sendo o fato essencial 
na psicologia de todas as outras formas de neurose.
         Aprendemos, portanto, pela anlise dos fenmenos neurticos, que uma idia latente ou inconsciente no , necessariamente, uma idia fraca, e que a presena 
dessa idia na mente admite provas indiretas do tipo mais convincente, equivalentes  prova direta fornecida pela conscincia. Sentimo-nos justificados em fazer 
nossa classificao concordar com este acrscimo ao nosso conhecimento, introduzindo uma distino fundamental entre diferentes tipos de idias latentes ou inconscientes. 
Estvamos acostumados a pensar que toda idia latente assim se tornou por ser fraca e que se transformou em consciente logo que se tornou forte. Adquirimos hoje 
a convico de que h algumas idias latentes que no penetram na conscincia, por mais fortes que possam se haver tornado. Assim, chamamos as idias latentes do 
primeiro tipo de pr-conscientes, enquanto reservamos o termo inconsciente (propriamente dito) para o ltimo tipo que viemos a estudar nas neuroses. O termo inconsciente, 
que foi empregado antes no sentido puramente descritivo, vem agora a implicar algo mais. Designa no apenas as idias latentes em geral, mas especialmente idias 
com certo carter dinmico, idias que se mantm  parte da conscincia, apesar de sua intensidade e atividade.
         Antes de prosseguir com minha exposio, referir-me-ei a duas objees que tm probabilidades de serem levantadas neste ponto. A primeira delas pode ser 
assim enunciada: ao invs de concordar com a hiptese de idias inconscientes, das quais nada sabemos,  melhor presumir que a conscincia pode ser dividida, de 
modo que certas idias ou outros atos psquicos possam constituir uma conscincia separada, que se tornou desligada e separada da massa de atividade psquica consciente. 
Casos patolgicos famosos, como o do Dr. Azam [A referncia  ao caso de Flida X, notvel exemplo de personalidade alternada ou dupla, provavelmente o primeiro 
deste tipo a ser investigado e registrado minuciosamente. O caso foi descrito em vrias publicaes por E. Azam, de Bordeaux. Seu primeiro relatrio apareceu na 
Revue Scientifique, em 26 de maio de 1876, e foi seguido, algumas semanas depois, por um artigo dos Annales mdico-psychologiques. (Ver Azam, 1876, e seu ltimo 
livro, 1887.)], parecem contribuir muito para demonstrar que a diviso da conscincia no constitui imaginao fantasista.
         Aventuro-me a alegar contra essa teoria que ela  uma suposio gratuita, baseada no mau uso da palavra 'consciente'. No temos o direito de estender o 
significado desta palavra a ponto de faz-la incluir uma conscincia da qual seu prprio possuidor no se acha ciente. Se os filsofos encontram dificuldade em aceitar 
a existncia de idias inconscientes, a existncia de uma conscincia inconsciente parece-me ainda mais objetvel. Os casos descritos como diviso (splitting) da 
conscincia, como o do Dr. Azam, poderiam de preferncia ser denominados de deslocamento da conscincia - essa funo ou o que quer que seja - que oscila entre dois 
complexos psquicos diferentes que se tornam conscientes e inconscientes alternadamente.
         A outra objeo que poderia ser levantada seria que aplicamos  psicologia normal concluses que so tiradas principalmente do estudo de estados patolgicos. 
Estamos capacitados a respond-la por outro fato, cujo conhecimento devemos  psicanlise. De certas deficincias de funo da mais freqente ocorrncia entre pessoas 
sadias, tais como por exemplo, lapsus linguae, erros de memria e de fala, esquecimento de nomes etc., pode-se facilmente demonstrar que dependem da ao de fortes 
idias inconscientes, da mesma maneira que os sintomas neurticos. Apresentaremos outro argumento ainda mais convincente num estdio posterior deste estudo.
         Pela diferenciao de idias pr-conscientes e inconscientes, somos levados a abandonar o campo da classificao e a formar uma opinio sobre as relaes 
funcionais e dinmicas na ao psquica. Encontramos uma atividade pr-consciente que passa para a conscincia sem dificuldade e uma atividade inconsciente que assim 
permanece e parece se achar isolada da conscincia.
         Ora, no sabemos se estes dois modos de atividade psquica so idnticos ou essencialmente divergentes desde o incio, mas podemos perguntar por que devem 
tornar-se diferentes no decorrer da ao psquica. A esta ltima questo, a psicanlise fornece uma resposta clara e firme. No , de modo algum, impossvel ao produto 
da atividade inconsciente penetrar na conscincia, mas para esta tarefa  necessria uma certa quantidade de esforo. Quando tentamos realiz-la em ns prprios, 
damo-nos conta de uma sensao distinta de repulso, que tem de ser dominada, e, quando a produzimos num paciente, obtemos os mais indiscutveis sinais do que chamamos 
de sua resistncia a ela. Assim, aprendemos que a idia inconsciente acha-se excluda da conscincia por foras vivas que se opem  sua recepo, embora no objetem 
a outras idias, as pr-conscientes. A psicanlise no deixa campo para dvida de que a repulso das idias inconscientes s  provocada pelas tendncias includas 
na essncia destas. A teoria mais provvel que pode ser formulada, neste estdio de nosso conhecimento,  a seguinte. A inconscincia  uma fase regular e inevitvel 
nos processos que constituem nossa atividade psquica; todo ato psquico comea como um ato inconsciente e pode permanecer assim ou continuar a evoluir para a conscincia, 
segundo encontra resistncia ou no. A distino entre atividade pr-consciente e inconsciente no  primria, mas vem a ser estabelecida aps a repulso ter surgido. 
Somente ento a diferena entre idias pr-conscientes, que podem aparecer na conscincia e reaparecer a qualquer momento, e idias inconscientes, que no podem 
faz-lo, adquire um valor tanto terico quanto prtico. Uma analogia grosseira, mas no inadequada, a esta suposta relao da atividade consciente com a inconsciente 
poderia ser traada com o campo da fotografia comum: a primeira etapa da fotografia  o 'negativo'; toda imagem fotogrfica tem de passar pelo processo negativo 
e alguns desses negativos, que se saram bem no exame, so admitidos ao 'processo positivo', que termina pelo retrato.
         Mas a distino entre atividade pr-consciente e inconsciente e o reconhecimento da barreira que as mantm apartadas no so o ltimo ou o mais importante 
resultado da investigao psicanaltica da vida psquica. Existe um produto psquico encostando nas pessoas mais normais que, contudo, apresenta analogia muito marcante 
com as mais violentas produes da insanidade e no foi mais inteligvel aos filsofos que a prpria insanidade. Refiro-me aos sonhos. A psicanlise se fundamenta 
na anlise dos sonhos e a interpretao deles constitui a obra mais completa que a jovem cincia realizou at o presente. Um dos mais comuns de formao onrica 
pode ser descrito como segue: uma seqncia de pensamentos foi despertada pelo funcionamento da mente durante o dia e reteve um pouco de sua atividade, fugindo  
inibio geral de interesses que introduz o sono e constitui a preparao psquica para o dormir. Durante a noite, a seqncia de pensamentos consegue encontrar 
vinculaes com uma das tendncias inconscientes presentes desde a infncia na mente do que sonha, mas ordinariamente reprimida e excluda de sua vida consciente. 
Com a fora tomada de emprstimo a esta ajuda inconsciente, os pensamentos, resduo do trabalho do dia, tornam-se ento ativos novamente e surgem na conscincia 
sob a forma de sonho. Ora, trs coisas aconteceram:
         (1) Os pensamentos sofreram uma mudana, um disfarce e uma deformao, que representam a parte do ajudante inconsciente.
         (2) Os pensamentos ocuparam a conscincia numa ocasio em que no o deveriam.
         (3) Uma parte do inconsciente, que doutra maneira no teria podido faz-lo, surgiu na conscincia.
         Aprendemos a arte de descobrir os 'pensamentos residuais', os pensamentos latentes dos sonhos, e, comparando-os com o sonho aparente, pudemos formar opinio 
sobre as modificaes que experimentaram e a maneira pela qual estas foram ocasionadas.
         Os pensamentos latentes do sonho no diferem em nenhum aspecto dos produtos de nossa atividade consciente habitual; merecem o nome de pensamentos pr-conscientes 
e, em verdade, podem ter sido conscientes em algum momento do estado de viglia. Entretanto, por entrarem em contato com as tendncias inconscientes durante a noite, 
assimilaram-se a estas, degradaram-se, por assim dizer,  condio de pensamentos inconscientes, e ficaram sujeitos s leis pelas quais a atividade inconsciente 
 dirigida. E aqui temos a oportunidade de aprender o que no poderamos ter adivinhado pela especulao, ou por outra fonte de informao emprica - que as leis 
da atividade inconsciente diferem amplamente daquelas da consciente. Inferimos pormenorizadamente quais so as peculiaridades do Inconsciente e podemos esperar aprender 
ainda mais sobre elas mediante investigao mais profunda dos processos da formao onrica.
         Essa investigao no se acha ainda nem na metade, e uma exposio dos resultados obtidos at agora  pouco possvel sem entrar nos problemas mais intocados 
da anlise de sonhos. No gostaria de interromper este exame, porm, sem indicar a mudana e o progresso em nossa compreenso do inconsciente devido ao estudo psicanaltico 
dos sonhos.
         A inconscincia pareceu-nos, a princpio, apenas uma caracterstica enigmtica de um ato psquico definido. Atualmente ela significa mais para ns.  sinal 
de que este ato partilha da natureza de determinada categoria psquica, que conhecemos por outras caractersticas mais importantes, e que ele pertence a um sistema 
de atividade psquica merecedor de nossa plena ateno. O valor ndice do inconsciente ultrapassou de muito sua importncia como propriedade. O sistema assinalado 
pelo fato de seus atos isolados serem inconscientes  chamado 'O Inconsciente', por falta de termo melhor e menos ambguo. Em alemo, proponho denotar esse sistema 
pelas letras Ubw, abreviatura da palavra 'Unbewusst'. E este  o terceiro e mais significativo sentido que o termo 'inconsciente' adquiriu na psicanlise.
         
         
         
         
         






UM SONHO PROBATRIO (1913)
         
         NOTA DO EDITOR INGLS
         
         EIN TRAUM ALS BEWEISMITTEL
         
         (a) EDIES ALEMS:
         1913 Int. Z. Psychoanal., 1 (1), 73-8.
         1918 S. K. S. N., 4 177-188. (1922, 2 ed.)
         1925 G. S., 3 267-77.
         1925 Traumlehre, 11-21.
         1931 Sexualtheorie und Traumlehre, 316-26.
         1946 G. W.,10, 12-22.
         
         (b) TRADUO INGLESA:
         'A Dream which Bore Testimony'
         1924 C. P., 2, 133-43 (Trad. de E. Glover.)
         
         A presente traduo inglesa baseia-se na publicada em 1924.
         
         Em seu primeiro aparecimento na Zeitschrift (no comeo de 1913), este artigo foi o primeiro de vrios, escritos por diversos autores, includos sob o ttulo 
geral 'Beitrge zur Traumdeutung' ('Contribuies  Intepretao de Sonhos').
         O trabalho apresenta a peculiaridade de ser uma anlise de sonhos, de segunda mo. Independente disto,  digno de nota por contar uma descrio excepcionalmente 
clara do papel desempenhado pelos pensamentos onricos latentes na formao de sonhos e por sua insistncia na necessidade de manter em mente a distino entre os 
pensamentos onricos e o prprio sonho.
         
         UM SONHO PROBATRIO
         
         Uma senhora que padecia da mania dubitativa e cerimoniais obsessivos insistia em que suas enfermeiras nunca a deixassem fora de suas vistas por um s momento: 
doutra maneira, ela comearia a ruminar sobre aes proibidas que poderia ter cometido enquanto no se achava sendo observada. Certa noite, enquanto repousava no 
sof, pensou que vira a enfermeira de servio adormecer. Ela gritou: 'Est me vendo?' A enfermeira deu um pulo e respondeu: 'Naturalmente que estou.' Isto forneceu 
 paciente motivo para nova dvida e, aps certo tempo, repetiu a pergunta, que a enfermeira respondeu com protestos renovados; exatamente nesse momento, outra assistente 
chegou, trazendo a ceia da paciente.
         Este incidente ocorreu numa sexta-feira  noite. Na manh seguinte, a enfermeira relatou um sonho que teve o efeito de desfazer as dvidas da paciente.
         SONHO - Algum lhe havia confiado uma criana. A me da criana sara de casa e ela [a que sonhou] perdera-a. Enquanto andava, indagava das pessoas na rua 
se haviam visto a criana. Depois, chegou a uma grande extenso de gua e cruzou uma estreita ponte para pedestres. (Houve um adendo: Subitamente apareceu-lhe  
frente, sobre a ponte, como uma 'fata Morgana', a figura de outra enfermeira.) Ento, achou-se num lugar familiar, onde econtrou uma mulher que conhecera menina 
e que na poca era vendedora numa loja de vveres e depois se casara. Perguntou  mulher, que estava parada em frente a sua porta: 'Voc viu a criana?' A mulher 
no prestou ateno  pergunta, mas informou-a de que se achava divorciada do marido, acresentando que tampouco o casamento  sempre feliz. Ela acordou sentindo-se 
tranqilizada e pensou que a criana apareceria perfeitamente bem na casa de um vizinho.
         ANLISE - A paciente presumiu que este sonho se referia ao cochilo que a enfermeira havia negado. A partir de informaes adicionais voluntariamente prestadas 
pela ltima, pde interpretar o sonho de maneira que, embora incompleta sob certos aspectos, foi suficiente para todos os fins prticos. Eu prprio somente ouvi 
o relato da senhora e no entrevistei a enfermeira. Citarei primeiramente a interpretao da paciente e depois suplement-la-ei com o que nossa compreenso geral 
das leis que governam a formao onrica nos permitem acrescentar.
         
         'A enfermeira contou-me que a criana do sonho fazia-a lembrar-se de um caso cujo cuidado lhe dera a mais viva satisfao. Foi o de uma criana incapaz 
de enxergar devido a uma inflamao dos olhos (blenorria). A me, contudo, no abandonava a casa: ajudava a cuidar da criana. Por outro lado, recordo-me tambm 
que quando meu marido, que tem alta considerao por esta enfermeira, partiu, deixou-me aos seus cuidados e ela prometeu cuidar de mim como cuidaria de uma criana.'
         Alm disso, sabemos pela anlise da paciente que, ao insistir em nunca ser deixada fora da vista, ela se recolocara na posio de ser outra vez criana.
         'Ter perdido a criana', continuou a paciente, 'significou que ela no me vira; perdera-me de vista. Isto constituiu sua admisso de que realmente adormecera 
por certo tempo e no me contara a verdade posteriormente.'
         Ignorava o significado do pequeno fragmento de sonho em que a enfermeira indagava das pessoas na rua se haviam visto a criana; por outro lado, foi capaz 
de elucidar os pormenores posteriores do sonho manifesto.
         'A grande extenso de gua fez a enfermeira pensar no Reno; acrescentou, contudo, que era muito maior que o Reno. Ento lembrou-se de que na noite anterior 
eu lhe lera a histria de Jonas e a baleia, e lhe contara que, certa vez, eu prpria vira uma baleia no Canal da Mancha. Imagino que a grande extenso de gua fosse 
o mar e constitusse uma aluso  histria de Jonas.
         'Acho tambm que a estreita ponte para pedestres proveio da mesma histria, que era divertidamente escrita em dialeto. A anedota relata como um instrutor 
religioso descreveu a seus alunos as maravilhosas aventuras de Jonas, aps o que um menino objetou que no podia ser verdade, visto que o prprio professor lhes 
disssera antes que as baleias s podiam engolir criaturas minsculas, devido  estreiteza de seus esfagos. O professor escapou da dificuldade dizendo que Jonas 
era judeu e que os judeus se enfiavam em qualquer lugar. Minha enfermeira  muito piedosa mas inclinada a dvidas religiosas, e censurei-me no caso de a histria 
que lhe lera poder t-las suscitado.
         'Nessa ponte estreita, viu agora o aparecimento de outra enfermeira, a quem conhecia. Contou-me a histria desta ltima: havia-se jogado no Reno por ter 
sido dispensada de um caso, devido a algo de que fora culpada. Ela prpria temera, portanto, ser dispensada por haver adormecido. Ademais, no dia seguinte ao incidente 
e aps relatar o sonho, a enfermeira chegou amargamente e, quando lhe perguntei o motivo, respondeu de modo bastante rude: "A senhora sabe por que to bem quanto 
eu e agora no vai mais confiar em mim!"
         Visto a apario da enfermeira afogada constituir um adendo, e um adendo especialmente claro, teramos aconselhado a senhora a comear sua interpretao 
do sonho neste ponto. Segundo o relato daquela que sonhou, tambm esta primeira metade do sonho foi acompanhada por aguda ansiedade; a segunda parte preparou o caminho 
para a sensao de tranqilidade com que despertou.
         'Encaro a parte seguinte do sonho', disse a senhora, continuando sua anlise, 'como corroborao certa de minha opinio de que o sonho tinha a ver com o 
que acontecera naquela noite de sexta-feira, pois a pessoa que anteriormente fora vendedora numa loja de vveres s se podia referir  atendente que trouxe a ceia 
naquela ocasio. Observei tambm que a enfermeira se havia queixado de nuseas o dia todo. A pergunta que fez quela mulher: "Viu a criana?"  obviamente remontvel 
 minha pergunta: "Est me vendo?", que lhe fiz pela segunda vez exatamente quando a atendente chegou com os pratos.'
         Tambm no sonho a indagao a respeito da criana foi feita em duas ocasies. O fato de a mulher no responder - no prestar ateno - pode ser por ns 
encarado como uma depreciao desta outra atendente, feita em favor da que sonhou; ela representou-se no sonho como superior  outra mulher, exatamente porque ela 
prpria tinha de enfrentar censuras devido  sua prpria falta de ateno.
         'A mulher que apareceu no sonho no era, na realidade, divorciada do marido. A situao foi tirada de um incidente da vida da outra atendente, que se separara 
- "divorciara" - de um homem, por ordem dos pais. A observao de que "tampouco o casamento sempre corre bem" foi provavelmente uma consolao utilizada no decurso 
da conversa entre as duas mulheres. Esta consolao prefigurou outra, com a qual o sonho terminou: "A criana aparecer perfeitamente bem".
         'Conclu deste sonho que, na noite em apreo, a enfermeira realmente adormecera e que estava com medo de ser demitida por causa disso. Devido a isso, no 
mais senti qualquer dvida sobre a correo de minha observao. Incidentalmente, aps relatar o sonho, ela acrescentou sentir muito no ter trazido um livro de 
sonhos com ela. Ao meu comentrio de que tais livros se acham repletos das mais ignorantes supersties, respondeu que, embora no fosse de modo algum supersticiosa, 
apesar disso todos os acontecimentos desagradveis da sua vida haviam acontecido numa sexta-feira. Devo acrescentar que, atualmente, o tratamento que me d no  
de modo algum satisfatrio; ela anda suscetvel e irritvel e faz cenas a respeito de nada.'
         Acho que devemos reconhecer  senhora o mrito de ter interpretado e avaliado corretamente o sonho de sua enfermeira. Como to amide acontece com a interpretao 
de sonhos durante a anlise, a traduo do sonho no depende unicamente dos produtos da associao, mas tambm temos de levar em conta as circunstncias de sua narrao, 
o comportamento do que sonhou antes e depois da anlise do sonho, bem como toda observao e revelao feita pelo que sonhou durante a mesma ocasio - durante a 
mesma sesso analtica. Se levarmos em considerao a suscetibilidade da enfermeira, sua atitude para com as sextas-feiras aziagas etc., confirmaremos a concluso 
de que o sonho continha uma admisso de que, apesar de sua negativa, ela havia realmente cochilado e estava com medo de ser mandada embora para longe da 'criana' 
a seus cuidados.
         Enquanto, para a senhora que o relatou a mim, este sonho tinha significao prtica, para ns ele estimula o interesse terico em duas direes.  verdade 
que terminou por uma consolao, mas, em geral, representou uma admisso importante com referncia  relao da enfermeira com sua paciente. Como acontece que um 
sonho, que afinal de contas deve servir de realizao de um desejo, possa tomar o lugar de uma admisso que nem mesmo foi de qualquer vantagem para a que sonhou? 
Devemos realmente admitir que, alm de sonhos de realizao de desejo (e de ansiedade), existem tambm sonhos de admisso, assim como de advertncia, reflexo, adaptao 
etc.?
         Devo confessar que ainda no compreendo muito bem por que a posio que tomei contra qualquer tentao desse tipo, em A Interpretao de Sonhos, causou 
desconfianas nas mentes de tantos psicanalistas, entre eles alguns bem conhecidos. Parece-me que a diferenciao entre sonhos de realizao de desejo, admisso, 
advertncia, adaptao etc. no tem muito mais sentido que a diferenciao, necessariamente aceita, dos especialistas mdicos em ginecologistas, pediatras e dentistas. 
Permitam-me recapitular aqui, to sucintamente quanto possvel, o que disse sobre este assunto em A Interpretao de Sonhos.
         Os chamados 'resduos diurnos' podem atuar como perturbadores do sonho e construtores de sonhos; eles so processos de pensamento afetivamente catexizados 
do dia do sonho, que resistiram ao rebaixamento geral [de energia] pelo sono. Estes resduos diurnos so descobertos por remontarem o sonho manifesto aos pensamentos 
onricos latentes; constituem pores do ltimo e acham-se assim entre as atividades do estado de viglia - conscientes ou inconscientes - que conseguiram persistir 
no perodo de sono. Em consonncia com a multiplicidade de processos de pensamento no consciente e pr-consciente, estes resduos diurnos tm os mais numerosos e 
diversos significados: eles podem ser desejos ou temores que no foram resolvidos, ou intenes, reflexes, advertncias, tentativas de adaptao a tarefas atuais 
etc. At este ponto, a classificao de sonhos que se acha em considerao parece ser justificada pelo contedo que  revelado pela interpretao. Estes resduos 
do dia, contudo, no so o prprio sonho: falta-lhes o elemento essencial principal de um sonho. De si prprios no so capazes de construir um sonho. So, estritamente 
falando, apenas o material psquico para a elaborao onrica, exatamente como os estmulos sensrios e somticos, quer acidentais quer produzidos sob condies 
experimentais, constituem o material somtico para a elaborao onrica. Conferir-lhes o papel principal na construo de sonhos  simplesmente repetir, num ponto 
novo, o erro pr-analtico que explicava os sonhos atribuindo-os  m digesto ou  presso sobre a pele. Os erros cientficos, em verdade, tm vida tenaz, e mesmo 
quando refutados acham-se prontos a insinuar-se novamente, sob novos disfarces. 
         
         O estado atual de nosso conhecimento leva-nos a concluir que o fator essencial na construo de sonhos  um desejo inconsciente - geralmente um desejo infantil, 
agora reprimido - que pode vir a se expressar nesse material somtico ou psquico (e tambm nos resduos diurnos, portanto) e pode abastecer estes com uma fora 
que os capacita a forar seu caminho em direo  conscincia, mesmo durante a suspenso do pensamento,  noite. O sonho , em todos os casos, uma realizao deste 
desejo inconsciente, seja o que for que possa conter mais - advertncia, reflexo, admisso, ou qualquer outra parte do rico contedo do estado de viglia pr-consciente 
que continuou, sem ser tratado, noite adentro.  este desejo inconsciente que d  elaborao onrica seu carter peculiar, como reviso inconsciente do material 
pr-consciente. Um psicanalista pode caracterizar como sonhos apenas os produtos da elaborao onrica: apesar do fato de s se chegar aos pensamentos onricos latentes 
a partir da interpretao do sonho, ele no pode consider-los como parte deste, mas apenas como parte da reflexo pr-consciente. (A reviso secundria pela instncia 
consciente  aqui considerada como parte da elaborao onrica. Mesmo que devssemos separ-la, isto no envolveria nenhuma alterao em nossa concepo. Teramos 
ento de dizer: os sonhos, no sentido analtico, compreendem a elaborao onrica propriamente dita, juntamente com a reviso secundria de seus produtos.) A concluso 
a ser tirada destas consideraes  que no se pode colocar o carter realizador de desejos dos sonhos no mesmo nvel que seu carter de advertncia, admisso, tentativa 
de soluo etc., sem negar o conceito de uma dimenso psquica de profundidade, o que equivale a dizer, sem negar o ponto de vista da psicanlise.
         Retornemos agora ao sonho da enfermeira, a fim de demonstrar a qualidade de profundidade na realizao de desejo nele contida. J sabemos que a interpretao 
que a senhora deu ao sonho no era, de modo algum, completa; havia partes dele a que ela foi incapaz de fazer justia. Ademais, ela sofria de neurose obsessiva, 
condio que, pelo que observei, torna consideravelmente mais difcil compreender os smbolos onricos, tal como a demncia precoce torna-o mais fcil.
         No obstante, nosso conhecimento do simbolismo onrico capacita-nos a compreender partes no interpretadas deste sonho e descobrir uma significao mais 
profunda por trs das interpretaes j fornecidas. No podemos deixar de notar que parte do material empregado pela enfermeira provm do complexo de dar a luz, 
de ter filhos. A extenso de gua (o Reno, o Canal onde a baleia foi vista) era certamente a gua da qual as crianas provm. E depois, tambm, ela veio  gua em 
busca de uma criana. A lenda de Jonas, fator de determinao dessa gua, a pergunta de saber como Jonas (a criana) podia passar atravs de passagem to estreita 
pertencem ao mesmo complexo. E a enfermeira que se atirou no Reno por mortificao encontrou uma consolao simblico-sexual para seu desespero de vida na modalidade 
de sua morte - entrando na gua. A estreita ponte para pedestres sobre a qual a apario a encontrou foi, com toda probabilidade, tambm um smbolo genital, embora 
tenha de admitir que aqui nos falta ainda um conhecimento mais preciso.
         O desejo 'quero ter um filho' parece, portanto, ter sido o construtor onrico a partir do inconsciente; nenhum outro seria mais bem calculado para consolar 
a enfermeira pelo estado aflitivo das coisas na vida real. 'Serei dispensada: perderei a criana que est aos meus cuidados. Que importa? Em vez disso, arranjarei 
uma criana real, minha prpria.' A parte no interpretada do sonho, na qual ela pergunta a todos na rua sobre a criana, pode talvez caber aqui; a interpretao 
ento seria: 'E mesmo que tenha de me oferecer nas ruas, sei como arranjar um filho para mim.' Um laivo de desafio na que sonhou, at aqui disfarado, se revela 
subitamente neste ponto. Sua admisso encaixa-se aqui pela primeira vez: 'Fechei os olhos e comprometi minha reputao profissional de pessoa conscienciosa; agora, 
vou perder meu lugar. Serei to tola de afogar-me, como a enfermeira X? No: abandonarei a enfermagem completamente e me casarei; serei uma mulher e terei um filho 
de verdade; nada me impedir.' Esta interpretao  justificada pela consideraode que 'ter filhos' constitui realmente a expresso infantil de um desejo de ter 
relaes sexuais; na verdade, pode ter sido escolhida na conscincia como expresso eufemstica deste desejo objetvel.
         Assim, a admisso desvantajosa da que sonhou, admisso para que mostrou inclinao mesmo no estado de viglia, tornou-se possvel no sonho por ser empregada 
por um seu trao latente de carter [o 'laivo de desafio'], com o intuito de ocasionar a realizao de um desejo infantil. Podemos presumir que este trao tinha 
uma vinculao estreita - com referncia tanto a poca quanto a contedo - com o desejo de um filho e de prazer sexual.
         A inquirio subseqente da senhora a quem devo a primeira parte desta interpretao forneceu algumas informaes inesperadas sobre a vida anterior da enfermeira. 
Antes de dedicar-se  enfermagem desejara casar com um homem que estivera intensamente interessado nela, mas abandonara o casamento projetado devido  oposio de 
uma tia, com quem suas relaes constituam uma curiosa mistura de dependncia e desafio. Esta tia que impedira o matrimnio era a superiora de uma Ordem dedicada 
 enfermagem. A que sonhou sempre a considerara como modelo. Tinha esperanas de ser sua herdeira e a ela achava-se ligada por esse motivo. No obstante opusera-se 
 tal, no ingressando na Ordem como aquela havia planejado. O desafio apresentado no sonho era, portanto, dirigido contra a tia. Atribumos uma origem anal-ertica 
a este trao caracterolgico, e podemos levar em considerao o fato de os interesses que a tornavam dependente da tia serem de natureza financeira; lembramo-nos 
tambm de que as crianas favorecem a teoria anal de nascimento.
         Este fator de desafio infantil pode talvez permitir-nos presumir uma relao mais estreita entre a primeira e a ltima cena do sonho. A antiga vendedora 
numa loja de vveres representa no sonho a atendente que trouxe a ceia da senhora para a sala exatamente quando essa fazia a pergunta: 'Est me vendo?' Parece, contudo, 
que ela foi destinada para o papel de rival hostil em geral. A que sonhou depreciou sua capacidade como enfermeira fazendo-a no tomar o menor interesse pela criana 
perdida, mas tratar apenas de assuntos particulares em sua resposta. Deslocou assim para esta figura a indiferena que comeava a sentir pela criana a seus cuidados. 
O infeliz casamento e divrcio que ela prpria deve ter temido em seus mais secretos desejos foram atribudos  outra mulher. Sabemos, contudo, que fora a tiaque 
separara a que sonhou de seu noivo. Da a 'vendedora de vveres' (figura no necessariamente sem significado infantil simblico) poder representar a superiora-tia, 
que na realidade no era muito mais idosa do que a que sonhou e que desempenhara o papel tradicional de rival-me em sua vida. Uma confirmao satisfatria desta 
interpretao pode ser achada no fato de que o lugar 'familiar' em que ela encontrou essa pessoa, parada na frente da porta, era exatamente o lugar em que sua tia 
residia, como superiora.
         Devido  falta de contato entre o analista e a pessoa sob anlise, no  aconselhvel penetrar mais profundamente na estrutura do sonho. Entretanto podemos 
talvez dizer que, na medida em que foi acessvel  interpretao, forneceu-nos muitas confirmaes bem como muitos novos problemas.
         
         
         
A OCORRNCIA, EM SONHOS, DE MATERIAL ORIUNDO DE 
CONTOS DE FADAS (1913)
         
         
         NOTA DO EDITOR INGLS
         
         MRCHENSTOFFE IN TRUMEN
         
         (a) EDIES ALEMS:
         1913 Int. Z. Psychoanal., 1 (2), 147-51.
         1918 S. K. S. N., 4 168-76 (1922, 2 ed.)
         1925 G. S., 3, 259-66.
         1925 Traumlehre, 3-10.
         1931 Sexualtheorie und Tramlehre, 308-15.
         1946 G. W., 10, 2-9.
         
         (b) TRADUO INGLESA:
         'The Occurrence in Dreams of Material from Fairy Tales'
         1925 C. P., 4, 236-43 (Trad. de James Strachey.)
         
         A presente traduo inglesa  uma reimpresso ligeiramente corrigida da publicada em 1925.
         
         O segundo dos dois exemplos relatados neste artigo derivou da anlise do caso do 'Wolf Man', que ainda se achava em tratamento com Freud por ocasio de 
sua publicao. A totalidade desta parte do trabalho foi includa literalmente na histria clnica, escrita em 1914 mas s publicada quatro anos depois - 'From the 
History of on Infantile Neurosis' (1918b). A anlise do sonho  ali levada muito adiante (Ver a partir de [1].)
         
         A OCORRNCIA, EM SONHOS, DE MATERIAL ORIUNDO DE CONTOS DE FADAS
         
         No  surpreendente descobrir que a psicanlise confirma nosso reconhecimento do lugar importante que os contos de fadas populares alcanaram na vida mental 
de nossos filhos. Em algumas pessoas, a rememorao de seus contos de fadas favoritos ocupa o lugar das lembranas de sua prpria infncia; elas transformaram esses 
contos em lembranas encobridoras.
         Elementos e situaes derivados de contos de fadas podem tambm ser encontrados em sonhos. Interpretando as passagens em apreo, o paciente produzir o 
conto de fadas significativo como associao. No presente artigo, darei dois exemplos desta ocorrncia muito comum, mas no ser possvel fazer mais que aludir s 
relaes entre os contos de fadas e a histria da infncia do que sonhou e sua neurose, embora esta limitao envolva o risco de romper vnculos que foram de mxima 
importncia para o analista.
                                                              I
         Aqui temos o sonho de uma jovem casada, que recebera a visita do marido alguns dias antes: Ela se achava num quarto que era inteiramente castanho. Uma portinha 
levava ao alto de uma escada ngreme e, por esta escada, entrou no quarto um curioso homenzinho - pequeno, de cabelos brancos, calvo no alto da cabea e de nariz 
vermelho. Ele danou em volta do quarto na frente dela, portou-se da maneira mais engraada e depois desceu pela escada novamente. Estava vestido com uma indumentria 
cinzenta, atravs da qual todas as partes de sua figura achavam-se visveis. (Subseqentemente, foi feita uma correo:  Estava usando um casaco preto comprido e 
calas cinzentas.)
         A anlise foi a seguinte. A descrio da aparncia pessoal do homnculo ajustava-se ao sogro da que sonhou, sem que nenhuma alterao fosse necessria. 
Imediatamente depois, porm, ela pensou na histria de 'Rumpelstiltskin', que danou  roda da mesma maneira engraada que o homem no sonho e, assim fazendo, revelou 
seu nome  rainha; mas por isso perdeu seu direito ao primeiro filho daquela, e, em sua fria, rasgou-se em dois.
         
         No dia anterior ao do sonho, ela estivera do mesmo modo furiosa com o marido e exclamara: 'Poderia rasg-lo em dois'.
         O quarto castanho, a princpio, causou dificuldades. Tudo o que lhe ocorria era a sala de jantar dos pais, que tinha painis dessa cor - em madeira castanha. 
Contou ento algumas histrias de cama que eram to inconfortveis para duas pessoas dormirem. Poucos dias antes, quando o assunto da conversa fora camas de outros 
pases, ela dissera algo muito mal  props - de modo inteiramente inocente, segundo sustentava - e todos na sala haviam rido s gargalhadas.
         O sonho era agora quase inteligvel. O quarto de madeira castanha era, em primeiro lugar, uma cama, e, atravs da vinculao com a sala de jantar, um leito 
matrimonial. Ela, portanto, achava-se em sua cama de casal. O visitante deve ter sido seu jovem marido, que, aps uma ausncia de vrios meses, visitara-a para desempenhar 
seu papel na cama dupla. Mas primeiramente era o pai do marido, seu sogro.
         Por trs desta primeira interpretao, temos um vislumbre de material mais profundo e puramente sexual. Aqui, o quarto era a vagina. (O quarto estava nela 
- o que foi invertido no sonho.) O homenzinho que fazia caretas e comportava-se de modo to engraado era o pnis. A porta estreita e a escada ngreme confirmavam 
a opinio de que a situao era uma representao da relao sexual. Geralmente estamos acostumados a encontrar o pnis simbolizado por uma criana; mas descobriremos 
que havia boas razes para um pai ser introduzido para representar o pnis, neste caso.
         A soluo da parte remanescente do sonho confirmar-nos- inteiramente esta interpretao. A que sonhou, ela prpria, explicou a indumentria cinzenta transparente 
como um preservativo. Podemos depreender que consideraes de preveno de concepo e preocupaes sobre saber se aquela visita do marido no poderia ter lanado 
a semente de um segundo filho, achavam-se entre as causas induzidoras do sonho.
         O casaco preto. Casacos deste tipo ficavam admiravelmente bem no marido. Ela queria persuadi-lo a us-los sempre, ao invs de suas roupas usuais. Vestido 
no casaco preto, portanto, seu marido era como ela gostava de v-lo. O casaco preto e as calas cinzentas. Em dois nveis diferentes, um acima do outro, isto tinha 
o mesmo significado: 'Gostaria que voc se vestisse assim. Gosto de voc assim.'
         Rumpelstiltskin estava vinculado aos pensamentos contemporneos subjacentes ao sonho - os resduos diurnos - por uma ntida relao antittica. No conto 
de fadas, ela chega a fim de levar o primeiro filho da rainha. No sonho, o homenzinho chega sob a forma de um pai, porque presumivelmente trouxera consigo um segundo 
filho. Mas Rumpelstiltskin tambm forneceu acesso ao estrato infantil, mais profundo, dos pensamentos onricos. O cmico sujeitinho, cujo prprio nome  desconhecido, 
cujo segredo  to avidamente discutido, que pode realizar truques extraordinrios - no conto de fadas, transforma palha em ouro - a fria contra ele, ou melhor, 
contra seu possuidor, que  invejado por possu-lo (a inveja que a menina tem do pnis) - todos foram elementos cuja relao com os fundamentos da neurose da paciente 
mal podem, como disse, ser aflorados neste artigo. Os cabelos cortados curtos do homenzinho do sonho achavam-se indubitavelmente vinculados tambm ao tema da castrao.
         Se observarmos cuidadosamente, a partir de exemplos claros, a maneira pela qual os sonhadores utilizam os contos de fadas e o momento no qual os trazem 
 baila, podemos talvez conseguir recolher algumas sugestes que nos ajudaro a interpretar obscuridades remanescentes nos prprios contos de fadas.
                                                             II
         Um jovem contou-me o sonho abaixo. Ele possua uma base cronolgica para suas primeiras lembranas na circunstncia de os pais terem-se mudado de uma propriedade 
rural para outra antes de ele completar cinco anos de idade; o sonho, que disse ser o seu mais antigo, ocorreu quando se achava ainda na primeira propriedade.
         'Sonhei que era noite e que eu estava deitado na cama. (Meu leito tem o p da cama voltado para a janela: em frente da janela havia uma fileira de velhas 
nogueiras. Sei que era inverno quando tive o sonho, e de noite.) De repente, a janela abriu-se sozinha e fiquei aterrorizado ao ver que alguns lobos brancos estavam 
sentados na grande nogueira em frente da janela. Havia seis ou sete deles. Os lobos eram inteiramente brancos e pareciam-se mais com raposas ou ces pastores, pois 
tinham caudas grandes, como as raposas, e orelhas empinadas, como ces quando prestam ateno a algo. Com grande terror, evidentemente de ser comido pelos lobos, 
gritei e acordei. Minha bab correu at minha cama, para ver o que me havia acontecido. Levou muito tempo at que me convencesse de que fora apenas um sonho; tivera 
uma imagem to clara e vvida da janela a abrir-se e dos lobos sentados na rvore. Por fim acalmei-me, senti-me como se houvesse escapado de algum perigo e voltei 
a dormir.
         'A nica ao no sonho foi a abertura da janela, pois os lobos estavam sentados muito quietos e sem fazer nenhum movimento sobre os ramos da rvore,  direita 
e  esquerda do tronco, e olhavam para mim. Era como se tivessem fixado toda a ateno sobre mim. Acho que foi meu primeiro sonho de ansiedade. Tinha trs, quatro, 
ou no mximo, cinco anos de idade na ocasio. Desde ento, at contar onze ou doze anos, sempre tive medo de ver algo terrvel em meus sonhos.'
         Ele acrescentou um desenho da rvore com os lobos, que confirmava sua descrio. A anlise do sonho trouxe  luz o seguinte material.
         Sempre vinculara este sonho  recordao de que, durante esses anos de infncia, tinha um medo tremendo da figura de um lobo num livro de contos de fadas. 
Sua irm mais velha, que era muito mais idosa que ele, costumava apoquent-lo segurando esta figura especfica na sua frente, sob qualquer pretexto, para que ele 
ficasse aterrorizado e comeasse a gritar. Na figura, o lobo achava-se ereto, dando um passo com uma das patas, com as garras estendidas e as orelhas empinadas. 
Achava que a figura deveria ter sido uma ilustrao da histria do 'Chapeuzinho Vermelho'.
         Por que os lobos eram brancos? Isto f-lo pensar nas ovelhas, grandes rebanhos das quais eram mantidos nas vizinhanas da propriedade. O pai ocasionalmente 
o levava a visitar esses rebanhos e, todas as vezes que isso acontecia, ele se sentia muito orgulhoso e feliz. Posteriormente - segundo indagaes feitas, pode facilmente 
ter sido pouco antes da poca do sonho - irrompeu uma epidemia entre as ovelhas. O pai mandou buscar um seguidor de Pasteur, que vacinou os animais, mas aps a inoculao 
morreram ainda mais delas que antes.
         Como os lobos apareceram na rvore? Isto f-lo lembrar-se de uma histria que ouvira o av contar. No podia recordar-se se fora antes ou depois do sonho, 
mas seu assunto constitui argumento decisivo em favor da primeira opinio. A histria dizia assim: um alfaiate estava sentado trabalhando em seu quarto, quando a 
janela se abriu e um lobo pulou para dentro. O Alfaiate perseguiu-o com seu basto - no (corrigiu-se), apanhou-o pela cauda e arrancou-a fora, de modo que o lobo 
fugiu correndo, aterrorizado. Algum tempo mais tarde, o alfaiate foi at a floresta e subitamente viu uma alcatia de lobos vindo em sua direo; ento trepou numa 
rvore para fugir-lhes. A princpio, os lobos ficaram perplexos; mas o aleijado, que se achava entre eles e queria vingar-se do alfaiate, props que trepassem uns 
sobre os outros, at que o ltimo pudesse apanh-lo. Ele prprio - tratava-se de um animal velho e vigoroso - ficaria na base da pirmide. Os lobos fizeram como 
ele sugeria, mas o alfaiate reconhecera o visitante a que havia castigado e de repente gritou, como fizera antes: 'Apanhem o cinzento pela cauda!' O lobo sem rabo, 
aterrorizado pela recordao, correu, e todos os outros desmoronaram.
         Nesta histria aparece a rvore sobre a qual os lobos se achavam sentados no sonho; mas contm tambm uma aluso inequvoca ao complexo de castrao. O 
lobo velho tivera a cauda arrancada pelo alfaiate. As caudas de raposa dos lobos do sonho eram provavelmente compensaes por esta falta de cauda. 
         Por que havia seis ou sete lobos? No parecia haver resposta para esta pergunta, at eu levantar uma dvida sobre saber se a figura que o assustava estava 
vinculada  histria de 'Chapeuzinho Vermelho'. Este conto de fadas s oferece oportunidade para duas ilustraes - Chapeuzinho Vermelho encontrando-se com o lobo 
na floresta e a cena em que o lobo se deita na cama, com o barrete de dormir da av. Teria de haver, portanto, algum outro conto de fadas por trs de sua recordao 
da figura. Ele logo descobriu que s podia ser a histria de 'O Lobo e os Sete Cabritinhos'. Nesta, ocorre o nmero sete, e tambm o nmero seis, pois o lobo s 
comeu seis dos cabritinhos, enquanto que o stimo se escondeu na caixa do relgio. O branco tambm nela aparece, pois o lobo fizera branquear sua pata no padeiro, 
aps o cabritinhos haverem-no reconhecido, em sua primeira visita, pela pata cinzenta. Alm disso, os dois contos de fadas possuem muito em comum. Em ambos existe 
o comer, a abertura da barriga, a retirada das pessoas que haviam sido comidas e sua substituio por pesadas pedras, e, finalmente, em ambas o lobo mau perece. 
Alm disso tudo, na histria dos cabritinhos aparece a rvore. O lobo deitou-se sob uma rvore, aps a refeio, e roncou.
         
         Por uma razo especial, terei de tratar deste sonho novamente alhures, interpret-lo e julgar sua significao com maiores pormenores; pois ele  o mais 
antigo sonho de ansiedade que o jovem que sonhou recordou de sua infncia, e seu contedo, tomado juntamente com outros sonhos que o seguiram pouco aps e com certos 
acontecimentos de seus primeiros anos de vida,  de interesse muito especial. Temos de limitar-nos aqui  relao do sonho com os dois contos de fadas que tm tanto 
em comum um com o outro, 'Chapeuzinho Vermelho' e 'O Lobo e os Sete Cabritinhos'. O efeito produzido por estas histrias foi demonstrado no pequeno que as sonhou 
mediante uma fobia animal comum. Esta fobia s se distinguia de outros casos semelhantes pelo fato de o animal causador da ansiedade no ser um objeto facilmente 
acessvel  observao (tal como um cavalo ou um co), mas conhecido dele somente de histrias e livros de figuras.
         Examinarei em outra ocasio a explicao destas fobias animais e a significao que se lhes atribui. Observarei apenas, por antecipao, que essa explicao 
se acha em completa harmonia com a caracterstica principal apresentada pela neurose de que o atual sonhador padeceu mais tarde na vida. Seu medo do pai era o motivo 
mais forte para ele cair doente e sua atitude ambivalente em relao a todo representante paterno foi o aspecto dominante de sua vida, assim como de seu comportamento 
durante o tratamento.
         Se, no caso de meu paciente, o lobo foi simplesmente um primeiro representante paterno, surge a questo de saber se o contedo oculto nos contos de fadas 
do lobo que comeu os cabritinhos e de 'Chapeuzinho Vermelho no pode ser simplesmente um medo infantil do pai. Alm disso, o pai de meu paciente tinha a caracterstica, 
apresentada por tantas pessoas em relao aos filhos, de permitir-se 'ameaas afetuosas'; e  possvel que, durante os primeiros anos do paciente, o pai (embora 
se tornasse severo mais tarde) pudesse, mais de uma vez, enquanto acariciava o menininho ou com ele brincava, t-lo ameaado por brincadeira 'de engoli-lo'. Uma 
de minhas pacientes contou-me que seus dois filhos nunca puderam chegar a gostar do av, porque, no decurso de seus ruidosos e afetuosos brinquedos com eles, costumava 
assust-los dizendo que lhes cortaria as barrigas.
         
         
         
         












O TEMA DOS TRS ESCRNIOS (1913)
         
         NOTA DO EDITOR INGLS
         
         DAS MOTIV DER KSTCHENWAHL
         
         (a) EDIES ALEMS:
         1913 Imago, 2 (3), 257-66.
         1918 S. K. S. N., 4, 470-85 (1922, 2 ed.)
         1924 G. S., 10, 243-56.
         1924 Dichtung und Kunst, 15-28.
         1946 G. W., 10, 24-37.
         
         (b) TRADUO INGLESA:
         'The Theme of the Three Caskets'
         1925 C. P., 4, 244-56. (Trad. de C. J. M. Hubback.)
         
         A presente traduo inglesa baseia-se na de 1925.
         A correspondncia de Freud (citada em Jones, 1955, 405) mostra que a idia subjacente a este artigo ocorreu-lhe em junho de 1912, embora o trabalho s fosse 
publicado um ano depois. Em carta a Ferenczi de 7 de julho de 1913, ele relacionou a 'determinante subjetiva' do artigo com suas trs filhas (Freud, 1960a).
         
         O TEMA DOS TRS ESCRNIOS
         
         I 
         Duas cenas de Shakespeare, uma de uma comdia e a outra de uma tragdia, proporcionaram-me ultimamente ocasio para colocar e solucionar um pequeno problema.
         A primeira destas cenas  a escolha dos pretendentes entre os trs escrnios, em O Mercador de Veneza. A bela e sbia Portia est comprometida, a pedido 
do pai, a tomar como marido apenas aquele de seus pretendentes que escolha o escrnio certo entre os trs que se lhe acham  frente. Os trs escrnios so de ouro, 
prata e chumbo: o certo  aquele que contm o retrato dela. Dois pretendentes j partiram sem sucesso; escolheram ouro e prata. Bassanio, o terceiro, decide-se em 
favor do chumbo; assim ganha a noiva, cuja afeio j era sua antes do julgamento da fortuna. Cada um dos pretendentes d os motivos para sua escolha num discurso 
em que louva o metal que prefere e deprecia os outros dois. A tarefa mais difcil compete assim ao afortunado terceiro pretendente; o que ele encontra para dizer 
em glorificao do chumbo, contra o ouro e a prata,  pouco e tem um cunho forado. Se, na clnica psicanaltica, nos defrontssemos com tal discurso, suspeitaramos 
que haveria motivos escondidos por trs das insatisfatrias razes apresentadas.
         Shakespeare no inventou este orculo da escolha de um escrnio; tirou-o de uma histria das Gesta Romanorum, no qual uma moa tem de fazer a mesma escolha 
para conquistar o filho do Imperador. Tambm aqui o terceiro metal, o chumbo,  o portador da fortuna. No  difcil adivinhar que temos aqui um tema antigo, que 
exige ser interpretado, explicado  sua origem. Uma primeira conjectura quanto ao significado desta escolha entre ouro, prata e chumbo  rapidamente confirmada por 
uma afirmao de Stucken, que efetuou um estudo do mesmo material num amplo campo. Escreve ele: 'A identidade dos trs pretendentes de Portia fica clara por sua 
escolha: o Prncipe de Marrocos escolhe o escrnio de ouro - ele  o Sol; o Prncipe de Arago escolhe o escrnio de prata - ele  a Lua; Bassanio escolhe o escrnio 
de chumbo - ele  o filho da estrela!' Em apoio de sua explicao, cita um episdio da epopia folclrica estoniana, 'Kalewipoeg', no qual os trs pretendentes aparecem 
sem disfarce como os filhos do Sol, da Lua e estrelas (o ltimo sendo 'o filho mais velho da Estrela Polar') e, mais uma vez, a noiva cabe ao terceiro.
         Assim nosso pequeno problema conduziu-nos a um mito astral! S  pena que, com esta explicao, no nos achemos no final da questo. Ela no est exaurida, 
pois no partilhamos da crena de alguns pesquisadores de que os mitos foram lidos nos cus e trazidos  Terra; estamos mais inclinados a julgar, com Otto Rank, 
que eles foram projetados para os cus aps haverem surgido alhures, sob condies puramente humanas.  neste contedo humano que reside nosso interesse.
         Examinemos novamente nosso material. Na pica estoniana, tal como no conto oriundo das Gesta Romanorum, o tema  uma moa que escolhe entre trs pretendentes; 
na cena de O Mercador de Veneza, o assunto  aparentemente o mesmo, mas, ao mesmo tempo, nele aparece algo com o carter de uma inverso do tema: um homem escolhe 
entre trs - escrnios. Se aquilo em que estamos interessados fosse um sonho, ocorrer-nos-ia em seguida que os escrnios so tambm mulheres, smbolos do que  essencial 
na mulher, e portanto da prpria mulher - como arcas, cofres, caixas, cestos etc. Se corajosamente presumirmos que h substituies simblicas do mesmo tipo tambm 
nos mitos, ento a cena do escrnio em O Mercador de Veneza tornar-se realmente a inverso que suspeitamos. Com um aceno de varinha de condo, como se estivssemos 
num conto de fadas, despojamos de nosso tema a indumentria astral e agora percebemos que ele  um tema humano, a escolha de um homem entre trs mulheres.
         Este mesmo contedo, porm, pode ser encontrado noutra cena de Shakespeare, num de seus dramas mais poderosamente comoventes; no a escolha de uma noiva 
desta vez, mas ligada por muitas semelhanas ocultas  escolha do escrnio em O Mercador de Veneza. O velho Rei Lear resolve dividir seu reino, enquanto ainda se 
acha vivo, entre as trs filhas, em proporo  quantidade de amor que cada uma delas expressar por ele. As duas mais velhas, Goneril e Regan, exaurem-se em asseveraes 
e louvores de seu amor por ele; a terceira, Cordlia, recusa-se a faz-lo. Ele deveria ter reconhecido o despretensioso e mudo amor da terceira filha e o recompensado, 
mas no o faz. Repudia Cordlia e divide o reino entre as outras duas, para sua prpria runa e runa geral. No  esta, mais uma vez, a cena de uma escolha entre 
trs mulheres, das quais a mais jovem  a melhor, a mais excelsa?
         Imediatamente ocorrer-nos-o outras cenas oriundas de mitos, contos de fadas e da literatura, com a mesma situao por contedo. O pastor Pris tem de escolher 
entre trs deusas, das quais declara ser a terceira a mais bela. Cinderela tambm  uma filha mais nova, preferida pelo prncipe s duas irms mais velhas. Psiqu, 
na histria de Apulcio,  a mais jovem e bela de trs irms. Ela , por um lado, reverenciada como Alfrodite em forma humana; por outro,  tratada por esta deusa 
como Cinderela foi tratada por sua madrasta e -lhe atribuda a tarefa de selecionar um monte de sementes misturadas, o que realiza com o auxlio de pequenas criaturas 
(pombas no caso de Cinderela, formigas no de Psiqu). Quem quer que me preocupasse em fazer um levantamento mais amplo do material descobriria indubitavelmente outras 
verses do mesmo tema, conservando as mesmas caractersticas essenciais.
         Contentemo-nos com Cordlia, Afrodite, Cinderela e Psiqu. Em todas as histrias, as trs mulheres, das quais a terceira  a mais excelsa, devem seguramente 
ser encaradas como de certo modo semelhantes, se so representadas como irms. (No devemos deixar-nos desencaminhar pelo fato de a escolha de Lear ser entre trs 
filhas; isto pode no representar nada mais do que ele ter de ser representado como um velho. Um velho no pode escolher muito bem entre trs mulheres, de nenhuma 
outra maneira. Assim, elas se tornaram suas filhas.)
         Mas quem so estas trs irms e por que deve a escolha recair na terceira? Se pudermos responder esta pergunta, estaremos na posse da interpretao que 
estamos buscando. J fizemos anteriormente uso de uma aplicao da tcnica psicanaltica, quando explicamos os trs escrnios simbolicamente como trs mulheres. 
Se tivermos a coragem de proceder da mesma maneira, estaremos iniciando um caminho que nos levar primeiro a algo inesperado e incompreensvel, mas que talvez, por 
uma estrada indireta, nos conduzir a um objetivo.
         Deve impressionar-nos que esta excelsa terceira mulher tenha, em diversos casos, certas qualidades peculiares, alm de sua beleza. So qualidadesque parecem 
tender no sentido de algum tipo de unidade e no devemos por certo esperar encontr-las igualmente bem assinaladas em todos os exemplos. Cordlia torna-se irreconhecvel, 
indistinguvel como o chumbo, permanece muda, 'ama e cala'. Cinderela se esconde de maneira a no ser encontrada. Podemos talvez permitir-nos igualar ocultamento 
e mudez. Estes, naturalmente, seriam apenas dois exemplos, dos cinco que escolhemos. Mas h uma insinuao da mesma coisa a ser encontrada, de modo bastante curioso, 
em dois outros casos. Decidimos comparar Cordlia, com sua recusa obstinada, ao chumbo. No breve discurso de Bassanio, enquanto est escolhendo o escrnio, diz ele 
do chumbo (sem, de maneira alguma, conduzir a fala para a observao):
         'Tua palidez comove-me mais que a eloqncia.'
         Quer dizer: 'Tua simplicidade comove-me mais que a natureza espalhafatosa dos outros dois.' Ouro e prata so 'gritantes'; o chumbo  mudo - na verdade, 
como Cordlia, que 'ama e cala'.
         Nos antigos relatos gregos do julgamento de Pris, nada se diz de tal reticncia por parte de Afrodite. Cada uma das trs deusas fala ao jovem e tenta conquist-lo 
atravs de promessas. Mas, de modo bastante esquisito, num tratamento inteiramente moderno da mesma cena, esta caracterstica da terceira, que nos impressionou, 
faz seu aparecimento de novo. No libreto de La Belle Hlne, de Offenbach, Pris, aps falar das solicitaes das outras duas deusas, descreve a conduta de Afrodite 
na competio pelo prmio da beleza:
         La troisime, ah! la troisime...
         La troisime ne dit rien.
         Elle eut le prix tout de mme...
         Se nos decidirmos a encarar as peculiaridades de nossa 'terceira' como concentradas em sua 'mudez', ento a psicanlise nos dir que, nos sonhos, a mudez 
 uma representao comum da morte.
         
         H mais de dez anos, um homem muito inteligente me contou um sonho que desejava utilizar como prova da natureza teleptica dos sonhos. Nele, vira um amigo 
ausente de quem no havia recebido notcias por tempo muito longo, e censurara-o energicamente por seu silncio. O amigo no deu resposta. Posteriormente descobriu-se 
que havia encontrado a morte por suicdio, aproximadamente  poca do sonho. Permitam-nos deixar o problema da telepatia de lado: entretanto, no parece haver qualquer 
dvida de que aqui a mudez no sonho representava a morte. Esconder-se e no ser encontrado - algo com que o prncipe se defronta por trs vezes na histria de Cinderela 
- constitui outro smbolo inequvoco de morte nos sonhos; assim tambm um palor acentuado, do qual a 'palidez' do chumbo em determinada variante do texto shakespereano 
 um lembrete. Ser-nos-ia muito mais fcil transpor estas interpretaes da linguagem dos sonhos para a modalidade da expresso empregada no mito que agora est 
sendo considerada, se pudssemos fazer parecer provvel que a mudez deve ser interpretada como sinal de estar morto, em outras produes que no os sonhos.
         Neste ponto, escolheria a nona histria dos Contos de Fadas de Grimm, a que tem o ttulo de 'Os Doze Irmos'. Um rei e uma rainha tm doze filhos, todos 
rapazes. O rei declara que se o dcimo terceiro for uma menina, os rapazes tero de morrer. Na expectativa do nascimento dela, manda fazer doze atades. Com o auxlio 
da me, os doze filhos buscam refgio numa floresta escondida e juram dar morte a qualquer moa que possam encontrar. Nasce uma menina, cresce e sabe um dia, por 
sua me, que teve doze irmos. Decide procur-los e, na floresta, encontra o mais jovem; este a reconhece, mas fica ansioso por escond-la, devido ao juramento dos 
irmos. A irm diz: 'Morrerei alegremente, se assim puder salvar meus doze irmos.' Estes a acolhem afetuosamente porm, e ela fica com eles, tomando conta da casa. 
Num pequeno jardim ao lado da casa crescem doze lrios. A moa os colhe e d um a cada irmo. Nesse momento, os irmos so transformados em corvos e desaparecem, 
junto com a casa e o jardim. (Corvos so pssaros-espritos; a morte dos doze irmos pela irm  representada pela colheita das flores, tal como o , no comeo da 
histria, pelos atades e pelo desaparecimento dos irmos.)  moa, que mais uma vez est pronta a salvar os irmos da morte,  dito ento que, como condio, ela 
deve ficar muda por sete anos e no pronunciar uma s palavra. Ela se submete ao teste, que a coloca em perigo mortal; isto , ela prpria morre pelos irmos, como 
prometera fazer antes de encontr-los. Por permanecer muda, consegue finalmente libertar os corvos.
         Na histria de 'Os Setes Cisnes', os irmos que foram transformados em pssaros so libertados exatamente da mesma maneira: so restitudos  vida pela 
mudez da irm. A moa tomou a firme resoluo de liberar os irmos, 'mesmo que isso lhe custasse a vida', e mais uma vez (sendo esposa do rei) arrisca a prpria 
vida ao recusar-se a abandonar sua mudez, a fim de defender-se contra acusaes perversas.
         Seria certamente possvel coligar outras provas, nos contos de fadas, de que a mudez deve ser compreendida como representando a morte. Estas indicaes 
levar-nos-iam a concluir que a terceira das irms entre as quais a escolha  feita  uma morta. Mas ela pode ser tambm algo mais - a saber, a prpria Morte, a Deusa 
da Morte. Graas a um deslocamento que est longe de ser raro, as qualidades que uma divindade confere aos homens so atribudas  prpria divindade. Um deslocamento 
assim surpreender-nos-ia ainda menos em relao  Deusa da Morte, visto que nas verses e representaes modernas, que estas histrias estariam assim antecipando, 
a prpria Morte nada mais  que um morto.
         Mas se a terceira das irms  a Deusa da Morte, as irms ns conhecemos. Trata-se das Parcas, das Moiras, das Nornas, a terceira das quais  chamada tropos, 
a inexorvel.
                                                              II
         Colocaremos de lado por enquanto a tarefa de inserir a interpretao encontrada em nosso mito e escutaremos o que os mitlogos tm a ensinar-nos sobre o 
papel e a origem das Parcas.
         A primitiva mitologia grega (em Homero) conhecia apenas uma s g, a personificar o destino inevitvel. O desenvolvimento ulterior desta Moira nica num 
conjunto de trs (ou, menos amide, duas) deusas-irms provavelmente efetuou-se com base noutras figuras divinas a que as Moiras se achavam estreitamente relacionadas 
- as Graas e as Horas [as Estaes].
         
         As Horas eram originalmente deusas das guas do cu, distribuidoras da chuva e do orvalho, e das nuvens das quais a chuva cai; visto as nuvens serem concebidas 
como algo que fora tecido, aconteceu que essas deusas fossem encaradas como fiandeiras, atributo que depois se relacionou s Moiras. Nas terras mediterrneas favorecidas 
pelo Sol,  da chuva que a fertilidade do solo depende, e assim as Horas tornaram-se deusas da vegetao. A beleza das flores e a abundncia dos frutos eram criaes 
suas, e a elas era creditada abundncia de traos agradveis e encantadores. Tornaram-se as representantes divinas das Estaes, sendo provavelmente devido a esta 
conexo que havia trs delas, se a natureza sagrada do nmero trs no foi explicao suficiente. Pois os povos da antigidade a princpio distinguiam apenas trs 
estaes: inverno, primavera e vero. O Outono s foi acrescentado em perodo greco-romano posterior, aps o que as Horas foram muitas vezes representadas na arte 
em nmero de quatro.
         As Horas mantiveram sua relao com o tempo. Posteriormente, presidiram s horas do dia, como a princpio haviam feito s pocas do ano; e, por fim, seu 
nome veio a ser simplesmente uma designao das horas (heure, ora). As Nornas da mitologia germnica so aparentadas com as Horas e as Moiras e apresentam esta significao 
de tempo em seus nomes. Era inevitvel, contudo, que se viesse a ter uma viso mais profunda da natureza essencial desta deidades, e que sua essncia fosse transposta 
para a regularidade com que as estaes mudam. As Horas, assim, tornaram-se as guardis da lei natural e da Ordem divina que fazem a mesma coisa reaparecer na Natureza 
numa seqncia inaltervel.
         Esta descoberta da Natureza reagiu sobre a concepo da vida humana. O mito da natureza transformou-se num mito humano: as deusas do tempo tornaram-se deusas 
do Destino. Este aspecto das Horas, porm, encontrou expresso apenas nas Moiras, que vigiam a ordenao necessria da vida humana to inexoravelmente quanto as 
Horas, a ordem normal da Natureza. A inelutvel severidade da Lei e sua relao com a morte e a dissoluo, que haviam sido evitadas nas encantadoras figuras das 
Horas, estavam agora caracterizadas nas Moiras, como se os homens s houvessem percebido toda a seriedade da lei natural quando tiveram de submeter suas prprias 
personalidades a ela.
         
         Os nomes das trs fiandeiras foi tambm significativamente explicado pelos mitlogos. Lquesis, o nome da segunda, parece designar 'o acidental que se acha 
includo na regularidade do destino' - ou, como diramos, a 'experincia'; tal como tropos representa 'o inelutvel' - a Morte. A Cloto sobraria ento significar 
a disposio inata, com suas implicaes fatdicas.
         Mas j  tempo de retornar ao tema que estamos tentando interpretar - o tema da escolha entre trs irms. Ficaremos profundamente desapontados em descobrir 
quo ininteligveis se tornam as situaes sob exame e que contradies resultam de seu contedo aparente, se aplicarmos a elas a interpretao que descobrimos. 
Segundo nossa suposio, a terceira das irms  a Deusa da Morte, a prpria Morte. Mas no Julgamento de Pris ela  a deusa por sua beleza; em O Mercador de Veneza, 
 a mais bela e sbia das mulheres; no Rei Lear,  a nica filha leal. Podemos perguntar se pode existir contradio mais completa. Talvez, por improvvel que possa 
parecer, haja outra ainda mais completa ao alcance da mo. Na verdade, certamente existe, visto que, onde quer que nosso tema ocorra, a escolha entre as mulheres 
 livre e no entanto recai na morte. Afinal de contas, ningum escolhe a morte e  apenas por fatalidade que se tomba vtima dela.
         Entrentanto, contradies de um certo tipo - substituies pelo contrrio exato - no oferecem dificuldade sria ao trabalho da interpretao analtica. 
No apelaremos aqui para o fato de os contrrios serem to amide representados por um s e mesmo elemento nos modos de expresso utilizados pelo inconsciente, tal 
como, por exemplo, nos sonhos. Mas lembraremos que existem na vida mental foras motivadoras que ocasionam a substituio pelo oposto, na forma do que  conhecido 
como formao reativa; e  precisamente na relao de foras ocultas como estas que procuramos a recompensa de nossa indagao. As Moiras foram criadas em resultado 
de uma descoberta que advertiu o homem de que ele tambm faz parte da natureza e, portanto, acha-se sujeito  imutvel lei da morte. Algo no homem estava fadado 
a lutar contra esta sujeio, pois  apenas com extrema m-vontade que ele abandona sua pretenso a uma posio excepcional. O homem, como sabemos, faz uso de sua 
atividade imaginativa a fim de satisfazer os desejos que a realidade no satisfaz. Assim sua imaginao rebelou-se contra o reconhecimento da verdade corporificada 
no mito das Moiras e construiu em seu lugar o mito dele derivado, no qual a Deusa da Morte foi substituda pela Deusa do Amor e pelo que lhe era equivalente em forma 
humana. A terceira das irms no era mais a Morte; era a mais bela, a melhor, a mais desejvel e amvel das mulheres. Tampouco foi esta substituio, de modo algum, 
tecnicamente difcil: ela foi preparada por uma antiga ambivalncia e executada ao longo de uma linha primeva de conexo, que no poderia ter sido h muito esquecida. 
A prpria Deusa do Amor, que agora assumira o lugar da Deusa da Morte, fora outrora idntica a ela. Mesmo a Afrodite grega no abandonara inteiramente sua vinculao 
com o mundo dos mortos, embora h muito tempo houvesse entregado seu papel ctnico a outras figuras divinas, a Persfone ou  triforme Artmis-Hcate. As grandes 
deusas-Mes dos povos orientais, contudo, parecem todas ter sido tanto criadoras quanto destruidoras - tanto deusas da vida e da fertilidade quanto deusas da morte. 
Assim, a substituio por um oposto desejado em nosso tema retorna a uma identidade primeva.
         A mesma considerao responde  pergunta de como a caracterstica de uma escolha juntou-se ao mito das trs irms. Aqui tambm houve uma inverso desejada. 
A escolha se coloca no lugar da necessidade, do destino. Desta maneira, o homem supera a morte, que reconheceu intelectualmente. No  concebvel maior triunfo da 
realizao de desejos. Faz-se uma escolha onde, na realidade, h obedincia a uma compulso; e o escolhido no  uma figura de terror, mas a mais bela e desejvel 
das mulheres.
         Numa inspeo mais chegada observamos, sem dvida, que o mito original no  to completamente deformado que traos dele no apaream e revelem sua presena. 
A livre escolha entre as trs irms no , propriamente falando, uma escolha livre, pois deve necessariamente recair na terceira, do contrrio todo tipo de malefcio 
pode acontecer, como sucede em Rei Lear. A mais bela e melhor das mulheres, que assumiu o lugar da Deusa da Morte, manteve certas caractersticas que beiram o sinistro, 
de maneira que, a partir delas, pudemos adivinhar o que jaz por baixo.
         
         At aqui, estivemos acompanhando o mito e sua transformao, sendo de se esperar que indicamos corretamente as causas ocultas da transformao. Podemos 
agora voltar nosso interesse para a maneira pela qual o dramaturgo fez uso do tema. Ficamos com a impresso de que uma reduo do tema ao mito original est sendo 
realizada em seu trabalho, de maneira que, uma vez mais, temos a sensao da comovente significao que foi enfraquecida pela deformao.  mediante esta reduo 
da deformao, este retorno parcial ao original, que o dramaturgo alcana seu efeito mais profundo sobre ns.
         Para evitar ms interpretaes, gostaria de dizer que no  minha inteno negar que a histria dramtica do Rei Lear destina-se a inculcar duas sbias 
lies: a prpria vida e que devemos guardar-nos de aceitar a lisonja pelo seu valor aparente. Estas advertncias e outras semelhantes so indubitavelmente postas 
em relevo pela pea; mas me parece inteiramente impossvel explicar o irresistvel efeito de Rei Lear a partir da impresso que tal seqncia de pensamento produziria, 
ou supor que os motivos pessoais do dramaturgo no foram alm da inteno de ensinar essas lies. Sugere-se, tambm, que seu intuito foi apresentar a tragdia da 
ingratido, cujo aguilho bem pode ter sentido no prprio corao, e que o efeito da pea repousa no elemento puramente formal de sua apresentao artstica; mas 
isto no pode, segundo me parece, tomar o lugar da compreenso que nos foi trazida pela explicao a que chegamos do tema da escolha entre as trs irms.
         Lear  um homem velho.  por esta razo, como j dissemos, que as trs irms aparecem como filhas suas. O relacionamento de um pai com os filhos, que poderia 
ser uma fonte fecunda de muitas situaes dramticas, no recebe considerao ulterior na pea. Mas Lear no  apenas um homem velho:  um homem moribundo. Desta 
maneira, a extraordinria premissa da diviso de sua herana perde toda sua estranheza. Mas o homem condenado no est disposto a renunciar o amor das mulheres; 
insiste em ouvir quanto  amado. Permitam-nos agora recordar a comovente cena final, um dos pontos culminantes da tragdia no teatro moderno. Lear carrega o corpo 
morto de Cordlia para o palco. Cordlia  a Morte. Se invertermos a situao, ela se torna inteligvel e familiar par ns. Ela  Deusa da Morte que, como as Valqurias 
na mitologia germnica, recolhe do campo de batalha o heri morto. A sabedoria eterna, vestida deste mito primevo, convida o velho a renunciar ao amor, escolher 
a morte e reconciliar-se com a necessidade de morrer.
         O dramaturgo nos leva mais prximo do tema antigo, por representar o homem que faz a escolha entre as trs irms como idoso e moribundo. A reviso regressiva 
que assim aplicou ao mito, deformada como foi pela transformao prenhe de desejo, permite-nos vislumbres suficientes de seu significado original para capacitar-nos 
a chegar tambm a uma interpretao alegrica superficial das trs figuras femininas do tema. Poderamos argumentar que o que se acha representado aqui so as trs 
inevitveis relaes que um homem tem com uma mulher - a mulher que o d  luz, a mulher que  a sua companheira e a mulher que o destri; ou que elas so as trs 
formas assumidas pela figura da me no decorrer da vida de um homem - a prpria me, a amada que  escolhida segundo o modelo daquela, e por fim, a Terra Me, que 
mais uma vez o recebe. Mas  em vo que um velho anseia pelo amor de uma mulher, como o teve primeiro de sua me; s a terceira das Parcas, a silenciosa Deusa da 
Morte, toma-lo- nos braos.
         
         
         
         





























DUAS MENTIRAS CONTADAS POR CRIANAS (1913)
         
         NOTA DO EDITOR INGLS
         
         ZWEI KINDERLGEN
         
         (a) EDIES ALEMS:
         1913 Int. Z. Psychoanal., 1, (4), 359-62.
         1918 S. K. S. N., 4, 189-94, (1922, 2 ed.)
         1924 G. S., 5, 238-43.
         1926 Psychoanalyse der Neurosen, 16-22.
         1931 Neurosenlehre und Technik, 17-21.
         1943 G. W., 8, 422-7.
         
         (b) TRADUO INGLESA:
         'Infantile Mental Life: Two Lies Told by Children'
         1924 C. P., 2, 144-9. (Trad. de E. C. Mayne.)
         
         A presente traduo inglesa  verso modificada (sob um ttulo abreviado) da publicada em 1924.
         
         Em seu primeiro aparecimento na Zeitschrift (no vero de 1931), este artigo foi o primeiro de vrios, escritos por diversos autores, includos sob o ttulo 
geral 'Aus dem infantilen Seelenleben'. Este ttulo foi incorporado  reimpresso de 1918 do trabalho e tambm inserido no ttulo da traduo inglesa de 1924; posteriormente, 
foi abandonado.
         
         DUAS MENTIRAS CONTADAS POR CRIANAS
         
         Podemos entender que as crianas contem mentiras quando, assim procedendo, esto imitando as mentiras ditas por adultos. Mas um certo nmero de mentiras 
contadas por crianas bem educadas possuem significao especial e deveriam fazer com que seus responsveis refletissem, de preferncia a ficarem zangados. Estas 
mentiras ocorrem sob a influncia de sentimentos excessivos de amor e se tornam momentosas quando conduzem a uma m compreenso entre a criana e a pessoa que ela 
ama.
                                                             I 
         Uma menina de sete anos (em seu segundo ano na escola) pedira ao pai dinheiro para comprar tintas de pintar ovos de Pscoa. O pai recusara, dizendo que 
no o tinha. Pouco depois, a menina pediu-lhe dinheiro como contribuio para uma coroa para o funeral da princesa reinante, que falecera recentemente. Cada um dos 
escolares deveria trazer cinqenta pfennigs [seis pence]. O pai deu-lhe dez marcos [dez xelins]; ela pagou sua contribuio, colocou nove marcos na escrivaninha 
do pai e com os restantes cinqenta pfennigs comprou algumas tintas, que escondeu em seu armrio de brinquedos. Ao jantar, o pai suspeitosamente perguntou-lhe o 
que havia feito com os cinqenta pfennigs faltantes e se ela no havia comprado tintas com eles, afinal. Ela o negou, mas o irmo, dois anos mais velho que ela, 
e com quem havia planejado pintar os ovos, traiu-a; as tintas foram encontradas no armrio. O pai irado entregou a criminosa  me, para o castigo, e este foi severamente 
administrado. Posteriormente, a me ficou, ela prpria, muito abalada, quando viu quo grande era o desespero da filha. Acariciou a menininha aps a punio e levou-a 
para um passeio, a fim de consol-la. Mas os efeitos da experincia, descritos pela prpria paciente como o 'ponto decisivo em sua vida', mostraram ser inerradicveis. 
At ento, fora uma criana brincalhona e autoconfiante; depois, tornou-se acanhada e tmida. Quando noivou e sua me empreendeu a compra dos mveis e do enxoval, 
assumiu uma raiva incompreensvel at mesmo para ela prpria. Tinha a impresso de que, afinal de contas, era o dinheiro dela, e que ningum mais deveria comprar 
nada com ele. Como recm-casada, acanhava-se de pedir dinheiro ao marido para qualquer despesa com suas necessidades pessoais e efetuou uma distino no exigida 
entre o dinheiro 'dela' e o dele. Durante o tratamento, aconteceu ocasionalmente que as remessas do marido a ela se atrasassem, de modo que era deixada sem recursos 
numa cidade estranha. Aps haver-me contado isto uma vez, fi-la prometer que, se acontecesse de novo, ela me pediria emprestada a pequena quantia necessria. Prometeu 
faz-lo; mas, na ocasio seguinte de dificuldades financeiras, no se ateve  promessa, mas preferiu empenhar suas jias. Explicou-me que no poderia receber dinheiro 
de mim.
         A apropriao dos cinqenta pfennigs em sua infncia tivera uma significao que o pai no poderia adivinhar. Algum tempo antes de comear a ir  escola, 
fizera uma travessura singular com dinheiro. Um vizinho, com quem mantinham relaes amistosas, mandara a menina com uma pequena soma de dinheiro, na companhia de 
seu prprio filho, que era ainda mais moo, comprar algo numa loja. Sendo a mais velha dos dois, ela trazia o troco de volta para casa; mas ao encontrar o criado 
do vizinho na rua, jogou o dinheiro sobre a calada. Na anlise desta ao, que ela prpria achava inexplicvel, ocorreu-lhe pensar em Judas, que jogara fora os 
trinta dinheiros de prata que recebera por trair o Mestre. Disse que certamente se achava familiarizada com a histria da Paixo, antes de freqentar a escola. Mas 
de que maneira poderia ela identificar-se com Judas?
         Quando contava trs anos e meio de idade, tivera uma bab de quem gostava extremamente. Esta moa envolveu-se num caso amoroso com um mdico cuja clnica 
cirrgica ela visitou com a criana. Parece que, nessa ocasio, a criana assentiu a diversos atos sexuais. No  certo se ela viu o mdico dar dinheiro  moa, 
mas no h dvida de que, para assegurar-se do silncio da menina, a moa deu-lhe algumas moedinhas, com as quais compras foram feitas (provavelmente doces) no caminho 
para casa.  tambm possvel que o prprio mdico, ocasionalmente, desse dinheiro  criana. No obstante, por cime, a menina traiu a moa  me. Brincou to ostensivamente 
com as moedas que trouxera para casa que a me no pde deixar de perguntar: 'Onde foi que voc conseguiu esse dinheiro?' A moa foi despedida.
         Tirar dinheiro de algum veio assim a significar precocemente para ela uma rendio fsica, uma relao ertica. Tirar dinheiro do pai equivalia a uma declarao 
de amor. A fantasia de que o pai era seu amante era to sedutora que, com seu auxlio, seu desejo pueril de tintas para os ovos de Pscoa facilmente ps-se em ao, 
apesar da proibio. Ela no podia admitir, contudo, que se havia apropriado do dinheiro; foi obrigada a neg-lo, porque seu motivo para o feito, inconsciente para 
ela prpria, no podia ser admitido. A punio do pai constituiu assim uma rejeio da ternura que ela lhe oferecia - uma humilhao - e, dessa maneira, desencorajou-a. 
Durante o tratamento, ocorreu um perodo de grave depresso (cuja explicao levou-a a recordar-se dos acontecimentos aqui descritos) quando, em certa ocasio, fui 
obrigado a reproduzir essa humilhao, ao pedir-lhe para no me trazer mais flores.
         Para os psicanalistas, mal preciso enfatizar o fato de que, nessa pequena experincia da criana, temos diante de ns um daqueles casos extremamente comuns 
em que o erotismo anal primitivo persiste na vida ertica posterior. Mesmo o desejo dela de pintar ovos com tintas derivava da mesma fonte.
                                                               II
         Uma mulher, que hoje se acha seriamente enferma em conseqncia de uma frustrao na vida, foi, em outros tempos, uma moa particularmente capaz, amante 
da verdade, sria e virtuosa, e tornou-se uma esposa afetuosa. Mais cedo ainda, porm, nos primeiros anos de vida, havia sido uma criana descontente e cheia de 
vontades e, embora se houvesse transformado de modo bastante rpido numa menina excessivamente boa e conscienciosa, havia ocorrncias em seus dias escolares que, 
quando caa enferma, provocavam-lhe profundas auto-acusaes, e eram por ela encaradas como provas de depravao fundamental. Sua memria contou-lhe que, naqueles 
dias, amide gabara-se e mentira. Certa vez, no caminho para a escola, um colega dissera-lhe jactanciosamente: 'Ontem tivemos gelo ao jantar.' Ela replicou: 'Ora, 
ns temos gelo todos os dias.' Na realidade, no sabia o que gelo ao jantar poderia significar; s conhecia gelo nos compridos blocos em que  transportado, mas 
presumiu que deveria haver algo de grandioso em t-lo ao jantar, de maneira que se recusou a ser suplantada pelo colega.
         Quando estava com dez anos de idade, receberam a incumbncia, na aula de desenho, de fazerem o desenho a mo livre de um crculo. Ela, porm, usou um compasso, 
produzindo assim facilmente um crculo perfeito, e mostrou sua realizao em triunfo ao vizinho de sala. A professora chegou, ouviu-a gabar-se, descobriu as marcas 
do compasso no crculo e interrogou a criana. Mas ela obstinadamente negou o que havia feito, no se rendeu a nenhuma prova e refugiou-se num silncio embirrado. 
A professora consultou seu pai a respeito e foram ambos influenciados pelo comportamento geralmente bom da menina ao decidir no tomar outras medidas quanto ao assunto.
         Ambas as mentiras da criana foram estimuladas pelo mesmo complexo. Como a mais velha de cinco filhos, a menininha cedo desenvolveu uma ligao inusitadamente 
intensa com o pai, que estava destinada, quando ela crescesse, a arruinar sua felicidade na vida. Mas ela no podia mais fugir  descoberta de que seu pai bem-amado 
no era uma personagem to grande quanto se achava inclinada a pensar. Ele tinha de lutar com dificuldades financeiras; no era to poderoso ou to distinto quanto 
ela imaginara. Mas ela no podia suportar esse afastamento do seu ideal. Visto que, como fazem as mulheres, ela baseara toda sua ambio no homem que amava, tornou-se 
intensamente dominada pelo motivo de apoiar seu pai contra o mundo. Assim, gabava-se a seus colegas de escola, a fim de no ter de diminuir o pai. Mais tarde, quando 
aprendeu a traduzir gelo ao jantar por 'glace', suas auto-acusaes a respeito desta reminiscncia conduziram-na facilmente a um pavor patolgico de fragmentos ou 
estilhas de vidro.
         Seu pai era um excelente desenhista e amide despertara o prazer e a admirao dos filhos atravs de exibies de sua habilidade. Fora como uma identificao 
dela prpria com o pai que desenhara o crculo na escola - o que s pde fazer com sucesso atravs de mtodos enganosos. Era como se tivesse querido gabar-se: 'Olhem 
o que meu pai pode fazer!' A sensao de culpa que se achava ligada a seu afeto excessivo pelo pai encontrou expresso juntamente com a mesma tentativa de burla; 
uma admisso era impossvel pela mesma razo que foi dada na primeira destas observaes [ver em [1]]: inevitavelmente teria sido uma admisso de seu amor oculto 
e incestuoso.
         No devemos pensar levianamente em tais episdios da vida de crianas. Seria srio equvoco interpretar ms aes infantis como estas como prognstico de 
desenvolvimento de um mau carter. No obstante, elas se acham intimamente vinculadas s foras motivadoras mais poderosas nas mentes das crianas e anunciam disposies 
que levaro a contingncias posteriores em suas vidas ou a futuras neuroses.
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
A DISPOSIO  NEUROSE OBSESSIVA
UMA CONTRIBUIO AO PROBLEMA DA ESCOLHA DA NEUROSE (1913)
         
         NOTA DO EDITOR INGLS
         
         DIE DISPOSITION ZUR ZWANGSNEUROSE
         EIN BEITRAG ZUM PROBLEM DER NEUROSENWAHL
         
         (a) EDIES ALEMS:
         1913 Int. Z. Psychoanal., 1 (6), 525-32.
         1918 S. K. S. N., 4, 113-24, (1922, 2 ed.)
         1924 G. S., 5, 277-87.
         1926 Psychonalyse der Neurosen, 3-15.
         1931 Neurosenlehre und Technik, 5-16.
         1943 G. W., 8, 442-52.
         
         (b) TRADUO INGLESA:
         'The Predisposition to Obsessional Neurosis: A Contribution to the Problem of the Option of Neurosis'
         1924 C. P., 2, 122-32. (Trad. de E. Glover e E. C. Mayne.)
         
         A presente traduo inglesa da autoria de James Strachey, com o ttulo modificado, aparece aqui pela primeira vez.
         
         Este artigo foi lido por Freud perante o Quarto Congresso Psicanaltico Internacional, realizado em Munique em 7 e 8 de setembro de 1913, e publicado no 
final desse ano.
         Dois tpicos de importncia especial so nele examinados. Em primeiro lugar, h o problema da 'escolha da neurose', que d ao trabalho o seu subttulo. 
Era um problema que apoquentava Freud desde tempos muito antigos. Trs longos exames dele podero ser encontrados entre os documentos de Fliess, datando de 1 de 
janeiro de 1896 (Freud, 1950a, Rascunho K), 30 de maio de 1896 (ibid., Carta 46, onde a prpria expresso aparece), e 6 de dezembro de 1896 (ibid., Carta 52). Aproximadamente 
ao mesmo tempo que os dois primeiros destes, referncias ao assunto apareceram em trs trabalhos publicados de Freud: em seu artigo em francs sobre a hereditariedade 
e a etiologia das neuroses (1896a), no segundo de seus dois trabalhos sobre as neuropsicoses de defesa (1896b) e no artigo sobre 'The Aetiology of Hysteria' (1896c).
         Nestes primeiros exames do problema, pode-se distinguir duas solues diferentes, que se assemelhavam muito, contudo, por postular uma etiologia traumtica 
para as neuroses. Primeiramente, houve a teoria passiva e ativa mencionada no presente artigo (ver em [1]), a teoria de que experincias sexuais passivas na primeira 
infncia predispunham  histeria, e as ativas  neurose obsessiva. Dez anos depois, num exame do papel desempenhado pela sexualidade nas neuroses (1906a), Freud 
repudiou inteiramente essa teoria (Ver em [1], 1972).
         A segunda destas primitivas teorias, que no foi mantida completamente distinta da primeira, atribua o fator decisivo a consideraes cronolgicas. Imaginava-se 
que a forma assumida por uma neurose dependesse do perodo da vida em que a experincia traumtica ocorrera, ou, noutra verso, dos perodos da vida em que se empreendeu 
ao defensiva contra o revivescimento da experincia traumtica. Numa carta a Fliess, de 24 de janeiro de 1897 (Freud, 1950a, Carta 57), escreveu ele: 'entrementes, 
a opinio que at aqui havia sustentado, de que a escolha da neurose era determinada pela ocasio de sua gnese, est-se tornando menos segura; a escolha parece 
antes ser fixada na mais remota infncia. Mas a deciso ainda oscila entre a ocasio da gnese e a poca da represso, embora prefira agora a ltima.' E, alguns 
meses mais tarde, em 14 de novembro de 1897 (ibid., Carta 75): 'A escolha da neurose - a deciso de se  gerada histeria, neurose obsessiva ou parania - depende 
provavelmente da natureza da onda [de desenvolvimento] (isto , de sua situao cronolgica) que torna possvel a represso (isto , que transforma uma fonte de 
prazer interno noutra de repugnncia interna).'
         Mas aps outros dois anos, em 9 de dezembro de 1899 (ibid., Carta 125), surge uma passagem que parece prenunciar as opinies posteriores de Freud: 'H no 
muito tempo, tive o que pode ter sido um primeiro vislumbre de algo novo. Tenho diante de mim o problema da "escolha da neurose'. Quando  que uma pessoa se torna 
histrica, ao invs de paranica? Uma primeira tentativa grosseira, feita numa ocasio em que estava tentando assaltar a cidadela  fora, apresentou a opinio de 
que isso dependia da idade em que os traumas sexuais ocorreram - da idade do indivduo na poca da experincia. Abandonei isso h muito tempo e fiquei sem nenhuma 
pista, at alguns dias atrs, quando comecei a perceber um vnculo com a teoria da sexualidade.
         'O estrato sexual mais baixo  o auto-erotismo, que passa sem qualquer objetivo psicossexual e exige apenas sensaes locais de satisfao. Ele  sucedido 
pelo auto-erotismo (homo- e heteroerotismo); mas certamente tambm continua a existir como corrente separada. A histeria (e sua variante, a neurose obsessiva)  
auto-ertica; seu principal caminho  a identificao com a pessoa amada. A parania desfaz a identificao novamente; ela restabelece todas as figuras amadas na 
infncia, que foram abandonadas (cf. meu exame dos sonhos exibicionistas), e desfaz o prprio ego em figuras exteriores. Assim, vem a encarar a parania como uma 
onda dianteira da corrente auto-ertica, como um retorno ao ponto de vista ento predominante. A perverso correspondente a ela seria o que  conhecido como "parania 
idioptica". As relaes especiais do auto-erotismo com o "ego" original lanariam luz clara sobre a natureza desta neurose. Neste ponto, o fio se rompe.'
         Aqui Freud se aproximava da posio delineada nas pginas de encerramento de seus Trs Ensaios (1905d), a partir de [1], 1972. O complicado processo de 
desenvolvimento sexual sugerira uma nova verso da teoria cronolgica; a noo de uma sucesso de possveis 'pontos de fixao', nos quais esse processo est sujeito 
a ser detido e aos quais uma regresso se pode realizar, se so encontradas dificuldades na vida posterior. Deveria demorar vrios anos, contudo, para que uma afirmao 
explcita fosse feita quanto  relao entre esta sucesso de pontos de fixao e a escolha da neurose. Ela se deu no artigo sobre os dois princpios do funcionamento 
mental (1911b) , em [1], e (com muito maior extenso) na anlise de Schreber, quase contempornea (1911c), a partir de [2], anteriores. (Parece provvel que este 
ltimo exame fosse o que Freud tinha em mente ao falar aqui (ver em [3]) de uma abordagem anterior ao problema.) Mas toda a questo  examinada em termos mais gerais 
no presente artigo.
         Isto nos conduz ao segundo tpico de importncia especial que ele examina - a saber, o tpico das 'organizaes' pr-genitais da libido. A noo  hoje 
to familiar que nos surpreendemos em saber que ela fez seu primeiro aparecimento aqui; mas toda a seo dos Trs Ensaios que dela trata (Ver em [1], 1972) foi, 
em verdade, acrescentada somente em 1915, dois anos aps este trabalho ter sido publicado. O conhecimento de haver instintos sexuais componentes no genitais remonta, 
naturalmente, h muito mais atrs. Ele  proeminente na primeira edio dos Trs Ensaios (1905d) e sugerido, nas cartas de Fliess, mais cedo ainda. (Ver, por exemplo, 
a Carta 75, de 14 de novembro de 1897.) O que  novo  a idia de haver, no desenvolvimento sexual, estdios regulares, nos quais um ou outro dos instintos componentes 
domina todo o quadro.
         Apenas um de tais estdios, o anal-sdico,  examinado no presente artigo. Freud, contudo, j distinguira dois estdios anteriores de desenvolvimento sexual; 
mas estes no eram caracterizados pelo predomnio de nenhum instinto componente determinado. O mais primitivo de todos, o do auto-erotismo, antes de qualquer escolha 
objetal ter sido feita, aparece na primeira edio dos Trs Ensaios (Ver em [1], 1972), mas j fora especificado na carta a Fliess, de 1899, anteriormente citada 
(p. 394). O estdio seguinte, o primeiro em que ocorre escolha de objeto, mas onde este  o prprio eu (self) da pessoa, fora apresentado por Freud, sob o nome de 
narcisismo, cerca de trs ou quatro anos antes do presente artigo (ver em [1]). Restavam a ser descritos dois outros estdios organizados no desenvolvimento da libido 
- um anterior e o outro posterior ao anal-sdico. O anterior, o estdio oral, mais uma vez demonstrou o predomnio de um instinto componente; ele foi primeiramente 
mencionado na seo da edio de 1915 dos Trs Ensaios a que j se aludiu (Ver em [1], 1972). O estdio posterior, no mais pr-genital, mas ainda no inteiramente 
genital no sentido adulto, o estdio 'flico', s apareceu em cena muitos anos depois, no artigo de Freud sobre 'A Organizao Geral Infantil da Libido' (1923e).
         Essa maneira, a ordem de publicao dos achados de Freud sobre as sucessivas organizaes prematuras do instinto sexual pode ser assim resumida: estdio 
auto-ertico, 1905 (j descrito em particular, em 1899); estdio narcsico, 1911 (em particular, 1909); estdio anal-sdico, 1913; estdio oral, 1915; estdio flico, 
1923.
         
         A DISPOSIO  NEUROSE OBSESSIVA
         UMA CONTRIBUIO AO PROBLEMA DA ESCOLHA DA NEUROSE
         
         O problema de saber por que e como uma pessoa pode ficar doente de uma neurose acha-se certamente entre aqueles aos quais a psicanlise deveria oferecer 
uma soluo, mas provavelmente ser preciso encontrar primeiro soluo para outro problema, mais restrito - a saber, por que  que esta ou aquela pessoa tem de cair 
enferma de uma neurose especfica e de nenhuma outra. Este  o problema da 'escolha da neurose'.
         O que sabemos, at o presente, sobre este problema? Estritamente falando, apenas uma nica proposio geral pode ser asseverada com certeza sobre o assunto. 
Lembrar-se- que dividimos os determinantes patognicos que esto envolvidos nas neuroses em aqueles que uma pessoa traz consigo, para a sua vida, e aqueles que 
a vida lhe traz - o constitucional e o acidental - mediante cuja operao combinada, somente, o determinante patognico  via de regra estabelecido. Alm disso, 
a proposio geral,  que aludi acima, estabelece que os motivos para determinar a escolha da neurose so inteiramente do primeiro tipo - isto , que eles tm carter 
de disposies e so independentes de experincias que operam patogenicamente.
         Onde devemos procurar a fonte destas disposies? Tornamo-nos cientes de que as funes psquicas envolvidas - sobretudo a funo sexual, mas tambm vrias 
importantes funes do ego - tm de passar por um longo e complicado desenvolvimento, antes de chegar ao estado caracterstico do adulto normal. Podemos presumir 
que estes desenvolvimentos no so sempre to serenamente realizados que a funo total atravesse esta modificao regular progressiva. Onde quer que uma parte dela 
se apegue a um estdio anterior resulta o que se chama 'ponto de fixao', para o qual a funo pode regredir se o indivduo ficar doente devido a alguma perturbao 
externa.
         
         Assim, nossas disposies so inibies de desenvolvimento. Somos corroborados nesta opinio pela analogia dos fatos da patologia geral de outras molstias. 
Entretanto, ante a questo de saber que fatores podem ocasionar tais distrbios de desenvolvimento, o trabalho da psicanlise se interrompe: ela deixa o problema 
para a pesquisa biolgica.
         J h alguns anos arriscamo-nos, com o auxlio destas hipteses, a abordar o problema da escolha da neurose. Nosso mtodo de trabalho, que visa a descobrir 
condies normais pelo estudo de suas perturbaes, levou-nos a adotar uma linha de ataque muito singular e inesperada. A ordem em que as principais formas de psiconeurose 
so geralmente enumeradas - Histeria, Neurose Obsessiva, Parania, Demncia Precoce - corresponde (ainda que no de modo inteiramente exato)  ordem das idades em 
que o desencadeamento destas perturbaes ocorre. Formas histricas de doena podem ser observadas mesmo na mais primitiva infncia; a neurose obsessiva geralmente 
apresenta seus primeiros sintomas no segundo perodo da infncia (entre as idades de seis e oito anos); enquanto as outras duas psiconeuroses, que reuni sob o ttulo 
de 'parafrenia', no aparecem seno depois da puberdade e durante a vida adulta. Estes distrbios - os ltimos a surgir - foram os primeiros a se mostrar acessveis 
a nossa indagao sobre as disposies que resultam na escolha da neurose. As caractersticas peculiares a ambos - megalomania, afastamento do mundo dos objetos, 
dificuldade aumentada na transferncia - obrigaram-nos a concluir que sua fixao disposicional deve ser procurada num estdio de desenvolvimento libidinal antes 
de a escolha objetal ter-se estabelecido - isto , na fase do auto-erotismo e do narcisismo. Assim, estas formas de molstia, que fazem seu aparecimento to tardiamente, 
remontam a inibies e fixaes muito primitivas.
         Isto, por conseguinte, nos levaria a supor que a disposio  histeria e  neurose obsessiva, as duas neuroses de transferncia propriamente ditas, que 
produzem seus sintomas bem cedo na vida, reside em fases posteriores de desenvolvimento libidinal. Mas em que ponto delas deveramos encontrar uma inibio desenvolvimental? 
E, acima de tudo, qual seria a diferena de fases que determinaria uma disposio para a neurose obsessiva, em contraste com a histeria? Por longo tempo, nada deveria 
se aprender sobre isto, e minhas primeiras tentativas de descobrir estas duas disposies - a noo, por exemplo, de que a histeria poderia ser determinada pela 
passividade e a neurose obsessiva pela atividade, na experincia infantil - teve de ser logo abandonada, por incorreta.
         Apoiar-me-ei agora, mais uma vez, na observao clnica de um caso individual. Durante longo perodo estudou uma paciente cuja neurose experimentou uma 
mudana fora do comum. Comeou, aps uma experincia traumtica, como uma histeria direta de ansiedade e manteve esse carter por alguns anos. Certo dia, contudo, 
subitamente, transformou-se numa neurose obsessiva do tipo mais grave. Um caso desta espcie no poderia deixar de ser significativo em mais de um sentido. Por um 
lado, poderia talvez reivindicar ser encarado como um documento bilingual e demonstrar como um contedo idntico pode ser expresso, pelas duas neuroses, em linguagens 
diferentes. Por outro lado, ameaava contradizer completamente nossa teoria de que a disposio origina-se da inibio do desenvolvimento, a menos que estivssemos 
preparados para aceitar a suposio de que uma pessoa poderia possuir congenitamente mais de um ponto fraco em seu desenvolvimento libidinal. Disse a mim mesmo que 
no tnhamos o direito de desprezar esta ltima possibilidade, mas achava-me grandemente interessado em chegar a uma compreenso do caso.
         Quando, no decurso da anlise, isto aconteceu, fui forado a ver que a situao era inteiramente diferente do que havia imaginado. A neurose obsessiva no 
constitua outra reao ao mesmo trauma que primeiramente provocara a histeria de ansiedade; era uma reao a uma segunda experincia, que havia apagado completamente 
a primeira. (Aqui, ento, temos uma exceo - embora,  verdade, uma exceo no indiscutvel -  nossa proposio que afirma que a escolha da neurose  independente 
da experincia [ver em [1]].)
         Infelizmente, acho-me incapacitado, por razes familiares, para ingressar na histria do caso at onde gostaria de faz-lo e tenho de restringir-me  descrio 
que se segue. At a ocasio em que caiu doente, a paciente fora uma esposa feliz e quase completamente satisfeita. Queria ter filhos, por motivos baseados numa fixao 
infantil de seus desejos, e adoeceu quando soube que era impossvel t-los do marido que era o nico objeto de seu amor. A histeria de ansiedade com que reagiu a 
esta frustrao correspondia, como ela prpria logo aprendeu a compreender, ao repdio de fantasias de seduo em que seu firmemente implantado desejo de um filho 
encontrava expresso. Ela ento fez tudo o que pde para impedir que o marido adivinhasse que cara enferma devido  frustrao de que era a causa. Mas tenho boas 
razes para asseverar que todos possuem, em seu prprio inconsciente, um instrumento com que podem interpretar as elocues do inconsciente das outras pessoas. O 
marido compreendeu, sem qualquer admisso ou explicao da parte dela, o que a ansiedade de sua esposa significava; sentiu-se magoado, sem demonstr-lo, e, por sua 
vez, reagiu neuroticamente, fracassando - pela primeira vez - nas relaes sexuais com ela. Imediatamente depois, partiu para uma viagem. A esposa acreditou que 
ele se havia tornado permanentemente impotente e produziu seus primeiros sintomas obsessivos no dia anterior ao seu esperado regresso.
         O contedo de sua neurose obsessiva era uma compulso por lavagem e limpeza escrupulosas, bem como medidas protetoras extremamente enrgicas contra danos 
graves que pensava que outras pessoas tinham razo para temer dela - isto , formaes reativas contra seus prprios impulsos anal-erticos e sdicos. Sua necessidade 
sexual foi obrigada a encontrar expresso nestas formas, aps sua vida genital ter perdido todo o valor devido  impotncia do nico homem que lhe poderia importar.
         Este  o ponto de partida do pequeno e novo fragmento da teoria que formulei. Naturalmente,  apenas na aparncia que ela se baseia nesta observao determinada; 
na realidade, rene grande nmero de impresses anteriores, embora uma compreenso delas s tenha sido possibilitada por esta ltima experincia. Disse a mim mesmo 
que meu quadro esquemtico do desenvolvimento da funo libidinal exigia uma insero suplementar. Para comear, havia apenas distinguido, primeira, a fase do auto-erotismo, 
durante a qual os instintos parciais do indivduo, cada um por sua conta, buscam a satisfao de seus desejos no prprio corpo, e, depois, a combinao de todos 
os instintos componentes para a escolha de um objeto, sob a primazia dos rgos genitais a agir em nome da reproduo. A anlise das parafrenias, como sabemos, tornou 
necessria a insero entre elas de um estdio de narcisismo, durante o qual a escolha de um objeto j se realizou, mas esse objeto coincide com o prprio ego do 
indivduo. E agora vemos a necessidade de outro estdio ainda ser inserido, antes que a forma final seja alcanada, um estdio no qual os instintos componentes j 
se reuniram para a escolha de um objeto e este objeto  j algo extrnseco, em contraste com o prprio eu (self) do sujeito, mas no qual a primazia das zonas genitais 
ainda no foi estabelecida. Pelo contrrio, os instintos componentes que dominam esta organizao pr-genital da vida sexual so anal-ertico e o sdico.
         Estou ciente de que tais hipteses soam estranhas a princpio.  somente descobrindo suas relaes com nosso conhecimento anterior que elas se nos tornam 
familiares; e, no final,  muitas vezes sua sina serem encarados como inovaes menores e h muito tempo previstas. Voltemos-nos, portanto, com previses como estas, 
para um exame da 'organizao sexual pr-genital'.
         (a) O papel extraordinrio desempenhado por impulsos de dio e erotismo anal na sintomatologia da neurose obsessiva j impressionou muitos observadores 
e foi recentemente enfatizado, com particular clareza, por Ernest Jones (1913). Isto decorre diretamente de nossa hiptese, se supomos que, nessa neurose, os instintos 
componentes em apreo mais uma vez assumiram a representao dos instintos genitais, dos quais foram precursores no processo de desenvolvimento.
         Neste ponto, ajunta-se uma parte de nossa histria clnica, que at agora havia escondido. A vida sexual da paciente comeou, em sua mais remota infncia, 
com fantasias de espancamento. Aps estas haverem sido suprimidas, estabeleceu-se um perodo de latncia inusitadamente longo, durante o qual passou por um perodo 
de crescimento moral exaltado, sem qualquer despertar das sensaes sexuais femininas. O casamento, que se realizou muito cedo, iniciou uma poca de atividade sexual 
normal. Este perodo, durante o qual ela foi uma esposa feliz, continuou por vrios anos, at que sua primeira grande frustrao provocou a neurose histrica. Quando 
isto foi seguido pela perda de valor de sua vida genital, a vida sexual, como j disse, retornou ao estdio infantil do sadismo.
         No  difcil determinar a caracterstica que distingue este caso de neurose obsessiva daqueles mais freqentes que comeam bem cedo e depois seguem um 
curso crnico, com exacerbaes de tipo mais ou menos marcante. Nestes outros casos, uma vez estabelecida a organizao sexual que contm a disposio  neurose 
obsessiva, ela, depois, nunca mais  completamente superada; em nosso caso, para comear, ela foi substituda pelo estdio mais alto de desenvolvimento e depois 
reativada, por regresso, a partir deste ltimo.
         (b) Se desejarmos colocar nossa hiptese em contato com linhas biolgicas de pensamento, no devemos esquecer que a anttese entre masculino e feminino, 
que  introduzida pela funo reprodutora, no pode ainda estar presente no estdio da escolha objetal pr-genital. Encontramos, em seu lugar, a anttese entre tendncias 
com objetivo ativo e com objetivo passivo, a qual, posteriormente, se torna firmemente ligada  existente entre os sexos. A atividade  suprida pelo instinto comum 
de domnio, que chamamos sadismo quando o encontramos a servio da funo sexual; e, mesmo na vida sexual normal plenamente desenvolvida, ele tem importantes servios 
subsidirios a desempenhar. A tendncia passiva  alimentada pelo erotismo anal, cuja zona ergena corresponde  antiga e indiferenciada cloaca. Uma acentuao deste 
erotismo anal no estdio pr-genital de organizao deixa atrs de si uma predisposio significante ao homossexualismo, nos homens, quando o estdio seguinte da 
funo sexual, a primazia dos rgos genitais,  atingido. A maneira pela qual esta ltima fase  erguida sobre a precedente e a concomitante remodelao das catexias 
libidinais oferecem  pesquisa analtica os mais interessantes problemas.
         Pode-se sustentar a opinio de que todas as dificuldades e complicaes envolvidas nisto podem ser evitadas negando-se que haja qualquer organizao pr-genital 
da vida sexual e sustentando que a vida sexual coincide com a funo genital e reprodutora e comea com ela. Afirma-se-ia ento, considerando as descobertas inequvocas 
da pesquisa analtica, que, pelo processo de represso sexual, as neuroses so compelidas a dar expresso a tendncias sexuais atravs de outros instintos, no sexuais, 
e assim sexualizam estes ltimos  guisa de compensao. Mas esta linha de argumento colocar-nos-ia fora da psicanlise. Colocar-nos- onde nos achvamos antes desta 
e significaria abandonar a compreenso que a psicanlise nos deu das relaes entre sade, perverso e neurose. A psicanlise sustenta-se ou tomba com o reconhecimento 
dos instintos componentes sexuais, das zonas ergenas e da ampliao, que assim se torna possvel, do conceito de 'funo sexual', em contraste com a 'funo genital', 
mais restrita. Alm disso, a observao dedesenvolvimento normal das crianas , em si prpria, suficiente para fazer-nos rejeitar qualquer tentao desse tipo.
         c) No campo do desenvolvimento do carter, estamos sujeitos a encontrar as mesmas foras instituais que encontramos em operao nas neuroses. Mas uma ntida 
distino terica entre as duas se faz necessria pelo nico fato de que o fracasso da represso e o retorno do reprimido - peculiares ao mecanismo da neurose - 
acham-se ausentes na formao do carter. Nesta, a represso no entra em ao ou ento alcana sem dificuldades reativas e sublimaes. Da os processos da formao 
de carter serem mais obscuros e menos acessveis  anlise que os neurticos.
         Mas  precisamente no campo do desenvolvimento do carter que deparamos com uma boa analogia com o caso que estivemos descrevendo - isto , uma confirmao 
da ocorrncia da organizao sexual pr-genital sdica e anal-ertica.  fato bem conhecido, e que tem dado muito motivo para queixas, que aps as mulheres perderem 
a funo genital seu carter, amide, sofre uma alterao peculiar. Tornam-se briguentas, irritantes, despticas, mesquinhas e sovinas, o que equivale a dizer que 
apresentam tipicamente traos sdicos e anal-erticos que no possuam antes, durante seu perodo de feminilidade. Os autores de comdias e os satiristas em todas 
as pocas dirigiram suas invectivas contra o 'velho drago' no qual a moa encantadora, a esposa amante e a terna me se transformaram. Podemos ver que esta alterao 
de carter corresponde a uma regresso da vida sexual ao estdio pr-genital sdico e anal-ertico, na qual descobrimos a disposio  neurose obsessiva. Ela parece 
ser, ento, no apenas o precursor da fase genital, mas, bastante amide, tambm seu sucessor, seu trmino, aps os rgos genitais haverem desempenhado sua funo.
         Uma comparao entre tal mudana de carter e a neurose obsessiva  muito impressionante. Em ambos os casos, o trabalho da regresso  aparente. Mas enquanto 
na primeira encontramos uma regresso completa a seguir a represso (ou supresso) que ocorreu suavemente, na neurose h conflito, um esforo para impedir que a 
regresso ocorra, formaes reativas contra ela e formaes de sintomas produzidos por conciliaes entre os dois lados opostos, assim como uma diviso (splitting) 
das atividades psquicas em algumas que so admissveis  conscincia e outras que so inconscientes.
         (d) Nossa hiptese de uma organizao sexual pr-genital  incompleta sob dois aspectos. Em primeiro lugar, no leva em considerao o comportamento de 
outros instintos componentes, com referncia aos quais h muita coisa que valeria o exame e a discusso, e contenta-se com acentuar a marcante primazia do sadismo 
e do erotismo anal. Em particular, ficamos sempre com a impresso de que o instinto do conhecimento pode realmente tomar o lugar do sadismo no mecanismo da neurose 
obsessiva. Na verdade, ele , no fundo, uma ramificao sublimada do instinto de domnio, exaltado em algo intelectual, e seu repdio sob a forma de dvida desempenha 
grande papel no quadro da neurose obsessiva.
         A segunda lacuna em nossa hiptese  muito mais importante. Como sabemos, a disposio desenvolvimental a uma neurose s  completa se a fase do desenvolvimento 
do ego em que a fixao ocorre  levada em considerao, assim como a da libido. Mas nossa hiptese s se relacionou com a ltima, e, portanto, no inclui todo o 
conhecimento que deveramos exigir. Os estdios de desenvolvimento dos instintos do ego so-nos presentemente muito pouco conhecidos; s sei de uma tentativa - a 
altamente promissora, feita por Ferenczi (1913) - de abordar estas questes. No posso dizer se pode parecer muito precipitado se, com base nas indicaes que possumos, 
sugiro a possibilidade que uma ultrapassagem cronolgica do desenvolvimento libidinal pelo desenvolvimento do ego deve ser includa na disposio  neurose obsessiva. 
Uma precocidade deste tipo tornaria necessria a escolha de um objeto sob a influncia dos instintos do ego, numa poca em que os instintos sexuais ainda no assumiram 
sua forma final, e uma fixao no estdio da organizao sexual pr-genital seria assim abandonada. Se considerarmos que os neurticos obsessivos tm de desenvolver 
uma supermoralidade a fim de proteger seu amor objetal da hostilidade que espreita por trs dele, ficaremos incl que, na ordem deinados a considerar um certo grau 
desta precocidade de desenvolvimento do ego como tpico da natureza humana e derivar a condio para a origem da moralidade do fato de desenvolvimento, o dio  
o precursor do amor.  este talvez o significado de uma assertiva da autoria de Stekel (1911a, 536), que na ocasio achei incompreensvel de que o dio, e no o 
amor,  a relao emocional primria entre os homens.
         (e) Decorre, do que foi dito, que resta para a histeria uma relao ntima com a fase final do desenvolvimento libidinal, que se caracteriza pela primazia 
dos rgos genitais e pela introduo da funo reprodutora. Na neurose histrica, esta aquisio acha-se sujeita  represso, que no implica regresso ao estdio 
pr-genital. A lacuna na determinao da disposio, devida  nossa ignorncia do desenvolvimento do ego,  ainda mais evidente aqui do que na neurose obsessiva.
         Por outro lado, no  difcil demonstrar que uma outra regresso, a um nvel mais primitivo, ocorre tambm na histeria. A sexualidade das crianas do sexo 
feminino , como sabemos, dominada e dirigida por um rgo masculino (o clitris) e amide se comporta como a sexualidade dos meninos. Esta sexualidade masculina 
tem de ser abandonada mediante uma ltima onda de desenvolvimento, na puberdade, e a vagina, rgo derivado da cloaca, tem de ser elevada  zona ergena dominante. 
Ora,  muito comum na neurose histrica que esta sexualidade masculina reprimida seja reativada e, ento, que a luta defensiva por parte dos instintos egossintnicos 
seja dirigida contra ela. Mas parece-me cedo demais para ingressar aqui num debate dos problemas da disposio  histeria.
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
INTRODUO A THE PSYCHO-ANALYTIC METHOD, DE PFISTER (1913)
         
         
         NOTA DO EDITOR INGLS
         
         (a) EDIES ALEMS:
         1913 Em O. Pfister, Die psychanalytische [sic] Methode (Vol. 1 de Pdagogium), iv-v, Leipzig e Berlim, Klinkhardt. (1921, 2 ed.; 1924, 3 ed.)
         1928 G. S., 11, 244-6.
         1931 Neurosenlehre und Technik, 315-18.
         1946 G. W., 10, 448-50.
         
         (b) TRADUO INGLESA:
         Introduction to Pfister's The Psychoanalytic Method 
         1917 Em Pfister, The Psychoanalytic Method, v-viii, Nova Iorque: Moffat, Yard; Londres: Kegan Paul. (Trad. de C. R. Payne.)
         
         A presente traduo inglesa  nova, da autoria de James Strachey.
         
         O Dr. Oskar Pfister, pastor religioso e educador de Zurique, autor da obra da qual este trabalho constitui introduo, foi por trinta anos amigo ntimo 
de Freud e inabalvel partidrio de suas teorias. Foi ele um dos primeirssimos leigos a praticar a psicanlise e a parte posterior da introduo de Freud  talvez 
o seu primeiro apelo publicado em favor do reconhecimento dos analistas no mdicos. Ele desenvolveu seus argumentos com muito maior amplitude, cerca de vinte anos 
mais tarde, em The Question of Lay Analysis (1926e).
         A data ao final da introduo (que aqui aparece por acordo com os Srs. Routledge e Kegan Paul)  omitida nas reimpresses alems.
         
         INTRODUO A THE PSYCHO-ANALYTIC METHOD, DE PFISTER
         
         A psicanlise teve sua origem em terreno mdico, como um procedimento teraputico para o tratamento de certas doenas nervosas que foram denominadas de 
'funcionais' e consideradas, com crescente certeza, como conseqncias de distrbios na vida emocional. Ela alcana seu fim - de remover as manifestaes destes 
distrbios, os sintomas - ao presumir que eles no so o nico e possvel resultado final de processos psquicos especficos. Revela, portanto, a histria do desenvolvimento 
desses sintomas na memria do paciente, revivifica os processos que os fundamentam e ento os conduz, sob a orientao do mdico, a um escoadouro mais favorvel. 
A psicanlise estabeleceu para si os mesmos objetivos teraputicos que o tratamento pelo hipnotismo, que foi introduzido por Libeault e Bernheim e aps demoradas 
e severas lutas alcanou lugar na tcnica dos neuro-especialistas. Mas ela vai muito mais fundo na estrutura do mecanismo da mente e procura ocasionar resultados 
duradouros e modificaes viveis em seus assuntos.
         Em sua poca, o tratamento hipntico por sugesto muito cedo ultrapassou a esfera da aplicao mdica e ps-se ao servio da educao de jovens. Se devemos 
acreditar nos relatrios, ele mostrou ser um meio eficiente para pr fim a defeitos pueris, hbitos fsicos inconvenientes e traos de carter doutra maneira irredutveis. 
Ningum nessa poca deixou de concordar ou surpreendeu-se com a ampliao de seus empregos, que, incidentalmente, s se tornaram plenamente compreensveis mediante 
as pesquisas da psicanlise. Pois sabemos hoje que os sintomas patolgicos amide nada mais so que substitutos de inclinaes ms (isto , inteis) e que os determinantes 
desses sintomas so estabelecidos nos anos de infncia e juventude - durante o mesmo perodo em que os seres humanos so objeto da educao - quer as prprias doenas 
surjam j na juventude quer somente em poca posterior da vida.
         A educao e a teraputica acham-se em relao atribuvel, uma com a outra. A educao procura garantir que algumas das disposies [inatas] da criana 
no causem qualquer prejuzo ao indivduo ou  sociedade. A teraputica entra em ao se essas mesmas disposies j conduziram ao resultado no desejado dos sintomas 
patolgicos. O desfecho alternativo - das disposies inteis da criana, conduzindo, no a substitutos sob a forma de sintomas, mas a perverses diretas de carter 
-  quase inacessvel  teraputica e, geralmente, fora da influncia do educador. A educao constitui uma profilaxia, que se destina a prevenir ambos os resultados 
- tanto a neurose quanto a perverso; a psicoterapia procura desfazer o menos estvel dos dois resultados a instituir uma espcie de ps-educao.
         Em vista desta situao, surge imediatamente a questo de saber se a psicanlise no deveria ser utilizada para fins educativos, tal como a sugesto hipntica 
o foi no passado. As vantagens seriam bvias. O educador, por um lado, estaria preparado, por seu conhecimento das disposies humanas gerais da infncia, para julgar 
quais dessas disposies ameaam conduzir a um desfecho indesejvel; e, se a psicanlise pode influenciar o curso tomado por tais desenvolvimentos, poderia aplic-la 
antes que os sinais de um desenvolvimento desfavorvel se estabeleam. Assim, com o auxlio da anlise, ele poderia ter uma influncia profiltica na criana, enquanto 
esta ainda  sadia. Por outro lado, poderia detectar as primeiras indicaes de um desenvolvimento, na direo da neurose e resguardar a criana contra o seu desenvolvimento 
ulterior, numa poca em que, por diversas razes, uma criana nunca  levada ao mdico. No se pode deixar de pensar que uma atividade psicanaltica como esta por 
parte do educador - e do assistente pastoral em posio semelhante, nos pases protestantes - inevitavelmente seria de inestimvel valor e com freqncia poderia 
tornar desnecessria a interveno do mdico.
         A nica questo  saber se a prtica da psicanlise pode no ter como pr-requisito um treinamento mdico, do qual o educador e o assistente pastoral devem 
permanecer excludos, ou se pode haver outras consideraes que se oponham  sugesto de que a tcnica da psicanlise no seja confiada a outra mo que no a de 
um mdico. Confesso que no posso encontrar fundamento para reservas desse tipo. A prtica da psicanlise exige muito menos treinamento mdico que instruo psicolgica 
e concepo humana livre. A maioria dos mdicos no se acha preparada para exercer a psicanlise e fracassou completamente em apreender o valor desse procedimento 
teraputico. O educador e o assistente pastoral esto sujeitos, pelos requisitos de sua profisso, a exercer a mesma considerao, cuidado e limitao que so geralmente 
praticados pelo mdico, e,  parte isso, sua associao com jovens talvez os torne mais bem qualificados para compreender a vida mental desses jovens. Em ambos os 
casos, porm, a nica garantia da aplicao incua do procedimento analtico tem de depender da personalidade do analista.
         Onde um caso margina a anormalidade mental, o educador analtico estar obrigado a familiarizar-se com o conhecimento psiquitrico mais necessrio e, alm 
disso, a consultar um mdico quando o diagnstico e a prognose do distrbio parecem duvidosos. Em muitos casos s ser possvel alcanar sucesso se houver colaborao 
entre o educador e o mdico.
         Sob determinado aspecto isolado, a responsabilidade de um educador pode talvez exceder a de um mdico. Este tem como regra lidar com estruturas psquicas 
que j se tornaram rgidas e encontrar na individualidade estabelecida do paciente um limite ao seu prprio xito, mas, ao mesmo tempo, uma garantia da capacidade 
do paciente de resistir sozinho. O educador, contudo, trabalha com um material que  plstico e aberto a toda impresso, e tem de observar perante si mesmo a obrigao 
de no moldar a jovem mente de acordo com suas prprias idias pessoais, mas, antes, segundo as disposies e possibilidades do educando.
         Esperemos que a aplicao da psicanlise a servio da educao rapidamente realizar as esperanas que educadores e mdicos podem corretamente ligar a ela. 
Um livro como este de Pfister, que procura familiarizar os educadores com anlise, poder ento contar com a gratido das geraes posteriores.
         VIENA, fevereiro de 1913.
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
PREFCIO A SCATALOGIC RITES OF ALL NATIONS, DE BOURKE (1913)
         
         
         NOTA DO EDITOR INGLS
         
         (a) EDIES ALEMS:
         1913 Em J. G. Bourke, Der Unrat in Sitte, Brauch, Glauben und Gewohnheitsrecht der Vlker, traduzido para o alemo por F. S. Krauss e H. Ihm, Leipzig, Ethnologischer 
Verlag.
         1928 G. S., 11, 249-51.
         1931 Sexualtheorie und Traumlehre, 242-5.
         1946 G. W., 10, 453-5.
         
         (b) TRADUES INGLESAS:
         Preface to Bourke's Scatalogic [sic] Rites of All Nations.
         1934 Em J. G. Bourke, Scatalogic Rites of All Nations (Nova Edio), vii-ix, Nova Iorque, American Anthropological Society.
         1950 C. P., 5, 88-91. (Sob o ttulo 'The Excretory Functions in Psycho-Analysis and Folklore') (Trad. de J. Strachey.)
         
         A presente traduo inglesa  a publicada em 1950, ligeiramente revista.
         
         O trabalho da autoria do Capito John Gregory Bourke (Terceira Cavalaria, E. U. A.), a cuja traduo Freud contribuiu com este prefcio, foi originalmente 
publicado em 1891 (Washington: Lowdermilk), com as palavras 'No  para Leitura Geral' na pgina de rosto. A ateno de Freud foi atrada para o livro (sem dvida 
pelo Dr. Ernest Jones) no comeo de 1912 e parece provvel que a traduo alem tenha sido feita por sua recomendao. Ela apareceu como um dos volumes suplementares 
lanados anualmente pela revista Anthropophyteia, que era editada por um dos tradutores, F. S. Krauss. Freud mostrara seu interesse na revista dois ou trs anos 
antes, numa carta aberta ao seu editor (1910f). Grande parte do material citado no artigo de Freud e Oppenheim sobre 'Os Sonhos no Folclore' (1957a [1911], em [1], 
anteriores) derivou da Anthropophyteia e trata dos tpicos examinados neste prefcio.
         
         PREFCIO A SCATALOGIC RITES OF ALL NATIONS, DE BOURKE
         
         Enquanto vivia em Paris, em 1885, como aluno de Charcot, o que principalmente me atraa,  parte as prprias conferncias do grande homem, eram as demonstraes 
e prelees dadas por Brouardel. Ele nos costumava mostrar, de material post-mortem no necrotrio, quanto havia que merecia ser conhecido por mdicos, mas de que 
a cincia preferia no fazer caso. Certa ocasio, ele estava discutindo as indicaes que permitiam imaginar a categoria social, o carter e a origem de um corpo 
no identificado, e ouvi-o dizer: 'Les genoux sales sont le signe d'une file honnte'. Utilizava os joelhos sujos de uma moa como prova de sua virtude!
         A lio de que a limpeza corporal  muito mais prontamente associada ao vcio que  virtude amide me ocorreu posteriormente, quando o trabalho psicanaltico 
me familiarizou com a maneira pela qual os homens civilizados lidam hoje com o problema de sua natureza fsica. Ficam claramente embaraados com qualquer coisa que 
os faa lembrar demasiadamente sua origem animal. Tentam emular os 'anjos mais aperfeioados' da ltima cena de Fausto, que se queixam:
         Uns bleibt ein Erdenrest
         zu tragen peinlich,
         und wr'er von Asbest,
         es ist nicht reinlich.
         Entretanto, desde que devem necessariamente permanecer muito afastados de tal perfeio, os homens decidiram fugir ao dilema, negando, tanto quanto possvel, 
a prpria existncia deste inconveniente 'resduo da Terra', ocultando-o mutuamente e negando-lhe a ateno e o cuidado que poderia reivindicar como componente integrante 
de seu ser essencial. O caminho mais sbio indubitavelmente teria sido admitir sua existncia e dignific-lo tanto quanto sua natureza permitisse.
         Est longe de ser matria simples examinar ou descrever as conseqncias envolvidas nesta maneira de tratar o 'penoso resduo da Terra', do que as funes 
sexuais e excretrias podem ser consideradas o ncleo. Bastar mencionar uma s destas conseqncias, aquela em que nos achamos mais interessados aqui: o fato de 
a cincia ser proibida de lidar com estes aspectos proscritos da vida humana, de maneira que quem quer que estude tais coisas  encarado como pouco menos 'imprprio' 
do que algum que realmente faz coisa imprprias.
         No obstante, a psicanlise e o folclore no se deixaram impedir de transgredir essas proibies e, em resultado, puderam ensinar-nos todo tipo de coisas 
que so indispensveis a uma compreenso da natureza humana. Se nos limitarmos aqui ao que foi aprendido sobre as funes excretrias, pode-se dizer que o principal 
achado da pesquisa psicanaltica foi o fato de que o beb humano  obrigado a recapitular, durante a primeira parte de seu desenvolvimento, as mudanas na atitude 
da raa humana para com matrias excrementcias que provavelmente tiveram seu incio quando o homo sapiens pela primeira vez ergueu-se da Me Terra. Nos primeiros 
anos da infncia, no existe ainda nenhum resduo de vergonha sobre as funes excretrias ou de nojo pelas excrees. As crianas pequenas mostram grande interesse 
nestas, tal como em outras de suas secrees corporais; gostam de ocupar-se com elas e podem derivar muitos tipos de prazer deste procedimento. As excrees, encaradas 
como partes do prprio corpo da criana e produtos de seu prprio organismo, tm uma cota na estima - a estima narcsica, como deveramos cham-la - com que encara 
tudo que se relaciona ao seu eu (self). As crianas, em verdade, orgulham-se de suas prprias excrees e fazem uso delas para ajudar a fazer valer seus direitos 
contra os adultos. Sob a influncia da criao, os instintos e inclinaes coprfilas da criana sucumbem gradativamente  represso; ela aprende a mant-los secretos, 
a envergonhar-se deles e a sentir nojo pelos seus objetos. Estritamente falando, contudo, o nojo nunca chega ao ponto de aplicar-se s prprias excrees da criana, 
mas contenta-se em repudi-los quando so produtos de outras pessoas. O interesse que at aqui se ligara ao excremento  transferido para outros objetos - por exemplo, 
das fezes para o dinheiro, que, naturalmente, demora a adquirir significao para as crianas. Importantes constituintes da formao do carter se desenvolvem ou 
fortalecem a partir da represso das inclinaes coprfilas.
         A psicanlise mostra ainda que, para comear, os intintos excrementais e sexuais no so distintos uns dos outros, nas crianas. O divrcio entre eles s 
ocorre mais tarde e permanece incompleto. Sua afinidade original, estabelecida pela anatomia do corpo humano, ainda se faz sentir de muitas maneiras em adultos normais. 
Finalmente, no se deve esquecer que no se pode esperar que estes desenvolvimentos produzam resultados mais perfeitos que quaisquer outros. Parte das antigas preferncias 
persiste, parte das inclinaes coprfilas continua a operar na vida posterior e se expressa nas neuroses, perverses e maus hbitos dos adultos.
         O folclore adotou um mtodo inteiramente diferente de pesquisa e, mesmo assim, chegou aos mesmos resultados que a psicanlise. Ele nos mostra quo incompletamente 
a representao das inclinaes coprfilas foi efetuada entre diversos povos, em vrias pocas, e quo de perto, em outros nveis culturais, o tratamento das substncias 
excretrias se aproxima do usado pelas crianas. Demonstra tambm a natureza persistente e em verdade inerradicvel dos interesses coprfilos, apresentando a nosso 
olhar espantado a multiplicidade de aplicaes - no ritual mgico, nos costumes tribais, nas observncias dos cultos religiosos e na arte de curar - mediante as 
quais a velha estima pelas excrees humanas encontrou nova expresso. Tambm a vinculao com a vida sexual parece ser integralmente preservada.
         Esta expanso de nosso conhecimento certamente no envolve risco para nossa moralidade. A parte principal do que se conhece sobre o papel desempenhado pelas 
excrees na vida humana foi reunida em Ritos Escatolgicos de Todas as Naes, de J. G. Bourke. Torn-la acessvel aos leitores alemes , portanto, no apenas 
um empreendimento corajoso, mas tambm meritrio.
         
         
         













BREVES ESCRITOS (1911-1913)
         
         
         A SIGNIFICAO DAS SEQNCIAS DE VOGAIS (1911)
         
         Indubitavelmente, objees foram amide levantadas  assero feita por Stekel de que, em sonhos e associaes, nomes que tm de ser encobertos parecem 
ser substitudos por outros que se lhes assemelham apenas por conterem a mesma seqncia de vogais. Uma analogia notvel, contudo,  proporcionada pela histria 
da religio. Entre os antigos hebreus, o nome de Deus era tabu; no podia ser falado em voz alta, nem registrado por escrito. (Isto est longe de ser um exemplo 
isolado da significao especial dos nomes nas civilizaes arcaicas.) Esta proibio foi to implicitamente obedecida que, at o dia de hoje, a vocalizao das 
quatro consoantes do nome de Deus [Y H V H] permanece desconhecida. Ele era, contudo, pronunciado 'Jehovah', sendo suprido pelas vogais da palavra 'Adonai' ('Senhor'), 
contra a qual no havia tal proibio. (Reinach, 1905-12, 1 1.)
         
         'GRANDE  DIANA DOS EFSIOS'(1911)
         
         A antiga cidade grega de feso na sia Menor, pela explorao de cujas runas, incidentalmente, tem-se de agradecer  nossa arqueologia austraca, era especialmente 
clebre na antigidade por seu esplndido templo, dedicado a Artmis (Diana). Os invasores jnicos - talvez no sculo VII antes de Cristo - conquistaram a cidade, 
que por muito tempo fora habitada por povos de raa asitica, e encontraram nela o culto de uma antiga deusa-me que possivelmente portava o nome de Oupis, e identificaram-na 
com Artmis, deidade de sua terra natal. A prova das escavaes mostra que, no decurso dos sculos, diversos templos foram erguidos no mesmo local em honra da deusa. 
Foi o quarto destes templos que foi destrudo por um incndio iniciado pelo louco Herstrato, no ano de 356, durante a noite em que Alexandre, o Grande, nasceu. 
Ele foi reconstrudo, mais magnfico que nunca. Com a afluncia de sacerdotes, mgicos e peregrinos, e com suas lojas em que amuletos, lembranas e oferendas eram 
vendidas, a metrpole comercial de feso poderia ser comparada  moderna Lourdes.
         Por volta de 54 A. D., o apstolo Paulo passou diversos anos em feso. Pregou, realizou milagres e encontrou muitos seguidores entre o povo. Foi perseguido 
e acusado pelos judeus; separou-se deles e fundou uma comunidade crist independente. Em conseqncia da disseminao de sua doutrina, houve uma queda no comrcio 
dos ourives, que costumavam fazer lembranas do lugar sagrado - figurinhas de Artmis e modelos do templo - para os fiis e peregrinos que chegavam de todo o mundo. 
Paulo era um judeu estrito demais para deixar a antiga deidade sobreviver sob outro nome; rebatizou-a, como os conquistadores jnicos haviam feito com a deusa Oupis. 
Foi assim que os piedosos artesos e artistas da cidade tornaram-se apreensivos quanto a sua deusa, bem como quanto a seus ganhos. Revoltaram-se e, com gritos infindavelmente 
repetidos, de 'Grande  Diana dos Efsios!', afluram pela rua principal, chamada 'Arcdia', at o teatro, onde seu lder, Demtrio, pronunciou discurso incendirio 
contra os judeus e contra Paulo. As autoridades tiveram dificuldade em reprimir o tumulto, o que conseguiram pela garantia de que a majestade da deusa era inatingvel 
e achava-se fora do alcance de qualquer ataque.
         A igreja fundada por Paulo em feso no lhe permaneceu fiel muito tempo. Caiu sob a influncia de um homem chamado Joo, cuja personalidade apresentou aos 
crticos alguns difceis problemas. Ele pode ter sido o autor do Apocalipse, que abunda em invectivas contra o apstolo Paulo. A tradio o identifica com o apstolo 
Joo, a quem o quarto evangelho  atribudo. Segundo este evangelho, quando Jesus achava-se na cruz, exclamou para seu discpulo favorito, apontando para Maria; 
'Eis tua me!' E, a partir daquele momento, Joo dedicou-se a Maria. Desse modo, quando Joo foi para feso, Maria o acompanhou, e, por conseguinte, ao lado da igreja 
do apstolo de feso, foi construda a primeira baslica em honra da nova deusa-me dos cristos. Sua existncia  confirmada a partir do sculo IV. Agora, mais 
uma vez, a cidade tinha sua grande deusa e, fora o nome, pouca modificao houve. Tambm os ourives recuperaram o trabalho de fazer modelos do templo e imagens da 
deusa para os novos peregrinos. A funo de Artmis, contudo, expressa pelo atributo de ???????????, foi transmitida a um Santo Artemidoro, que assumiu a proteo 
das mulheres em trabalho de parto.
         Depois veio a conquista pelo Isl, e finalmente, sua runa e abandono, devido ao rio sobre o qual ficava haver-se tornado entulhado de areia. Mas, mesmo 
ento, a grande deusa de feso no abandonou suas reivindicaes. Em nossos prprios dias, ela apareceu como uma virgem santa a uma piedosa menina alem, Katharina 
Emmerich, em Dlmen. Descreveu a esta sua viagem a feso, os mveis da casa em que l vivera e na qual morrera, o formato de seu leito, e assim por diante. E tanto 
a casa quanto o leito foram de fato encontrados, exatamente como a virgem os descrevera, e so mais uma vez a meta das peregrinaes dos fiis.
         
         PREFCIO A OS DISTRBIOS PSQUICOS DA POTNCIA MASCULINA, 
         DE MAXIM STEINER (1913)
         
         O autor desta pequena monografia, que trata da patologia e tratamento da impotncia psquica em indivduos do sexo masculino, faz parte do pequeno grupo 
de mdicos que cedo reconheceram a importncia da psicanlise para o seu ramo especial da medicina e nunca deixaram de aperfeioar-se em sua teoria e tcnica. Estamos 
cientes de que apenas uma pequena parte dos males neurticos - que agora viemos a conhecer como resultado de distrbios da funo sexual -  tratada na prpria neuropatologia. 
O maior nmero delas encontra lugar entre os distrbios do rgo especfico que  vtima de uma perturbao neurtica. , portanto, conveniente e prprio que o tratamento 
desses sintomas ou sndromes seja tambm assunto do especialista, que, somente ele,  capaz de efetuar um diagnstico diferencial entre uma doena orgnica e uma 
neurtica, que pode fixar o limite, no caso das formas mistas, entre seus elementos orgnicos e neurticos, e que em geral nos pode dar informaes sobre a maneira 
pela qual os dois fatores da doena reforam-se mutuamente. Mas se as molstias orgnicas 'nervosas' no devem ser negligenciadas, como meros apndices dos distrbios 
materiais do mesmo rgo - negligncia esta que, por sua freqncia e importncia prtica, esto longe de merecer -, o especialista, quer esteja interessado no estmago, 
no corao ou no sistema urogenital, deve, alm de seu saber mdico geral e de seus conhecimentos especializados, ser tambm capaz de fazer uso, para seu prprio 
campo de trabalho, das linhas de abordagem, descobertas e tcnicas do especialista de nervos.
         Um grande progresso teraputico ser feito quando os especialistas no mais dispensarem um paciente que sofra de um mal nervoso com um pronunciamento como 
'Voc no tem nada; so s nervos', ou com o conselho muito melhor: 'V a um especialista de nervos; ele lhe ordenar um tipo leve de tratamento de gua fria'. Indubitavelmente, 
tambm exigiremos do especialista em qualquer rgo que seja capaz de compreender e tratar distrbios nervosos em seu campo, em vez de esperar que o especialista 
de nervos seja treinado para ser um especialista universal em todos os rgos em que as neuroses produzem sintomas, E, por conseguinte, pode-se prever que somente 
as neuroses com sintomas principalmente psquicos permanecero na esfera do especialista em nervos.
         Podemos esperar, portanto, que no esteja longe o dia em que se reconhecer em geral que nenhuma espcie de perturbao nervosa pode ser compreendida e 
tratada sem o auxlio da linha de abordagem e, freqentemente, da tcnica da psicanlise. Uma assero assim pode soar hoje como demonstrao de exagero presunoso, 
mas aventuro-me a profetizar que est destinada a tornar-se um lugar comum. Todavia, ser sempre creditado ao autor da presente obra no ter esperado que isto acontecesse 
para admitir a psicanlise como tratamento dos males nervosos dentro de seu prprio e especializado ramo da medicina.
         VIENA, maro de 1913.
         
         
         
         
         
         
         
         















        



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 O caso Schereber, artigos sobre tcnica e outros trabalhos -  Sigmund Freud
